Inteligência e razão
ZUBIRI, Xavier. Inteligencia y razón. Madrid: Alianza Editorial; Sociedad de Estudios y Publicaciones, 1983.
1. Introdução
1. Inteligir é mera atualização do real em inteligência senciente, sendo a realidade uma formalidade do impressivamente apreendido, isto é, uma formalidade dada em impressão de realidade, de modo que o que nela se intelige é que o apreendido é real.
2. A impressão de realidade é transcendentalmente aberta, pois a realidade é aberta em si mesma enquanto realidade, e em virtude disso todo o real o é respectivamente.
3. A realidade está impressivamente aberta, antes de tudo, à própria realidade da coisa, pois cada coisa real é sua realidade, e quando se apreende algo real somente enquanto é sua realidade essa apreensão intelectiva é apreensão primordial do real, chamando-se simplesmente “real”, para não carregar a expressão, essa “sua realidade”.
4. O real está, além disso, impressivamente aberto à realidade de outras coisas reais sentidas na mesma impressão de realidade, sendo cada coisa real sentida com respeito a outras coisas reais também sentidas, ou ao menos sentíveis, e a intelecção senciente de algumas coisas reais sentidas entre outras sentidas é o logos, intelecção do que é em realidade o real já apreendido como real em apreensão primordial, pois inteligir que algo é real não é o mesmo que inteligir o que esse real é em realidade.
5. A impressão de realidade está transcendentalmente aberta não somente a cada coisa real e às outras coisas reais sentidas na mesma impressão, mas a qualquer outra realidade, sentida ou não, sendo também impressão de pura e simples realidade.
- Na impressão de realidade apreende-se não somente que esta cor é real, que esta cor é sua realidade, nem só o que esta cor é em realidade com respeito, por exemplo, a outras cores ou qualidades, a saber, que em realidade é vermelha.
- Apreende-se também que esta cor vermelha é real com respeito à pura e simples realidade, como, por exemplo, que é fóton ou onda eletromagnética.
- Apreende-se, assim, em impressão que a coisa é real, o que essa coisa real é em realidade e também que ela é pura e simplesmente real na realidade.
- Inteligir o que algo é em realidade não é o mesmo que inteligir o que algo é na realidade, tanto que o que algo é na realidade pode não se parecer com o que esse algo é em realidade na impressão.
- Eis o terceiro modo de intelecção, a intelecção do que a coisa é na realidade, intelecção que é mais que logos: é razão.
6. A razão apoia-se na apreensão primordial e em todas as intelecções afirmativas que o logos inteligiu sencientemente, o que poderia fazer pensar que ela é uma combinação de afirmações, um raciocínio, mas nada está mais distante da verdade, pois razão não é raciocínio e a diferença entre logos e razão é essencial.
- Ambos são certamente um movimento desde a coisa real, mas no logos trata-se de um movimento desde uma coisa real para outra, enquanto na razão trata-se de um movimento desde uma coisa real para a pura e simples realidade, sendo, portanto, dois movimentos essencialmente diferentes.
- Esse movimento da razão chama-se marcha, uma marcha desde uma coisa real para a pura e simples realidade.
- Toda marcha é movimento, mas nem todo movimento é marcha.
7. Essa marcha não é um processo, mas um movimento estrutural do inteligir, não sendo uma espécie de “pôr em marcha” nem uma marcha para uma intelecção do real enquanto tal, pois ninguém “se põe” a inteligir a realidade com a razão.
- Não é um momento estrutural do inteligir enquanto tal, isto é, da intelecção formalmente considerada, pois nem a apreensão primordial nem o logos são marchas, apesar de serem intelecções.
- Isso não significa que a marcha seja um aditamento a essas estruturas prévias, como se fosse um “uso”, arbitrário ou necessário, da intelecção, mas que é justamente uma modalização da intelecção, de caráter estrutural, determinada na inteligência pela própria impressão de realidade.
- Essa determinação modal apoia-se estruturalmente nas duas modalidades da pura apreensão primordial e do logos, pois só supostos esses dois momentos intelectivos, o ter inteligido impressivamente que algo é real e o que esse real é em realidade, fica determinado o momento de marcha intelectiva na realidade que é a razão.
- O inteligir, por sua própria índole estrutural, tem necessariamente de marchar, ou melhor, já está marchando, já está sendo razão, pela estrutura mesma da impressão de realidade dada em apreensão primordial e em logos.
8. Esse momento estrutural apresenta dois grupos de problemas, os concernentes à índole mesma da marcha da razão enquanto tal e os concernentes à estrutura formal desse novo modo de intelecção, que é o conhecer, examinados em duas seções.
- Seção I: A marcha mesma do inteligir.
- Seção II: A estrutura formal desta intelecção segundo a razão: a estrutura formal do conhecer.
