Sobre a essência
ZUBIRI, Xavier. Sobre la esencia. Madrid: Alianza Editorial, 1985
Introdução
1. Essência é o título de um dos temas centrais de toda metafísica, e, embora a palavra latina essentia seja o homólogo morfológico exato do grego οὐσία, esta não significava essência, mas substância, pertencendo a essência antes ao que Aristóteles chamou τὸ τί ἦν εἶναι, de modo que, para ele, a realidade é radicalmente substância e a essência é sempre e somente essência da substância.
- O vocábulo latino essentia é um termo erudito, abstrato de um suposto particípio presente essens (essente) do verbo esse (ser), assim como οὐσία é, ou ao menos era percebida pelos gregos como, abstrato do particípio presente feminino οὖσα do verbo εἶναι (ser).
- Essa homologia poderia levar a pensar que οὐσία significava essência, mas não é assim, pois o vocábulo grego é, na linguagem usual, muito rico em sentidos e matizes, todos empregados por Aristóteles, e, quando usado como termo técnico, significou não essência, mas substantia, substância.
- O que substantia traduz exatamente é o termo ὑποκείμενον, aquilo que “está-por-baixo-de” ou “é-suporte-de” acidentes (συμβεβηκότα), e isso não é mera complicação de acasos linguísticos, pois para Aristóteles a οὐσία é sobretudo e em primeira linha (μάλιστα) o ὑποκείμενον, o sujeito, o sub-stante (sub-stante).
- A essência corresponde antes ao τὸ τί ἦν εἶναI, que os latinos chamaram quidditas, o “o que” é a οὐσία, sendo a essência um momento da substância.
2. Essa implicação ou referência mútua entre essência e substância, dentro de sua inegável distinção, percorreu necessariamente toda a história da filosofia, mas adquirindo caráter diverso, pois, se a Idade Média repete fundamentalmente as ideias de Aristóteles, a partir do fim do século XIV, com culminação em Descartes, a essência começa a dissociar-se da substância e passa a referir-se a ela de modo por assim dizer frouxo.
- Descartes não duvida de que a só evidência imediata garante que a essência do ego é ser uma res cogitans, algo pensante, e que a essência do mundo é ser uma res extensa, algo extenso.
- Res não significa aqui coisa, isto é, substância, mas apenas o que a escolástica entendia por res, a saber, a essência em seu sentido mais lato, o “quê”, razão pela qual o termo se traduz por “algo”.
- Essa res ou essência é tão distinta da “coisa” ou substância que, para apreender aquela, bastaria a cogitação evidente, ao passo que, para assegurar-se de que a essência se encontra realizada em “coisas ou substâncias”, a evidência não basta a Descartes, que precisa dar o problemático rodeio de apelar nada menos que à veracidade divina.
- Essência e substância ficam assim implicadas da maneira mais frouxa concebível, apenas pela mera potentia Dei ordinata, pelo poder “razoável” de Deus.
3. A partir desse momento, o vínculo cai quase por si mesmo e a substância fica além da essência, como não poderia deixar de acontecer, embora a essência continue referida a uma substância especial, a substância pensante, que enquanto pensante seria um sujeito substancial, de modo que a essência seria um ato formal de concepção desse pensamento ou ao menos seu termo meramente objetivo, no que consiste o idealismo da essência em suas diversas formas e matizes.
4. Na filosofia atual, até essa implicação parece desvanecer-se, pois, fiel se não à letra, ao menos ao espírito cartesiano, Husserl, seguindo um escolástico, Brentano, afirma que as essências nada têm a ver com as substâncias, porque a própria consciência não é substância, mas essência pura.
- Desse modo, o orbe inteiro das essências repousa sobre si mesmo, e as substâncias não passam de suas realizações incertas e contingentes, o que constitui a deformação mais cartesiana do cartesianismo.
- Um passo além, e a consciência dessubstancializada reduz-se a ser “minha consciência”, adquirindo esse “minha” o caráter de ser simplesmente “meu próprio existir”.
- O que antes se chamou “sujeito” pensante, consciência etc., é agora apenas uma espécie de ímpeto existencial (ímpetu existencial), cujas possibilidades de realização dentro da situação em que se encontra são justamente a essência, algo como um precipitado essencial (precipitado esencial) do puro existir.
- Essa é a tese de todos os existencialismos, nos quais a realidade ficou dessubstanciada e a essência realizada de forma puramente situacional e histórica.
5. Poderia pensar-se que as vicissitudes intelectuais recaíram antes sobre a substância que sobre a essência, como se o conceito desta se tivesse conservado imperturbavelmente idêntico na filosofia, mas nada mais errôneo, embora se trate de um erro explicável.
- Termos consagrados por uma tradição multissecular podem produzir, pelo simples fato de sua consagração, a enganosa impressão de que todos os entendem da mesma maneira ao empregá-los, quando muitas vezes envolvem conceitos distintos.
- É o que ocorre nesse caso, pois, ao fio da transformação do conceito de realidade como substância, foi-se transformando o conceito do “o que” essa realidade é, a saber, a essência.
- Por singular paradoxo, encontra-se de novo o mesmo problema com que desde o início teve de debater-se o próprio Aristóteles: a implicação entre a estrutura radical da realidade e a índole de sua essência.
6. Por isso o trabalho toma como lema a frase com que Aristóteles inicia o livro XII de sua Metafísica, não como título de uma tentativa de repetir suas ideias, mas como lembrança da primariedade com que ele aborda o problema e como convite a replanteá-lo.
- “Esta (é uma) especulação sobre a substância.”
- Nessa passagem, Aristóteles reafirma sua ideia da realidade como substância e procura formalmente encontrar suas causas, mas nada impede, muito pelo contrário, aplicar a frase a uma investigação sobre a essência da substância tal como a realiza no livro VII.
- Não se trata de tomar dois conceitos já feitos, o de substância e o de essência, e tentar acoplá-los de uma ou outra forma, mas de formular o problema que jaz sob esses dois vocábulos, o problema da estrutura radical da realidade e de seu momento essencial.
