1 Problema da Essência
ZUBIRI, Xavier. Sobre la esencia. Madrid: Alianza Editorial, 1985
1. Num primeiro enfoque, chama-se essência, antes de determinações mais estritas, “o que” uma coisa real é, e esse “quê” pode constituir problema em três direções precisas.
2. Numa primeira direção, pode-se perguntar pelo “quê” em relação ao fato de a coisa ter existência, pois toda coisa real pode ser declarada ou concebida de dois pontos de vista perfeitamente distintos, dizendo “o que” ela é ou dizendo que isso que ela é constitui uma realidade existente, e cabe perguntar por que toda coisa possui essa dualidade “conceptiva” (conceptiva).
- É possível entender o que uma coisa é com inteira abstração de ela ter ou não existência, e entender o fato de sua existência atual sem intelecção, ao menos precisa, do que ela é.
- Conceitualmente, a essência, o “quê”, e a existência são dois momentos da exposição ou concepção e, mais ainda, dois momentos da coisa real como termo ou sujeito dessa concepção, cada um remetendo ao outro, pois em toda coisa a existência é existência de “algo”, e o “algo” é sempre algo “existente”, do contrário não seria algo, mas puro nada.
- Considerada a coisa real como termo de um λόγος, de uma concepção, é inegável que essência e existência são dois momentos distintos da coisa qua λεγόμενον, isto é, da coisa enquanto expressa numa predicação.
- A filosofia clássica situa o fundamento dessa dualidade conceptiva ao menos no fato da “causação”, pois, por ser causada, toda coisa justifica que se pergunte pelo próprio fato de ter existência, adquirida na causação, e pela índole do existente.
- Surge aqui um grave problema quanto à exatidão dos dois pressupostos: se essa dualidade é primária e formalmente de caráter “conceptivo”, consistindo no modo de declarar uma coisa pelo λόγος, e se “a causalidade” é o fundamento radical dessa dualidade, questão de decisiva transcendência, mas referente não às coisas por si mesmas, e sim ao modo de enfrentá-las intelectivamente.
3. Resolvida essa questão, surge outra ainda mais grave na mesma linha da essência em sua diferença em relação à existência: se o fato de serem dois momentos conceitualmente distintos e fundados na própria coisa significa que a coisa real enquanto real, em sua estrutura “física” própria, possui dois caracteres também física e atualmente distintos, independentemente de toda consideração intelectiva, o que constitui a segunda direção em que se pode formular o problema da essência.
- O termo “física” remete a uma nota geral no fim do capítulo que esclarece seu sentido.
- A estrutura de uma coisa enquanto termo de um λόγος predicativo não é o mesmo que a estrutura “física” interna da coisa tomada em si e por si mesma, pois toda realidade pode tornar-se termo de um λόγος predicativo sem estar por isso fisicamente “composta” de um atributo e de um sujeito.
- Pode-se supor que essência e existência são apenas dois momentos ou aspectos que uma única e mesma coisa oferece à concepção ou ao λόγος predicativo, havendo, independentemente de toda intelecção, pura e simplesmente a coisa, e só um falso conceptismo teria convertido esses dois aspectos conceptivos em dois momentos fisicamente distintos, tratando-se no fundo apenas de que todas as coisas são causadas.
- Historicamente, só a ideia de criação ex nihilo conduziu à contraposição entre essentia e existentia.
- Em outras filosofias, a dualidade essência-existência é fisicamente real, tendo então a essência um respecto (respecto) físico à existência, e surge a questão de qual seja esse respecto: a essência seria a potencialidade interna para a existência da coisa, e a existência, a atualidade dessa potencialidade.
4. Qualquer que seja a solução dada a esse problema, isto é, envolva ou não a essência um respecto real à existência, a essência é algo em si mesma, pois do contrário nem se poderia perguntar se é ou não realmente respectiva à existência, havendo assim, anteriormente ao problema da essência em relação à existência, a terceira direção, o problema da essência considerada em si e por si mesma.
- De uma coisa real qualquer diz-se que é isto ou aquilo, mas talvez nem tudo o que ela é lhe seja essencial.
- O problema consiste em averiguar o que, dentro de tudo o que a coisa é, lhe é essencial, problema interno ao próprio “quê”, o problema da essência como momento do “quê”.
- Esse momento essencial é um momento real na própria coisa, um momento real de sua estrutura “física”, e busca-se averiguar em que consiste a índole real desse momento estrutural físico da coisa chamado “essência”.
5. Em definitiva, pergunta-se pela essência considerada não como termo do modo de enfrentar as coisas reais, mas como momento delas, por esse momento considerado em si mesmo e não em seu eventual respecto à existência, e por esse momento como momento estrutural e físico da coisa real.
- Tal é a direção em que se enfrenta o problema da essência.
- À primeira vista, poderia parecer uma redução do problema metafísico da essência da coisa ao “meramente essencial” dela, isto é, apenas ao mais importante do que a coisa é, mas o curso do estudo mostra que não é assim, e sim todo o contrário.
6. Fica assim traçado o caminho inicial da investigação, que começa por uma determinação provisória do conceito de essência, a qual será também uma formulação mais precisa do problema, examina depois alguns dos conceitos mais importantes de essência dados na filosofia, não tanto por legítimo desejo de informação, mas como meio de certo modo dialético para focalizar a visão da essência, e chega finalmente à confrontação direta e positiva com o problema da essência.
Nota Geral
1. O vocábulo “físico” aparece continuamente ao longo de todo o trabalho e pode desorientar o leitor não familiarizado com a história da filosofia, pois não tem na filosofia antiga o mesmo sentido que na ciência e na filosofia modernas, nas quais designa há alguns séculos o caráter de uma classe bem determinada de coisas reais, os corpos inanimados, sentido que é apenas restrição ou especialização de um sentido muito mais amplo e radical, ligado à etimologia do vocábulo e ao conceito primitivamente por ele significado, o da filosofia antiga, que, por ser enormemente expressivo, convém recuperar e introduzir na filosofia atual, o que se entende melhor por exemplos concretos do que por definições ou considerações teóricas.
2. “Físico” não designa um círculo de coisas, mas um modo de ser, e o vocábulo vem do verbo φύειν, nascer, crescer, brotar, significando como modo de ser o proceder de um princípio intrínseco à coisa da qual se nasce ou cresce.
- Nesse sentido opõe-se ao “artificial”, cujo modo de ser é distinto, pois seu princípio não é intrínseco à coisa, mas extrínseco, estando na inteligência do artífice.
- Daí o vocábulo substantivou-se, chamando-se φύσις, natureza, o próprio princípio intrínseco do qual a coisa procede “fisicamente”, isto é, “naturalmente”, ou o princípio intrínseco de uma coisa do qual procedem todas as suas propriedades ativas ou passivas, e é físico tudo o que pertence à coisa dessa forma.
- O físico não se limita ao que hoje se chama “física”, mas abrange também o biológico e o psíquico, de modo que sentimentos, intelecções, paixões, atos de vontade, hábitos e percepções são algo “físico” nesse sentido estrito.
- Não o é forçosamente o inteligido ou o querido, que podem ser apenas termos meramente intencionais, como um centauro ou um espaço não arquimediano, que não são algo físico, mas algo intencional, ressalvadas precisões rigorosas que seriam indispensáveis para tratar o tema.
- O inteligido enquanto tal não é parte física da inteligência, mas o próprio ato de inteligir é algo físico, contrapondo-se aqui o “físico” ao “intencional”, e daí “físico” veio a ser sinônimo de “real” no sentido estrito do vocábulo.
3. Isso se esclarece pela distinção entre as notas (notas) ou propriedades das coisas, pois algumas se distinguem fisicamente e outras apenas como aspectos segundo o modo de considerar a coisa.
- O peso e a cor de uma macieira são fisicamente distintos, duas notas reais, cada uma por seu lado, que contribuem para “integrar” a realidade dela, o mesmo valendo para um ato de memória e um de paixão.
- A “vida” e a “vegetação” de uma macieira não se distinguem fisicamente, pois na macieira não há de um lado “a vida” e de outro “as funções vegetativas”, nem vida e vegetação integram a macieira, sendo antes aspectos que a macieira inteira oferece segundo o modo de considerá-la, como algo cujo modo de ser difere do de uma pedra ou como algo dotado de funções próprias constitutivas desse modo de ser e distintas das de um cão.
- Esses aspectos não se distinguem na macieira independentemente do modo de considerá-la, ao passo que seu peso e sua cor são cada um o que são mesmo que nenhuma inteligência os considere, e por isso se diz que estas propriedades se distinguem fisicamente e os aspectos apenas “logicamente”, ou, mais exatamente, “conceptivamente”.
- Para haver distinção real e composição física não basta que dois conceitos sejam independentes entre si, sendo preciso que o concebido sejam notas atual e formalmente independentes numa coisa “física”.
- A “integração” não é o único tipo de composição física, bastando tratar-se, por exemplo, de dois princípios constitutivos de algo, como a matéria-prima e a forma substancial no sistema aristotélico.
4. Físico e real, em sentido estrito, são sinônimos, mas o vocábulo realidade tem nas línguas modernas usos muito variados, o que não ajuda a esclarecer as ideias, sobretudo nos séculos pós-cartesianos, tão pouco exigentes em precisão, chamando-se às vezes real também o intencional, como quando se fala de números reais, embora números e figuras não sejam realidades como um pedaço de ferro, uma macieira, um cão ou um homem, razão pela qual, para sublinhar que se trata de realidades deste último tipo, fala-se às vezes em “realidades físicas” ou coisas “fisicamente reais”, puro pleonasmo, mas muito útil.
5. Para ser exato, seria preciso entrar em precisões maiores de toda ordem, mas essas linhas podem bastar ao menos para orientar o leitor desprevenido.
