zizek:ich-fichte-sujeito-hegel
DO EU DE FICHTE AO SUJEITO DE HEGEL
MML
- A resposta retroativa de Fichte como caso paradigmático
- O caso mais interessante de uma resposta retroativa é a filosofia tardia de Fichte
- Ele responde (implicitamente ou explicitamente) a seus críticos, principalmente Schelling
- Esta resposta é mais audível na mudança do Eu auto-posto para o Ser divino assubjetivo como fundamento último de toda realidade
- A descrição sucinta da mudança fundamental na doutrina de Fichte
- No período de Jena (1794–1799), o Eu, em sua capacidade de Eu absoluto, funcionava como o princípio de todo conhecimento
- Após 1800, o Eu fornece a forma (Ichform, “forma-Eu”) do conhecimento como tal
- O fundamento já não é identificado com o Eu enquanto Eu absoluto, mas com algo absoluto anterior e originalmente independente do Eu (Seyn, “Ser”, ou Gott, “Deus”)
- Em contraste, o Eu enquanto forma-Eu é o modo básico para a aparição do absoluto, que não aparece a si mesmo e como tal
- A precisão necessária na leitura desta mudança
- Não se trata simplesmente de Fichte “abandonar” o Eu como fundamento absoluto, reduzindo-o a um momento subordinado do Absoluto trans-subjetivo
- Se alguma coisa, é só agora (após Jena) que Fichte compreendeu corretamente a característica básica do Eu
- O Eu é “como tal” uma cisão do Absoluto, a “diferença mínima” de seu auto-aparecer
- Em outras palavras, a noção do Eu como fundamento absoluto de todo ser “substantiviza” secretamente o sujeito, reduzindo sujeito a substância
- A limitação de Fichte: a questão crucial da aparição
- Fichte não é capaz de formular claramente este insight; sua limitação é discernível na resposta errada que dá à questão crucial
- A pergunta: a quem o Absoluto aparece na forma-Eu? A resposta de Fichte: à aparência (subjetiva), ao sujeito a quem o Absoluto aparece
- O que ele não consegue afirmar é que, ao aparecer ao sujeito, o Absoluto também aparece a si mesmo
- Ou seja, que a reflexão subjetiva do Absoluto é a autorreflexão do Absoluto
- O texto-chave: a Wissenschaftslehre de 1812 versus as versões de Jena
- Nas versões iniciais, a estratégia de Fichte é o procedimento idealista-subjetivo padrão de denunciar criticamente a noção “reificada” da realidade objetiva
- Deve-se dissipar esta ilusão necessária da realidade objetiva independente implantando sua gênese subjetiva
- Aqui, o único Absoluto é a atividade de auto-posição espontânea do Eu absoluto: o Eu absoluto designa a coincidência de ser e agir
- O passo atrás de 1812: a desmistificação da absolutição do próprio Eu
- Em 1812, Fichte dá um passo atrás: “já não é a absolutição das coisas que é desvelada como uma ilusão inevitável, mas a absolutição do próprio Eu”
- A auto-posição do Eu é em si uma aparência ilusória, uma “imagem” do único Absoluto verdadeiro, o Ser absoluto imóvel trans-subjetivo (“Deus”)
- A reação de Madame de Stael ao Eu absoluto auto-posto de Fichte já apontava para este paradoxo (o Barão de Münchhausen)
- A dupla mediação necessária na aparição do Absoluto
- O Absoluto aparece, como a vida nos ensina; aparecer como Absoluto significa que deve trazer à luz seu próprio oposto, um não-Absoluto
- Este não-Absoluto é a aparência do Absoluto; a aparência é também aquela à qual o Absoluto aparece
- Assim, o Absoluto só pode aparecer à aparência se, ao mesmo tempo, seu oposto, a aparência, também aparecer à aparência
- Não há aparecimento do Absoluto sem um aparecer da aparência a si mesma, ou seja, sem reflexividade da aparência
- A inscrição do corte entre aparência e Ser no próprio domínio do aparecer
- Se, no aparecer do Absoluto, o Absoluto aparece como Absoluto, isso significa que deve aparecer como absoluto em contraste com outras meras aparências
- Deve haver um corte no domínio das aparências, entre meras aparências e a aparência através da qual o próprio Absoluto transparece
- A fenda entre aparência e verdadeiro Ser deve inscrever-se no próprio domínio do aparecer
- O perigo da mera “aparência” do Absoluto e o erro oposto
- O que esta reflexividade do aparecer significa é que o Absoluto também se expõe ao perigo de meramente “aparecer” como Absoluto
- A aparição do Absoluto transforma-se na aparência (enganadora, ilusória) de ser o Absoluto
- A ilusão, neste nível, não é mais tomar a aparência pelo ser, mas tomar o ser pela aparência
- O único “ser” do Absoluto é seu aparecer, e a ilusão é que este aparecer é uma mera “imagem” atrás da qual há um Ser verdadeiro transcendente
- O erro que Fichte não vê: tomar o ser por imagens
- Quando Fichte escreve que “todo erro sem exceção consiste em tomar imagens por ser”, ele perde o erro oposto
- O erro de tomar o ser por imagens, ou seja, de tomar como mera imagem do ser verdadeiro o que é efetivamente o próprio ser verdadeiro
- Neste nível, deve-se aceitar a conclusão teológica derridiana: “Deus” não é um Ser absoluto persistente em si, é a pura virtualidade de uma promessa, o puro aparecer de si
- A segunda metade da dupla mediação: a aparição da própria aparência
- Se o Absoluto deve aparecer, o próprio aparecer deve aparecer a si mesmo como aparecer
- Fichte concebe este auto-aparecer da aparência como autorreflexão subjetiva
- Ele está certo em endossar uma abordagem crítica em duas etapas (primeiro do objeto à sua constituição subjetiva, depois a implantação meta-crítica da gênese do miragem abissal da auto-posição do sujeito)
- O erro de Fichte sobre a natureza do Absoluto que fundamenta a subjetividade
- O Absoluto do Fichte tardio é um em-si transcendente imóvel, externo ao movimento de reflexão
- O que Fichte não consegue pensar é a “vida”, o movimento e a mediação no próprio Absoluto
- Ele perde como, precisamente, o aparecer do Absoluto não é mera aparência, mas uma auto-atualização, uma autorrevelação do Absoluto
- Esta dinâmica imanente não faz do Absoluto mesmo um sujeito, mas inscreve a subjetivação em seu próprio núcleo
- A identidade especulativa dos dois polos extremos
- O que Fichte não conseguiu apreender é a identidade especulativa do Ser absoluto puro e da aparência que aparece a si mesma
- A reflexividade da auto-posição do Eu é, literalmente, a “imagem” do Absoluto como Ser auto-fundado
- Aí reside a ironia objetiva do desenvolvimento de Fichte: o filósofo da auto-posição subjetiva acaba reduzindo a subjetividade a uma mera aparência de um em-si absoluto imóvel
- A reprovação hegeliana adequada a Fichte
- A reprovação hegeliana adequada a Fichte não é que ele seja muito “subjetivo”, mas, ao contrário, que ele seja incapaz de pensar realmente a substância também como sujeito
- A mudança de seu pensamento para o Absoluto assubjetivo não é uma reação ao seu subjetivismo excessivo anterior, mas uma reação à sua incapacidade de formular o núcleo da subjetividade
- A verdadeira novidade de Hegel diante da tríade pós-kantiana
- A verdadeira novidade de Hegel pode ser vista em relação à designação padrão do desenvolvimento pós-kantiano como formando a tríade do idealismo “subjetivo” de Fichte, do idealismo “objetivo” de Schelling e do idealismo “absoluto” de Hegel
- A designação da Identitätsphilosophie de Schelling como idealismo “objetivo” é, no entanto, enganadora
- Todo o ponto de sua filosofia da identidade é que o idealismo subjetivo e o objetivo são duas abordagens do Terceiro, o Absoluto além da dualidade de espírito e natureza
- O ponto hegeliano: não há necessidade de um terceiro elemento além de sujeito e objeto-substância
- Neste sentido, é sem sentido chamar a filosofia de Hegel de “idealismo absoluto”
- Seu ponto é precisamente que não há necessidade de um terceiro elemento, o meio ou fundamento, além de sujeito e objeto-substância
- Começamos com a objetividade, e o sujeito nada mais é do que a auto-mediação da objetividade
- Quando, na dialética hegeliana, temos um par de opostos, sua unidade não é um terceiro, um meio subjacente, mas um dos dois
- Um gênero é sua própria espécie, ou um gênero, em última instância, tem apenas uma espécie, razão pela qual a diferença específica coincide com a diferença entre gênero e espécie
- As três posições globais: metafísica, transcendental e especulativa
- Na primeira, a realidade é simplesmente percebida como existindo lá fora, e a tarefa da filosofia é analisar sua estrutura básica
- Na segunda, o filósofo investiga as condições subjetivas de possibilidade da realidade objetiva, sua gênese transcendental
- Na terceira, a subjetividade é reinscrita na realidade, mas não simplesmente reduzida a uma parte da realidade objetiva
- A transposição do corte de volta na realidade como seu próprio esvaziamento
- Embora a constituição subjetiva da realidade, o corte que separa o sujeito do em-si, seja plenamente admitida, este mesmo corte é transposto de volta na realidade como seu auto-esvaziamento kenótico
- A aparência não é reduzida à realidade; o próprio processo de aparecer é concebido do ponto de vista da realidade
- A questão não é “Como, se for o caso, podemos passar da aparência à realidade?”, mas “Como algo como a aparência pode surgir no meio da realidade? Quais são as condições para que a realidade apareça a si mesma?”
- A reflexão hegeliana como oposta à abordagem transcendental
- A reflexão hegeliana é o oposto da abordagem transcendental que regride reflexivamente do objeto para suas condições subjetivas de possibilidade
- Mesmo a filosofia após a “virada linguística” permanece neste nível transcendental, implantando a dimensão transcendental da linguagem
- Aqui, “o significado cai no significante”, ou seja, o significado é um efeito do significante, contabilizado nos termos da ordem simbólica
- A torção reflexiva adicional da reflexão dialética
- O que a reflexão dialética acrescenta a isto é outra torção reflexiva, que fundamenta o próprio lugar subjetivo-transcendental da enunciação no “auto-movimento” da própria Coisa
- Aqui, “o significante cai no significado”, o ato de enunciação cai no enunciado, o signo da coisa cai na própria coisa
- O exemplo da explicação falhada de um termo
- Quando tentamos explicar o significado de um termo X, engajamo-nos em propor uma vasta série de sinônimos, paráfrases, descrições
- Através do próprio fracasso de nosso esforço, circunscrevemos um lugar vazio, o lugar da palavra certa, precisamente a palavra que estamos tentando explicar
- Em algum ponto, após nossas paráfrases falharem, tudo o que podemos fazer é concluir: “Em suma, é X!”
- Se, através de nossa paráfrase fracassada, circunscrevemos com sucesso o lugar do termo a ser explicado, esta conclusão pode gerar um efeito de insight
- A definição formal de sujeito como falha da representação significante
- Um sujeito tenta articular-se em uma cadeia significante, esta articulação falha, e por meio e através desta falha, o sujeito emerge
- O sujeito é a falha de sua representação significante; é por isso que Lacan escreve o sujeito do significante como $, como “riscado”
- O exemplo da carta de amor como prova através da falha
- O próprio fracasso do escritor em formular sua declaração de forma clara e eficiente, suas oscilações, a fragmentação da carta, podem ser a prova da autenticidade do amor professado
- Aqui, o próprio fracasso em entregar a mensagem adequadamente é o sinal de sua autenticidade
- Se a mensagem é entregue de forma suave, suspeita-se que seja parte de uma abordagem bem planejada, ou que o escritor ame a si mesmo, a beleza de sua escrita, mais do que seu objeto de amor
- A reversão dialética como deslocamento do predicado para a posição de sujeito
- A reversão dialética é, em sua forma mais radical, a mudança do predicado para a posição de sujeito
- Exemplo: da afirmação de que “a essência da mulher é dispersa, elusiva, deslocada”, move-se para a afirmação mais radical de que esta dispersão/deslocamento como tal é a “essência da feminilidade”
- Este é o deslocamento dialético no qual o próprio predicado se transforma em sujeito
- O sujeito como predicado subjetivizado
- O sujeito “como tal” é um predicado subjetivizado; o sujeito não é apenas sempre já deslocado, ele é* este deslocamento * O caso supremo deste deslocamento constitutivo da dimensão da subjetividade é o da suposição * A estrutura da suposição e os quatro elementos do discurso * Lacan desenvolveu primeiro a noção do analista como o “sujeito suposto saber”, que surge através da transferência * Ele logo percebe que está lidando com uma estrutura mais geral de suposição na qual uma figura do Outro não só é suposta saber, mas também pode acreditar, gozar, chorar e rir, ou até não saber por nós * Esta estrutura de pressuposição é limitada e constrangida pelos quatro elementos do discurso (S1, S2, *a, $)
- O sujeito ($) como a própria estrutura de suposição
- S1 – sujeito suposto acreditar; S2 – sujeito suposto saber; a – sujeito suposto gozar
- E quanto a $? Teríamos um “sujeito suposto ser sujeito”? Isto significaria que o próprio sujeito é uma suposição
- O sujeito nunca é diretamente “dado” como uma entidade substancial positiva; nunca o encontramos diretamente
- É meramente um vazio cintilante “suposto” entre os dois significantes
- A passagem hegeliana do sujeito ao predicado na própria noção de sujeito
- Do sujeito suposto a… para o próprio sujeito como uma suposição
- O sujeito é o X ausente que tem que ser suposto para dar conta desta torção reflexiva, desta distorção
- O sujeito é inacessível a si mesmo como Coisa, em sua identidade noumenal, e, como tal, é para sempre assombrado por si mesmo como objeto
- Não só os outros são uma suposição para mim, eu mesmo não sou menos uma suposição para mim mesmo: algo a ser presumido, nunca acessado diretamente
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