Sujeito
ZIZEK, Slavoj. The ticklish subject: the absent centre of political ontology. London: Verso, 1999/2008.
- Prefácio à nova edição: Por que Lacan não é heideggeriano
- Introdução: Um espectro ronda a academia ocidental…
- I. A «noite do mundo»
- 2. O espinhoso sujeito hegeliano
- II. A universalidade cindida
- 3. A política da verdade, ou Alain Badiou como leitor de São Paulo
- 4. A subjetivação política e suas vicissitudes
- III. Da sujeição à destituição subjetiva
- 5. (Des)vinculações apaixonadas, ou Judith Butler como leitora de Freud
- 6. Para onde vai Édipo?
Prefácio nova edição (alguns tópicos)
1. A linguagem não é criação nem instrumento do homem, mas uma casa em que ele habita, e, numa torção freudiana do motivo heideggeriano, essa casa revela-se uma casa de tortura, cujas cicatrizes são as psicopatologias que atestam o hiato irremediável entre o sujeito e a linguagem, dimensão traumática ignorada por Heidegger e razão pela qual o termo “sujeito” é mantido para designar o animal humano torturado e mutilado que não se ajusta à linguagem.
2. Os rituais de iniciação transformam a forma dos desejos e lhes conferem a função de índice pelo qual o ser do sujeito se identifica e se anuncia, de modo que a mutilação orienta o desejo e o faz articular-se num além simbólico denominado ser, uma realização do ser no sujeito.
3. A proximidade entre Lacan e Heidegger, evidente no uso do termo “ser” para designar a função simbólica elementar, torna nítido o hiato que os separa, pois, embora os desejos humanos percam sua ancoragem biológica ao inscrever-se no horizonte do Ser sustentado pela linguagem, essa passagem do corpo biológico ao espaço simbólico exige que o sujeito traga no corpo uma marca de tortura, uma mutilação.
4. O que falta inteiramente em Heidegger é não apenas o Real do gozo, mas sobretudo a dimensão do “entre-duas-mortes”, posição de Antígona que, excluída da pólis e simbolicamente morta embora biologicamente viva, fica reduzida à vida nua do homo sacer, cujo caso extremo no século XX são os internos dos campos de concentração, omissão que toca o núcleo ético-político da catástrofe totalitária e condiz com a incapacidade de Heidegger de resistir ao nazismo.
5. O “entre-duas-mortes” é o Inferno que o século realizou ou ainda promete realizar, e é a ele que a psicanálise lacaniana pretende responder, sendo a política o “buraco” da metafísica e situando-se aí inteiramente a cena do confronto com Heidegger.
6. Daí a perturbadora ambiguidade da descrição heideggeriana das mortes nos campos de extermínio como processo industrial anônimo e não como mortes autênticas, sugestão obscena que converte o sofrimento extremo das vítimas em inautenticidade subjetiva e deixa de perguntar como elas subjetivaram sua situação, já que sua morte só era processo industrial para os carrascos, não para elas.
7. A analítica heideggeriana do Dasein como ser-para-a-morte parece adequada apenas aos neuróticos e incapaz de dar conta dos psicóticos, que ocupam uma posição existencial de sobrevivência à própria morte, uma vida situada fora do cuidado e não mais orientada para um projeto futuro nem para a morte.
8. O excesso de gozo que resiste à simbolização explica a autodesignação de Lacan como antifilósofo, pois a filosofia, desde Parmênides até Heidegger, assenta-se na premissa ontológica da mesmidade entre pensar e ser, ao passo que o Real do gozo, longe de ser simplesmente exterior à linguagem, aloja-se em seu interior como núcleo estranho, íntimo e alheio ao mesmo tempo, que nela aparece sob a forma de ruptura, corte, inconsistência ou impossibilidade.
9. Nenhuma filosofia é hoje capaz de explicar a relação entre a emergência do significante e o modo como o gozo se relaciona com o ser, e as degradadas aberrações filosóficas herdadas do século XIX apenas brincam com essa questão, a única concernente à verdade, chamada por Freud de pulsão de morte, o masoquismo primordial do gozo, diante da qual todo discurso filosófico foge e recua.
10. O “realismo do gozo” parece ter como inimigo natural o panlogicismo hegeliano, ápice da ontologia em que o ser se torna transparente ao logos, mas, segundo as fórmulas da sexuação, o reverso da tese de que nada há que não seja logos pode ser a afirmação de um não-todo, de um logos corroído por antagonismos e rupturas e jamais plenamente idêntico a si.
11. A curiosa restrição da condenação lacaniana da filosofia ao pensamento pós-hegeliano indica uma obscura consciência dessa complexidade, pois as filosofias da Vontade ou da Vida de Schelling a Nietzsche permanecem, como Heidegger mostrou, no interior da ontologia, enquanto Lacan, recusando a concordância entre Ser e logos, busca uma dimensão do real marcada pela impossível junção entre sujeito e gozo, o que explica sua preferência por Kierkegaard, para quem a fé é um salto louco rumo a um Deus do Real situado além do Ser.
12. Como o sujeito lacaniano designa um hiato real no simbólico, Lacan, no seminário sobre a lógica da fantasia, passa paradoxalmente de Heidegger de volta ao cogito cartesiano, convertendo em argumento a favor do cogito aquilo que para Heidegger o condenava, o esquecimento do Ser, já que o Real do gozo é exterior ao Ser e o cogito, longe de ser pura autotransparência do pensamento, é o sujeito do inconsciente, o corte na ordem do Ser por onde o gozo irrompe.
13. Após sucessivas leituras do cogito ergo sum que acentuavam o hiato entre pensar e ser, Lacan chega por fim a concebê-lo como ponto de interseção negativa entre ambos, ponto evanescente em que não sou, reduzido a um vazio na ordem do ser, à maneira do sujeito que o discurso da ciência reduz a zero (Verwerfung/forclusion lacaniana) ao exigir que suas proposições valham para qualquer um, e em que não penso, reduzido a uma forma pura de pensamento sem conteúdo, tautologia autoanulante análoga ao “Eu sou o que sou” da sarça ardente, que indica um Deus além do Ser, Deus como Real.
