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ZIZEK, Slavoj. The ticklish subject: the absent centre of political ontology. London: Verso, 1999/2008.

Introdução: Um Espectro Ronda a Academia Ocidental…

1. O espectro do sujeito cartesiano ronda a academia ocidental, e todas as suas potências, do obscurantista New Age ao desconstrucionista pós-moderno, do teórico habermasiano ao heideggeriano, do cientista cognitivo ao ecologista profundo, do (pós-)marxista crítico à feminista, aliaram-se para exorcizá-lo, acusando-se umas às outras de não terem ainda renegado devidamente a herança cartesiana.

2. Dessa aliança generalizada contra o espectro cartesiano decorrem duas consequências.

3. A subjetividade cartesiana continua a ser reconhecida por todas as potências acadêmicas como uma tradição intelectual poderosa e ainda ativa.

4. É chegada a hora de os partidários da subjetividade cartesiana exporem publicamente suas ideias, fins e tendências, opondo ao conto infantil do Espectro da subjetividade cartesiana o manifesto filosófico dessa mesma subjetividade.

5. Trata-se de reafirmar o sujeito cartesiano, cuja rejeição constitui o pacto silencioso entre as correntes rivais da academia atual, não para retornar ao cogito como sujeito pensante autotransparente, mas para trazer à luz seu reverso esquecido, o núcleo excessivo e não reconhecido do cogito, nos três campos em que hoje se joga a subjetividade: o Idealismo Alemão, a filosofia política pós-althusseriana e a passagem desconstrucionista do Sujeito às múltiplas posições de sujeito e subjetivações.

6. Os autênticos filósofos da subjetividade foram reiteradamente compelidos a articular um momento excessivo de “loucura” inerente ao cogito, que logo tentaram renormalizar, e a falha fatal de Heidegger está em sua noção de subjetividade moderna não dar conta desse excesso, como mostra sua leitura de Kant, que ignora a dimensão disruptiva e antissintética da imaginação transcendental, outro nome do abismo da liberdade, o que lança nova luz sobre seu engajamento nazista e conduz ao estudo da reflexividade em Hegel em sua ligação com o sujeito histérico do Inconsciente.

7. Laclau, Balibar, Rancière e Badiou, partindo de Althusser e criticando-o, desenvolveram teorias próprias da subjetividade política, e, embora seja solidária a tentativa de Badiou de reafirmar a universalidade como verdadeiro oposto do globalismo capitalista por meio de uma “política da verdade” e de sua leitura de São Paulo, cabe rejeitar sua tese de que a psicanálise não pode fundar uma nova prática política, bem como examinar como os quatro enfrentam a postura liberal-democrática “pós-política” do capitalismo global.

8. Contra o espectro do Sujeito transcendental, o pensamento político pós-moderno defende a proliferação libertadora de múltiplas subjetividades particulares e substitui a crítica da economia política pelos estudos culturais, tendo na teoria performativa do gênero de Judith Butler sua versão mais persuasiva, com a qual é possível um diálogo produtivo com a psicanálise lacaniana, ao passo que o suposto declínio do modo edipiano de subjetivação, longe de simplesmente libertar das amarras patriarcais, engendra, segundo a persistente dialética do Esclarecimento, novos riscos e perigos.

9. Embora de teor filosófico, trata-se antes de tudo de uma intervenção política engajada na questão de como reformular um projeto de esquerda anticapitalista na era do capitalismo global e de seu suplemento ideológico multiculturalista, questão ilustrada pelos incêndios de 1997 em Bornéu, nos quais o Real incondicional do Capital global, agravado pelo efeito global do El Niño, perturbou a própria realidade da natureza.

10. Essa catástrofe encarna o Real de nossa época, o impulso do Capital que destrói impiedosamente mundos da vida particulares e ameaça a sobrevivência da humanidade, e diante da dúvida sobre se tal lógica deriva da atitude produtivista de dominação técnica da natureza ou da própria subjetividade cartesiana moderna, cabe declarar enfaticamente o sujeito cartesiano “inocente”.

11. A cuidadosa revisão editorial de Gillian Beaumont, que expõe repetições, inconsistências e erros, e o constante bombardeio de inserções tardias que ela suporta geram um ódio mútuo que, como se dizia na velha Hollywood, marca o início de uma bela amizade, razão pela qual o livro lhe é dedicado.

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