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BMS ERA UMA VEZ: INTRODUÇÃO À HISTÓRIA E IDEOLOGIA DOS CONTOS POPULARES E DE FADAS
BMS
- O conselho de Einstein e a atual ubiquidade dos contos de fadas
- Einstein aconselhou uma mãe a ler contos de fadas ao filho, e mais contos de fadas, e ainda mais contos de fadas
- Hoje, o mundo parece ter seguido seu conselho: contos de fadas estão “fantasticamente na moda”
- Eles proliferam em livrarias, escolas, teatros, óperas, filmes, mídia de massa, publicidade e internet
- As projeções fantásticas do mundo dos contos de fadas parecem ter consumido a realidade do cotidiano e invadido o santuário interior de nosso mundo subjetivo
- A pergunta sobre a historicidade dos contos: eles alguma vez estiveram “fora”?
- Contos populares e de fadas existem há séculos como parte necessária de nossa cultura
- Existem como contos orais há milhares de anos e se tornaram contos de fadas literários no século XVII
- Ambas as tradições, oral e literária, coexistem e interagem hoje, mas suas funções mudaram
- A diferença atual: produção, distribuição e mercantilização
- A diferença pode ser vista na maneira como são produzidos, distribuídos e comercializados
- O lucro macular suas histórias e seu patrimônio cultural
- Contos populares e de fadas, como produtos da imaginação, estão em perigo de se tornarem instrumentalizados e comercializados
- Tudo isso foi realizado dentro da estrutura da indústria cultural moderna
- A tese de Adorno sobre a indústria cultural e a fusão da arte alta e baixa
- A indústria cultural funde o velho e o familiar numa nova qualidade, fabricando produtos para consumo de massa
- Ela integra intencionalmente seus consumidores de cima, forçando a união das esferas da arte alta e baixa
- A seriedade da arte alta é destruída na especulação sobre sua eficácia; a seriedade da arte baixa perece com as restrições civilizatórias
- As massas são um objeto de cálculo, um apêndice da maquinaria, não o sujeito primário
- O poder da indústria cultural e o potencial emancipatório dos contos
- Seria um exagero argumentar que a indústria cultural tem controle total, mas ela certamente tem vasta influência na consciência dos consumidores
- Assim, o potencial emancipatório concebido esteticamente nos contos raramente se traduz em ação social
- Os contos não podem nutrir descontentamento suficiente para tornar seus efeitos razoavelmente certos
- A projeção utópica e a natureza subversiva dos contos
- Os contos nem sempre foram desenvolvidos com “revolução” ou “emancipação” em mente
- Na medida em que projetaram outros e melhores mundos, foram frequentemente considerados subversivos
- Eles forneceram a medida crítica de quão longe estamos de tomar a história em nossas mãos e criar sociedades mais justas
- É exatamente por isso que as classes sociais dominantes foram vexadas por eles ou tentaram descartá-los como contos de “Mamãe Gansa”
- A instrumentalização dos contos pela indústria cultural
- A partir do Iluminismo, contos populares e de fadas foram considerados inúteis para o processo de racionalização burguês
- No entanto, a persistência e popularidade dos contos sugeriram que seu poder imaginativo poderia ser mais útil do que se pensava
- Não é por acaso que a indústria cultural buscou domar, regular e instrumentalizar as projeções fantásticas desses contos
- A condição de duplo vínculo (*double-bind*) no capitalismo tardio
- Não podemos evitar uma compreensão mercantilizada da cultura popular e alta porque não podemos evitar as condições de mercado da troca
- A participação no ato de troca torna-se uma fonte direta de prazer, e o processo de troca torna-se o guardião de todas as formas de satisfação
- Ficamos com um amplo investimento libidinal coletivo nas estruturas econômicas centrais da sociedade moderna, reforçando o poder de permanência do capitalismo
- Três exemplos de preocupação com o destino da tradição dos contos
- 1. O conto popular tornou-se uma mercadoria comercializável, arrancado de seu contexto sociocultural; as histórias perdem o direito de vagar de boca em boca
- 2. O inimigo é o provincialismo histórico, a atitude que finge que nossos olhos e instintos nativos são suficientes para entender a literatura de contos de fadas
- 3. Em um mundo de transmissões eletrônicas instantâneas e reprodução rápida de imagens, a paciência exigida por uma narrativa pode não ser mais um atributo valioso
- A recepção histónica distorcida dos contos nos últimos três séculos
- Nossa recepção histórica foi tão negativamente torcida por normas estéticas, padrões educacionais e condições de mercado que não podemos mais distinguir contos populares de contos de fadas
- Raramente vemos sua ideologia e estética específicas à luz de um desenvolvimento histórico diacrônico que tem grande relevância para nosso autoconhecimento cultural
- Era uma vez: a função social autônoma do conto popular
- Era uma vez em que os contos populares eram parte da propriedade comunitária, contados por narradores talentosos que davam vazão à frustração das pessoas comuns
- Os contos serviam para unir a comunidade, ajudar a preencher uma lacuna na compreensão de problemas sociais em uma linguagem familiar
- Sua aura iluminava o possível cumprimento de anseios e desejos utópicos que não excluíam a integração social
- A aura do conto popular como reflexo autônomo do comportamento normativo
- Segundo Walter Benjamin, a aura de uma obra de arte consiste naquelas propriedades simbólicas que constituem sua autonomia
- Os contos populares eram reflexos autônomos do comportamento normativo real e possível, que podia fortalecer os laços sociais
- Sua aura dependia do grau em que podiam expressar as necessidades do grupo que os cultivava e transformava através de atos “socialmente simbólicos”
- A perda da aura e a ascensão do conto de fadas literário
- Hoje, o conto popular como forma de arte oral perdeu sua aura em grande parte e deu lugar ao conto de fadas literário e outras formas de narrativa mediadas em massa
- É importante notar que a narração de histórias ainda está viva e houve um renascimento significativo nos últimos vinte anos
- Mas este renascimento e todas as formas de fala e narração estão sujeitos às condições de troca do mercado
- A transição do conto popular para o conto de fadas: uma transformação negligenciada
- Pouco foi escrito sobre esta transição, por que ocorreu e como
- O desenvolvimento é complexo e tem tradição única em diferentes países; limitamo-nos aqui a observações gerais sobre o mundo ocidental
- As teses introduzidas são tentativas de compreender o significado social da transformação e destinam-se a estimular mais reflexão
- A origem do conto popular como narrativa oral e reflexo da ordem social
- Originalmente, o conto popular era (e ainda é) uma forma narrativa oral cultivada por pessoas iletradas e letradas para expressar sua percepção da natureza e da ordem social
- Estudos mostram que o conto popular originou-se no período Megalítico e que tanto pessoas iletradas quanto letradas foram seus portadores
- Os contos são reflexos da ordem social em uma determinada época histórica e simbolizam as aspirações, necessidades, sonhos e desejos das pessoas comuns
- A chave para compreender o conto popular: o público e a estética da recepção
- Narradores talentosos contavam os contos para públicos que participavam ativamente de sua transmissão, fazendo perguntas, sugerindo mudanças
- A compreensão do público e da estética da recepção é crucial para captar sua qualidade volátil
- A base social dos motivos do conto popular em rituais e crenças primitivas
- A maioria dos motivos dos contos populares pode ser rastreada até rituais, hábitos, costumes e leis de sociedades primitivas ou pré-capitalistas
- A etimologia de palavras como “rei” e “rainha” ajuda a entender como os contos eram representativos diretos de relações familiares e ritos tribais
- Atos como canibalismo, sacrifícios humanos, transformações de pessoas em animais, intervenção de figuras estranhas baseavam-se na realidade social e crenças de sociedades primitivas
- A transformação histórica dos contos e sua cristalização no final do período feudal
- Cada época histórica e comunidade alterou os contos originais de acordo com suas necessidades ao longo dos séculos
- Quando foram registrados no final do século XVIII e início do XIX como textos literários, continham muitos motivos primitivos, mas refletiam essencialmente condições feudais tardias
- Os contos coletados pelos Irmãos Grimm servem de exemplo: as situações ontológicas iniciais geralmente tratam de exploração, fome e injustiça familiares às classes baixas em sociedades pré-capitalistas
- A magia como realização de desejo e projeção utópica do “povo”
- A magia dos contos pode ser equiparada à realização de desejos e projeções utópicas do “povo” que preservou e cultivou esses contos
- A noção de “povo” não deve ser glamourizada; sociologicamente, eram a grande maioria, geralmente trabalhadores agrários não letrados que nutriam suas próprias formas de cultura
- As classes altas também não podem ser separadas do povo, pois se misturavam com as classes baixas e também eram portadoras dos contos orais
- A apropriação do conto popular pela literatura: o surgimento do conto de fadas (*Kunstmärchen*)
- O que é mais interessante é a maneira como o conto popular foi apropriado em sua totalidade por escritores aristocráticos e burgueses nos séculos XVI, XVII e XVIII
- Com a expansão da publicação, tornou-se um novo gênero literário: o conto de fadas
- Como texto literário que experimentou e expandiu os motivos, figuras e enredos do conto popular, o conto de fadas refletiu uma mudança de valores e conflitos ideológicos na transição do feudalismo para o capitalismo inicial
- A mudança na perspectiva narrativa e ideológica nos primeiros *Kunstmärchen*
- Todas as primeiras antologias (Straparola, Basile, Perrault, d'Aulnoy) demonstram uma mudança na perspectiva e no estilo narrativo
- Eles não apenas alteraram a perspectiva popular original e reinterpretaram a experiência do povo, mas também dotaram os conteúdos de uma nova ideologia
- Isso foi mais aparente na França no final do século XVII, com a moda dos contos de fadas escritos por damas aristocráticas
- Exemplo extremo: a transformação de “A Bela e a Fera”
- O motivo da transformação de uma fera feia em um salvador no folclore pode ser rastreado até ritos de fertilidade primitivos
- Em 1740, Madame de Villeneuve publicou sua versão; em 1756, Madame Leprince de Beaumont publicou uma versão mais curta que serviu de base para traduções populares
- Ambas as versões são histórias didáticas que transformam totalmente os significados originais dos motivos do conto popular
- Buscam legitimizar o padrão de vida aristocrático em contraste com os valores burgueses emergentes, com o tema de “colocar a burguesia em seu lugar”
- A lição instrumentalizada: virtude burguesa recompensada, ambição punida
- A família do comerciante rico é punida por sua arrogância; apenas Bela, modesta e abnegada, pode salvar seu pai
- Como modelo de indústria, obediência, humildade e castidade, ela salva o pai e, impressionada pela natureza nobre da Fera, casa-se com ele
- A fada boa recompensa Bela por preferir a virtude; suas irmãs são punidas por seu orgulho e transformadas em estátuas
- Era um aviso para os burgueses emergentes que esqueceram seu lugar na sociedade
- A instrumentalização da fantasia e sua cisão (*splitting*) pelo capitalismo
- Como Jessica Benjamin apontou, uma orientação instrumental implica uma relação com objetos e ações que os usa puramente como meio para um fim
- Se a atividade social é reduzida a uma orientação para processos formais e calculáveis, as projeções da imaginação só podem ser voltadas contra si mesmas e repressivamente dessublimadas
- A mediação entre a imaginação do produtor e do público se torna instrumental na padronização de formas e imagens da fantasia
- A fantasia como faculdade produtiva separada e confinada
- A fantasia, em seu sentido cindido, foi um produto da burguesia; designou o que era difícil de controlar: o trabalho bruto, o potencial residual de desejos não desenvolvidos
- Em verdade, a fantasia é um meio de produção específico necessário para um processo de trabalho que busca a transformação das relações humanas e a re-apropriação do trabalho morto
- Se este poder produtivo do cérebro é cindido de modo a não poder seguir as leis de movimento de seu próprio processo de trabalho, isso leva a um obstáculo crucial para qualquer prática emancipatória
- A instrumentalização da fantasia pela indústria cultural e a civilização dos contos
- As maneiras pelas quais a fantasia e seus produtos foram instrumentalizados pela indústria cultural são ilustradas por Negt e Kluge
- Já havia tendências definidas para utilizar as imagens fantásticas da literatura de maneira instrumental no século XVII
- Os contos populares foram submetidos a um processo “civilizador” de reutilização que contradizia sua função social original
- A transformação do conto popular em conto de fadas literário como ponto de virada histórico
- No caso de “A Bela e a Fera”, não apenas um motivo foi transformado e adornado com características barrocas, mas a mediação literária controlou a produção, distribuição e recepção
- Como texto escrito, inovador, projetado privadamente, o conto de fadas no século XVIII excluiu o povo comum e abordou as preocupações das classes altas
- A nova perspectiva de classe estabeleceu novas regras para o gênero transformado: a ação e o conteúdo subscreviam uma ideologia de conservadorismo que informava o processo de socialização em benefício da classe aristocrática
- Características distintivas entre folclore e literatura
- Oral vs. Escrito; Performance vs. Texto; Comunicação face a face vs. Indireta; Efêmero vs. Permanente; Comunal vs. Individual; Recriação vs. Criação; Variação vs. Revisão; Tradição vs. Inovação; Estrutura inconsciente vs. Design consciente; Representações coletivas vs. Seletivas; Propriedade pública vs. Privada; Difusão vs. Distribuição; Memória vs. Releitura
- É importante lembrar que há uma relação simbiótica entre folclore e literatura; como campos de produção cultural, eles frequentemente se sobrepõem
- No entanto, dentro de cada campo há características mais claramente definidas que estas listas revelam
- A dialética da produção em massa: contato aumentado versus controle de classe
- A produção e distribuição em massa dos textos ajudou as pessoas a aumentar o contato entre si, trocar ideias e projetos imaginativos, e se organizar em torno de seus interesses
- No entanto, quem podia ler no século XVIII? Quem controlava a impressão e distribuição dos textos?
- Uma vez que o conto popular começou a ser interpretado e transmitido através de textos literários, sua ideologia e perspectiva narrativa originais foram diminuídas, perdidas ou substituídas
- A mudança na perspectiva de classe e o controle do gosto das classes altas
- Como texto, o conto de fadas não incentivava a interação ao vivo e a performance, mas leituras individuais
- A perspectiva tornou-se a do autor que criticava ou afirmava as condições sociais existentes
- Houve uma mudança na ênfase de classe para a aristocrática ou burguesa; o gosto e o controle da publicação pelas classes altas influenciaram a perspectiva narrativa
- A distribuição era exclusiva devido aos controles sobre a produção e ao público leitor limitado
- A ascensão do conto de fadas e o declínio do feudalismo: desenvolvimento ambivalente
- A ascensão do conto de fadas no mundo ocidental como forma cultural mediada em massa do conto popular coincidiu com o declínio do feudalismo e a formação da esfera pública burguesa
- Ele perdeu rapidamente sua função de afirmar a ideologia absolutista e experimentou um desenvolvimento curioso no final do século XVIII e ao longo do século XIX
- A oposição burguesa conservadora e a defesa progressista dos contos
- Por um lado, grupos burgueses dominantes consideravam os contos imorais por não subscreverem as virtudes da ordem, disciplina, indústria, etc.; eram vistos como prejudiciais para as crianças
- Por outro lado, dentro da própria burguesia havia escritores progressistas que desenvolveram o conto de fadas como forma de protesto contra as ideias utilitárias vulgares do Iluminismo
- A luta contra a instrumentalização da razão, como analisada por Horkheimer e Adorno, teve grande significado para a ascensão do conto de fadas inovador dos românticos
- A batalha pelo valor moral do conto de fadas na Inglaterra vitoriana
- A causa pela qual os românticos falaram ganhou maior urgência quando as condições que os provocaram a defender o conto de fadas se intensificaram no período vitoriano
- As condições da Inglaterra foram objetadas por Carlyle, Ruskin e Kingsley, que seguiram os românticos ao enfatizar o valor imaginativo do conto de fadas no novo mundo
- No entanto, eles também reverteram um pouco à posição do inimigo: os valores educacionais que apontavam nos contos eram mais convencionalmente morais do que os defendidos por Wordsworth e Coleridge
- A acomodação burguesa e a função compensatória dos contos de fadas
- Com suas declarações em defesa do conto de fadas, os homens de letras vitorianos provavelmente contribuíram para seu novo status
- A resistência inicial ao conto de fadas durante o Iluminismo decorreu de sua crítica implícita e explícita ao utilitarismo
- A ênfase no jogo, formas alternativas de vida, perseguir sonhos — o material dos contos de fadas — desafiou o propósito racionalista e o regimentação da vida para produzir para o lucro
- Portanto, o estabelecimento burguês teve que fazer parecer que os contos de fadas eram imorais, triviais, inúteis e prejudiciais
- A instrumentalização mais sutil no capitalismo estabelecido
- Nos estágios iniciais do capitalismo, a imaginação tinha que ser combatida e contida em todos os níveis culturais
- Na última parte do século XIX, quando o capitalismo havia firmemente estabelecido suas normas dominantes, os contos de fadas não precisavam ser tão furiosamente combatidos
- Eles poderiam ser instrumentalizados de maneiras mais sutis e refinadas à medida que o poder tecnológico para manipular produtos culturais na esfera pública burguesa se tornava mais forte
- Os contos de fadas como refúgio e distração da regulação capitalista
- O tremendo aumento na regulação da vida diária como resultado da racionalização capitalista começou a atomizar e alienar as pessoas a tal ponto que a diversão como distração teve que ser promovida
- O desenvolvimento de uma indústria cultural que poderia instrumentalizar produtos da fantasia para aumentar a produção e o lucro, e também para suavizar a monotonia do trabalho, começou a assumir contornos firmes
- O conto de fadas oferecia uma fuga e refúgio dos efeitos brutalizantes da realidade socializada e de trabalho administrada por leis e normas de uma esfera pública burguesa pervertida
- Tendências significativas no século XIX em relação aos contos
- 1. Coleta e impressão de contos populares por profissionais, estabelecendo versões “autênticas” que raramente eram lidas pelo público original
- 2. Reescrever contos populares como contos de fadas didáticos para crianças, defendendo os valores vitorianos do status quo
- 3. Transformar contos populares em contos triviais e compor novos contos de fadas para distrair públicos e ganhar dinheiro; peças de contos de fadas tornaram-se moda
- 4. Artistas sérios criaram novos contos de fadas a partir de motivos populares, usando a fantasia para criticar condições sociais e expressar a necessidade de modelos alternativos
- 5. Novos meios tecnológicos de mídia de massa incorporaram o conto de fadas como produto cultural para promover entretenimento comercial ou explorar como a fantasia poderia melhorar a tecnologia da comunicação
- A instrumentalização via mídia de massa no século XX: duas linhas dominantes
- Todas as tendências acima têm sido operativas em diferentes formas de cultura mediada em massa no século XX
- Podemos traçar como cada nova invenção tecnológica permitiu à mídia de massa utilizar o conto de fadas ao longo de duas linhas amplas dominantes:
- (1) Para o propósito negativo de afirmar os interesses da indústria cultural para restringir o intercâmbio social ativo e tornar o público em consumidores passivos
- (2) Para o propósito positivo de comunicar e unificar produtos culturais de fantasia necessários para desenvolver uma sociedade mais humanista e estimular o público a desempenhar um papel ativo
- O poder da mídia de massa em simular a voz do povo
- A grande realização da mídia de massa no século XX reside em seu poder de fazer parecer (diferente da publicação) que a voz e a perspectiva narrativa do folclore emanam da própria voz de expressão cultural e patrimônio do povo
- Foram o rádio, depois os filmes e, finalmente, a TV que foram capazes de reunir grandes grupos de pessoas como os narradores originais de contos populares faziam
- Contos de fadas mediados em massa têm uma voz e imagem universal tecnologicamente produzidas que se impõem à imaginação do público
- A manipulação como resultado de arranjos socioeconômicos fundamentais
- A manipulação de imagens e enredos de contos de fadas não deve ser considerada uma conspiração sinistra por parte das grandes empresas e do governo
- O processo é muito mais elusivo e eficaz, pois geralmente funciona sem direção central; está embutido nos arranjos socioeconômicos fundamentais que determinam a propriedade, a divisão do trabalho, os papéis sexuais, a organização da produção
- Como consequência, o resultado inevitável da maioria dos contos de fadas mediados em massa é uma feliz reafirmação do sistema que os produz
- Perguntas finais: o potencial emancipatório está totalmente esgotado?
- Chegamos a um ponto na história onde o potencial emancipatório dos contos será totalmente restringido pela tecnologia da indústria cultural?
- Os símbolos fantásticos podem ser totalmente controlados e instrumentalizados a serviço de sistemas socioeconômicos burocratizados?
- A globalização significa homogeneização?
- A resposta: a subjetividade humana como reserva de resistência
- Para responder, devemos ter em mente que contos populares e de fadas *per se* não têm poder emancipatório real, a menos que sejam usados ativamente para construir um vínculo social através da comunicação oral, interação social, etc.
- Na medida em que formam configurações alternativas em uma reflexão crítica e imaginativa das normas e ideias sociais dominantes, eles contêm um potencial emancipatório que nunca pode ser completamente controlado ou esgotado, a menos que a subjetividade humana seja totalmente computadorizada e tornada impotente
- Mesmo os contos de fadas mediados em massa que reafirmam a bondade da indústria cultural que os produz não estão sem seus aspectos contraditórios e libertadores
- O valor cultural último dos contos: cultivar os germes da subversão
- A literatura e a arte nunca foram capazes de causar uma explosão ou revolução, e nunca serão
- Mas elas podem abrigar e cultivar os germes da subversão e oferecer às pessoas esperança em sua resistência a todas as formas de opressão
- O valor cultural último dos contos hoje depende de como convertemos a tecnologia para nos dar um sentido mais forte de história e de nossos próprios poderes para criar ordens sociais mais justas e equitativas
- A magia dos contos: respeitar nossa autonomia enquanto provocam o pensamento
- Paradoxalmente, o poder mágico dos contos decorre do fato de eles não fingirem ser nada além de contos, ou seja, não fazem reivindicações de ser nada além de projeções artísticas da fantasia
- E nessa não-pretensão, eles nos dão a liberdade de ver qual caminho devemos tomar para nos realizarmos
- Eles respeitam nossa autonomia e deixam as decisões da realidade para nós, ao mesmo tempo em que nos provocam a pensar sobre a maneira como vivemos
- Einstein viu isso: como sua teoria da relatividade, os contos transformam o tempo em elementos relativos e nos oferecem a esperança e a possibilidade de tomar a história em nossas mãos
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