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VAZIO
ZAMBRANO, María. Claros del bosque. 4. ed ed. Barcelona: Seix Barral, 1993.
- Tudo seria revelação se fosse acolhido em estado nascente, e a visão que chega de fora ao romper a obscuridade do sentido exige que, ao abrir-se a vista, abra-se simultaneamente a visão, quando o sentido único do ser desperta em liberdade segundo sua própria lei, sem a presença opressiva da intenção e sem outra finalidade senão a fidelidade ao próprio ser na vida que se abre, acendendo-se então a visão como uma chama.
- Acolhimento no nascente é condição de revelação.
- Vista e visão são apresentadas como aberturas simultâneas.
- Liberdade é definida como ausência de intenção opressiva.
- Fidelidade ao próprio ser é posta como única finalidade.
- A visão é figurada como chama.
- A chama da visão funde sentido, ver e realidade, sem resistência e sem relações de estranheza, servidão ou posse, de modo que não se manifesta nem como realidade nem como irrealidade, mas como o simples acender da beleza, que purifica a realidade corpórea e a visão corporal, ilumina, vivifica e eleva sem ocupar todo o horizonte, e ao extinguir-se deixa no ar e na mente uma geometria visível, ou, de outro modo, a marca de um número acordado, a cinza recolhida e guardada e um vazio indisponível para outra espécie de visão, reaparecendo como traço reconhecível em toda aparição do belo.
- Ausência de assimilação, libertação e império de posse.
- Beleza é identificada com o acender da visão.
- Purificação atinge corpo e visão corporal.
- A elevação não totaliza o horizonte.
- Extinção deixa geometria visível no ar e na mente.
- Número acordado e cinza aparecem como restos guardáveis.
- Vazio indisponível reaparece em toda beleza.
- A beleza cria o vazio como se a face adquirida sob seu banho viesse de uma nada distante e a ela tivesse de retornar, deixando à condição terrestre apenas o rastro, pó ou cinza, e substituindo a nada por um vazio qualitativo, selado e puro, sombra da face do belo quando parte, vazio que a beleza torna seu, como aureola e espaço sacro intangível onde o ser terrestre não pode instalar-se, mas é convidado a sair de si, arrastando o ser escondido e a alma com os sentidos, envolvendo e unificando o existir corporal até que, no limiar do vazio, se renda a pretensão de ser separado e mesmo de ser si, entregando os sentidos ao ponto de tornarem-se unos com a alma, num acontecimento chamado contemplação e esquecimento de todo cuidado.
- Vazio é produzido como efeito próprio do belo.
- Pó e cinza figuram o rastro deixado ao terrestre.
- Vazio qualitativo substitui a nada.
- O vazio é aureola e espaço sacro.
- Convite a sair de si move o ser escondido e a alma com os sentidos.
- Rendição da separação e do ser si mesmo ocorre no umbral.
- Contemplação e esquecimento do cuidado nomeiam o acontecimento.
- A beleza tende à esfericidade e, por ser manifestação sensível de unidade, desperta na mirada o desejo de abarcar o todo ao mesmo tempo, contrariando a inclinação da inteligência a prender-se a isto ou aquilo e sobretudo às relações, pois o que é considerado desinteressadamente mostra a unidade, e a beleza, ainda quando a inteligência nela discerne elementos, relações e números, oferece-se ao aparecer como unidade sensível, levando a mente a assimilar-se a ela e o coração a bebê-la num só respiro como cálice anelado e encanto.
- Esfericidade é apresentada como tendência do belo.
- Unidade sensível é pressuposto da inteligência.
- Relações são apontadas como foco de desprendimento.
- Discernimento de elementos e números é posterior ao aparecer unitário.
- Assimilação mental e sorver do coração figuram a contemplação.
- A beleza manifesta a unidade que procede do um e, ao mesmo tempo, se abre como flor que expõe seu cálice e um centro iluminado que comunica com o abismo, de modo que uma única flor erguida no prado, apenas inteiramente aberta, convida a inclinar-se sobre o cálice violáceo ou branco e expõe ao rapto, risco figurado em Coré dos mistérios sagrados, onde a jovem inocente, ao mirar o cálice, encontra o reclamo do abismo e sua abertura, bastando o próprio abismo no centro do belo para abismar-se sem necessidade do carro do deus dos ínferos, e permanecendo a esperança como espera de que o abismo do um se eleve por inteiro para que Deméter Alma não volte a vestir luto.
- O um é indicado como origem da unidade.
- Flor e cálice figuram centro e abertura.
- Abismo é descrito como comunicação do centro.
- Coré é nomeada como figura do rapto.
- Deus dos ínferos é mencionado como não necessário ao abismar-se.
- Esperança é formulada como elevação total do abismo do um.
- Deméter Alma é nomeada na imagem do luto.
- A angústia sobrevém quando o centro se perde e ser e vida se separam, ficando a vida privada do ser e o ser imobilizado sem vida e sem morrer, pois morrer requer estar vivo e ser vivente para o trânsito, e nessa perda o ser, sem referência ao centro, jaz absoluto por separado, solitário e sem nome, ignorante e inacessível, pior que um algo, despojo de um alguém, afundando sem descer nem mover-se e resistindo à disgregação, enquanto a vida se derrama do ser descentrado sem encontrar lugar que a acolha, convertendo-se em angústia do jovem, do adolescente e ainda da criança que vaga com um tempo inabitável e inconsumível, tendendo a retornar à avidez colonizadora e a espalhar-se e afogar-se como água sem margens até encontrar, se a encontra, a pedra.
- Separação ser-vida define a perda do centro.
- Morte é vinculada à vida e ao trânsito vivente.
- Ser descentrado é descrito como absoluto apartado e sem nome.
- Vida sem abrigo é vitalidade entregue a si.
- Tempo inabitável aparece como marca da vagância juvenil.
- Avidez colonizadora reaparece como regressão.
- Pedra figura o ponto de contenção.
- Reagir na angústia ou diante dela configura o inferno, e a quietude sob ela é indispensável, não como retirada, mas como permanência no sofrer, pois nesse padecer o ser desperta e chama a vida, e quando a vida volta a recolher-se instaura-se uma diferença de nível para não ficar submerso pelo ímpeto vital, passando-se de estar sem lugar a ser dono dele por um alçar embriagante, e de ficar sem vida a ficar só com uma vida parcial que retorna por docilidade de serva.
- Kierkegaard é nomeado como autoridade de mártir e mestre.
- Quietude é definida como não sair do padecer.
- Despertar do ser ocorre no sofrer.
- Diferença de nível evita submersão no ímpeto vital.
- Vida parcial retorna como docilidade.
- A vida se comporta como serva dócil à invocação e à chamada do que aparece como dono, necessitando de dono e de ser de alguém para alcançar a realidade que lhe falta, e é dessa conjunção instável entre ser e vida que surge a realidade do próprio ser humano e a realidade de que necessita diante de si, fixando-se então, antes da separação terrestre conhecida e sofrida, uma realidade estranha do sujeito, na qual o ser adquire realidade própria pela vida e graças a ela, ao passo que a vida pode retirar-se após cumprir sua finalidade, deixando algo de essência germinante não captável, apenas reconhecível no sentir iluminante que é conhecimento imediato sem mediação, conhecimento puro nascido na intimidade do ser que o abre e o transcende, como diálogo silencioso da alma consigo mesma em busca de tornar-se palavra única, indizível e liberada da linguagem.
- Servidão dócil é vinculada à invocação e à chamada.
- Realidade é atribuída à conjunção ser-vida.
- Realidade do sujeito é dita estranha e fixada antes da situação terrestre.
- Retirada da vida ocorre sem avidez sobrante.
- Essência germinante é deixada como resto não ideal.
- Sentir iluminante é definido como conhecimento imediato.
- Diálogo silencioso da alma consigo mesma é nomeado.
- Palavra única, indizível e fora da linguagem é almejada.
- O centro de si costuma ser tomado como situado dentro da pessoa, evitando o exame do movimento íntimo, mas o movimento mais íntimo é o do próprio centro, mesmo quando o viver é entendido como exigência de transformação interior.
- Localização interior do centro funciona como evasão do movimento.
- Movimento íntimo é identificado com o centro.
- Transformação interior é mantida como horizonte do viver.
- A virtude do centro é atrair e recolher o disperso ao redor, o que se liga ao fato de o centro ser sempre imóvel.
- Atração e recolhimento definem a função centrípeta.
- Imobilidade é apresentada como traço constante do centro.
- O centro último deve ser imóvel, mas no homem, criatura subordinada, o centro deve ser quieto e não imóvel, pois a quietude permite que o centro se mova a seu modo segundo sua natureza incalculável.
- Imobilidade é reservada ao centro último.
- Quietude é distinta de imobilidade.
- Movimento próprio do centro humano é permitido pela quietude.
- Natureza incalculável é atribuída ao modo desse movimento.
- Nenhum ato humano se dá sem seguir uma escala ascensional com ameaça de queda raramente evitada por inteiro, e ainda que haja certa continuidade, há períodos decisivos, etapas e detensões.
- Escala é caracterizada como ascensional.
- Queda é descrita como ameaça constante.
- Etapas e detensões marcam períodos decisivos.
- Na primeira etapa da escala ascendente da pessoa, o centro do ser humano atua segundo o sentir originário e a ideia de centro como antes de tudo imóvel, dotado de poder de atração e ordenação, foco invisível de condensação.
- Sentir originário orienta a atuação do centro.
- Atração e ordenação são poderes atribuídos ao centro.
- Condensação invisível é imagem do foco central.
- A etapa seguinte começa com transformação que faz sentir a necessidade e a capacidade do centro de mover-se e transmigrar de um lugar a um ponto novo, instaurando a etapa da quietude em que o centro não está imóvel, mas quieto, e o entorno começa a entrar em quietude, consumando-se transformação decisiva e iniciando-se uma Vita nova.
- Transformação é condição de passagem de etapa.
- Movimento e transmigração do centro são afirmados.
- Quietude do centro contagia o entorno.
- Vita nova é nomeada como início do novo regime.
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