1.1 Flutuações semânticas
WUNENBURGER, Jean-Jacques. La Philosophie des images. Paris: PUF, 1997.
1. A palavra imagem, embora imediatamente compreensível, encerra uma profunda equivocidade semântica cujas origens remontam ao vocabulário grego e latino e às raízes indo-europeias, a começar pela noção central de eikon, ligada à raiz da semelhança, que desde Homero designa uma representação visual que reproduz com semelhança uma realidade, aplicando-se tanto a representações mentais quanto materiais e originando ainda um grupo semântico intelectual e moral em torno da ideia de conformidade normativa.
2. Ao lado de eikon figuram termos de outras origens, como eidolon, derivado de eidos e da raiz do ver, ligado à irrealidade do reflexo e à mentira e próximo de phantasma, visão, sonho ou fantasma, além de idea, morphè, skhèma e typos, de modo que a imagem aparece como forma visível referida a uma experiência passada, presente ou futura.
3. Os termos latinos, diferentes em origem e formação, reproduzem as mesmas redes de sentido, pois imago abrange todos os sentidos de imagem até o menos real, aproximando-se então de species e simulacrum, traduções de eidolon opostas a res, a realidade, e associando-se frequentemente a forma e figura.
4. Desde a Antiguidade o mesmo léxico foi reutilizado para designar formações linguísticas de conteúdo concreto, constituindo o vocabulário retórico da imagem literária como apresentação sensível, comparação e metáfora, com eikon presente na língua literária desde Aristófanes e associada à metaphora por Aristóteles, enquanto o latim mantém um vocabulário pouco sistemático em que imagem, metáfora, alegoria e enigma se reduzem ao procedimento de dizer uma coisa para significar outra.
5. O francês privilegiou o latim imago, reservando as transposições de eikon, eidolon e phantasma para usos especializados, de modo que imagem funciona como termo genérico para um conjunto de espécies formadas a partir de outras raízes, como signo, símbolo, alegoria, metáfora, emblema, arquétipo, esquema, diagrama, figura e mapa, ou modos de encarnação como vestígio, traço, efígie, retrato, selo e marca.
6. A imagem oscila assim entre a ideia de forma visível, como a imago latina enquanto forma, figura e corpo, e a ideia de conteúdo irreal e fictício, produção do que não é, caso em que deixa de ser emanação do real objetivo para tornar-se produto de uma atividade imaginativa que engendra aparências em relação ao real.
7. Essa equivocidade e plasticidade do campo semântico da imagem abre caminho a usos filosóficos de definição e compreensão muito variáveis conforme a extensão atribuída ao termo, dos quais se distinguem três tipos possíveis.
8. Num primeiro sentido, a imagem é uma representação sensível que engloba todas as impressões perceptivas e todos os conteúdos da intuição sensível, para além da mera presença bruta das coisas, uso corrente nas teorias da percepção desde os estoicos, para quem a phantasia só é imaginária quando posta na ausência de objeto representado, até a psicologia experimental, chegando em Bergson a estender-se ao próprio real, em que coisa e representação participam de uma mesma natureza.
9. No extremo oposto, sobretudo na tradição empirista que deriva da experiência todos os conteúdos intelectuais, a imagem estende-se às representações mais abstratas das ideias, tornando imagem e ideia intercambiáveis no século XVIII, pois nenhuma representação estaria despojada de elementos sensíveis, bastando hierarquizar impressões primeiras e ideias reflexivas segundas.
10. Entre esses dois usos, a imagem pode restringir-se à representação percebida que perdura na ausência da intuição e é fixada pela memória ou deformada pela imaginação, situando-se como meio-termo entre a percepção, contato efetivo com uma realidade presente, e o conceito, fonte destemporalizada de informação pura, posição próxima da psicologia cognitiva contemporânea, que a define como modalidade de representação mental que conserva a informação perceptiva com elevada similitude estrutural com a percepção.
11. Garantir a identidade do termo imagem num espectro tão amplo exige evitar tanto o empobrecimento que funde todas as representações nessa única categoria quanto a restrição às ficções irreais e enganosas, e essa flutuação do vocabulário constitui talvez o ponto de partida da reflexão filosófica, pois pensar a imagem é pensar a natureza do sensível e do inteligível e suas relações, reconhecendo que a imagem substitui a coisa e assinala sua distância ou ausência, o que permite associá-la ao irreal em sentido relativo ou absoluto, sem que se renuncie, no outro extremo, a conteúdos puramente intelectuais desprovidos de caráter imagético, como o quiliógono cartesiano.
12. Através desses diversos usos destaca-se uma orientação de sentido que liga a imagem a uma representação mediata e mista, capaz de relacionar e opor a realidade objetiva dada na intuição sensível e o núcleo de informação abstrata do conceito ou da ideia, cabendo explorar essa entidade compósita e mediana de bordas imprecisas antes de examinar o vocabulário especializado de suas múltiplas espécies, provenientes de disciplinas que frequentemente se ignoram, como linguística, retórica, teorias do conhecimento, metafísica, teologia, história da arte, psicologia, psicanálise e sociologia.
