2 Os Limites da Linguagem Lógica
FINCH, Henry L. Wittgenstein. Boston: Element Books, 1995.
1. O livro Tractatus Logico-Philosophicus, de Wittgenstein, amplamente analisado há mais de meio século, suscita incerteza até mesmo sobre seu conceito metafísico central, o termo objeto.
2. A obra investiga qual é a natureza essencial do mundo pressuposta por uma linguagem puramente lógica, completando a lógica com seu equivalente ontológico necessário e revelando o mundo reduzido ao seu núcleo abstrato mínimo.
3. O mundo assim concebido é composto apenas de fatos, permanecendo todos os valores e a ética fora dele.
4. Para chegar a essa concepção do significado da linguagem por meio de sua essência lógica mais abstrata, Wittgenstein enfrenta temas subsidiários que o conduzem aos limites da linguagem lógico-factual e apontam para o que ela não pode dizer.
5. O que a linguagem e o mundo têm em comum para que a linguagem possa espelhar o mundo não pode ser dito nem representado, apenas mostrado pela identidade das estruturas, e o que é imanente à linguagem não pode ser referido por ela, pois não há metalinguagens.
6. Tais restrições aplicam-se à própria linguagem “metafísica” de Wittgenstein, pois a linguagem que descreve fatos não pode descrever a si mesma, e uma imagem de uma imagem continua sendo apenas uma imagem, de modo que uma lógica puramente imanente derrota a metafísica, ao contrário da abordagem de Russell.
7. Uma transcendência genuína pertence à ética, à estética e ao sentido do mundo, todos situados fora do mundo, sendo este o que é verdadeiramente sobrenatural ou superfactual.
8. O sentido do mundo deve estar fora do mundo, onde tudo é como é e nada tem valor, tornando impossível haver proposições de ética, pois proposições nada podem expressar de superior.
9. A ética não pode ser posta em palavras e é transcendental, sendo idêntica à estética.
10. Wittgenstein escreveu a Ludwig von Ficker que a única maneira de “falar sobre” a ética era delimitar claramente toda a área dos fatos e então apontar para o que falta e não pode ser falado, o dever ou o ético, o que ele afirmou ter feito em seu livro.
11. O livro traça os limites da esfera ética por dentro, e a palavra-chave é rigor, pois a filosofia inicial de Wittgenstein fez um deus do rigor ou da exatidão, embora mesmo após a renúncia a esse deus o ético conservasse caráter transcendente ou sobrenatural.
12. O que é bom é também divino, e apenas algo sobrenatural pode expressar o Sobrenatural, resumindo assim sua ética.
13. A obrigação prática, mais do que a oração e a contemplação, tem a mais alta sanção, e a religião conecta-se diretamente à ética sem passar pelo natural ou pelo metafísico.
14. Apenas a natureza deve falar, reconhecendo-se uma única coisa superior à natureza, que não é o poder ou a autoridade, mas a fonte da obrigação humana ou o Bem.
15. Os temas mais radicais e difíceis do Tractatus concernem à “verdade do solipsismo” e ao “desaparecimento do eu pensante”, que são parte essencial do ensinamento de Wittgenstein e têm relação direta com o que, posteriormente transformado, mais o aproxima do futuro.
16. Antes de compreender essas ideias é preciso retroceder à visão estritamente estrutural e formalista da linguagem, na qual a experiência direta e imediata do conteúdo do mundo no momento presente não pode entrar na linguagem nem ser referida, sendo verdadeiramente indizível.
17. O exemplo da cor vermelha mostra que nem mesmo tornar a palavra vermelho vermelha ajuda, pois exibir a cor não diz o que se gostaria de dizer ao apontar para o que se vê no momento.
18. Esses são os movimentos introdutórios de uma busca filosófica em que cada volta encontra o que parece uma parede cega num labirinto, algo que se tenta dizer e que não pode estar inteiramente errado nem inteiramente certo.
19. Trata-se da posição do solipsismo, resumida em afirmações curiosas como a de que só se experiencia o vermelho e toda experiência imediata porque nunca se experiencia a do outro, restando apenas o próprio campo de consciência no momento presente.
20. Muitas outras questões surgem, como o que o pintor Barnett Newman tentava dizer ao pintar uma superfície inteiramente vermelha, comparável a um grito que aponta para o que não se pode dizer nem referir, mas também não se pode negar, ignorar ou traduzir.
21. É um paradoxo estranho que o mundo aparentemente mais comum, público e acessível, o da experiência imediata, seja o mais privado, isolado e inacessível, e é isso que o vermelho de Newman significa e que a filosofia de Wittgenstein tentou esclarecer.
A Mosca na Garrafa
1. A “verdade do solipsismo”, se pudesse ser enunciada, teria de sê-lo “de fora da própria consciência”, mas ninguém pode sair de sua experiência imediata, que não tem exterior, tornando impossível dizer o que se tenta expressar com fórmulas como “meu mundo é todo o mundo que existe”.
2. O que está inextricavelmente ligado à experiência em primeira pessoa é o momento presente, no qual toda experiência ocorre, mas a linguagem se desenrola no tempo e, antes do fim da sentença, a imediatez se esvai ou é substituída por outra.
3. Todas as dificuldades ligadas à situação solipsística da primeira pessoa reaparecem em conexão com o status único do momento presente, que parece incomensuravelmente real enquanto o passado e o futuro não o são, sendo confuso dizer que ele foge por não parecer pertencer ao tempo.
4. Cabe notar que este é outro ponto em que as órbitas de Heidegger e Wittgenstein se aproximam, pois Heidegger também se ocupou centralmente do “mistério do presentar” e acabou por identificar o Ser com o presentar.
5. O tema do solipsismo é discutido longamente no Blue Book e o do presente em Philosophical Remarks, sendo talvez a discussão mais esclarecedora a das “Notes for Lectures on 'Private Experience' and 'Sense Data'”.
6. A importância desse tema não pode ser exagerada, pois ele se liga intimamente ao pensamento de Wittgenstein sobre o sujeito e o eu e, mais tarde, sobre os processos mentais e a impossibilidade de uma linguagem metafisicamente privada.
7. Tudo isso se insere numa das mais profundas mudanças realizadas pela filosofia de Wittgenstein: o esvaziamento do “mundo interior” como lócus principal da experiência mais valiosa, não em favor de um behaviorismo reducionista, mas de uma integração muito maior entre alma e corpo e entre corpo e mundo.
8. O passo inicial nessa direção foi a tentativa de “mostrar à mosca a saída da garrafa”, libertando o sujeito solipsista, totalmente privado, do cartesianismo moderno e do capitalismo calvinista, do aprisionamento no ser humano.
9. Esse sujeito solitário, isolado e temeroso esteve no centro da filosofia ocidental desde Descartes como contrapeso ao universo matemático objetivado, e o trabalho de Wittgenstein consistiu em levar essa concepção ao extremo lógico e então reorganizar toda a geografia.
10. Ao apreender que o que o solipsista quer dizer é inteiramente correto, apenas não pode ser dito e sim se manifesta, e que o mundo é meu mundo e eu sou meu mundo, vê-se que o sujeito pode ser identificado por seu mundo sem precisar de qualquer “conteúdo” especial próprio.
11. Nesse ponto Wittgenstein pode afirmar, em rejeição frontal a Descartes e a toda a base egológica da filosofia moderna, que não existe algo como o sujeito que pensa ou tem ideias.
12. Segue-se que o solipsismo, quando suas implicações são levadas estritamente a cabo, coincide com o realismo puro, e o eu do solipsismo encolhe-se a um ponto sem extensão, restando a realidade coordenada a ele.
13. O eu filosófico não é o ser humano, nem o corpo ou a alma de que trata a psicologia, mas o sujeito metafísico, o limite do mundo, não uma parte dele.
14. Aqui, na linguagem do zen-budismo, o ganso está fora da garrafa, mas não totalmente, pois resta o ponto metafísico, que não pode ter identidade pessoal nem, portanto, apegos, desejos ou angústias, sob pena de o eu desaparecer.
15. Também aqui desaparece a fonte ou base subjetiva do pensar, que ocorre sem ser “feito” por um agente ou por um eu metafísico privado e trancado, sendo parte do mundo factual, como a alma e o corpo, ou então uma ilusão.
16. A concepção wittgensteiniana de um pensar sem agente deixa-nos não com o Cogito ergo sum cartesiano, mas com o pensar ocorre, logo eu não sou.
17. Wittgenstein distingue agudamente o pensar, que não precisa de sujeito ou agente, do querer, como mover o próprio corpo, que envolve agência, e se o significado essencial do pensar é figurar, começa-se a ver o que ele tem em mente.
18. Essa doutrina deixa-nos inquietos, e a inquietação talvez gire em torno do próprio exemplo de pensar de Wittgenstein.
19. O método filosófico de Wittgenstein sempre pareceu envolver um perguntar e responder interior, dificultando entender por que não viu ao menos nesse questionamento um ato de vontade, embora pudesse responder que as perguntas também “lhe vinham” e não eram estritamente obra sua.
20. Mesmo admitindo isso, parece que “dirigir a atenção” está ao menos em parte sob controle próprio, e isso é parte do pensar, tema a que se retornará ao examinar a gramática da palavra pensar.
21. É claro o bastante que a discussão de Wittgenstein sobre o solipsismo, comparável em tenacidade implacável apenas à de Samuel Beckett sobre a identidade pessoal em The Unnamable, é uma das mais profundas abordagens do problema do eu na literatura filosófica, oriental ou ocidental.
22. Pode-se compará-la ao pensamento do filósofo de orientação budista Arthur Schopenhauer, mais legível, porém muito menos profundo e abrangente, que foi a primeira leitura filosófica de Wittgenstein e possivelmente sua introdução ao tema do solipsismo.
23. A obra principal de Schopenhauer começa com a notória frase “O mundo é minha ideia”, e sua ingenuidade filosófica em parar aí e erigir todo o sistema sobre isso deve ter deixado Wittgenstein um tanto estarrecido.
24. A próxima frase deveria ter sido “a quem você está dizendo isso, então, e como poderiam eles, não sendo você, possivelmente entendê-lo?”, e com esses acréscimos a confusão está instalada.
25. Wittgenstein sugere, talvez meio humoristicamente e sem aplicar suas palavras a Schopenhauer, que se poderia “aceitar essa notação” e concordar que o mundo é o mundo de Schopenhauer sem que cada um faça a mesma reivindicação para si, o que seria tão absurdo quanto Schopenhauer.
26. Mas o que se ganharia com isso, senão contemporizar com o filósofo, num quadro em que a filosofia está cheia de insultos ao senso comum e este é apenas um dos mais ultrajantes.
27. O que faz de Wittgenstein um grande filósofo é que ele realmente tenta agarrar a urtiga, com ferroadas e tudo, e segurá-la por anos, buscando descobrir o que levou Schopenhauer a dizer tal coisa e como isso poderia reconciliar-se com o senso comum.
28. Que o problema seja, em última análise, o da “mosca na garrafa”, ou seja, libertar o eu humano de sua prisão autoimposta, torna-o não apenas filosófico, mas também religioso e civilizacional.
29. Que Wittgenstein tenha finalmente sido bem-sucedido nessa solução será visto na Parte II deste livro.
