Ser de seu tempo
VIEILLARD-BARON, Jean-Louis. L’Illusion historique et l’espérance céleste. Paris: Berg, 1981.
«Ser de seu tempo» e «ir ao mundo»
1. A insatisfação diante do presente engendra duas atitudes diametralmente opostas mas simetricamente ilusórias diante da condição temporal do homem, a nostalgia de valores estáveis projetados num passado imutável e a fuga para diante, frenesi de novidade sempre renovada erigida em sistema, ainda que um julgamento mais refletido revele o avant-gardismo como superficial e escravo das modas tanto quanto o conservadorismo é preso à inércia.
2. Tanto o vanguardista quanto o reacionário partilham da mesma ilusão sobre a condição temporal do homem, pois o primeiro vagabundeia sem memória nem bagagem, condenado à errância e à superficialidade, enquanto o segundo repete o passado acreditando revivê-lo sem nele abrir caminho algum, sendo ambos a nulidade de quem crê poder escapar de sua própria temporalidade.
3. A fragilidade humana consiste em ser feita dessa temporalidade, indissoluvelmente élan e inércia, sendo o verdadeiro élan aquele que vem das profundezas e irrompe subitamente, e não o pequeno élan cotidiano que apenas busca estar em dia, ainda que seja inevitável que esse élan se solidifique em obras cuja tomada por referências definitivas acaba por desnaturá-las.
4. Quem disse que Platão está superado, senão aquele que, vindo depois dele, acreditou possuir por isso algum privilégio, quando o próprio Platão, no Teeteto, já colocara exatamente o problema dessa dupla ilusão, rejeitando de um lado os partidários do mobilismo extremo, homens do fluxo perpétuo incapazes de qualquer juízo estável, e reconhecendo de outro a doutrina oposta dos homens do repouso universal, Melisso e Parmênides.
5. Transpondo essa oposição para a época moderna, os primeiros correspondem à ideologia do progresso e os segundos à ideologia conservadora, precisadas ao final do século XVIII respectivamente pelo Esboço de Condorcet, elogio dos progressos futuros do espírito humano, e pelas Reflexões sobre a Revolução da França de Burke, para quem o direito escapa à história e a estabilidade natural funda a nostalgia imobilista.
6. Burke e Condorcet compartilham a frieza da racionalidade aplicada à história, participando ambos da ideologia que suscitou Robespierre, cuja cabeça a própria história cortou como vingança do irracional sobre a razão erigida em Terror, sendo Fichte quem melhor descreveu o conflito histórico entre razão e irracionalidade, acreditando na perfectibilidade indefinida do homem antes de, orientando-se ao suprassensível, adotar uma atitude de resignação.
7. Sem fazer aqui a genealogia do mito do progresso no século XIX, cabe notar que essa ideia de uma história orientada positivamente combinou-se, em Hegel e em Victor Hugo, com uma metafísica gnóstica em que o progresso histórico é metáfora da ascensão vertical da alma, ainda que a consciência culta seja tão vítima da ilusão progressista quanto a consciência ingênua, como mostram a pílula anticoncepcional e a miniaturização eletrônica.
8. O problema do progresso nas ciências foi mal colocado por pressupor sempre seu valor positivo, mas não se pode falar de progresso histórico em arte ou filosofia, pois Rodin não é superior a Praxíteles nem Racine a Sófocles, sendo significativo que, antes de Winckelmann, a estética se dominasse pela ideia da superioridade insuperável dos Antigos.
9. A ilusão da consciência esclarecida provém do progresso científico que contagia todos os setores, traduzindo-se no medo de ser ultrapassado e na disposição a todo abandono e inautenticidade em nome de estar na moda, ao passo que a verdadeira via da individualização, oposta tanto à moral impessoal quanto ao fatalismo historicizante, é a única capaz de tornar cada um verdadeiramente si mesmo.
10. É preciso certa ingenuidade para ser simplesmente si mesmo, crendo no puro amor que Fénelon atribui ao gnóstico comentando Clemente de Alexandria, amor que exclui esperança interesseira e temor e que, na surabundância mesmo da pobreza total, opera a extinção universal de todo desejo, mesmo espiritual.
11. Rilke experimentou profundamente essa simplicidade inspirada em suas cartas a Magda von Hattinberg, recusando-se por isso à psicanálise de Freud por temer que traquear seu caos, que era Deus e ninguém mais, destruísse o segredo interior que suscita as forças criadoras.
12. Oração e Poesia restabelecem em nós a dimensão vertical, dissipando a ilusão histórica ao reencontrar a simplicidade de uma individualidade que se individualiza cada vez mais e respeita assim o Absoluto em vez de apenas querer estar na moda e seguir seu tempo.
13. A oração, diz Rilke, é irradiação do nosso ser subitamente incendiado, direção infinita e sem meta, e não avareza espiritual que exige garantias de Deus antes de rezar, ecoando a advertência de Malraux de que o século será religioso ou não será, diante da alternativa entre a catástrofe da frenesi técnica e o retorno à busca da unidade simples da alma com o Absoluto.
14. Bergson, em As duas fontes da moral e da religião, buscou revivificar o élan da alma contra a pseudo-ideia de fatalidade histórica, mostrando que só a mística vence a história e que a humanidade precisaria simplificar sua existência com a mesma frenesi com que a complicou para merecer possuir uma alma, simplicidade que Jankélévitch louvou na nesciência-de-si de Fénelon e Angelus Silesius.
15. O discurso sobre a alma refugiou-se hoje na poesia, na estética e na psicologia analítica junguiana, mas permanece frágil, pois, como diz Claudel, a alma se cala assim que o espírito a observa, de modo que uma psicologia sem alma se torna pseudociência escrava da ilusão histórica, enquanto libertar a alma é também aceitar enfim a feminilidade e seus valores.
16. O discurso da alma é, contudo, malgrado diante das ideologias historicizantes, sobretudo na assimilação entre materialismo dialético e materialismo histórico que reduz toda verdade à sua época e justifica tudo o que ocorre na história, abolindo assim toda valor transcendente, o que se examina através de dois exemplos, o belo e o mal.
17. O belo, apesar da inegável diversidade histórica e cultural dos critérios estéticos, não é puramente relativo, pois as condições históricas explicam tudo da arte exceto a própria arte, sendo antes valor subjetivo, espiritual e absoluto, como Hegel reconheceu ao admirar as estátuas gregas para além do culto religioso que as suscitou, e como Malraux e Marcuse sublinharam ao situar a experiência estética na dimensão vertical da alma.
18. O mal, sobretudo o mal irremissível cometido em plena consciência, não é relativo, e nenhuma dialética histórica pode dissolver crimes como os campos nazistas ou o extermínio cambojano, sendo o mal e o amor duas realidades absolutamente opostas cuja vitória só transcendentalmente se dá pelo Deus sofredor, permanecendo o combate entre ambos, segundo Jankélévitch, uma agonia que durará enquanto durar o mundo.
19. As ideologias historicistas reduzem os valores a simples produtos das condições sócio-históricas, e mesmo reconhecendo o que o marxismo trouxe de esperança social, sua confusão de linguagens, que Ernst Bloch tentou resgatar filosoficamente, faz dele uma pseudorreligião que retoma o esquema linear do povo eleito, fazendo do proletariado uma imagem social da imaculada conceição.
20. O último refúgio da ideologia, esvaziado o marxismo, é a suposição de que dispositivos de poder animam todo discurso, leitura que constitui mera petição de princípio tão limitada quanto uma leitura puramente filológica, sendo o verdadeiro problema a instrumentalização do saber especializado por um poder político, como mostram os exemplos opostos de Wagner explorado pela barbárie e Hugo servindo à causa democrática.
21. Se a reflexão filosófica existe verdadeiramente, ela é livre e libertadora, opondo-se ao dogmatismo ideológico que hoje serve de ersatz religioso às novas gerações, dogmatismo do qual nem a própria reflexão filosófica está imune, como mostra o exemplo de Jacques Lacan e sua necessidade de fundar escola em torno de uma verdade possuída como diamante raro.
22. Como bem diz Habermas, a força libertadora da reflexão não pode ser substituída por um simples desdobramento de saber tecnicamente utilizável, o que os recentes problemas médicos da eutanásia e do aborto evidenciam, exigindo do médico que saia da órbita imperialista da técnica para enfrentar a reflexão libertadora que sozinha permite controlar o poder que a técnica confere.
23. Na ideologia, a necessidade histórica e o exercício do poder pelas ideias formam casal legítimo que a reflexão filosófica refuta inteiramente, testemunho do qual dá a própria arte, livre mesmo quando o artista adota doutrinas ideológicas, como provam Courbet, cujo realismo é ideológico mas cuja arte é grande arte, e Zola, cujo positivismo não sufoca o sopro épico que faz de Germinal obra imortal.
24. Contra a crítica de Huysmans ao naturalismo por confinar-se nas lavanderias da carne e negar o suprassensível, quase um século depois é fácil reconhecer que a sobrevivência da obra de Zola testemunha o triunfo do Espírito sobre o materialismo na arte, pois só sobrevive da arte o que não é ideológico, ao passo que uma teoria da arte pode ser vítima da ilusão histórica, mas a arte mesma jamais o é.
