Ilusão
VIEILLARD-BARON, Jean-Louis. L’Illusion historique et l’espérance céleste. Paris: Berg, 1981.
1. Nem tudo se decide para o homem no campo histórico, e o evento da alma conta mais que o evento político ou jornalístico, mas isso não nos livra da história, pois nosso enraizamento histórico não cede lugar à visada suprassensível, podendo apenas coexistir com ela, o que explica por que a ilusão histórica sobrevive à sua própria denúncia, à maneira das ilusões perceptivas como a do bastão quebrado na água.
2. A filosofia da história renasce perpetuamente de suas cinzas porque se funda na necessidade que a consciência sente de situar-se no campo histórico, respondendo à tríplice pergunta de Gauguin, ainda que frequentemente busquemos o que somos através do sentido da história e não do sentido do Espírito, sendo a angústia diante da instabilidade temporal o que move essa busca de inteligibilidade histórica.
3. É a própria estrutura do instante, transitório tanto horizontal quanto verticalmente, que reclama a grande visão histórica, panorama que capta o instante em proveito de grandes massas de tempo sobrevoadas, respondendo ao duplo desejo humano de segurança, que exige uma origem estável, e de esperança, que exige saber para onde vai o tempo.
4. Sendo a necessidade da filosofia da história inscrita no próprio coração do homem, a ilusão histórica é indesarraigável, como mostram Soljenítsin e Tolstói, para quem a verdade histórica escapa à visão do evento, sendo antes a integral de milhões de vontades individuais, paradoxo pelo qual a existência mais subjetiva coincide com a verdade mais profunda da história, o que Soljenítsin realizou publicando Um dia na vida de Ivan Deníssovitch contra toda filosofia coletivista da história.
5. Se a ilusão histórica é indesarraigável, é porque no homem se jogam simultaneamente as duas dimensões, horizontal e vertical, mesmo no ser mais místico, e Henri Meschonnic bem viu que o Sagrado é o inimigo mais irredutível do estritamente histórico, sendo a interioridade humana o lugar de confronto entre história e sagrado.
6. Existe, contudo, um meio de elevar o histórico acima do nível do evento superficial, o símbolo, pois uma verdadeira filosofia da história é simbólica, elevando os fatos históricos ao nível do sagrado, distinguindo-se o sentido alegórico, trans-histórico, próprio da exegese medieval, do sentido propriamente simbólico, supra-histórico, como no Apocalipse de São João.
7. Situada a reflexão no nível da cultura e da civilização, situamo-nos de imediato numa visão trans-histórica do mundo, como mostra o exemplo do diálogo entre Oriente e Ocidente, diálogo impossível numa visão pontilhista mas possível a partir de uma universalidade trans-histórica do Espírito humano, universalidade de diálogo e não de uniformidade, como Malraux compreendeu ao confrontar pela fotografia obras de civilizações diversas.
8. Victor Hugo elaborou uma filosofia simbólica da história, e André Malraux uma filosofia alegórica, sendo para este último a obra de arte o que escapa à morte através da metamorfose simbólica, resistência biológica da humanidade inteira contra o néant, cujo maior mistério é que tiremos de nós mesmos imagens suficientemente poderosas para negar nosso nada, como no exemplo da ponte de Lieou-Tong narrado nas Antimemórias.
9. Duas verdades fundamentais operam nessas imagens poderosas, a grandeza da emoção, que Goethe soube exprimir no segundo Fausto, e a liberdade diante do nada, que Bergson exprimiu ao afirmar que não há obstáculo que vontades suficientemente tensas não possam romper, sendo por essas duas vias que a história encontra sua verdade trans-histórica.
10. Em Victor Hugo a visão da história é ao mesmo tempo trans-histórica e supra-histórica, esta última presente nas grandes obras inacabadas de gênio gnóstico que são Deus e O fim de Satã, aquela expressa n'A Lenda dos séculos, onde a história é vista como muro ao qual cada um traz sua pedra, e não como fluxo que tudo arrasta, obra de memória universal e sagrada onde a alma humana se exprime plenamente por estar ligada ao universo mais que ao indivíduo.
11. A arte pode testemunhar, diz Hugo, a universalidade do Espírito, como o mostra a longa fresca poética As sete maravilhas do mundo, em que o templo de Éfeso manifesta a grandeza heroica da criação humana contra o verme da terra, símbolo da morte, respondendo o poeta que a vida incorruptível, espiritual, escapa à fronteira do tempo destrutivo.
12. É pela visão trans-histórica e supra-histórica que a filosofia pode elevar a história ao nível suprassensível, e ao criticar a filosofia hegeliana da história, Schopenhauer engana-se quanto ao seu sentido verdadeiro, pois Hegel sempre distinguiu história e verdade, buscando extirpar da história sua verdade trans-histórica, ao contrário da repetição cíclica que Schopenhauer nela via.
13. Os conceitos de cultura e civilização ajudam a compreender essa verdade trans-histórica, mas depois de duas guerras mundiais impõe-se a evidência de que cultura não é o inverso da barbárie, como George Steiner mostrou ao lembrar que a mais perfeita leitura da poesia de Hölderlin nasceu ao alcance da voz de um campo de extermínio.
14. Para Hegel o essencial da história era a história da filosofia, movimento do Logos absoluto, ao passo que a história e a sociedade escapam ao poder da cultura, sendo a República de Platão utopia que exprime, contudo, a realidade mais profunda da cidade grega, e não o jogo político efêmero, o que é irreal.
15. Vivemos hoje relações entre cultura e sociedade que George Steiner chama falseadas ou paradoxais, marcando uma após-cultura, ou antes uma não-civilização, pois uma verdadeira civilização se define pela conjunção improvável entre poder e cultura, como nos séculos de Péricles ou de Luís XIV, ao passo que o declínio de uma civilização se marca pelo divórcio entre sociedade e cultura.
16. Para elevar a vida histórica e social de nosso tempo ao nível simbólico será necessária uma ontologia ao mesmo tempo sociológica e psicológica que ilumine os pressupostos metafísicos dessas disciplinas, ainda vítimas das ilusões cientificistas do século XIX, de modo que a ilusão histórica seja reconhecida e medida pela verdade supra-histórica, constituindo o estudo rigoroso do campo trans-histórico, pois o declínio de uma civilização pertence à história, mas a história pode ser julgada pelo tribunal da cultura, que é trans-histórica, cruzamento de almas do qual nasce sempre uma alma nova.
