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Visão política do mundo

VIEILLARD-BARON, Jean-Louis. L’Illusion historique et l’espérance céleste. Paris: Berg, 1981.

A história ao rés do texto ou a visão política do mundo

1. A filosofia da história assume as aparências da dialética, mas ao fazê-lo desnatura-a, pois enquanto a dialética procede por graus ontológicos, a filosofia da história parte de uma origem e caminha para um fim puramente históricos, sendo assim o exato oposto de uma teologia da história, cujos eventos suprahistóricos põem em relação o tempo e a eternidade, de modo que toda filosofia da história é ao mesmo tempo hipotética e contraditória ao reduzir origem e fim a um sentido meramente fenomenal.

2. Subproduto da civilização ocidental, a filosofia da história gerou por sua vez a invasora visão política do mundo no sentido jornalístico, puramente descontinuísta e fragmentária, sendo o século XX marcado pelo triunfo desse descontinuísmo informático que, ao precisar quantitativamente o tempo, destrói seu valor psíquico e reduz-o a informação sem alma.

3. O culto do evento, fundamento da informação moderna, é precisamente o que Hegel rejeitava com desprezo sob o nome de história ao rés do texto, tendo o século XX, pobre em estadistas mas rico em políticos, deixado essa visão pontilhista invadir o que deveria permanecer a arte de organizar a sociedade.

4. A arte da ocasião, do momento propício, que os gregos chamavam kairos, não passa do preconceito em favor da eficácia a qualquer preço posto a serviço do culto do evento, sendo o político mais vítima do que vitorioso dos mecanismos da informação moderna, que determina a opinião pública através de um objeto fugidio e flutuante que jamais poderá ser inteiramente racionalizado.

5. Não há nada em comum entre a démarche científica e filosófica, que ambas se submetem ao choque do real e podem corrigir seus erros, e os métodos de comunicação da informação, para os quais só conta o sucesso de um dia, sendo o filósofo metafísico, como Platão já dizia ao falar da sinopse, aquele que cava sempre o mesmo sulco sem se preocupar com os ventos da moda.

6. À medida que se desenvolvia o jornalismo e a visão política do mundo, o conhecimento histórico dele se afastava, pois o historiador busca caracterizar civilizações e grandes movimentos, pressupondo que a pessoa humana importa mais que os fatos datados, ao passo que o jornalista e o político só julgam as pessoas em função do evento, alienação suprema que recusa a própria noção de liberdade individual.

7. O evento atomizado do jornalista e do político molda uma consciência sem memória, contradição flagrante pois julgar algo novo exige referência ao antigo, sendo Liszt quem melhor viu, a propósito dos ciganos, essa sensibilidade à mudança incessante cega às grandes regularidades naturais que fundam a continuidade no próprio renovar-se.

8. Poderia parecer que o jornalista apenas praticasse o preceito poético de amar o que jamais se verá duas vezes, mas o efêmero do evento opõe-se radicalmente à novidade do instante verdadeiro, sendo aquele instantâneo e quantitativo enquanto este é qualitativo, ponto no tempo que nasce e morre quase simultaneamente sem causas profundas nem consequências previstas.

9. A busca do imutável não nos faz sair da temporalidade, também condenada ao efêmero, mas o tempo enquanto duração e memória permite ao evento surgir como maturação lenta e secreta, tempo profundo que Paul Valéry evoca na doçura medida pela divina duração, tempo que os virtuoses, longe de recusar estéril o tempo, sabem converter de parcelar em qualitativo, permitindo a cada um reencontrar, ainda que por um instante, sua alma.

10. Um perigo filosófico espreita quem busca ter alma e reconhecê-la no outro, pois tanto a visão política, obcecada pelo poder, quanto a regressão jornalística, presa à superficialidade, esmagam os eventos da alma, achando na ciência atual, que confunde a transmissão biológica com os meios modernos de informação, uma aliança equívoca contra toda atenção a esses eventos.

11. Um ato de amor, um reconhecimento, uma renascença são eventos espirituais que transportam subitamente a alma a nova dimensão, sendo o puro amor gnóstico de Fénelon, desinteressado e voltado inteiramente ao Bem-Amado, o evento da alma por excelência, oposto a toda operação superficial e repetida, pois o fundo da alma é dado por pura graça como estado, e não como ato pontual, abolindo todo atomismo psíquico das teorias das faculdades.

12. O amor humano, vivido sincera e intensamente, apresenta os mesmos caracteres do amor místico descrito por Ibn Arabi, para quem todo amor é, no fundo do fundo, amor de Deus, encontrando-se a alma a si mesma ao encontrar Deus, união simpatética em que ele é ao mesmo tempo o Amante e o Amado.

13. O anjo, a alma e o amor são as três faces de uma mesma realidade chamada aqui evento da alma, evento suprahistórico, pois sem amor não há alma nem anjo e a dialética histórica prevaleceria, devendo-se chamar evento da alma tanto o puro amor de Deus quanto as formas de amor impuro entre seres humanos, no casal, na relação entre pais e filhos, na caridade.

14. Místico ou humano, o Amor nos põe diante do mistério feminino, mistério da Beleza, pois a decepção diante da beleza superficial revela a essência metafísica dessa decepção quando o Feminino se dissocia da mulher concreta, sendo apenas o amor místico capaz de dar a chave da simpatia entre o invisível e o sensível que anima todo amor humano.

15. Que o amor seja um comentário do universo é algo a explicar como interpretação que vai ao coração da realidade, revelando o beijo amoroso a santa lei do mundo assim como o Cântico dos Cânticos comenta esse mesmo beijo como vínculo entre a alma e Deus, comentário que só pode ser feito sob forma de relato, jamais de raciocínio, pois o discurso racionalista repousa sobre a concepção cartesiana do tempo, pura descontinuidade que elimina sistematicamente a duração.

16. O relato é, ao contrário, o modo de expressão de uma continuidade vivida, sendo o evento da alma instante supremo que exprime uma busca contínua, eclosão de processo lentamente amadurecido, como bem descreveu Jankélévitch a fugacidade dessa alegria-relâmpago, ainda que Marcel Proust tenha pensado eternizar simbolicamente tais instantes pela obra de arte e pelo relato de sua vida.

17. A forma do relato onde a alma pode se exprimir foi valorizada por Henry Corbin em seu estudo sobre Avicena, distinguindo-se o relato tanto da história, contada objetivamente, quanto da alegoria, como a da caverna platônica, e do conto, pois no relato uma experiência espiritual é re-citada pela alma na primeira pessoa, reconduzida ao instante bendito de sua origem celeste.

18. O relato espiritual tem sua tradição no Ocidente nos Fioretti de São Francisco e nos escritos de São Francisco de Sales, assim como Sohravardi aplicou a exegese espiritual ao Livro dos Reis persa e Unamuno comentou o Dom Quixote como Livro Sagrado, vendo no heroísmo quixotesco, ridículo aos olhos superficiais, o culto não da morte mas da imortalidade próprio ao povo espanhol.

19. Tal é, portanto, o evento verdadeiro, o instante bendito, que sempre escapará à visão do político e do jornalista, podendo ser visão verdadeira como em Sohravardi ou simples entrevisão da coincidência entre razão e afetividade, cabendo perguntar se essa simplicidade sincera é compatível com a informação objetiva, como sugere a pintura repetida da Montanha Sainte-Victoire por Cézanne.

20. A resposta de fato a essa questão é dada por Soljenítsin, cuja imensa documentação, presente em toda sua obra, integra-se a uma visão profética da história e a um sopro de epopeia, mostrando que a literatura sempre soube testemunhar a miséria humana e superar assim a visão jornalística ou tecnocrática do mundo, como em Victor Hugo o respeito à intimidade se alia à reivindicação de justiça.

21. O Pavilhão dos cancerosos exemplifica essa coincidência entre informação verdadeira e visão espiritual, pois apesar da rigorosa documentação sobre a vida hospitalar soviética, é o final do romance, quando Oleg Kostoglotov sai sem saber que vai morrer, e a súbita visão do damasqueiro em flor, teofania da beleza natural, que revela a verticalidade espiritual da alma do mundo em sua ascensão a Deus.

22. Poder-se-iam encontrar facilmente outros exemplos dessa irrupção do espiritual na obra de Soljenítsin, como o Castelo do Graal em O primeiro círculo, sendo essa intuição suprassensível o que permite ao grande escritor ordenar sua informação, ainda que ela o leve a um maniqueísmo estrito que não cabe censurar, e a denunciar a imprensa ocidental que o salvou justamente por sua superficialidade incapaz de persistência.

23. A informação verdadeira é a dos arquivos da humanidade, e escapa à consciência jornalística e política, podendo apenas ocasionalmente investir o campo da informação distribuída pelos mass media, ainda que sempre com a fugacidade do evento da alma, com a precariedade do instante.

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