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Suassuna (Pedra do Reino) – sentir com as ideias

[…] “olhando em torno e procurando sentir com as ideias aquilo que já pensara com o sangue.” Uma contundente declaração do imediato do sangue e de seu “pensar” e do narrativo das ideias contadas para serem sentidas. E, ainda mais, a fantástica constatação “de que o mundo era um Bicho sarnento e os homens os piolhos e carrapatos chupa-sangue que erram por entre seus pelos pardos, sobre seu couro chagado, escarificado e feridento, marcado de cicatrizes e peladuras, e queimado a fogo lento pelo Sol calcinante e pela ventania abrasadora do Sertão.” « Naquele dia, quando acordei do meu cochilo dormido embaixo da Imburana, fiquei um momento me coçando, olhando em torno e procurando sentir com as ideias aquilo que já pensara com o sangue. Sentia que algo de decisivo me acontecera. Sabia que, por mais que eu tentasse me distrair daí para a frente, eu mesmo estava, como a Onça, sendo calcinado por aquela ventania do Inferno. Tudo aquilo que eu possuía de sangue e de vida, estava, aos poucos, sendo queimado, calcinado, transformado em cinza, em sarna e em pó. Quisesse ou não quisesse, eu tinha nascido da Onça cega e sarnenta do Mundo. Assim, não admirava que meu destino e meu sangue estivessem ligados ao sangue e ao destino dela, daquela Onça que procurava, penosamente, indignamente, se manter de pé, com as quatro patas em cima da terra dura e seca do mundo, exposta à ventania de fogo e cinza quente que a crestava, atraindo-a para o centro do buraco cego de onde era soprada. » [SUASSUNA, Pedra do Reino, Folheto LXXI]

*PS: SUASSUNA, Ariano. O Romance da Pedra do Reino. Rio de Janeiro: José Olympio, 2012.*

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