3.3 Livros
STAROBINSKI, Jean. Montaigne en mouvement. Paris: Gallimard, 1982 (Coleção Bibliothèque des Idées).
“A RELAÇÃO COM OUTREM”
A RECUSA DOS LIVROS, OS EMPRÉSTIMOS, A APROPRIAÇÃO
1. Montaigne conhece o atrativo dos grandes textos e das obras admiráveis, folheia mais do que lê, e é o bastante para se sentir dominado pelos mestres, pois reconhece-se neles mas eles sabem dizer tão melhor o que ele próprio desejaria dizer.
2. Diante de semelhantes predecessores sente sua própria incapacidade, e ao reconhecer-se tão fraco e insignificante tem piedade de si mesmo e desdém, mas sente prazer em verificar que suas opiniões têm a honra de ir ao encontro das deles, ainda que de longe lhes siga as pegadas.
3. Ao admitir a inferioridade, Montaigne contenta-se com uma vantagem que não se lhe pode contestar, sua independência, pois não possuindo ciência nem memória tira suas afirmações de seu próprio cabedal e não emprega senão os seus recursos naturais.
4. Mesmo quando se sente superado pelos antigos está decidido a deixar seus pensamentos correrem fracos e pequenos como os concebeu, sem rebocar nem tapar os buracos que a comparação lhe revelou, querendo oferecer a seu leitor suas próprias cogitações, seus sentimentos e opiniões pessoais.
5. Suas opiniões podem referir-se a acontecimentos ou a outras opiniões relatados por livros, mas Montaigne reivindica o direito e a possibilidade de deles falar por si mesmo, em seu próprio nome e sob sua própria responsabilidade, diferente daqueles que não tendo em si nada que os realce pretendem valer pelo que é alheio.
6. Para realizar esse programa de independência e ser o único a falar é preciso não recorrer nem aos livros nem à lembrança que deles tenha, impedindo a intrusão dos outros textos na obra pessoal e não deixando a voz dos outros introduzir-se na de Michel de Montaigne, pois ela arrisca-se a encobri-la ou deformá-la.
7. A advertência Ao leitor bem o faz saber: nos Ensaios não haverá absolutamente enfeite nem uma forma mais cuidada, e pouco falta para que o autor se exponha a nós impudicamente, candidamente, em sua completa nudez.
8. Tal como é reivindicada, essa independência se atribui o direito de olhar para tudo o que se oferece ao seu alcance, para a consciência e a existência pessoais fundamentalmente, mas também para a sabedoria e a insensatez do mundo, para as ações e as sentenças memoráveis, as leis, os costumes e os abusos do universo inteiro.
9. Tudo comporta signo e tudo serve para comunicar, e a fim de afirmar a singularidade do eu e de seus sentimentos e opiniões não é indispensável opô-los à infinita variedade daquilo que não é ele, sendo preciso então entrar em diálogo com os livros ainda que fosse apenas porque fornecem uma matéria ao nosso julgamento.
10. Desde então a independência vai estar ameaçada por aquilo de que tinha necessidade para afirmar-se, pois mesmo quando Montaigne recusa ou não dá razão a nenhum dos exemplos e opiniões que examina não é menos verdade que estes lhe forneceram seu tema.
11. Para expor lealmente tal opinião antes de contestá-la ou rejeitá-la é preciso dar a palavra àqueles que a sustentaram, vale dizer citá-los, esperando submetê-los à crítica, e assim o texto estranho tomado como testemunha infiltra-se no texto próprio que pretende dar-lhe resposta.
12. Permanece perceptível uma linha de demarcação entre o julgamento de Montaigne e a opinião combatida, mas o perigo aumenta quando Montaigne se apercebe do encontro entre suas ideias próprias e as que filósofos ou poetas da Antiguidade exprimiram em uma linguagem mais vigorosa antes dele.
13. Como resistir à tentação de citá-los por sua vez já que fornecem um auxílio tão bem-vindo, e várias possibilidades são então exploráveis, em primeiro lugar literalmente na língua original, colocando a citação e o próprio ato de citar em plena evidência, com valor de enfeite, de ornamentação e de emblema.
14. O leitor que entende o latim encontrará ora sentenças que repetem ou completam com força os argumentos intelectuais desenvolvidos por Montaigne, ora fragmentos poéticos que proporcionam um enriquecimento metafórico ou alegórico a um discurso já todo carregado de elementos metafóricos.
15. A alegação do texto que fornece um reforço de autoridade pode ainda recorrer à tradução francesa, e a tradução pode tornar-se paráfrase, e a menção do autor necessária para autorizar a opinião avançada poderá desaparecer se Montaigne experimenta o sentimento de uma completa identidade de pensamento sem se crer capaz de contribuir de maneira tão vigorosa quanto seu predecessor.
16. A partir daí não é mais uma citação mas um empréstimo, um furto, e um outro fala no lugar de Montaigne com seu consentimento, por certo, mas ditando-lhe seu discurso.
17. Para justificar essa invasão de palavras estranhas depois de tão vivamente ter feito profissão de independência, Montaigne tem mais de uma explicação ao seu dispor, pois se trata para ele da reconquista embora parcial da autonomia de seu próprio discurso, de que confessa ter-se deixado desapossar.
18. Reconhece que alguns de seus primeiros ensaios sabem a uma região diferente, e é uma retratação, e a retratação é já uma maneira de retomar a iniciativa que outras páginas cederam à palavra estranha.
19. Se o discurso desses ensaios era de empréstimo, o metadiscurso que acusa o empréstimo restitui a Montaigne a função do juiz íntegro, e o próprio gesto do empréstimo descrito por ele mesmo torna-se no auto-retrato um traço original.
20. Ao descrevê-lo Montaigne fala como ninguém falou antes dele, e adotando essa estratégia recupera tudo que cedeu, não estando mais sob a dependência de Sêneca ou de Plutarco tão logo faz dessa dependência o objeto de sua reflexão perspicaz.
21. Recupera a vantagem no momento mesmo em que relata ao leitor a relação de inferioridade que o incitou a pilhar certos autores antigos, pois é mais difícil esquecer Plutarco, autor tão universal e completo que em todas as ocasiões se intromete no trabalho alheio oferecendo generoso auxílio.
22. Mais livre é a confissão da dependência e melhor se opera pela reflexão crítica a vinda ao mundo de um novo autor para além das citações em que se encontrou com outros, e a submissão a outrem terá servido então para estabelecer uma relação refletida consigo mesmo.
23. Não é apenas a autoridade dos livros e dos autores admirados que explica o uso que deles fez Montaigne no interior de seu próprio livro, pois a relação com outrem atuou ainda em outro sentido, e ele seguiu uma moda, sendo levado a esses ornatos de empréstimo pela moda e também pelos lazeres de que dispõe.
24. O empréstimo de materiais estranhos foi ele próprio sugerido por uma intervenção estranha, dupla alienação, mas uma vez passadas tais confissões o mais precioso, isto é, a confidência pessoal, está registrado e conseqüentemente salvo.
25. A subtração das plumas ou das flores com que se enfeitou não o assusta, e de bom grado veria alguém clarividente e avisado arrancar-lhe as plumas com que se adornou, distinguindo pela diferença de força e beleza as suas das alheias.
26. Se por falta de memória não consegue deslindar-lhes as origens, sabe reconhecer entretanto que sua terra é pobre demais para produzir as ricas flores que entre elas se acham desabrochadas e que apesar dos maiores esforços não as igualaria jamais.
27. Montaigne não se contenta com essa estratégia que lhe assegura in extremis uma nova independência por meio da dependência reconhecida e reflexivamente superada, e encontra ainda toda uma série de argumentos que justificam a coexistência nos Ensaios do meu e do estranho.
28. Por meio desses argumentos Montaigne volta a tomar posse de si mesmo não mais a posteriori com base na observação retrospectiva, mas reivindicando a originalidade primeira de seu projeto ou justificando o empréstimo como procedimento perfeitamente compatível com a invenção pessoal.
29. Uma das imagens justificativas que Montaigne utiliza é a da assimilação, pois o leitor avisado retém e faz seu o que pode contribuir para fortalecê-lo, e o que terá lido não será mais um ornamento ou uma peça acrescentada mas fará parte integrante de uma sabedoria cada vez mais bem consolidada.
30. Se por reflexão própria abraçar as opiniões de Xenofonte e Platão elas deixarão de ser deles e se tornarão suas, pois não se trata de aprender os preceitos desses filósofos e sim de lhes entender o espírito, e a verdade e a razão são comuns a todos e não pertencem mais a quem as diz primeiro do que ao que as diz depois.
31. As abelhas libam flores de toda espécie mas depois fazem o mel que é unicamente seu e não do tomilho ou da manjerona, e da mesma forma os elementos tirados de outrem devem ser transformados e misturados para com eles fazer obra própria, isto é, para forjar a inteligência.
32. O trabalho da apropriação é obra da reflexão que transforma o que provém de fora, e se se admite que o indivíduo possui de saída a faculdade racional não é menos verdade que o empréstimo intervém no início e é ao termo da transformação assimiladora que o julgamento se achará formado.
33. Montaigne expõe aqui uma das teses fundamentais da tradição humanista para a qual toda língua é necessariamente de empréstimo e toda forma e todo estilo é de apropriação, e de maneira constante emprega comparações inspiradas pelas noções de empréstimo e de pilhagem.
34. Por mais que o empréstimo tenha sido legitimado pela apropriação não deixa de ser o equivalente de um roubo, e conseqüentemente a assimilação deve acompanhar-se de um outro trabalho que consistirá em dissimular a fonte estranha, sendo essa dissimulação comparada a uma despesa, isto é, a uma operação econômica.
35. Os ladrões e os que vivem de empréstimos fazem alarde de suas casas e de suas compras, não do que tomam aos outros, e ninguém publica suas receitas e sim suas despesas, e a educação e com mais forte razão a produção literária se aparentaria a um enriquecimento fraudulento.
36. A comparação com os saqueadores e os tomadores de empréstimos pode inquietar, mas trata-se apenas de uma imagem que sublinha a diferença entre o que é tomado e o que é posteriormente mostrado, e Montaigne nos tranqüiliza ao acrescentar que o proveito de nosso estudo está em nos tornarmos melhores e mais avisados.
37. Montaigne muitas vezes inseriu textos estranhos sem lhes indicar a fonte e ocultou seus empréstimos, e confessa-o em termos gerais e sem indicar o lugar em que dissimulou seus furtos, sendo a se crer nele ao mesmo tempo uma manobra defensiva e uma maneira de se proporcionar o prazer malicioso de ver críticos imprudentes insultar Sêneca ou Plutarco ao atacar Michel de Montaigne.
38. Quanto às razões e aos argumentos que transplantou para seu jardim e confundiu com os seus, omitiu muitas vezes voluntariamente o nome dos autores a fim de pôr um freio nas ousadias desses críticos apressados, e quer que dêem um piparote nas ventas de Plutarco pensando dar nas suas e que insultem Sêneca de passagem.
39. Precisando esconder sua fraqueza sob essas grandes reputações, Montaigne previne seus detratores ao estender-lhes armadilhas, pois o que reprovam bem poderia ser uma ideia ou uma argumentação muito mais fortemente autorizada do que imaginam, e acreditando corrigir um jovem autor terão criticado alguém mais forte do que eles.
40. Ocultar seus furtos é procedimento que no capítulo A propósito de Virgílio Montaigne utilizará com os mesmos termos para falar da estratégia amorosa e da representação poética do amor, pois a ação e a descrição valorizam-se com a maneira de falar, e há coisas que só se ocultam para que melhor se admirem.
41. O recurso a um mesmo vocabulário metafórico é aqui o indício de uma erotização do furto e do comportamento ambivalente que consiste ora em ocultá-lo ora em mostrá-lo.
42. Montaigne não apenas não rejeita mostrar seus empréstimos mas também considera que na escolha daquilo que toma de empréstimo seu julgamento intervém de maneira ativa e se oferece assim à apreciação do leitor.
43. No que toma de empréstimo aos outros, vejam unicamente se soube escolher algo capaz de realçar ou apoiar a ideia que desenvolve, a qual é sempre sua, e não se inspira nas citações mas vale-se delas para corroborar o que diz e que não sabe tão bem expressar.
44. A confissão de fraqueza em comparação com a força dos antigos acompanha-se da menção de uma qualidade que Montaigne expõe ao olhar do leitor, o sentido da apreciação e o julgamento da oportunidade dos empréstimos, e isso ele diz muitas vezes não é dado a todo mundo, podendo portanto fazer valer-se por isso.
45. Encontrar a citação mais apropriada ao pensamento que se quer exprimir é de alguma maneira reconquistar a propriedade do texto que se escreve com a ajuda dos outros, conservando a iniciativa da invenção ao escolher para a elocução os auxílios mais eficazes.
46. Não é apenas a escolha da citação que intervirá como marca de apropriação, pois mais um grau é alcançado quando o empréstimo não apenas é oportunamente escolhido mas também recebe do tomador do empréstimo uma modificação que o faz dizer algo diferente de seu contexto primeiro.
47. A citação manipulada dá a Montaigne o sentimento de um domínio que compensa em parte a fraqueza que tornou a citação necessária, pois entre os muitos empréstimos feitos agrada-lhe poder mascarar alguns que arranja de acordo com o emprego que lhes dá.
48. Esse procedimento supera a assimilação e consiste em variar o tema estranho dando-lhe uma forma particular e acrescentando-lhe uma maneira pessoal, e enquanto os outros confessam seus furtos e os ostentam Montaigne leva adiante seu propósito impondo aos autores citados uma marca de sua própria autoridade.
49. O empréstimo é o gesto primeiro ou intervém depois para preencher uma lacuna, e as duas afirmações se encontram alternadamente em Montaigne e certamente se contradizem, mas em ambas as hipóteses instaura-se um compromisso entre a atividade própria e a inserção do material estranho.
50. O movimento que então anima Montaigne é de emulação, e ele não hesita em tentar alcançar ainda que de maneira irregular seus grandes modelos, sabendo com que ousadia tenta igualar-se por todos os meios aos seus furtos e ir de par com eles.
51. A relação com o autor citado torna-se luta e rivalidade, e mesmo quando Montaigne confessa alguma hesitação e deprecia sua invenção pessoal a energia que emprega é considerável, e reconhecendo sua inferioridade não se resigna.
52. Em sentido inverso Montaigne se atribui a iniciativa, pois tudo que escreveu provém de seu próprio cabedal e os autores alegados só tiveram por função consolidar um pensamento que já se formara de maneira independente e espontânea.
53. A primazia é indiscutivelmente atribuída nessas linhas à produção nativa e ingênua, e a autoridade dos antigos intervém apenas posteriormente para assegurar a Montaigne um domínio mais firme sobre suas ideias pessoais, sendo eles os mediadores de uma melhor apropriação de si mesmo.
54. No ensaio Do desmentido a redação do livro afirma Montaigne precedeu o estudo dos autores e a obra não deve sua forma senão a ele próprio, e o empréstimo e o estudo proporcionam por certo uma assistência e um reforço mas o pensamento estava já todo elaborado.
55. O empréstimo é limitado então a um papel ornamental e acrescentado, sendo um acréscimo facultativo, e pouco importa afinal a proporção do meu e do estranho, pois se os Ensaios não são mais que um ramilhete de flores estranhas ao menos ele terá fornecido o cordão para amarrá-las.
56. O livro ao longo das edições sucessivas poderá carregar-se de elementos suplementares, e o acréscimo da exclusiva invenção de Montaigne, a citação ou o empréstimo estranhos são igualmente incluídos na metáfora do emblema supranumerário, imediatamente reabsorvida em uma totalidade indefinidamente acolhedora.
57. O texto quer prolifere por seus ornamentos quer por seus elementos pessoais é sempre um único e mesmo organismo em crescimento a despeito de pequenas inversões cronológicas.
58. Ornamento de um discurso autônomo ou socorro de uma aptidão demasiado fraca para exprimir a imaginação pessoal, o empréstimo se compõe com a palavra independente, e esta se lhe torna tributária ora por a ele misturar-se até comprometer sua independência ora por dele desprender-se vigorosamente.
59. Montaigne aí encontra a oportunidade de medir seus recursos próprios aos quais segundo o humor atribuirá importância variável, e oferece a seu leitor sua própria experiência de leitor mas sem querer fazer exibição de memória nem de saber.
60. No momento mesmo em que poderia fazer admirar o que reteve do comércio com as doutas Musas declara-se ignorante e esquecido, seguro desde então de revelar um traço autêntico de seu ser, ao passo que os pedantes ao exibir sua ciência atraem talvez a consideração para o seu nome mas se escondem inteiramente atrás dos despojos com que se enfeitam.
61. Tendo aspirado à independência da expressão e tendo precisado reconhecer sua dependência, Montaigne chega a fazê-las coexistir e a colocá-las uma e outra a serviço da auto-referência, e a independência contrariada e a dependência superada servem o eu apesar da inevitável interposição dos outros e da palavra dos outros.
62. Correspondendo à exigência do público letrado que tem o gosto dos ornamentos acrescentados é preciso semear citações para os outros, e é preciso também escrever por meio dos outros quando o texto dos outros diz melhor do que Montaigne poderia dizer o que ele próprio pensou.
63. O recurso aos textos imperecíveis equivale ao esquecimento de si, enquanto a palavra imperfeita que diz o ser perecível e seu alcance tão limitado lhe restitui uma presença e por isso uma possibilidade de duração.
64. Estabelece-se assim um compromisso entre o pensamento que se inventa e impõe seu andar e as palavras que a pena retoma de outras fontes, e quando Montaigne fala de seus próprios empréstimos as metáforas que utiliza são elas mesmas em grande parte de proveniência tradicional.
65. O uso que Montaigne faz dessas metáforas, a maneira pela qual as acumula e mistura, lhe confere o comando sobre esse material regulado por um código preexistente, e o essencial é a maneira pela qual consegue dirigir a seu modo o concerto das vozes estranhas e fazê-las ressoar segundo ele mesmo, ao contrário da prática geral dos autores eruditos.
66. A oposição antitética do meu e do estranho adquire singular importância se se recorda o que Montaigne conta de seu próprio aprendizado lingüístico, pois o latim foi para ele língua materna, e seu pai convencido de que a ignorância das línguas antigas era o único motivo por que não podíamos alcançar a grandeza de alma dos antigos confiara-o antes que se lhe destravasse a língua a três preceptores que só lhe falavam em latim.
67. Curiosa língua materna esse idioma ensinado não exclusivamente pela boca da mãe mas por um latinista alemão assistido por dois outros menos sábios, executantes da vontade do pai, e se se pode acreditar em Montaigne o latim foi o sistema no qual se efetuou para ele a apropriação original do instrumento lingüístico e a primeira orientação na ordem simbólica.
68. Atos e objetos receberam seus primeiros nomes em latim e o mundo ganhou sentido mediante uma linguagem cuja natureza estrangeira a criança não percebia de modo algum, e era regra inviolável que nem o pai nem a mãe nem criados dissessem em sua presença senão as palavras latinas que haviam aprendido para se entenderem com ele.
69. O resultado foi excelente, pois o pai e a mãe adquiriram conhecimento suficiente dessa língua para um caso de necessidade e o mesmo aconteceu com as outras pessoas que lidavam com ele, e tanto se latinizaram que a coisa se estendeu às aldeias circunvizinhas.
70. Aos seis anos não compreendia mais o francês ou o dialeto da terra do que o árabe, mas sem método, sem livros, sem gramática, sem regras, sem chicote nem lágrimas aprendera um latim tão puro quanto o do seu professor, porquanto nenhuma noção de outra língua o podia perturbar.
71. Essas linhas famosas ensinam que a língua na qual aparecerão os futuros ornamentos dos Ensaios teve prioridade na experiência vivida, sendo o idioma no qual a língua do Montaigne criança se destravou mediante um custoso artifício que lhe permitiu sua aquisição sem método.
72. Dominar essa língua era satisfazer o desejo do pai e fornecer a prova da produtividade de um investimento que sacrificara a ordem suntuária para favorecer a ordem pedagógica e moral, mas a essa forma aparentemente tão onipotente de instrução se opôs no dizer de Montaigne uma natureza rebelde caracterizada por uma inércia quase material.
73. Se o sucesso não correspondeu inteiramente à expectativa do pai, Montaigne o imputa em primeiro lugar a seu próprio natural lordo, mole e apático, e acusa em seguida a interrupção dessa primeira educação privada e a decisão tomada por seu pai de enviá-lo ao Colégio de Guyenne, onde rapidamente o latim deixou de ser língua falada.
74. Meu latim, do qual perdi o hábito por falta de exercício, abastardou-se logo, mas devia permanecer língua de leitura e mesmo conservar nesse domínio a prioridade perdida na expressão oral.
75. Seu gosto pelos livros nasceu do prazer que teve à leitura das fábulas das Metamorfoses de Ovídio, pois aos sete ou oito anos fugia para as ler desprezando quaisquer outros divertimentos, sendo o livro mais fácil que conhecia e o mais adequado pelo assunto à sua idade.
76. O primeiro livro, Ovídio, em sua facilidade brincalhona e na mobilidade de sua substância, permite redescobrir o uso passivo de uma linguagem cuja prática ativa foi perdida, e um dos componentes do prazer se deve ao fato de que o fácil latim de Ovídio repatria o jovem leitor ao período primitivo em que tomou posse da linguagem e de suas formas.
77. Ao longo da narrativa ovidiana Montaigne é reconduzido ao que designa língua minha, mas da qual não ignora que se ela lhe foi materna a devia à solicitude de seu pai e que ela substituiu a língua vulgar de que teria feito a aprendizagem sob a guarda exclusiva de sua mãe.
78. Na escolha dos livros que exerceram seu fascínio fictício uma outra substituição se efetuou, exatamente homóloga, pois a aventura mitológica antiga e pagã suplanta o romanesco autóctone graças ao qual um jovem francês se teria dotado de uma memória legendária menos estranha à sua paisagem ou à sua religião, e o humanismo latino obliterou os restos da legenda cavalheiresca.
79. Quanto aos Lançarotes do Lago, aos Amadis e aos Huões de Bordéus e outras obras do mesmo gênero com que divertem as crianças, não as conhecia sequer pelos títulos e não lhes conhece ainda o conteúdo, tão forte foi a sua obediência às proibições que lhe eram impostas.
80. Nada aí que por si salvo a facilidade e a precocidade da experiência constitua exceção ao alvo geral da educação humanista, que tem confiança na fábula antiga e lhe atribui uma eficácia formadora superior, e em Montaigne a substituição é mais completa e mais bem-sucedida, consistindo sua irregularidade apenas em antecipar os dispositivos graduados do programa escolar.
81. Essas fruições atípicas são já furtos, mas como dizem respeito a textos cuja descoberta mais tardia não é proibida, a solução para a qual contribui um preceptor cúmplice consiste em encontrar um meio-termo em que a proibição aparente e a permissão efetiva entram em composição.
82. O prazer aumentará pela interposição de um simulacro de obstáculo facilmente superado, e Montaigne encontrou um homem inteligente e cônscio de seu dever de preceptor que soube tirar partido desses excessos, de modo que devorou de fio a pavio a Eneida, e Terêncio e Plauto, e as comédias italianas, sempre levado pelo que essas obras têm de agradável.
83. Se tivesse tido a mania de mo impedir, creio que só houvera trazido do colégio ódio aos livros, como acontece com quase toda a nossa nobreza, mas procedeu com inteligência fingindo nada ver e aguçando-lhe a curiosidade com deixar-me ler tão-somente às escondidas tais livros e obrigando-me a trabalhar quanto ao resto sem exagerada autoridade.
84. O prazer está salvo e conserva o gosto do fruto proibido, e a comparação com satisfações mais materiais atesta o caráter libidinoso dos reencontros com a língua materna desenvolvida e utilizada pela fabulação épica ou cômica, e o objeto do desejo coincide assim parcialmente com uma aptidão pessoal perdida.
85. Essa aptidão encontra entretanto uma oportunidade de ressurreição lúdica quando o latim se oferece no processo teatral de fazer-se persona, e Montaigne faz questão de nos dizer que foi excelente nos papéis que teve de representar nos exercícios cênicos de seu colégio.
86. Pode-se discernir aqui não apenas a aptidão para representar os heróis fictícios e a confissão de um evidente prazer da simulação e da máscara, mas também, enquanto se torna outro, a felicidade de se redescobrir em seu elemento, abandonar-se e reencontrar-se simultaneamente.
87. Representar uma personagem e aí redescobrir seu latim, e com base nisso compreende-se que mais tarde o retiro no seio das doutas Musas consagrado por uma inscrição latina e a busca de si não tenham podido constituir senão uma e mesma coisa.
88. Compreende-se também que ao citar os latinos na língua deles Montaigne tenha tido certamente a consciência de recorrer a um material estranho mas sem por isso abandonar um domínio e uma zona de experiência íntimos que podia considerar seus, sabendo claramente quanto essa apropriação devia à arbitrariedade e à benevolência paternas.
89. É na própria substância da linguagem que se enraíza a convicção de Montaigne quando declara no mesmo ensaio que se cita os outros é para melhor dizer de si, e quase ao mesmo tempo é-lhe permitido retomar uma posição de exterioridade em que reconquista sua independência em relação às obras pelas quais foi levado.
90. Pode formular a mais viva denegação ao dizer que não se enfronhou em nenhum livro sólido senão nos de Plutarco e Sêneca, em cuja obra a exemplo das Danaides busca sem cessar aquilo que logo entrega alhures, pois em seus escritos alguma coisa fica e em si quase nada.
91. Da apropriação à denegação do material estranho, da prioridade do latim aprendido sem método mas ao sabor de um artifício perfeito ao seu retrocesso a situação secundária, Montaigne só chega à independência desejada à custa do reconhecimento de uma dependência forçada e de uma influência de Sêneca e de Plutarco da qual não pode facilmente se desfazer.
92. Ele só se tornou livre ao aceitar não o ter sido sempre e de o ser apenas imperfeitamente ainda, e é bem isso ser senhor de sua palavra, ou com certeza é o que disso mais se aproxima.
