1.3 Identidade
STAROBINSKI, Jean. Montaigne en mouvement. Paris: Gallimard, 1982 (Coleção Bibliothèque des Idées).
3. A questão da identidade.
1. A escolha a que o retiro de 1571 dá resposta decisiva é a escolha da identidade, da vida estabilizada na relação consigo mesmo e numa oposição advertida ao mundo e a seu teatro de ilusão.
2. Costuma-se ter os primeiros capítulos redigidos por Montaigne entre 1572 e 1574 por textos impessoais, enquanto os textos ulteriores marcariam a entrada em cena do eu e do cuidado de se pintar, mas o que se deve reconhecer é que a pintura do eu é apenas a evolução mais tardia de um pensamento desde logo orientado para a vida pessoal, estando a questão do eu posta desde o início.
3. Montaigne tentou responder-lhe primeiro pelos meios tradicionais, e foi por tê-los achado incapazes de satisfazer sua espera que recorreu em seguida a outro método e fez o ensaio de outra atitude.
4. Basta ler os textos do primeiro período para constatar que Montaigne é particularmente acessível aos argumentos da moral filosófica dos estoicos e de Epicuro que louvam o retorno a si e a retomada de posse de si mesmo, argumentos que repete, parafraseia e reitera variando-os, continuando até o fim da vida a fazê-los seus.
5. No capítulo Da solidão e em muitas outras passagens, o que Montaigne busca é um lugar neste mundo que seja verdadeiramente seu, à diferença dos outros homens que, deixando-se arrastar pela imaginação, pela presunção e pela vaidade, se ausentam de si mesmos e desertam para conquistar um posto ou uma riqueza imaginários.
6. Montaigne retoma essa argumentação a seu encargo e se inclui no nós coletivo da admoestação, pois em nossas ações habituais de mil não há uma que nos diga respeito, e quem não trocaria de bom grado a saúde, o repouso e a vida pela reputação e pela glória, a mais inútil e falsa moeda que se usa.
7. Caímos assim no poder da palavra dos outros, e dessa impaciência que impele cada um a deixar seu verdadeiro lugar e dessa necessidade de se fazer valer em outra cena resultam a comédia do mundo e a abundância das máscaras.
8. Os homens dão-se o aspecto e o traje que desde logo os transportam ao futuro quimérico a que aspiram, e tal é a progressão inevitável que transforma um ser seduzido por sua imaginação num ser mentiroso e mascarado.
9. Tendo conferido a todas as coisas falsos rostos, o homem não pode ir ao encontro delas senão com uma careta ou uma máscara, sendo hipócrita porque alienado, pois pôs seu ser próprio sob a dependência da opinião, do olhar e das palavras pelos quais os outros lhe conferem a reputação e a glória.
10. Rousseau não formulará em termos diferentes seu primeiro ato de acusação.
11. Tudo o que é da ordem do projeto e toda antecipação em que o indivíduo espera um futuro torna-se suspeito para uma moral que tem a mira de um alhures por fraqueza culpável, e Montaigne fará disso o título de um de seus primeiros capítulos, Nos affections s'emportent au delà de nous.
12. Essa sabedoria quer ao ímpeto sempre incerto que nos faz transcender o presente na direção do futuro e não poupa sequer a previdência, que põe em perigo a coesão e a constância do indivíduo, as quais só podem assentar-se sobre um aqui e um agora perpetuados.
13. Trata-se de uma moral da contenção que retém o homem de dispersar seu conteúdo próprio, que o vota à breviloquência e ao falar sentencioso e, quando se trata dos objetos do desejo, o vota à continência, da qual Montaigne terá muitas vezes ocasião de se dizer incapaz.
14. A inquietude do desejo é o erro universal que Montaigne, seguindo Sêneca, estigmatiza e ao qual deseja escapar, pois sua profissão é de se estabelecer e conter tudo em si.
15. Montaigne faz voto, ou ao menos aconselha, de resistir a todas as seduções que mais tarde Pascal caracterizará pelo substantivo sintético divertissement, e é aqui, em nós e não alhures que devem ser consideradas as forças e os efeitos da alma.
16. É preciso reservar uma loja de trás toda nossa e toda franca, na qual se estabeleça nossa verdadeira liberdade e o comércio de nós conosco mesmos, e pensar aqui será portar toda a atenção possível sobre o lugar atual que habita a consciência, sobre a identidade à qual ela é assignada e sobre os poderes que recupera nessa conversão a si mesma.
17. A inaptidão do animal a prever o futuro poderá tornar-se, aos olhos de Montaigne, um título de superioridade.
18. A pedagogia eficaz e a escolha ética salutar dão resposta sem equívoco a uma série de alternativas que todas opõem a concentração do eu à sua dispersão, e a escolha é oferecida e a decisão é instantaneamente evidente entre ser e parecer, entre aqui e alhures, entre eu e os outros, entre o meu e o estrangeiro, entre o natural e o artificial, entre o espontâneo e o aprendido, entre o interior e o exterior, entre o profundo e o superficial.
19. Cada uma dessas antíteses contém ou chama em eco todas as outras, sendo intercambiáveis ou superponíveis, e o tempo e o espaço, em vez de serem sofridos como potências destruidoras, vão ser produzidos do interior pela decisão voluntária que afirma o aqui e o agora de seu decreto.
20. Assim a consciência pode esperar nunca ser distraída da presença a si, salvaguardando uma energia impensada que se perpetua de instante em instante sem visar outra coisa senão a si mesma, e essa ação de si sobre si, para se cumprir, deve desbaratar os apelos lisonjeiros do mundo exterior.
21. É preciso manter-se em guarda, numa desconfiança perpétua, desbaratando as seduções que arriscam distrair ou subtrair uma parte das forças necessárias ao domínio e à defesa de si, e a desconfiança não poupará o próprio sujeito, pois a solidão não o livra de seus vícios, de suas fraquezas e de suas concupiscências.
22. Não basta ter-se afastado do povo nem mudado de lugar, é preciso afastar-se das condições populares que estão em nós, sequestrar-se e se reaver de si, e esse sobreinvestimento do ideal do eu não é sem perigo para o próprio eu, como dirá a psicologia de hoje, mas Montaigne também o dirá a sua maneira.
23. Os intérpretes de Montaigne viram geralmente bem quanto esse retorno a si, inspirado pela sabedoria greco-latina, diferia do que exigem a piedade cristã e sobretudo a pregação agostiniana, que convidam a entrar em si para escutar a voz de Deus e sofrer seu julgamento.
24. Em revanche, o recolhimento desejado por Montaigne busca em si apenas um interlocutor especular e visa a devolver ao indivíduo mortal o pleno exercício de seu próprio julgamento, num desdobramento que tende a instaurar no interior de si uma relação de igual para igual, sem submissão a uma autoridade externa.
25. Se a injunção humanista e a religiosa louvam ambas a conversação interior e a reapropriação, na perspectiva do crente isso é apenas um primeiro tempo ao qual se seguirão a obediência à autoridade divina e a esperança da salvação, ao passo que, para o humanista que tomou distâncias com a devoção, essa reapropriação é em si um fim satisfatório.
26. A solidão que Montaigne louva não se confunde com a tradicional vita contemplativa que a religião opõe à vita activa, e os moralistas de Port-Royal e depois Malebranche falarão de culpável complacência da criatura para consigo mesma.
27. Montaigne sabe muito bem que sua escolha não é a da vocação espiritual e se desculpa alegando sua fraqueza, marcando sua reverência em relação aos que são capazes de verdadeira devoção.
28. Aqueles que se propõem Deus, objeto infinito em bondade e em poder, têm na alma com que saciar seus desejos em toda liberdade, e quem pode abrasar sua alma no ardor dessa viva fé e esperança edifica na solidão uma vida voluptuosa e delicada além de qualquer outra forma de vida.
29. Mas a negação do corpo e a ruptura demasiado radical com as realidades do mundo, Montaigne as declara fora de seu alcance, e sob cor de louvar a ascese diz-se dela incapaz, pois os mais sábios podem forjar-se um repouso todo espiritual, mas ele, que tem a alma comum, precisa ajudar-se com suas comodidades corporais.
30. Montaigne mostra-se mais severo para com os que levam o desprezo do mundo até se desassociar do corpo, pois eles querem pôr-se fora de si e escapar ao homem, e é loucura que, em vez de se transformarem em anjos, se transformem em bestas, e em vez de se elevarem, se abatam.
31. Os humores transcendentes assustam Montaigne como os lugares altivos e inacessíveis, e isso já não é séjour na unidade de uma existência reencontrada, mas voltar a sofrer o malefício da exterioridade pondo-se fora de si.
32. Montaigne reserva sua mais viva desaprovação para os que, tendo aparentemente rompido com o mundo, se voltam contra ele para o emendar e o submeter mais puramente às vontades de Deus que pretendem conhecer, pois aos seus olhos esses fanáticos não são eles mesmos senão atores mascarados, primeiras vítimas da opinião nova que querem impor.
33. Se Montaigne escolhe a identidade interna e a relação igual e estável de si a si, é continuando a portar seu olhar sobre o mundo e salvaguardando laços que não impedem o pertencimento a si, e das janelas de sua livraria a vista dá sobre o pátio e o pátio dos fundos, entendendo ele preservar toda a presença no mundo compatível com a recusa da servidão.
34. Ao retomar assim alguns dos grandes temas da moral antiga, Montaigne adota argumentos ambíguos que, em nome da plenitude verídica, podem favorecer alternadamente o engajamento e o desengajamento, a ação e a desautorização da ação.
35. Quando se trata de opor a solidez dos atos à futilidade das palavras, Montaigne aceita a lição da moral tradicional e opta pelos atos, e sua pretensão nobiliária encontra aí apoio oportuno, pois um gentil-homem bem nascido repugna a dar precedência à linguagem, à eloqüência e às seduções da palavra artificiosa.
36. Na ordem da moral, a tradicional antinomia res/verba convida a optar pela solidez das coisas contra o vento da palavra, mas quando se trata de opor o fora e o dentro segundo outra injunção da moral, Montaigne recusa deixar-se arrastar pela ação, que pertence à região falaciosa do fora.
37. A única atividade que não é enganosa é aquela em que o indivíduo age sem se deixar, a atividade do julgamento portado sobre o mundo ou sobre si mesmo, que se exprime pelos verbos reflexos: se ensaiar, se examinar, se pintar.
38. Palavras e atos reencontram ao fim sua validade, mas sob a garantia da consciência e do nonchaloir refletido, e a identidade finalmente oferecida no trabalho do retratista e na pintura de si é de outra natureza que a identidade inicialmente perseguida sob as espécies da estrita e tácita igualdade de si a si.
39. O movimento descrito é o esforço que, começando por pensar a identidade como constância, estabilidade e conformidade a si mesmo, reconhece que não pode alcançar o que visou de início, mas permanece suficientemente fiel ao apelo da identidade para procurar dar-lhe outro conteúdo e outra significação.
