simon-frank:problema-do-objeto-transcendente

O problema do objeto transcendente e as principais teorias que tentam resolvê-lo

FRANK, Simon. La connaissance et l’être. Paris: Aubier, 1937

  • Delimitação do problema fundamental da transcendência do objeto
    • A análise precedente estabeleceu que nenhum conteúdo do conhecimento é dado imediatamente na matéria imanente da consciência.
    • Todo conhecer implica uma penetração do sujeito cognoscente em um objeto transcendente.
    • A possibilidade mesma dessa penetração permanece, por ora, sem explicação.
    • A investigação concentra-se, inicialmente, não no mecanismo da penetração, mas na ideia do objeto transcendente enquanto tal.
    • Pergunta-se pelo fundamento da convicção segundo a qual a consciência, ao conhecer, alcança o próprio objeto e parece ultrapassar seus próprios limites.
    • O exame das principais tentativas teóricas visa esclarecer como essa convicção foi historicamente compreendida.
  • Reconhecimento originário da dualidade pela consciência ingênua
    • A consciência não reflexiva admite espontaneamente uma dualidade entre objeto e conteúdo do conhecimento.
    • O objeto é concebido como aquilo que é em si, enquanto o conteúdo é o que se sabe dele.
    • O conteúdo conhecido é considerado determinação do próprio objeto, existente independentemente do ato de conhecer.
    • O conhecimento é entendido como apreensão parcial e progressiva de um ser que não se esgota na apreensão.
    • Essa distinção funda-se numa intuição imediata e não numa teoria elaborada.
  • Distinção entre consciência ingênua e realismo ingênuo enquanto teoria
    • Deve-se evitar confundir a simples aceitação da dualidade com tentativas teóricas de explicá-la.
    • O realismo ingênuo, enquanto teoria, surge apenas quando a reflexão busca interpretar o mistério do conhecer.
    • A consciência não reflexiva não formula doutrina alguma sobre a relação entre percepção e objeto.
    • A analogia com a astronomia mostra que perceber não equivale a teorizar.
    • A consciência ingênua distingue objeto e percepção apenas quantitativamente, não como realidades separadas.
  • Estatuto da percepção na consciência não reflexiva
    • O que é percebido aparece como o próprio objeto, não como imagem ou representação.
    • A diferença entre objeto percebido e objeto em si é apenas de extensão e duração.
    • A percepção apreende o objeto apenas parcialmente e por tempo limitado.
    • Não há dualidade real de conteúdos entre percepção e objeto.
    • A dualidade surge apenas no caso das representações evocadas pela memória ou imaginação.
  • Surgimento da teoria do realismo dualista
    • A reflexão leva à consciência de que o percebido é ideal, dado apenas no ato de consciência.
    • O objeto passa a ser pensado como existente independentemente da consciência.
    • Estabelece-se então uma dualidade entre objeto em si e objeto na percepção.
    • A percepção é interpretada como cópia ou imagem do objeto real.
    • O modelo da memória é utilizado para explicar a relação entre percepção e objeto.
  • Crítica da teoria do reflexo ou da cópia
    • A teoria supõe dois conteúdos distintos e comparáveis: imagem e objeto.
    • Na percepção, porém, só há um único conteúdo dado.
    • Não é possível confrontar imagem e objeto como entidades numericamente distintas.
    • A comparação só é possível no caso de percepção e memória, não entre percepção e objeto.
    • A teoria conduz a um dilema insolúvel entre idealismo e realismo absoluto.
  • Passagem do realismo dualista ao monismo
    • A rejeição da teoria da cópia conduz à necessidade de uma solução monista.
    • O monismo pode assumir a forma do idealismo puro ou do objetivismo puro.
    • Psicologicamente, o pensamento inclina-se primeiro para o idealismo.
  • Emergência do idealismo e do ceticismo
    • Mantém-se a distinção entre realidade e representações.
    • Afirma-se a impossibilidade de atingir a realidade em si.
    • O conhecimento reduz-se a representações internas.
    • A correspondência entre representações e realidade torna-se incerta ou impossível.
    • Essa posição caracteriza o ceticismo antigo e moderno.
  • Formulação clássica do idealismo
    • O idealismo sustenta que nunca se sai dos limites das representações.
    • A coisa em si é declarada inacessível.
    • As representações possuem conteúdo próprio e autônomo.
    • A teoria da cópia é abandonada em favor da autonomia do fenômeno.
  • Problematização da noção de coisa em si
    • A ideia de um objeto absolutamente inacessível torna-se problemática.
    • Pensar algo implica, de algum modo, possuí-lo.
    • A noção de coisa em si parece contraditória.
    • A tentativa de concebê-la como noção-limite revela-se inconsistente.
    • A negação pura não pode gerar conteúdo positivo.
  • Idealismo subjetivo e sua insuficiência
    • Tudo o que é pensável reduz-se às representações.
    • A ideia de realidade independente é rejeitada como sem sentido.
    • A noção de objeto, porém, resiste à eliminação.
    • A distinção entre objeto durável e representação momentânea persiste.
    • A teoria que nega o objeto revela sua própria inconsistência.
  • Recurso kantiano à objetividade imanente
    • O objeto é reinterpretado como elemento de objetividade na consciência.
    • A coisa em si permanece incognoscível.
    • O objeto empírico é constituído pelas formas da consciência.
    • A objetividade resulta da síntese segundo regras.
    • O objeto é correlato da unidade da apercepção.
  • Contradição interna do sistema kantiano
    • Se o objeto é produto da consciência, a coisa em si torna-se supérflua.
    • A manutenção da coisa em si contradiz a imanência da objetividade.
    • A crítica de Jacobi evidencia essa contradição.
    • A teoria tende ao idealismo absoluto.
  • Superação do idealismo rumo ao objetivismo imanente
    • O desenvolvimento consequente do idealismo conduz à sua negação.
    • Surge o objetivismo imanente como monismo coerente.
    • O objeto é afirmado como elemento imanente da consciência.
    • A consciência é ampliada para abranger o ser.
    • A dualidade metafísica é rejeitada.
  • Vantagens do objetivismo imanente
    • Evita o reducionismo subjetivista.
    • Reconhece a complexidade da consciência.
    • Explica a objetividade sem recorrer a um além incognoscível.
    • Transforma o problema do objeto em problema da estrutura da consciência.
  • Limites do objetivismo imanente
    • A independência do objeto não é plenamente explicada.
    • A transcendência não pode ser deduzida da pura imanência.
    • A necessidade lógica não basta para fundar a objetividade.
    • Um objeto absolutamente imanente é contraditório.
    • A orientação da consciência exige algo que a transcenda.
  • Análise crítica das três variantes do objetivismo imanente
    • Primeira variante: consciência supraindividual
      • Substitui a dualidade objeto-conhecimento por consciência individual e geral.
      • Reintroduz o mesmo problema sob nova forma.
      • Não explica a verificação da verdade.
    • Segunda variante: idealismo lógico
      • O objeto é definido como problema interno da vida do conhecimento.
      • Confunde condição do conhecimento com produto do conhecimento.
      • O x não pode ser gerado pelo movimento cognitivo.
    • Terceira variante: positivismo e filosofia imanente
      • O objeto é reduzido a possibilidade de percepção.
      • A possibilidade pressupõe realidade.
      • A teoria contradiz seu próprio princípio.
  • Retorno à necessidade do objeto transcendente
    • A redução do objeto à imanência fracassa.
    • O objeto deve ser reconhecido como transcendente.
    • Essa transcendência não implica inacessibilidade.
    • A consciência é essencialmente orientada ao objeto.
    • Conhecer é apropriar-se do ser em si.
  • Formulação do objetivismo transcendente
    • O objeto existe independentemente da consciência.
    • Não há dualidade entre representação e objeto.
    • O que se conhece é o próprio objeto.
    • A consciência é relação entre sujeito e ser.
    • O realismo torna-se imanente e monista.
  • Mérito e insuficiência do objetivismo transcendente
    • Reconhece a transcendência essencial do objeto.
    • Afirma a acessibilidade do ser em si.
    • Constata o milagre do conhecimento sem explicá-lo.
    • Toma a transcendência como fato último.
    • Deixa intacta a contradição central.
  • Retorno crítico à dualidade originária
    • A distinção entre objeto e conteúdo é irredutível.
    • Não deve ser eliminada, mas explicada.
    • O erro do realismo ingênuo foi interpretá-la como separação real.
    • O conteúdo conhecido e o objeto em si coincidem quanto ao conteúdo.
    • A diferença não é numérica nem qualitativa.
  • Diferença gnosiológica entre conhecido e desconhecido
    • O objeto é o mesmo sob dois aspectos.
    • Como desconhecido, é x.
    • Como conhecido, é conteúdo determinado.
    • A diferença reside na modalidade de doação.
    • O objeto é simultaneamente presente e oculto.
  • Presença do objeto como x na consciência
    • O objeto está presente como indeterminado.
    • O x não é indício indireto, mas presença originária.
    • A separação significa apenas indeterminação.
    • A transcendência coincide com o caráter de desconhecido.
    • O objeto é acessível em sua inacessibilidade.
  • Problema residual da possibilidade do x
    • Como o desconhecido pode estar presente?
    • Como algo não determinado pode ser conteúdo?
    • A noção de objeto permanece paradoxal.
    • É necessário esclarecer a estrutura do x.
    • A investigação deve prosseguir para além deste ponto.
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