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A Simbólica da Natureza (Schubert)

SCHUBERT, Gotthilf Heinrich von. La Symbolique du rêve. Paris: A. Michel, 1982.

  • A natureza, enquanto fonte originária das imagens oníricas, poéticas e proféticas, constitui-se em linguagem simbólica hieroglífica, cujos caracteres são os próprios seres e formas sensíveis, revelando-se, portanto, como um sonho encarnado ou um discurso divino pronunciado por um sonâmbulo que age por necessidade interna e instinto cego, de modo que seus produtos diversos, análogos às imagens oníricas, só adquirem pleno significado quando interpretados enquanto signos de uma realidade espiritual superior, superando a visão teleológica vulgar que a reduz a um ciclo estéril de devoração mútua sem propósito transcendente, pois a precisão matemática que rege a quantidade de seres vivos e a economia do todo desmente a ideia de uma natureza organizada apenas para a subsistência material do homem sensível, apontando, antes, para sua função como revelação destinada à educação do homem espiritual.
  • A teleologia superior, que não se satisfaz com a mera explicação pela oposição necessária de contrários, encontra seu fundamento na concepção da natureza como linguagem espiritual, evidenciada pela constância transcultural de significados simbólicos atribuídos a certos animais e plantas, como o alkuón (martim-pescador) universalmente visto como domador de tempestades, o que sugere uma intuição coletiva de um léxico simbólico inerente ao cosmos, ainda que o langage des fleurs aplicado arbitrariamente raramente atinja essa profundidade, exceto quando, como no caso do Colchicum autumnale (açafrão-do-prado) associado à imortalidade, a interpretação parece decifrar verdadeiramente o hieróglifo vivo, aproximando-se da compreensão mais penetrante que vê na natureza uma revelação contínua.
  • No pensamento antigo, Dionísio, representante da multiplicidade vital manifesta na diversidade dos elementos naturais, é o theòs ek theoû (deus nascido de deus), o Verbo emanado que, como soberano eterno e primeiro dos profetas, revela-se através do cosmos, de sorte que a natureza circundante em sua variedade aparece como um Lógos, uma revelação divina cujas letras vivas são seres e forças atuantes, sendo, pois, o original da linguagem metafórica utilizada pela divindade em todas as revelações escritas e também a língua natural da alma em estados oníricos ou de inspiração poética, estabelecendo uma concordância profunda entre o princípio criador que se manifesta no macrocosmo e a mesma atividade que, em nosso estado atual inferior, gera o mundo das imagens oníricas.
  • O mesmo espírito irônico, a estranha associação de ideias e a capacidade divinatória presentes na linguagem do sonho encontram-se reproduzidos de modo notável no original desse mundo, a própria natureza, a qual parece zombar de nossa condição ao misturar de maneira peculiar prazer e lamento, alegria e tristeza, tal como na música de Ceilão onde menuetes alegres são cantados em tom profundamente lamentoso, exemplificando que o tempo do amor e da alegria, como no canto ardente do rouxinol, frequentemente se veste com o modo menor da lamentação, enquanto o efêmero insecto celebra sua união no próprio dia de sua morte, demonstrando que morte e matrimônio, geração e dissolução, são noções tão próximas na associação de ideias naturais quanto no sonho, aparecendo por vezes como sinônimos intercambiáveis neste linguagem, pois Phósphoros (Lúcifer) é ao mesmo tempo estrela da manhã e da tarde, archote do matrimônio e da morte, numa roda perpétua onde a ascensão de uma parte para nova procriação corresponde à descida de outra.
  • Este humor natural também costuma unir intimamente, no mundo sensível, amor e ódio de modos variados, a ponto de, em certos animais, ser indistinguível qual princípio os gerou, pois a festa do amor inicia-se com combates sangrentos entre machos, e uma terrível aversão e uma simpatia frenética emanam da mesma fonte, sendo que, em casos extremos como o da fêmea de inseto que destrói o macho após o acasalamento, a atração sexual revela-se como ódio medonho sob máscara de amor, ou vice-versa, ilustrando a ironia fundamental que reúne os extremos mais distantes na taxonomia natural, onde o símio exuberante aproxima-se do homem moderado, o elefante sábio do porco impuro, e o morcego, mamífero descontente que imita a ave, da ratozearia terrena.
  • O modelo daquela capacidade de combinação profética, de ligação do futuro ao presente observada no sonho, reside na natureza, manifesta através do instinto de previsão que permite a cada necessidade, desde seu surgimento, encontrar preparado tudo para sua satisfação, como demonstram a abelha que constrói alvéoles para uma geração futura que jamais conhecerá, os animais que se preparam para o inverno sem jamais tê-lo experimentado, ou as partes corporais que, mal individualizadas, às vezes escapam à unidade da vontade desperta. Este mesmo princípio intuitivo permite aos animais pressentir e fugir de catástrofes iminentes, como desabamentos ou erupções vulcânicas, muito antes que a inteligência humana as perceba, e guia as aves migratórias através de mares imensos para continentes desconhecidos, revelando que o instinto que reina na natureza é de essência profética, sendo Dionísio, deus do destino e profeta do sonho, aquele que aqui afirma sua autoridade com uma necessidade organizadora que impõe harmonia, tal como na região onírica.
  • Contudo, este espírito de profecia, que a natureza possui em relação a si mesma, também se aplica, em sentido superior, ao homem, pois desde os tempos mais antigos uma contemplação pura e espontânea do mundo natural nele encontra um reflexo da vida e do esforço humano, recordando-lhe constantemente sua missão originária da qual se afastou, seja através do espetáculo de uma região montanhosa desolada, seja pela brisa do ocaso que desperta o pressentimento de um mundo espiritual superior e um desejo insatisfeito na existência atual, do mesmo modo que a metamorfose dos insetos, com seu despertar para uma imagem do modelo superior originário a partir da morte da larva imperfeita, oferece uma representação profética que lança luz sobre a questão mais premente da existência humana, refletindo sua vida espiritual íntima.
  • Se a natureza é uma palavra da Sabedoria eterna, uma revelação desta ao homem, então seu conteúdo deve coincidir com o das revelações posteriormente fixadas por escrito, pois o livro da natureza foi escrito primordial e exclusivamente para o homem, único ser no mundo sensível que possui por natureza a chave desse linguagem misterioso, sendo possível considerá-lo, sob certo aspecto, como um podómetro que evidencia o curso da evolução do reino espiritual superior, já que, modificando-se concomitantemente com a situação originária do homem, a natureza que o cerca e com ele se relaciona representa a parte muito cedo concluída de um Todo superior, cuja história, regida pelos mesmos princípios e forças antagônicas que atuam na criação do indivíduo, é reconhecível na história de cada ser humano e na justaposição de todos os povos e plantas coexistentes num mesmo momento, que exibem as diversas etapas da evolução milenar das espécies.
  • Em todo o universo sensível, como no mundo espiritual, manifesta-se a luta incessante de dois princípios outrora harmoniosamente coabitantes, cuja discórdia pode ser seguida através das várias etapas da evolução dos gêneros e espécies, que refletem séculos e épocas de duração diversa, até o momento em que, finalmente, o princípio destruidor é vencido pelo seu contrário e se esboça, ao longe, a perspectiva de uma era de perfeição e de um inefável reino de paz, confirmando que o conteúdo deste grande livro misterioso é idêntico ao da Revelação escrita, sendo a natureza circundante formada ao longo de diversas épocas sucessivas, cujo zodíaco podemos esboçar iniciando pelo reino animal.
  • A mais antiga constelação deste zodíaco, o mundo animal primitivo, proveio das águas, caracterizando-se por um recolhimento calmo, grande interioridade e coesão constante com seu próprio centro, estendendo-se da maioria dos pólipos, vermes e peixes até aos paquidermes, cujo representante, o elefante, simboliza com sua massa corpórea, longevidade, caráter inofensivo e harmonia com o desígnio originário uma época primitiva ainda situada na esfera da paz, praticamente desprovida de relação direta com o homem. Uma classe quase tão antiga, representada pelo touro, já se torna mais acessível ao homem, preparando-se para satisfazer suas necessidades, enquanto numa terceira época, representada pelo leão, os animais caem junto com o homem na esfera da luta e da destruição, regredindo a longevidade e o calmo recolhimento primitivos, escapando a força destruidora de sua sujeição inicial e tornando-se hostis, de modo que o espírito de antagonismo constante penetra na natureza, desencadeando um conflito entre forças contrárias que, neste nível, é travado por combatentes poderosos com armas tangíveis, vencendo o princípio que se mantém através de uma força de produção superior.
  • Estas antigas famílias animais constituem a parte do grande Livro da Natureza que transmite a história de um passado remoto e da primeira grande catástrofe, sendo o touro, por exemplo, o símbolo de uma natureza ainda pura e superior que sofre inocente com e por causa do homem, enquanto as partes mais recentes da revelação natural narram a história dos tempos subsequentes, onde os contornos das formas, tal como nas predições proféticas, tornam-se mais movediços e indistintos à medida que as espécies se tornam mais recentes e o conteúdo dos capítulos isolados concerne a um futuro mais longínquo, fenômeno observável sobretudo nas constelações mais recentes do grande zodíaco, como o mundo dos insetos e particularmente dos vermes.
  • O mundo dos insetos, considerado uma aparição mais tardia fundada majoritariamente na morte e decomposição de seres anteriores, apresenta relações novas, como a prevalência dos números três e seis em patas e órgãos dos sentidos, formas simbólicas e quiméricas onde desaparece qualquer semelhança com o homem, e uma configuração respiratória que denota uma natureza mais recente onde a atmosfera desempenha o papel essencial outrora da água, caracterizando-se sobretudo pelo facto de os seres não aparecerem sob sua forma específica originária, passando a maior parte de sua existência no estado de larva imperfeita e necessitando de um novo nascimento, a metamorfose, para recuperar sua forma plena, tornando-se esta, assim, um símbolo reconfortante da morte como nascimento para uma existência originária e perfeita, como despertar para a imagem de um modelo superior.
  • Nesta fase recente, o reino animal afasta-se ainda mais definitivamente da harmonia primitiva, encontrando-se em contradição mais acentuada com o desígnio primordial da natureza, tornando-se mais hostil e nocivo, pois, ao menos em seu estágio larval, representa para a natureza anterior apenas um flagelo e uma calamidade, travando o princípio destruidor sua luta com armas fantasmagóricas, como venenos de eficácia químico-mágica, enquanto decrescem a longevidade, o tamanho corporal e a força física, substituídos pelo instinto de habilidade como caráter de uma época posterior, sendo também neste mundo dos insetos que encontramos, de modo quase exclusivo e notável, a figura de estilo que representa o todo através da parte, como na organização das abelhas, onde a rainha perfeita representa toda a espécie numa relação mágica, sendo ela a forma originária e normal do tipo abelha, enquanto as obreiras são rainhas imperfeitas e estéreis, estabelecendo um paralelo misterioso com o mundo espiritual onde um indivíduo perfeito atinge o estado normal de toda sua espécie e assume a tarefa suprema da existência pelo bem do grupo de seres imperfeitos.
  • O universo dos insetos torna-se, de outra maneira ainda, símbolo do mundo espiritual superior, pois se, por um lado, nele se encontram provas de estupidez, necessidades grosseiras e cólera incontrolável, por outro lado, oferece imagens favoráveis e rejubilantes que testemunham um aspecto totalmente diverso das coisas, pois nestes seres variegados, libertos das servidões vulgares após a morte da larva imperfeita, que ascendem à claridade de um céu nunca visto, percebemos os sinais favoráveis do futuro longínquo e feliz de nossa espécie, parecendo, para esta região de coexistência pacífica e inocente, terminada a longa luta e desaparecido o princípio inimigo, fechando-se o grande Livro da primeira Revelação de Deus com uma reconfortante palavra de paz, apresentando-se, portanto, a natureza como uma apocalipse de formas e imagens vivas organizada em três capítulos principais, cada um composto de várias partes menores.
  • Sendo a mais antiga Revelação conhecida de Deus ao homem, a natureza é o Lógos do qual emanaram as revelações subsequentes, todas partilhando o mesmo conteúdo, sendo ela a mesma língua que a região superior do mundo espiritual falou desde o princípio e ainda fala, e embora o homem tenha perdido o hábito de falar esta língua divina, conserva todavia um raio de sua inteligência originária, de modo que o espírito deste grande Livro da Natureza, cujos caracteres são seres vivos, ainda atua poderosamente sobre ele e o concerne, mesmo que raramente tenha consciência disso, reservando-se para outra ocasião um desenvolvimento mais vasto que, através do estudo da história interna da natureza, poderá elucidar enigmas transmitidos pela mais alta Antiguidade, como a ideia de um deus encarnado.
  • A ideia de um theòs sarkōtheís (deus tornado carne) que sofre as limitações humanas e uma morte cruel não foi alheia à Antiguidade, pois, como última encarnação e irradiação extrema do Ser eterno, este deus nascido de deus, conhecido no sistema religioso egípcio, bem como Shiva Dionichi na tradição hindu ou Zagreu nos mistérios órficos, deve submeter-se ao destino terreno e à morte, aparecendo também como salvador, juiz dos mortos, libertador das amarras mortais e guia no retorno às origens divinas, sendo particularmente Dionísio, o deus dos mistérios, aquele que reconduz as almas ao céu e à perfeição, tendo inclusive descido ao Hades para libertar a alma de sua mãe, num mito significativo que conjuga imagens dos sistemas órfico e báquico, ressurgindo sempre como benfeitor e pedagogo eterno após sofrer o destino mais terrível.
  • O caminho para a redenção e santificação das almas, segundo os ensinamentos dos mistérios, passava por purificações, entre as quais uma particularmente insólita realizava-se através do sangue, pois o deus dos mistérios frequentemente aparecia sob a imagem do touro e morria, como no mito persa, sob os traços do touro cósmico Abudad, sendo que nos taurobolos o sangue do touro sacrificado era derramado sobre o corpo do penitente para sua purificação psíquica, prática que, juntamente com a ingestão da carne crua do animal sacrificado em alusão à morte de Dionísio-Zagreu, desnaturada posteriormente em cruéis sacrifícios humanos, constitui prova de que a época primitiva, por seu espírito profético, pressentiu acontecimentos que só se cumpriram em épocas subsequentes, sendo esta antiga revelação transmitida uma vez mais através do Verbo tornado carne, do Deus tornado natureza.
  • A natureza, como Verbo revelado aos sentidos, concordava originalmente com o Verbo depositado no homem primitivo, que compreendia a linguagem que seu espírito falava e era, ele próprio, essa Palavra, mas após a grande confusão das línguas, perdemos a capacidade de compreender o sentido profundo desta linguagem natural, necessitando da Revelação escrita dada através de palavras, a qual, no entanto, possui o mesmo conteúdo da revelação natural, pois ambas falam apenas d'Ele, ontem e hoje, imutável e eterno, sendo o mundo dos insetos, como parte mais recente da criação, particularmente profético deste futuro, conforme atestado pela antiguidade que venerava a abelha como ser real e sagrado, cheio de espírito divino e profético, símbolo da abundância, sabedoria, inocência e justiça, e a associava intimamente aos mistérios, pois Dionísio era nutrido por abelhas, considerado seu rei e pai, e as sacerdotisas de Ceres eram chamadas mélissai (abelhas), sendo a própria rainha das abelhas símbolo de um rei divino e sacerdote.
  • Esta simbologia apícola conecta-se profundamente com a figura de Melquisedeque e com o deus da doutrina secreta, Zagreu, cujo corpo distribuído e consumido encontra eco na rainha que dá nome aos iniciados, considerados fragmentos do deus, tornando-se as abelhas da rainha, dispensadoras do alimento, sendo o próprio mel, imagem da morte e do renascimento como atesta o mito de Glauco, símbolo da expiação e purificação da alma, tal como o touro, representante da época anterior à catástrofe e símbolo do princípio estável de luz que renasce com maior diversidade e poder após o combate, ou o asno, também associado à geração no linguagem onírico, completando um conjunto de imagens – borboleta, semente germinando, hera, vinho, farinha, água, fogo – que, profundamente inter-relacionadas, formam uma cadeia onde se manifesta toda a história da região profética superior, situando-nos no coração de um sonho de conteúdo eminentemente profético, pois o Verbo da natureza foi, para a Antiguidade, simultaneamente sonho e interpretação do sonho.
schubert/simbolica-natureza-schubert.txt · Last modified: by mccastro

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