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O Poeta Oculto (Schubert)
SCHUBERT, Gotthilf Heinrich von. La Symbolique du rêve. Paris: A. Michel, 1982.
- O poeta oculto em nós, cujas manifestações ironicamente contradizem as concepções e inclinações que governam nossa vida material diária, revela, assim, sua íntima parentela com uma parte obscura da natureza humana: a consciência. Esta faculdade intrínseca, radicalmente desconhecida e rejeitada por uma geração de pensadores superficial que nela via apenas o produto da educação e do temor a Deus inculcado, demonstra, ao contrário, ser o órgão original da linguagem outrora própria ao espírito humano, a centelha da vida superior que faz do homem a imagem do divino, sendo essa mesma faculdade que se manifesta como o poeta oculto gerador dos sonhos, na inspiração poética e na exaltação da região profética superior, constituindo-se na particularidade mais característica e inata da natureza humana, embora, após a grande confusão das línguas, tenha-se afastado de sua destinação primordial, sendo frequentemente instrumentalizada por uma voz oposta à divina, o que explica a ambiguidade fundamental de suas manifestações, que podem servir tanto ao bem quanto ao mal, sem que tal dualidade anule o fato de que a consciência permanece a região obscura de nosso sentir sobre a qual atuam todas as influências de um mundo espiritual superior ou inferior, bom ou mau, e através da qual se exprimem todas as forças de uma vida passada e futura.
- A ambiguidade essencial deste órgão espiritual manifesta-se em toda parte, pois nenhum século ou nação deixou de perceber, mesmo no meio das mais gritantes dissonâncias a que foi rebaixado, ao menos sons isolados da voz superior oposta, como ilustra a história de Paulo, o Simples, que, através de uma obediência humilde e cega a ordens aparentemente absurdas ditadas pelo patriarca Antão, viu sua faculdade inocente transformar-se no órgão do espírito divino, adquirindo uma capacidade ilimitada que rompeu os limites comuns da natureza humana, tornando-se um taumaturgo, analogamente ao modo como o Mestre superior de nossa espécie parece obrigar povos inteiros, durante séculos, a viverem num círculo de virtudes por vezes muito reduzido, mantendo aberto, contudo, o acesso à região de seus pendores, de sorte que a voz de Deus, essa lei superior no homem, não é totalmente imperceptível a ninguém, ainda que os elementos que determinam essa comunicação difiram radicalmente dos que regem nossos sistemas morais.
- Este órgão espiritual representa, em sua ambiguidade, o bom e o mau gênio que acompanha o homem na vida, conduzindo-o, conforme a atenção que lhes preste, a um fim feliz ou infeliz, sendo o bom gênie, de carácter profético, aquele que desperta na alma a nostalgia do bem e a previne, com uma espécie de potência superior, contra instigações e ocasiões onde o Mal a espreita, intervindo inclusive para a proteger de perigos físicos ou para a guiar a situações onde possa realizar alguma boa ação, utilizando para tal a inquietação e a angústia que reconhecemos como movimentos da consciência, conforme atestam exemplos históricos como os do reverendo Johann Dod ou de um funcionário impelido por uma angústia interior a sair numa noite tempestuosa, ocasiões em que puderam prestar auxílio decisivo a pessoas em perigo extremo, demonstrando a ação providente deste princípio orientador.
- O mau gênie, por sua vez, age de modo semelhante, mas com intenções e fins completamente opostos, excitando na alma a inclinação ao mal e despertando a concupiscência através da simulação de gozos passados ou futuros, impelindo o indivíduo, com violência crescente, de pensamentos e palavras a atos nefastos, e contradizendo a voz do bem interior, possuindo ele também um carácter profético igualmente notável, que se revela na biografia de criminosos famosos, os quais frequentemente narram como foram conduzidos com violência irresistível aos instrumentos e circunstâncias favoráveis ao crime, ou em casos como o da famosa possessa de Loudun, que revelava segredos íntimos a seus interrogadores, agindo com a mesma potência profética irrefreável que o Anjo do Bem utiliza, ainda que para conduzir a situações diametralmente opostas.
- A aptidão obscura do homem manifesta-se, portanto, principalmente em sua ambiguidade, em seu carácter simultaneamente bom e mau, sendo errado compreender por consciência apenas os bons movimentos desta faculdade, pois as angústias da consciência podem apresentar-se tanto sob um aspecto pernicioso quanto favorável, como no caso de Bunyan, atormentado durante anos por uma profunda angústia moral por causa de uma palavra involuntária que lhe veio ao espírito, angústia que o levou aos confins do suicídio, ou noutros casos em que o mau gênie assume a forma do bom, apresentando-se como o princípio que pune o Mal e vinga suas ofensas, adotando a aparência do Anjo do Bem para tornar a alma desesperada surda a qualquer consolo, com uma dialéctica admirável que reduz a nada todos os argumentos contrários da voz do bem, sendo a este mau gênie que se devem atribuir todos os excessos da suposta loucura religiosa e do fanatismo, cuja máscara aparentemente religiosa é uma de suas formas habituais de manifestação, através da qual frequentemente ridiculariza e torna suspeitas as manifestações do bom gênie.
- Esta mesma linguagem feita de imagens e formas, utilizada pelo órgão espiritual no sonho, na inspiração poética e na exaltação pítica, encontra-se igualmente em suas manifestações primeiras e diretas sob a forma da consciência, pois mesmo o mundo das Fúrias mantém, de maneira terrivelmente nítida, este diálogo espiritual com o homem, apresentando também aquele carácter de compreensibilidade universal antes mencionado, como atesta o caso do pintor perseguido pela imagem de um assassinato que ele próprio concebeu, imagem que causava inquietação e horror a todos que a contemplavam, sem saberem de sua motivação, demonstrando o poder intrínseco e comunicativo destas representações interiores, as quais, quando ligadas a ações criminosas, podem acompanhar os malfeitores como Fúrias torturantes através de detalhes obsessivos, como gemidos da vítima ou manchas de sangue imaginárias, da mesma forma que imagens e sensações ligadas a momentos de felicidade ou a um único bom movimento da infância podem acompanhar a alma como um anjo da guarda através de toda uma vida de extravio, reconduzindo-a finalmente à Verdade abandonada.
- Na linguagem imagética própria ao espírito humano, vozes diversas apresentam-se frequentemente à alma sob a forma de seres particulares e independentes, aparecendo o bom ou o mau gênie sob uma forma tangível, como no caso do pregador holandês Evert Luyksen, que viu as objeções de sua consciência assumirem os traços de um estranho de aspecto singular, ou no do bom gênie que se tornou visível a Grynaeus, sendo que uma grande parte das imagens oníricas que formam um singular contraste com nossos pendores quotidianos parece ser produto deste bom gênie protetor, cujo carácter de oposição ao mundo diário é também muito sensível nas manifestações diretas do órgão que é a fonte mesma deste contraste, razão pela qual os profetas, constantemente em contradição violenta com sua época, representavam, na realidade, a Consciência dos povos, assim como certas individualidades dotadas de dom profético na época moderna aparecem como a consciência de seu povo e de seu tempo, diferenciando-se da imagem que a opinião popular tinha deles e concedendo pouco interesse às ocupações e pendores da vida quotidiana.
- Em virtude deste contraste natural, a associação de ideias do órgão moral é totalmente diversa daquela do pensamento desperto, sendo mesmo radicalmente oposta a esta, pois a voz da consciência não se deixa contestar ou abafar por qualquer raciocínio, por mais lógico e sensato que seja, permanecendo constantemente e nitidamente perceptível mesmo naqueles que a consideram como eco de velhos preconceitos enraizados pela educação, havendo-se comparado o efeito da Verdade sobre a alma daqueles que a percebem ao de um miasma que se apodera irresistivelmente de todos os que entram em seu raio de ação, sendo que nenhum pensamento razoável, nenhum interesse exterior, nem mesmo os laços sociais e os pendores sensuais, nenhuma resistência violenta, ameaça ou perigo são capazes de reter no círculo de suas ocupações diárias uma alma tocada pela potência contagiosa da Verdade.
- A consciência revela-se, assim, como a mãe de todas as contradições de nossa natureza anteriormente mencionadas, sendo este aguilhão que, no meio dos prazeres do mundo sensível ou na satisfação de nossos pendores sensuais, nos impede de encontrar contentamento ou paz, interrompendo constantemente, por outro lado, nosso repouso espiritual e exortando-nos a continuar a luta, mesmo quando o objetivo parece atingido, de sorte que um dos dois rostos de Jano de nossa dupla natureza parece rir quando o outro chora, ou dormitar e só se expressar em sonho enquanto o outro está no mais claro da vigília e fala alto, pois quando nosso ser exterior se entrega livre e alegremente a todos os prazeres, uma voz exprimindo uma aversão interior e uma profunda tristeza vem perturbar nossa embriaguez, tal como, inversamente, nosso ser interior nos faz perceber, entre lágrimas e tristeza, os acentos de uma alegria que, quando lhes prestamos atenção, nos faz rapidamente esquecer a dor, à maneira da Fênix que exulta nas chamas que a consomem.
- Quanto mais o ser exterior triunfa com uma energia robusta, mais o ser interior se debilita e se refugia no mundo dos sentimentos obscuros e do sonho, enquanto, inversamente, quanto mais o homem interior se torna vigoroso, mais o homem exterior definha, constituindo esta uma experiência por demasiado antiga, pois o que um mais deseja não tem nenhuma utilidade para o outro, e o que o primeiro reclama é um veneno para seu parceiro, já que ambos os aspectos deste estranho par reivindicam seu direito de existir, nenhum disposto a ceder ao outro, puxando cada qual a atrelagem para seu lado e fazendo o homem oscilar entre a infelicidade e a felicidade, dilacerado e frequentemente esquarteado por esta atrelagem indócil, atraindo inevitavelmente a hostilidade de um quando favorece o outro, colocando-nos assim a questão fundamental de saber quando cessará esta eterna contradição, se o monstruoso nascimento de um ser duplo no qual uma parte é um fardo para a outra concluir-se-á pela morte efetiva de uma delas, ou se arrastaremos para o outro lado esta ridícula ambiguidade visceral, sem nunca nos libertarmos deste monstro que faz ressoar seus risos insolentes diante do altar sagrado de nossas melhores resoluções ou junto ao caixão de nossos entes queridos, e cujos risos altos se imiscuem até em nossas mais profundas alegrias, como numa estranha pilhéria na qual se brinca com nossa pobre natureza tal como se faz um sermão em camisola, onde, para acompanhar as palavras do pregador maneta, uma outra pessoa escondida sob suas roupas faz gestos de tristeza quando ele fala de alegria, gestos de alegria quando tem palavras tristes, ou executa movimentos de inquietação quando o orador fala muito calmamente, e movimentos calmos quando suas palavras são as mais ardentes.
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