schubert:eco
Eco
SCHUBERT, Gotthilf Heinrich von. La Symbolique du rêve. Paris: A. Michel, 1982.
- Fundamentação anatômica e funcional da mediação da fala pelo sistema nervoso
- A função da palavra no corpo é situada, antes de tudo, no nervo vocal, e também nos nervos que movem a língua e integram a dinâmica do faringe, de tal modo que a fala é pensada como operação orgânica enraizada em uma configuração nervosa específica.
- Essa configuração é colocada no vínculo mais estreito com uma parte do sistema nervoso que, perante os nervos do cérebro e da medula espinhal, constitui um todo relativamente independente e autônomo, isto é, um domínio nervoso que não se deixa reduzir ao eixo cérebro-medula.
- O conjunto assim descrito é identificado como sistema simpático, caracterizado por riqueza de gânglios e redes, do qual partem nervos para as vísceras torácicas e abdominais e para os vasos sanguíneos de todo o corpo, de modo que a vida interna e circulatória é tomada como campo próprio desse sistema.
- A tese de uma raiz originária entre a quinta e a sexta pares de nervos cranianos é rejeitada, sendo afirmado que há apenas relação com nervos cranianos e medulares, e que a suposta raiz, por extrema finura, não poderia estar em proporção com o restante do sistema, o que sustenta a ideia de autonomia relativa do domínio ganglionar.
- A possibilidade de um sistema ganglionar sem cérebro nem medula é usada como argumento de independência, recorrendo-se tanto ao reino animal considerado imperfeito quanto a malformações no reino superior, e acrescentando-se que faltas locais na cadeia de gânglios não necessariamente trazem prejuízos funcionais.
- Distinção morfológica e fisiológica entre sistema cerebral e sistema ganglionar
- A relação entre sistemas ganglionar e cerebral é atribuída a demonstração de Reil, como esclarecimento do vínculo sem anular a distinção essencial entre domínios.
- A diferença de configuração é apresentada como evidência imediata: nervos cerebrais e medulares contrastam com nervos do sistema ganglionar, e os nervos vocais são situados quase todos no âmbito ganglionar.
- A caracterização sensível dos nervos ganglionares é detalhada por textura mais mole e gelatinosa, coloração cinzento-amarelada e avermelhada, interrupção por numerosos gânglios e entrelaçamentos, e maior dificuldade de separação de filamentos, ao passo que os nervos do sistema cerebral são descritos como esbranquiçados, mais duros e mais fortemente oxidados.
- A diferença funcional é formulada como oposição entre condução voluntária e atividade involuntária: nervos cerebrais e medulares transmitem sensação ao cérebro e ordens do cérebro aos membros, ao passo que os nervos ganglionares não obedecem à vontade.
- A distinção é apoiada por exemplos de vivissecção e estímulo nervoso, segundo os quais a excitação de nervos do sistema cerebral provoca dor e grito, enquanto cortes e picadas em nervos moles do sistema ganglionar não ocasionariam dor, reforçando a ideia de um regime afetivo distinto.
- Integração do sistema ganglionar à vida vegetativa e sua topologia orgânica
- A totalidade do sistema vegetativo do corpo, isto é, os órgãos de formação, manutenção e crescimento do organismo físico, é atribuída ao sistema ganglionar.
- Os órgãos vocais são incluídos como constituídos por redes associadas a garganta, coração, pulmões, diafragma, mesentério, bacia e testículos, estabelecendo-se uma cartografia em que o domínio ganglionar é a trama que sustenta a vida orgânica.
- O sistema ganglionar é afirmado como ponto de partida dos nervos que irrigam grandes artérias, enquanto os nervos do sistema cerebral apenas seguem o traçado dos vasos sem se ramificar neles, o que sustenta a tese de comando vegetativo interno por infiltração nervosa na própria circulação.
- Com as artérias, cujo conteúdo participa da formação e manutenção de todas as partes do corpo, os nervos ganglionares se distribuem em todos os órgãos e comandam secreção, formação e geração, definindo uma soberania sobre processos constitutivos.
- Fronteira elíptica entre os dois sistemas e o papel do nervo simpático
- Os nervos simpáticos, formando de cada lado da coluna vertebral uma longa elipse com terminações no cérebro e na extremidade inferior da bacia, são definidos não como origem do sistema ganglionar, mas como limite entre ele e o sistema cerebral.
- No interior dessa fronteira, as redes ganglionares se separam em filamentos inumeráveis, permanecendo reunidas e iguais, e desse centro comandam digestão, secreção do sangue, formação e reconstituição, isto é, funções de manutenção e produção de vida corporal.
- A interrupção por centros nervosos é interpretada como suspensão de condução e especificação de sensibilidade a excitações exteriores particulares, e essa lógica é aplicada ao nervo simpático: sua interrupção constante por gânglios elabora um processo de semi-condução.
- A semi-condução é apresentada como mecanismo que, no estado normal, isola o sistema ganglionar do sistema cerebral e o torna independente, permitindo apenas influência indireta recíproca, de modo que movimentos do sistema ganglionar não chegam ao cérebro nem são sentidos pela alma, e o cérebro tampouco tem poder direto sobre vísceras e órgãos.
- Contudo, em certos casos, a clausura é suprimida, a semi-condução diminui em favor de condução total, e as relações e dependências entre os sistemas são restabelecidas, abrindo o campo para fenômenos limítrofes entre fisiologia e vida psíquica.
- Sono, morte natural e predominância ganglionar nos estados aparentados ao sono
- É retomada uma tese segundo a qual não apenas o sono, mas também a morte natural podem ser produzidos por efeito retroativo de órgãos subordinados ao sistema ganglionar, isto é, por ação ascendente da vida vegetativa sobre o domínio cerebral.
- Os fenômenos do sono e estados aparentados são atribuídos ao sistema ganglionar, que adquire predominância sobre o sistema cerebral, e essa predominância é interpretada como atividade da alma consagrada à vida vegetativa.
- Essa atividade vegetativa é descrita como possuindo tendência particular à criação, manifestada espiritualmente quando sua função própria é perturbada ou quando falta material, articulando-se uma passagem da função orgânica para expressão imagética e espiritual.
- No sono pacífico e saudável, a atividade orgânica ganglionar predomina e a atividade cerebral é interrompida, de modo que a atividade da alma se extingue em favor da função vegetativa.
- É estabelecida uma oscilação: no sono, a separação desaparece quando o processo de semi-condução é acionado e os dois sistemas se unem para funcionar juntos, ao passo que, no despertar, o estado natural retorna, os sistemas se isolam e a memória conserva apenas os sonhos que alcançaram região com acesso ao cérebro pelo nervo vocal, identificada como região do fígado.
- Sonambulismo e loucura como revelações extremas da relação entre os sistemas
- O sonambulismo é descrito como estado em que o sentido interior aguçado percebe o exterior com clareza superior à vigília, inclusive com olhos convulsivamente fechados e inaptos para ver, o que exige um deslocamento do lugar da percepção.
- O creux épigastrique, isto é, a zona epigástrica associada ao estômago, é apresentado como sede funcional de leitura, audição de voz inaudível e emergência de pressentimentos e premonições que ultrapassam a observação sensível comum.
- Quando a sonâmbula se torna una com a alma do magnetizador e adquire adivinhação de pensamentos e sentimentos, vistas profundas sobre história íntima de pessoas e capacidade de indicar medicamentos e lugares de ervas, a zona epigástrica é reafirmada como órgão dessa forma de conhecimento.
- O gesto instintivo de levar objetos ao epigástrio para observar com precisão é equiparado ao ato comum de levar objetos aos olhos, estabelecendo uma equivalência funcional entre órgãos de percepção.
- Apesar da ampliação de conhecimento e de sentimentos no estado de crise, no despertar tudo desaparece bruscamente, inclusive o próprio recordar do que foi dito e feito, instaurando uma ruptura entre série de estados e memória consciente.
- Dupla série de estados e autonomia recíproca de duas individualidades
- A supressão do isolamento no sonambulismo é afirmada como associação do centro habitual do pensamento, o cérebro, ao sistema ganglionar, permitindo participação do cérebro em atos espirituais realizados com auxílio desse sistema.
- No despertar, o isolamento é restabelecido abruptamente, e as atividades possíveis pelo sistema ganglionar não têm mais acesso ao cérebro; como o recordar voluntário é renovação pela vontade de emoções passadas, e a vontade não acessa os órgãos onde ocorreram tais emoções, o recordar se torna impossível.
- Surge o fenômeno de dupla série de estados: cada série é autônoma e sem relação com a outra, de modo que a sonâmbula não crê no relato de seu comportamento e sente impossível ter sido outra pessoa com capacidades diferentes.
- A coerência interna da série de crises é evidenciada pela memória nítida quando a pessoa retorna ao sono hipnótico, retomando conversas onde pararam e prometendo informações futuras, com ligação semelhante à continuidade entre hoje e ontem na vigília.
- O sonambulismo perfeito é dito possuir também visão lúcida do estado de vigília, lembrando eventos de passado longínquo que não podia recordar no estado ordinário, e assim a alma adquire capacidade de usar um sentido mais profundo, geralmente perdido no estado atual, de campo mais amplo do que os sentidos familiares.
- Uma analogia com instrumento dividido por parede espessa explica que acordes superiores só são percebidos quando a separação é removida; recolocada a separação, nem o eco é audível, reforçando a tese de que a barreira condiciona a passagem entre níveis de experiência.
- Estados aparentados com duas individualidades, mas com isolamento preservado
- São descritos estados próximos ao sonambulismo em que o isolamento persiste como na vigília, mas aparece com nitidez o fenômeno de duas individualidades separadas e em bons termos, reunidas numa pessoa.
- Um caso relatado por Erasmus Darwin apresenta alternância regular de estado em que a jovem é insensível a impressões sensoriais do entorno, não vê nem ouve o que ocorre, mas conversa coerente com ausentes tomados por presentes, declama versos e resiste a ajuda externa para encontrar palavras faltantes, e se queixa quando mãos são retidas ou olhos fechados, sem compreender a causa.
- No despertar, há terror e amnésia total do ocorrido, e o retorno ao estado habitual dura até a reaparição da rêverie, levando observadoras a falar de duas almas alternantes, o que enfatiza a aparência de duplicidade.
- Um caso por Gmelin descreve paciente que se toma por outra pessoa, uma emigrada francesa, fala francês, tem dificuldade inicial com alemão, toma parentes por visitantes desconhecidos, não recorda a personalidade desperta, mas revela atividade intelectual superior; no despertar, há amnésia do estado inventado e retorno da memória ao mergulhar novamente na série de sonos.
- A recorrência desses casos em notas médicas é usada para generalizar a estrutura: ausência de consciência fora da crise sobre o que ocorre na crise, e incompreensão inversa de que haja outra personalidade em outros momentos, com alternância de ser e tomar-se por pessoas distintas.
- A duplicidade é estendida à convalescença de longas doenças, e é afirmado como realmente presente na loucura e no sonho, onde a pessoa se torna frequentemente outra, inclusive em traços de caráter.
- Esclarecimento pelo duplo sistema de nervos e a mediação do sonho
- A explicação geral é reconduzida à existência e divisão do duplo sistema nervoso: nos casos descritos, a atividade da alma através do sistema ganglionar justifica o estado estrangeiro à personalidade habitual.
- O caráter específico do sistema ganglionar é associado ao dom de profecia e a fenômenos de pressentimento extremamente aguçado, sugerindo uma natureza própria do modo de sentir e conhecer que emerge desse domínio.
- Quando a alma escolhe o sistema ganglionar como centro, ela fica cortada dos recursos do sistema cerebral e dos sentidos pela presença da barreira natural, e o inverso também ocorre, estabelecendo uma exclusão mútua de repertórios.
- O sonho é situado como terceiro estado intermediário, pois conserva-se memória de sonhos agitados ao despertar, e certos conteúdos aparentemente esquecidos de crises podem reaparecer no sonho seguinte como imagem onírica, tornando-se então memoráveis.
- O sonho é definido como órgão de transmissão entre crise e vigília, comunicando à consciência desperta os fenômenos do primeiro estado, o que introduz uma função mediadora distinta da simples ruptura.
- Nervo vocal, fígado e centro de gravidade orgânico como eixo de comunicação
- A ligação de muitos sonhos com a vigília é atribuída essencialmente ao nervo vocal, considerado mediador entre os dois sistemas.
- O nervo vocal, depois de assumir caráter e função do sistema ganglionar, torna-se um dos nervos essenciais do fígado, órgão descrito como excessivamente ativo desde o início da vida em funções de desenvolvimento do organismo e coagulação.
- O fígado é ligado ao centro de gravidade do corpo em certas posições, sobretudo deitado, e essa centralidade é estendida a outros aspectos, sendo ele entendido como fonte fundamental do desenvolvimento orgânico que liga intimamente à matéria e ao espaço.
- A sensibilidade do fígado a mudanças de residência é reafirmada, e são mencionadas doenças hepáticas em deslocamentos continentais e o mal de mar como afecção dos órgãos de secreção da bile, de modo que a geografia e o movimento físico são integrados à fisiologia afetiva.
- Movimentos bruscos e balanços são apresentados como agindo sobre esse centro de gravidade natural, e a utilidade terapêutica do balanço regular é vinculada a descobertas recentes para consumo e outras doenças de desordem vegetativa, expandindo a função do órgão no regime de cura.
- O fígado, como fonte do princípio amargo, é tomado como sede de paixões cujos movimentos são difíceis de dissimular e atravessam a barreira até a palavra, incluindo cólera, ódio, inveja e orgulho, e por isso sua atividade é conectada à loucura oriunda do domínio das paixões.
- A utilidade do balanço é estendida ao tratamento de loucura, epilepsia e outras doenças, e estabelece-se que a região ganglionar em relação com o fígado está, pelo nervo vocal, em ligação estreita com cérebro e consciência, enquanto no nó celíaco e no estômago os nervos do verdadeiro sistema ganglionar ocupam lugar mais importante.
- Posição corporal, digestão e qualidade dos sonhos
- No sono, mudanças de posição que deslocam o fígado são apresentadas como influenciando a natureza e vivacidade dos sonhos.
- Após sonhos penosos e agitados, uma sensação singular e desagradável na região do fígado é tomada como indício da fonte do fenômeno, conectando experiência subjetiva a causa orgânica.
- Digestão fácil é associada a sono saudável e pacífico, ao passo que perturbações digestivas são associadas a sono interrompido por imagens oníricas, integrando fisiologia digestiva e dinâmica imagética do sonho.
- Atividade espiritual travestida na vida vegetativa e retorno sob impedimento
- As funções do sistema ganglionar são interpretadas como encerrando uma atividade espiritual travestida na vida vegetativa, isto é, uma potência que se apresenta disfarçada como operação orgânica.
- Uma analogia química compara o ácido que queima órgãos do gosto e tato com o ácido misturado ao gesso para obter gesso/plâtre: ao misturar, as qualidades parecem perdidas; ao separar, reaparecem, servindo para pensar o reaparecimento do espiritual quando separado de seu material.
- Uma analogia moral descreve o assassino acorrentado a uma tarefa: enquanto trabalha e dorme profundamente parece não ser o que é, pois sua natureza sanguinária se oculta; liberado por intervenção externa, reaparece em seu verdadeiro aspecto, como o devasso faminto que retorna a si sob melhor tratamento.
- Desordens vegetativas como fonte de sonhos agitados, loucura e cura
- Afirma-se que não apenas a digestão perturbada produz sonhos agitados, mas também interrupções súbitas de secreções e processos corporais, como secreção láctea, hidropisia ou erupções, podendo gerar loucura.
- Inversamente, a loucura pode ser curada por abscessos artificiais e outras ocupações da pulsão vegetativa, indicando que a terapia pode operar pela redireção de forças vegetativas.
- São listados vínculos entre repressão ou ausência prolongada de menstruação e melancolia profunda, entre vida vegetativa desregrada por onanismo e tendência ao suicídio, e entre dificuldades digestivas e hipocondria próxima da loucura, estabelecendo uma causalidade fisiológica que desafia teorias psicológicas comuns.
- É afirmado que o materialismo grosseiro de certos médicos se aproxima frequentemente mais da realidade por ensinar procedimentos concretos de restauração, como eméticos, arsênico, feridas graves, pustulas, erupções, abscessos, balanço, melhor alimentação, reabertura de feridas, retorno de menstruação ou secreção láctea, e até gesto hipnótico descendente no rosto, bem como sanguessugas para curar visões.
- Paralelamente, pequenas mudanças podem precipitar loucura: mudança de alimento ou tempo, sobrecarga do estômago por couro engolido, vinho com sal grosso, sementes de datura, afastamento da luz, doença ocular, afastamento do entorno, mostrando a precariedade do equilíbrio entre os sistemas.
- Um caso de idosa com constipação periódica é usado para mostrar variação de lucidez e regressão a fases de vida passada até hebetude profunda e perda de autoconsciência, com perguntas sobre pessoas há muito mortas, sugerindo reorganização temporal da memória conforme estados vegetativos.
- A doença terrível que impele a matar é descrita com sinais corporais prévios: ardor na região dos gânglios abdominais e afluxo de sangue à cabeça, com urgência de afastar familiares, evidenciando uma dinâmica vegetativa antecedendo o ato.
- Núcleo noturno e vergonhoso da alma vegetativa e sua liberação em estados patológicos
- Sustenta-se que não é a parte mais brilhante e melhor do ser que está atrelada como alma vegetativa, mas a parte vergonhosa de um ser em frangalhos, reconhecida quando se liberta por instantes.
- O terror diante do lado noturno visto em sonho é apresentado como experiência de confrontação com essa camada, e no somnambulismo simples indivíduos calmos podem inclinar-se a crimes, exigindo vigilância.
- Um caso clínico de dança de Saint-Guy descreve um menino calmo que, na crise, parece possuído, ri de modo assustador e busca ferir perfidamente os presentes, inclusive com agulha escondida sob flor, compondo uma imagem de malícia e destruição emergindo no estado alterado.
- A loucura, quando não se reduz a estupidez, é associada a inclinação surpreendente à destruição, ao assassinato e à mentira; até idiotas inofensivos são descritos como inclinados a acender fogo, sugerindo universalidade do impulso destrutivo sob certas formas.
- Em alienados de grau superior, a capacidade de simular gentileza e ocultar tendência homicida é afirmada, sobretudo em quem teve razão destruída por sensualidade bestial, e estabelece-se a tese de que a sensualidade normal seria máscara sob a qual se esconde inclinação ao assassinato e destruição.
- Mesmo em supostamente curados, permanece eco de tendência homicida, e libertações precoces podem levar a parricídios ou matricídios, o que reforça a ideia de persistência subterrânea do impulso.
- Autodestruição e crueldade contra o próprio corpo
- Quando a loucura homicida carece de vítima, tende a voltar-se contra o próprio doente, que pode amputar membros, cortar-se ou morder mãos e dedos com crueldade.
- Nos graus mais graves de idiotia, afirma-se haver crueldade obscura contra o próprio corpo, sugerindo que o impulso destrutivo pode deslocar-se do outro para si.
- Mentira coerente e teatralidade do delírio como produção ganglionar
- É destacada a astúcia e finura com que alienados podem tornar-se irreconhecíveis e narrar história totalmente inventada como se fosse própria, com coerência persuasiva.
- Casos de Gregory e de um alienado sedutor dos assaltantes da Bastille são usados para mostrar como tais narrativas podem induzir liberação de cadeias e, uma vez soltos, gerar perigo mortal, tornando a palavra instrumento de engano.
- A adoção de biografias mentirosas é afirmada como não rara na história da doença, e as produções do sistema ganglionar no sonho são ditas parcialmente fundadas em engano e mentira, conectando sonho e delírio por uma lógica produtiva comum.
- Loucura furiosa com consciência preservada e fusão entre paixão e delírio
- Um gênero de loucura é descrito como associando destrutividade e homicídio a uma consciência aparentemente saudável, onde se encontram paixão selvagem e verdadeira loucura.
- Um caso de camponês que parece curado, retorna ao vilarejo e mata com premeditação esposa e filhos após aquecer o espírito no jogo de cartas mostra reaparição progressiva do impulso homicida sob influência de irascibilidade não reprimida.
- Um caso de dama sensível que nutre ódio frio contra o primeiro filho e tenta matá-lo com premeditação, com pretexto de semelhança com inimigo, reforça a tese de paixões ilegítimas como fundo causal, e a medicina é invocada como depositária de relatos semelhantes.
- Gênese da loucura como inversão do rapport natural e concentração contra natureza
- A natureza do galeote acorrentado ao ser é reconhecida sobretudo pelo modo como a loucura é produzida: ela consiste no reverso do rapport natural, em que a atividade criadora da alma, desviando-se de sua função habitual, expressa-se psiquicamente.
- A vigor do organismo espiritual se concentra numa função contra natureza em que a atividade do sistema cerebral é obscurecida, definindo a loucura como deslocamento de soberania do domínio superior para um foco anômalo.
- A predominância da atividade vegetativa da alma sobre faculdades superiores pode manifestar-se negativamente pela perda de soberania do órgão superior sob doença ou erro, mas mais frequentemente positivamente por liberação da atividade travestida na função vegetativa e sua tomada de soberania, ou por despertar e nutrição da alma adormecida por influências aparentadas.
- Lei de ressonância das paixões e despertar da atividade subalterna
- Uma analogia musical descreve que um som desperta ressonância de cordas em uníssono, e esse esquema é aplicado às paixões, desejos, ódios, simpatias e antipatias, cuja esfera e origem são situadas no sistema ganglionar.
- As paixões agem de modo estimulador ou destrutivo sobre o sistema ganglionar, e assim a disposição adormecida para a loucura pode ser despertada pela manifestação de capacidade aparentada.
- A maioria dos loucos teria perdido o uso da razão por paixões, enumerando-se irascibilidade, ódio, avareza desmedida, dissipação, concupiscência selvagem, simpatia violenta, fixação da alma em objeto impróprio, com destaque para orgulho e vontade nunca quebrada por má educação.
- Em loucura ou melancolia religiosas, é afirmado frequentemente haver precedência de orgulho e autoelevação, com confissões de sentir-se o mais santo antes da queda na loucura, e um caso de Cox é mencionado com exceção em que resta profundo sentimento de honra e temor da verdade.
- Orgulho, perversão do órgão do Verbo e casa de correção da matéria
- Se o tom de base da atividade subalterna é orgulho, uma velha expressão teosófica permitiria derivar o naufrágio de uma atividade superior do orgulho rumo a criação material inconsciente, e o prisioneiro seria criminoso que expia de modo benéfico.
- Privado de forças originárias ou incapaz de usá-las, aprende subordinado ao conhecimento sensível e à vontade a obedecer, e uma sentença antiga, ganhar o pão com suor, é introduzida como limite pedagógico ao orgulho.
- Afirma-se que a disposição primordial destinada à obediência, que deveria ser órgão pelo qual o Verbo da região superior chegaria ao homem, foi pervertida pelo orgulho; por isso o rapport originário pode ser facilmente restabelecido na função vil que substituiu a disposição primitiva.
- A matéria e a região obscura do físico tornam-se casa de correção, de onde se sai curado se se usam os meios propostos; contudo, restos de orgulho resistem e fazem o doente sabotar esforços de cura, pois pressentem sua própria morte.
- Uma imagem dramática descreve o véu rasgado e a liberação do assassino interior, com fúrias que se erguem contra quem as protegeu, e o discurso culmina em exortação a não libertar o assassino acorrentado antes que se torne melhor.
- Transição para análise das propriedades físicas do sistema ganglionar
- É anunciado estudo ulterior dos princípios da casa de correção no capítulo seguinte, e uma análise mais estrita das propriedades físicas do sistema ganglionar é indicada como via de acesso, reinserindo o discurso num fio fisiológico.
- Função vegetativa do sistema ganglionar como destruição e extração de princípios
- O sistema ganglionar é definido como assumindo funções vegetativas no organismo vivo, com papel de destruir a matéria presente e extrair princípios constitutivos, associando fome e morte num só termo no plano do mito e linguagem.
- A figura do alquimista helmontista, alma-estômago, é descrita como cega e alheia à pedra filosofal, e a prisão subterrânea recebe mais luz do alto do que precisa, mas uma barreira impede que tais raios sejam percebidos.
- Mundo animal sem sistema cerebral e emergência de sentido novo
- O mundo dos moluscos é descrito como desprovido de verdadeiro sistema cerebral, vivendo unicamente pelo sistema ganglionar, sem órgãos dos sentidos e constituído apenas por tronco, mas ainda assim reconhecendo o que se relaciona ao campo de necessidades vitais.
- A capacidade de ruses e habilidade é comparada ao sonâmbulo que vê com olhos fechados e ouve sem uso da audição, pois um sentido novo emergiu no sistema ganglionar.
- No mundo dos insetos é constatado um sistema ganglionar simples que se aproxima do cerebral, com estágio larvar sem órgãos dos sentidos e sensibilidade excepcional ao exterior.
- A atividade vegetativa aparece como instinto de criação em obras de arte externas ao corpo para cobrir ou conservar, integradas fisiologicamente aos próprios tecidos como pelos e pele na periferia de animais mais evoluídos.
- A construção do ninho pela abelha dos muros é equiparada ao instinto vegetativo materno que organiza tecidos e órgãos nutritivos do feto, e ao mesmo tempo se afirma que manifestações de insetos e fenômenos de região superior, entre eles magnetismo animal, mostram que a força vegetativa originalmente podia agir além do domínio estreito do organismo material.
- Sistema ganglionar como sede de simpatias e atividades ditas mágicas
- O sistema ganglionar é posto como sede de simpatias e de atividades da natureza que não se explicam por leis de simples contato mecânico, sugerindo um regime causal distinto.
- Certas atividades da natureza subalterna podem ser comunicadas e inoculadas à natureza humana pelo sistema ganglionar, e a mordida de cão raivoso é usada como exemplo: o doente consciente sente instinto canino irresistível de morder e pede para ser amarrado, como se a natureza canina tivesse sido incorporada.
- Um exemplo do filho do Grand Condé é citado como inoculação que leva a crer-se transformado em cão e a desejar latir, e um caso de nonnas que miavam diariamente é acrescentado, junto de demoníacos que emitem vozes de feras e imitam suas naturezas, sugerindo metamorfoses expressivas.
- Diante disso, a metempsicose antiga é dita não parecer totalmente absurda, e Nabucodonosor é lembrado como transformação em animal, compondo continuidade entre mito, religião e fisiologia do instinto.
- Contágio, imunidade aparente dos alienados e magnetismo animal
- A receptividade feminina e capacidade de reprodução do sistema ganglionar aparecem na história de substâncias contagiosas: enquanto permanece no domínio habitual, é suscetível a doenças; quando abandona funções vegetativas e age psiquicamente, essa suscetibilidade desaparece.
- Daí deriva a tese de que alienados não estariam expostos a contágio, permanecendo ilesos entre pestíferos e febris, como efeito da mudança de regime funcional.
- No magnetismo animal, os estados são ditos facilmente desencadeados por passes do alto para baixo, mas também por gesto inverso, sopro, toque das mãos ou do polegar, e até pela vontade à distância.
- Esses estados podem surgir sem magnetizador, por mudanças de humor e influências que excitam a atividade ganglionar, e todas as influências vitais convergem na parte média do sistema ganglionar, podendo agir conforme direção escolhida.
- Um estado semelhante à crise pode ser provocado por ausência de menstruação e, em experiências isoladas, por galvanismo; em naturezas muito sensíveis, a proximidade de gato ou predadores, e até de serpentes venenosas ocultas no quarto, pode produzir convulsões análogas às crises de loucura.
- Geração, gravidez e limitação atual de uma faculdade criadora
- A propriedade do sistema ganglionar manifesta-se sobretudo na geração e gravidez, e na mulher aparece como transformação interior do que originalmente deveria ser obra do Verbo da Conhecimento, e não instinto vegetativo inconsciente.
- Em contraste com a antiguidade suposta em que a natureza sensível era material e órgão dessa faculdade criadora, no estado atual ela é dita limitada ao estreito sistema ganglionar, reconfigurando a criação como função orgânica confinada.
- Sexto sentido, simpatia e clarividência espacial pelo sistema ganglionar
- Mesmo no estado atual, o sistema que liga à matéria deixaria disponível um sentido que ultrapassa limitações espaciais e obstáculos da gravidade e corporalidade, conectando com influências vivas de um universo próximo e distante, espiritual e material.
- Sensações de calor e frio e fenômenos do chamado sexto sentido são atribuídos ao sistema ganglionar, como sentir no escuro a presença de objeto, calafrios durante o sono à aproximação de uma mão, e simpatias e antipatias.
- Em certos estados corporais, essa esfera se amplia a ponto de perceber mudanças iminentes de tempo, metais e massas líquidas distantes, incêndios e eventos semelhantes, e tal clarividência é tomada como não dependente do sistema cerebral.
- No estado de clarividência magnética, as barreiras corporais entre indivíduos seriam abolidas, a alma do sensível torna-se una com a do magnetizador, conhece pensamentos, participa de sensações físicas e gostos, percebe movimentos do magnetizador atrás, e participa do estado doentio dele.
- Por vontade do magnetizador ou por contato, a somnâmbula pode ser posta em relação com terceira pessoa distante e saber sobre ela; a vontade concentrada do magnetizador pode agir a grande distância e induzir crise, e no estado de clarividência a pessoa sabe do que ocorre no país e percebe o mundo exterior inteiro como presente.
- Capacidades relatadas incluem ler livro desconhecido por mediações, adivinhar hora em relógio fora do campo de visão, perceber aproximação distante, e ser transportado a região nunca visitada onde vê o que buscava, além de casos de visão correta de evento como roubo.
- Clarividência em estados de ravissement, morte aparente e pressentimentos
- Fenômenos de clarividência e pressentimento são estendidos a ravissement, sonho, inconsciência, morte aparente e estados onde a possibilidade de agir no exterior é ainda mais eliminada.
- Casos de aparição de ser querido no instante da morte ou em momentos importantes, com visão e audição da voz, são atribuídos a observadores objetivos demais para serem negados totalmente, e um caso familiar é acrescentado como confirmação narrativa.
- A dificuldade usual de lembrar tais sonhos profundos e estados de inconsciência é reconhecida, mas é dito ser curioso que somnâmbulos em clarividência saibam com precisão o que ocorreu em torno deles durante catalepsia.
- Esses fenômenos são interpretados como lembrança de um dom superior do homem, sendo ainda apenas sombra do que o sentido superior abrange quando desperta de modo saudável; a analogia do bulbo aberto mostrando artificialmente o futuro lírio reforça a diferença entre sombra e desenvolvimento pleno.
- Periodicidade temporal e origem ganglionar do ritmo vital
- Os órgãos que acorrentam à matéria podem fazer ultrapassar limites materiais e isso inclui o tempo, pois toda periodicidade e divisão cronológica entrariam na vida animal pelo sistema ganglionar.
- Os movimentos dos órgãos ganglionares são descritos como rítmicos, periódicos, por contrações e elongaçõ es em sacadas, e essa sacudida aparece em doenças de órgãos voluntários provenientes do sistema ganglionar, como epilepsia.
- Fenômenos ligados a momentos precisos, como sono, vigília, digestão, crescimento, menstruação e períodos críticos de febre, são declarados originários do campo ganglionar, e a vida vegetativa é dita ligada a tempos muito precisos.
- A capacidade reprodutiva do animal desperta naturalmente sob certas posições dos astros, e variações em animais domésticos e diversidade humana são atribuídas à modificação humana das épocas de acasalamento e à perda de ligação a épocas precisas.
- Menstruação, oráculos, sacrifício e reconciliação pelo sangue
- A dependência temporal reaparece no humano, e na mulher a natureza psicofísica hostil e destrutiva do sistema ganglionar seria mais facilmente liberada, sendo contida pela menstruação cujo cessar facilitaria despertar destrutivo.
- Esse fato corporal é posto em relação com elementos da história dos oráculos e sacrifícios humanos e sua associação, sugerindo correspondências entre fisiologia e instituições religiosas.
- A exaltação píthica é vinculada ao despertar de capacidades psíquicas inibidas do sistema ganglionar cujo caráter essencial é loucura de destruição, e uma fúria interior que se apazigua apenas no sangue.
- O culto cruel do México antigo é apresentado como participante de conhecimento divinatório sacerdotal, e uma forma superior e pura de algo semelhante é afirmada como orientada a fim melhor, ainda que por reconciliação pelo sangue.
- Dias críticos, crise e insuficiência explicativa do pressentimento profético
- O caráter de dias e períodos críticos é dito valer sobretudo para doenças sediadas no sistema ganglionar, sendo mais discreto em mal-estares onde o sistema cerebral é mais afetado.
- A previsão do tipo de crise em dia decisivo é atribuída à relação com crises passadas, com exatidão comparável à das crises de somnambulismo, mas admite-se que a disposição profética que anuncia eventos aparentemente fortuitos não foi suficientemente explicada.
- Propõe-se então que a visão profética se funda em clarividência no tempo, enquanto os fenômenos anteriores seriam clarividência no espaço.
- Os estados que o ser atravessa em diferentes momentos seriam regidos por lei rigorosa, e o distante amado e o próprio sujeito, o presente e o futuro, seriam reunidos numa terceira entidade cujo raio toca o sentido interior em momentos proféticos.
- Afirma-se inexistência de acaso na história do desenvolvimento do ser eterno, pois o ser escolhe o amor, e por eventos em ordem imutável é elevado a paz eterna ou a tormento eterno.
- Previsões específicas em clarividência e amplitude temporal do somnambulismo
- Pessoas em estado de abertura íntima predizem duração do estado quando reaparece e futuras crises, e também eventos não dependentes delas, como incidentes com torção do pé em casos associados a Wienholt.
- Um caso de previsão de ida ao campo, tentação de montar a cavalo e queda é relatado como confirmação inesperada, e a somnâmbula é dita saber quando uma ideia amadurecerá e quando responderá a certas perguntas.
- A aptidão de pressentimento é estendida a outras pessoas em relação com o somnâmbulo, prevendo eventos futuros e fim próximo de sofrimentos.
- O somnambulismo é descrito como frequentemente dotado de aptidão profética tanto para futuro quanto para passado, com lembrança admirável de pequenos eventos esquecidos há anos, e o sonho também faz retornar eventos da primeira infância.
- Essa capacidade se estende a pessoas estrangeiras ligadas ao somnâmbulo, que conhece eventos relativos à doença atual delas, muitas vezes esquecidos pelos próprios doentes.
- Memória, barreira à vontade e fechamento progressivo com a idade
- Quase todos os fenômenos de memória incomum e imaginação reprodutora são colocados em relação estreita com o sistema ganglionar.
- Ao tentar reencontrar impressões sensíveis e atividades do sentido interior, uma grande parte das emoções passadas centradas no sistema ganglionar é necessariamente perdida para a memória, porque a vontade não pode renovar a propósito emoções ligadas a esse sistema devido à barreira.
- Na juventude, com vitalidade vegetativa no ápice, a natureza sensível consegue fazer junção entre sistemas e eliminar rapidamente a barreira; no envelhecimento, a fronteira se estreita até cortar o acesso da vontade à região das sensações.
- A obtusidade senil é descrita como esquecimento de eventos decisivos e de conhecimentos antes profundos, com exemplos de grandes intelectuais que não compreenderiam suas próprias obras e de perda de habilidades linguísticas elementares, e até o piedoso inspirado conservaria pouco além de prece de juventude.
- Contudo, não se perderia de fato o patrimônio adquirido na infância, e experiências mostram que, frequentemente, à hora da morte, em sonho e em estados análogos, e em menor medida na embriaguez alegre, lembranças e sentimentos apagados reaparecem, e a razão perdida retorna pouco antes da morte junto de memória biográfica e de eventos da vida.
- Afirma-se que a loucura pode desaparecer como pesadelo, e que loucos ao dormir têm sonhos sensatos e coerentes, com a série de estados despertos prosseguindo por intermédio do sonho.
- É dito ainda que, em certos casos, por meio da loucura ou no meio dela, pode haver evolução e desenvolvimento de forças psíquicas superiores, com melhorias morais e intelectuais após cura.
- Um caso de mulher com loucura de vinte anos que desperta quatro semanas antes da morte e exibe elevação e sublimação de faculdades e expressão nobre é usado para afirmar que errâncias do espírito na velhice ou em estados obscuros não provam a tese materialista de perda definitiva.
- Lugar dos recuerdos e princípio afetivo da memória
- A questão de onde se escondem conhecimentos e lembranças aparentemente perdidos é respondida por remissão ao que foi dito sobre a barreira e o sistema ganglionar como sede das sensações.
- Afirma-se que fatos se gravam na memória na medida em que interessam, isto é, se relacionam ao amor como tendência fundamental, ou influem no campo de sentimentos com prazer ou dor.
- A memorização de reflexos mecânicos, como palavras estrangeiras sem sentido conhecido, só se mantém se houver relação, ainda que mínima, com sentimentos e tendência fundamental; quanto menor a relação, mais rápido desaparecem.
- O que não influi no domínio vivo tende a estar fora da esfera do conhecimento, e só se conhece, à luz do amor, o que é útil ou nocivo a ele, ou o que pode tornar-se objeto de simpatia ou antipatia.
- Daí decorre que extensão da conhecimento é proporcional às proporções do amor: conhecimento mais alto acompanha amor mais elevado, e conhecimento mais modesto acompanha amor mais limitado, com comparação à natureza animal que conhece apenas o que se relaciona a necessidades.
- Sistema ganglionar como centro unificador de sentimentos e origem do coração afetivo
- O sistema ganglionar é definido como fonte e centro unificador dos sentimentos e tendências do ser.
- As funções sensíveis dependentes do sistema cerebral, como vista e audição, são ditas operar sem sensação própria de prazer ou dor, mas quando há elevação do sentimento diante de beleza natural ou sons harmoniosos, reconhece-se que a emoção não se limita aos sentidos e provém da região dos sentimentos chamada coração.
- Em contraste, funções ganglionares no mundo animal são ligadas a prazer e dor, e alimentação, acasalamento e outras funções excitam violentamente a bestialidade, indicando que a afetividade está ancorada no domínio vegetativo.
- O sentimento sublime de bem-estar físico e paz interior é associado ao esmaecimento da barreira entre sistemas, com ampliação do círculo da consciência.
- Em sono, inconsciência, morte aparente e estados análogos, quando a barreira desaparece e os sistemas fazem um assegurando funções ganglionares dominantes, surge sensação de bem-estar e beatitude segundo testemunhos, e loucura e frenesia também se ligam a ravissement quando barreiras são abolidas.
- A frenesia é tomada como sinal favorável de cura próxima, e um relato de aliéné tratado por Willis descreve felicidade durante crises, facilidades em pensamento e ação, memória ampliada, capacidade de versificar e astúcia, o que sustenta a tese de intensificação cognitiva por rearranjo de sistemas.
- Nos somnâmbulos, esse ravissement aparece com diferença: o cérebro participa positivamente, não negativamente como na loucura e sono, e o auge do sentimento ocorre no estado de vigília associado.
- Intensificação cognitiva, interação vontade-sistema ganglionar e vias de remediação
- A associação dos dois sistemas ocorre por atividade intensa de um deles: em embriaguez, somnambulismo e alegria extrema por ampliação do sistema ganglionar; em conhecimento profundo por elevação do poder psíquico.
- Em ambos os casos, o sentimento intensificado passa à alma a partir do sistema ganglionar, que é também órgão da Conhecimento em duplo sentido, conhecimento e procriação físicos e conhecimento espiritual.
- A faculdade de conhecimento espiritual é apresentada como mais livre pela manhã em jejum, quando a faculdade psíquica ganglionar ainda não se extinguiu em favor da digestão, e mais limitada quando o corpo está em estados opostos.
- A diferença entre grande talento e outro limitado é atribuída a maior poder da vontade sobre a esfera ganglionar e menor influência desta sobre o cérebro, enquanto no segundo a interação é mais difícil.
- Daí se explicaria remediar frequentemente a imbecillidade por movimentos ao ar livre, feridas sobretudo na cabeça e outras influências que facilitam a interação, estabelecendo uma terapêutica pela modulação do acoplamento entre sistemas.
- Os somnâmbulos são descritos como receber conhecimentos elevados por meio do epigástrio e do sistema ganglionar, não pelo caminho habitual da conhecimento sensível, e esse sistema é declarado único órgão para apreender o que ultrapassa o mundo sensível.
- Quando o homem percebe regiões espirituais superiores ou conhece pensamentos e opiniões de outrem, isso é dito possível porque a alma recupera órgão de Conhecimento superior normalmente ocupado por funções inferiores, e tais possibilidades são vistas como representantes de felicidade rara associada a aspirações puras.
- Retorno de conhecimentos e recuerdos como efeito de reabertura da relação entre sistemas
- Se conhecimentos e recuerdos têm sede no sistema ganglionar, então a aparente perda e súbito retorno em velhice e neuropatias se esclarece.
- O recuerdo é definido como renovação mais ou menos arbitrária de emoções já sofridas, e o fechamento da região ganglionar à vontade impede renovação proposital de emoções, tornando conhecimentos inacessíveis sem serem destruídos.
- Um sonho, uma alegria súbita e sobretudo o estado que frequentemente precede a morte podem restabelecer bruscamente a relação interrompida, permitindo retorno de lembranças.
- O estreitamento do campo da Conhecimento ensina o valor da região do sentimento e da materialidade grosseira: ela é terra nutriz ou ventre materno onde se confia fruto de esforços, renúncias e capacidades adquiridas no Bem e no Mal, incluindo germes de existência nova e superior.
- Analogias de metamorfose de larvas, do Phénix nascendo de verme, e de vida nova formando-se entre putrefação e morte, culminam na referência à ressurreição a partir do osselet Lus, como figura de geração do superior a partir do desprezado.
- Retomada do fio inicial: nervo vocal, Verbe criador e redução atual à linguagem vulgar
- O nervo vocal e a esfera dos órgãos vocais são reinseridos como parte de um sistema cujas funções são as do Verbe criador, isto é, criação de um universo em miniatura subordinado.
- Embora limitada, essa esfera mostraria, por fenômenos como poder psíquico do magnetizador sobre a somnâmbula e influências do homem sobre a natureza, que o sistema ganglionar foi originalmente órgão pelo qual o homem podia agir criando e modificando a natureza.
- Em estados mistos de corpo e espírito, quando a verdadeira natureza do sistema ganglionar se manifesta, ela se dedica, ainda que atenuada, à antiga ocupação, e sonho, somnambulismo e exaltação são descritos como condução a uma natureza nova, rica e sublime, criada de si mesma, universo de imagens e formas.
- Contudo, essas produções são apenas eco fraco de capacidades originárias, e uma analogia com grande artista acorrentado que modela com pão e desenha com corrente indica degradação de instrumentos e de potência criadora.
- Do antigo idioma divino, cujas palavras eram objetos da natureza sensível e cujo conteúdo era Deus e amor do coração humano por ele, restaria apenas som sem ser e sem corpo: voz e linguagem vulgar de palavras, apresentada como eco enganador.
- Linguagem futura das almas e nome verdadeiro: Phosphorus como capacidade de amar
- Em estados de Conhecimento superior, alguns teriam lido na alma alheia e respondido a pensamentos não formulados, e isso fundamenta expectativa de linguagem futura das almas, comunicação de pensamentos e sensações mais eficaz que palavras.
- A pequena parcela remanescente da esfera de influências espirituais ainda é vista como quadro dos mais altos milagres da natureza atual, e recebe nome verdadeiro: Phosphorus, entendido como capacidade de amar.
- A região espiritual superior só se revelaria ao Amor, pois ele conhece ao elevar-se a objeto mais digno além do círculo estreito da existência cotidiana, e somente o Amor acompanharia no Além, com o que recebe de um ambiente mais amplo ou mais estreito.
- O Verbe revelado é identificado como natureza sensível, e o sonho, a exaltação e a bênção profética são descritos como linguagem atual do Amor superior, produzindo universo de formas vivas e sentimentos para expressar aspiração.
- Queda do amor, contaminação pelo sono da matéria e fidelidade relativa do sistema cerebral
- A capacidade de amar se desviou de seu objeto originário e voltou aspiração eterna para causa efêmera, e é traçado paralelo com o sono natural, prefiguração da morte, que nasce de transposição periódica da paralisação ganglionar sobre o sistema cerebral.
- Phosphorus teria sido contaminado pelo sono da matéria à qual se uniu, e um adágio é invocado segundo o qual o elemento conhecente torna-se um com aquilo que conhece; como a matéria é cega e inconsciente, transmitiria sua cegueira ao amor unido a ela.
- A parte do ser capaz nem de amor nem de ódio, servindo à consciência pacífica de si, teria sofrido menos na antiga catástrofe, e o sistema cerebral, embora privado do órgão originário, permaneceria fiel à vocação espiritual primitiva.
- O estado atual do ser é comparado a convalescente de doença nervosa que retém apenas pequena parcela de consciência obscura; assim, com melhores faculdades de amor accaparadas por funções vegetativas, o estado presente é sombra do estado antigo.
- A recuperação de consciência plena no curado é usada como figura de possibilidade humana de reencontrar parte das faculdades perdidas; em certos casos, as limitações da grande idade são sinal de que disposições se transformaram em amor e o veículo se aligeira.
- A alma do velho é comparada à alma do feto, que dorme enquanto se forma o órgão, sugerindo que, na velhice, forma-se o feto da vida superior.
- Confusão das línguas, incompreensão entre sistemas e analogias físicas
- Quando no sistema cerebral desperta consciência de sua vocação, ele se encontra em contradição com sua verdadeira natureza porque uma parte fala língua do bisogno material e cego incompreensível ao órgão espiritual, e inversamente.
- Essa confusão babylonienne das línguas é usada para explicar o isolamento entre as duas partes do mesmo conjunto, como incompreensão mútua sem percepção recíproca.
- Uma regra geral é enunciada: só se compreende o que concerne ao domínio dos penchants e do amor; tendências diferentes impedem compreensão e até percepção.
- Analogias físicas incluem agulha magnética atraída por ferro mas quase insensível ao elétrico, luz e som não afetando diretamente a agulha, e analogia orgânica de que vista não percebe sons e audição não percebe cores.
- Exemplos de incompreensão entre disposições semelhantes são dados: a galinha choca não compreende o pato atraído pela água, o senso vulgar não compreende o espírito poético, o bom não compreende o mau, consolidando o princípio de afinidade por penchants como condição de influência.
- Quando atividade vegetativa ganglionar torna-se preponderante numa parte do corpo normalmente sob vontade, a parte se imobiliza e parece paralisada, reforçando a tese de domínio vegetativo como força de captura.
- Assim, o sistema ganglionar das funções vegetativas e o cérebro da atividade psíquica são incompreensíveis e isolados.
- Cérebro como parte não saturada da animalidade e abertura ao superior no homem
- Considerando o organismo na animalidade, cérebro e sentidos aparecem como parte que não participa diretamente do processo de vida vegetativa a que se reduz toda atividade animal.
- Alimentação, desenvolvimento e crescimento dependem dos órgãos vegetativos, e os órgãos cerebrais não participam, de modo que o sistema cerebral é parte ainda não accaparada por funções materiais e permanece receptiva a objetos aparentados ao penchant do ser.
- Uma analogia química com mistura não saturada de ácido e potassa é usada para dizer que parte permanece insaturada e receptiva, figurando a abertura do sistema cerebral.
- No animal cuja tendência tem por único objeto a matéria, essa receptividade não ultrapassa necessidades materiais; no homem, cuja tendência é originalmente superior, permanece receptividade para coisas sublimes que prazeres materiais não satisfazem.
- A razão humana é descrita como percepção de linguagem de ordem superior, voz de causa superior de toda vida, e o espírito, livre no oceano dos prazeres materiais, eleva-se como consciência de si acima da singularidade.
- Loucura como fixação, cura e encerramento da receptividade espiritual no material
- A loucura é associada a parada cataléptica da atividade psíquica e fixação num problema mental particular, e ao mesmo tempo frequentemente é tratada como prenúncio de cura quando a fixação se desloca para outros objetos.
- A causa é atribuída a parada da receptividade espiritual, que então fica encerrada no círculo de atividades e penchants materiais e ali encontra satisfação.
- Essa parte receptiva, não encerrada em penchants materiais, é acessível apenas a amor superior, e quanto mais se volta a atividade espiritual boa ou má, mais se corta do sistema ganglionar e de sua atividade exclusivamente material.
- Cultura, aumento da separação e, além do limite, reunificação pela espiritualização do amor
- A separação entre sistemas aumenta pela cultura do espírito até certo limite, e o homem selvagem e o animal seriam mais abertos a manifestações ganglionares e a raios de sua luz natural, como instinto, pressentimentos e clarividência espacial, do que o europeu civilizado.
- Em tais sujeitos, os sistemas são mais próximos e se compreendem melhor, a região ganglionar permanece mais acessível à vontade e emoções da esfera dos sentimentos se acordam melhor com tendências do sistema cerebral.
- É afirmado que, por isso, os indianos selvagens da América não estariam expostos à loucura, conectando condição cultural e patologia.
- Contudo, além desse limite, o isolamento tenderia a desaparecer completamente: quando penchants sensuais e materiais se enchem totalmente de Amor superior e espiritual, a estreiteza do instinto egoísta é eliminada, o domínio ganglionar se espiritualiza e se sublima.
- Com isso, a fronteira entre os sistemas desaparece, o isolamento cessa, e a vontade recupera uso de faculdades antes inutilizáveis e como que perdidas.
- Se tal reunificação se realiza na existência presente, o esforço supremo frutifica magnificamente numa existência futura, pois a maior parte das faculdades espirituais estaria normalmente ligada à matéria; quando libertada por estados patológicos como loucura, recupera constante psíquica e, por lei de similitude, exerce influência maior sobre o sistema cerebral, arrastando-o ao mundo de suas aspirações.
- Horizonte final: civilização superior moral e reconfiguração da esfera dos sentimentos e da natureza
- Para além dos limites da civilização habitual começa uma civilização autêntica, superior e moral, acessível ao homem natural e considerada preocupação mais importante da existência atual.
- Nesse horizonte, toda a esfera dos sentimentos, da linguagem onírica e da natureza aparece sob aspecto novo e superior, e anuncia-se que o capítulo seguinte fará conhecer tal aspecto, encerrando o movimento com promessa de desenvolvimento ulterior.
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