User Tools

Site Tools


schubert:confusao-linguas-schubert

De Uma Confusão Babilônica das Línguas (Schubert)

SCHUBERT, Gotthilf Heinrich von. La Symbolique du rêve. Paris: A. Michel, 1982.

  • O contraste curioso inerente à nossa natureza revela-se no fato de que a rigidez moral nunca concedeu valor supremo às sensações e prazeres íntimos que acometem o homem nos momentos mais felizes de sua vida interior, apesar de estas alegrias, que a alma recebe de sua relação e comunhão com sua origem superior, aparecerem como as mais puras e imateriais que ela pode alcançar em sua existência atual, sendo que, numa moral rigorosa, muito mais se fala de um abandono e de uma privação espiritual profunda de nossos prazeres mesmo mais imateriais do que de um estado necessário ao desenvolvimento da vida interior, frequentemente mais útil à sua prosperidade do que o do prazer, ainda que nossa dor, intangível e assim privada da consolação que as lágrimas trazem, seja a mais viva que a alma possa suportar em seu estado presente, pois nossas sensações, mesmo as mais imateriais e puras, confinam com outra região do sentimento apta a fazer facilmente o espírito mergulhar nas contradições mais flagrantes e nos perigos mais extremos, estando o espírito humano indefeso, desde sempre, exposto a perigos desta ordem, sendo inegável que, embora um espírito de conhecimento superior, objetivo e de uma comunhão íntima com o divino reinasse nos ensinamentos esotéricos e nos ofícios secretos, estes perderam muita de sua pureza inicial nas abominações orgiásticas engendradas por uma sensualidade frenética e bestial, conforme atesta o sentido verdadeiro, original dos mistérios báquicos, cujos abusos e excessos aterradores se conservaram até nossa época em certas construções verbais, revelando-se, assim, que o tumulto desencadeado por um desejo sensual e selvagem, a crueldade sanguinária e o fanatismo sempre se associaram precisamente a estes ensinamentos que, na origem, continham as emanações mais poderosas da Verdade superior e do Conhecimento divino, pois as doutrinas esotéricas de toda a Antiguidade, como os mistérios báquicos e os ensinamentos apolíneos, são, quanto ao conteúdo, estreitamente aparentadas, sendo este ainda reconhecível nos vestígios da idolatria dos povos atuais, sobretudo asiáticos.
  • Esta proximidade perigosa entre os extremos espirituais e sensuais manifesta-se na própria noção antiga de bacante ou ménade, que era tanto uma imagem de profunda contemplação religiosa, de recolhimento e quietude impregnada do sentimento doce e doloroso de um gozo interior espiritual, quanto a imagem de uma embriaguez espiritual frenética, de um vertigem dos sentidos feito de extravagância e inconsciência, sendo estes dois extremos sempre muito próximos um do outro, conforme ensina o estudo atento daquelas pessoas que tiveram uma vida interior intensa e lutaram toda a existência para alcançar o cumprimento religioso, pois foram precisamente as almas que mais tiveram de combater as tentações e incitações interiores mais ardentes as quais as impeliam aos prazeres sensuais que conheceram mais frequentemente as alegrias espirituais e o arrebatamento divino mais intensos, assim como quase todos os grandes cômicos possuem, ao lado de seu talento, uma profunda inclinação à gravidade e à melancolia, e os talentos trágicos revelam uma disposição para o cômico, havendo frequentemente, em crianças de pais de sentimentos profundamente bons, uma tendência particularmente marcada aos excessos mais selvagens, de modo que a crueldade fanática e outros desregramentos deste gênero puderam facilmente associar-se ao culto que tinha por objetivo despertar a alma, tornada estranha a si mesma, pela experiência de sentimentos poderosos e recordar-lhe o retorno à sua pátria espiritual.
  • A raiz deste antigo mal-entendido é profunda, pois, para a Antiguidade, o deus tornado homem, que era para todos um guia subtraindo as almas à materialidade e reconduzindo-as a sua origem pura e divina, era ao mesmo tempo o criador e soberano do mundo dos prazeres dos sentidos, aquele que distribuía a nutrição, sendo que, assim como a natureza inteira é a manifestação visível do Verbo divino e o corpo deste, este corpo transmitia-se ao homem em cada alimento, bebida e prazer sensível, razão pela qual ele era o ser bom, doce e generoso que prodigava as alegrias sensuais e no reino do qual a natureza corporal tomava todo seu valor, o dispensador de delícias amado por todos, ainda que o mesmo deus tivesse também prodigado sua carne noutro sentido, sendo, na origem, o dispensador de outras alegrias e outros prazeres, de sorte que as almas, tendo deixado sua origem pura e bem-aventurada para mergulhar no mundo da embriaguez sensual própria a Dionísio, esqueceram rapidamente, neste universo quente e agradável onde reina a volúpia, o retorno à sua pátria e esta pátria mesma, sendo, porém, o mesmo deus, pelo espelho do qual a nostalgia do mundo inferior e grosseiro se acendera nelas e que lhes fez esquecer sua pátria em seu universo sensível, também o guia que as reconduzia, estando igualmente presente para lhes estender a taça da Sabedoria e do Conhecimento que desperta nelas a nostalgia do mundo superior e lhes faz esquecer o mundo inferior.
  • A fonte de todas as nossas contradições reside, portanto, num mal-entendido muito antigo da natureza humana e num reviramento de sua situação interior originária, pois, no mundo sensível, vemos frequentemente o ímpeto criador passar de um órgão a outro por uma aberração metastática, tal como a secreção do leite ou de outras substâncias pode efetuar-se por partes totalmente impróprias a essa função, havendo também na história de nossos pendores materiais ricos exemplos de tal aberração, onde pessoas a quem falta o objeto natural do amor conjugal ou parental consagram frequentemente o pendor correspondente a objetos animados ou inanimados que, em si, não merecem tal sentimento, de modo que o pendor fundamental de nossa natureza espiritual, criada para o amor, deslocou-se igualmente e desertou o objeto correspondente a seu desejo eterno para fixar-se noutro, muito mais vil e precário, errando nossa natureza sempre numa região que não lhe convém, mas conservando ainda a força que lhe é própria e sua configuração originária, assemelhando-se assim a um sonâmbulo encerrado numa sala estreita que crê estar num lugar totalmente diverso e cujos atos contrastam ridiculamente com o que o cerca, pois o mundo sensível que nos cerca deveria, segundo palavras outrora pronunciadas, ser o símbolo da região superior e do objeto de nossa inclinação espiritual, mas, por uma ilusão de ótica, a sombra do mundo superior tornou-se o original, e este a sombra da sombra, sendo que o mundo sensível, que devia ser para nós a região da reflexão calma e serena ao mesmo tempo que uma linguagem metafórica cuja significação se aplicaria ao objeto de nossa inclinação superior, tornou-se para nós o objeto mesmo desta inclinação assim como a região do amor e do sentimento, enquanto, inversamente, a esfera espiritual tornou-se a região da reflexão abstrata, considerando nós as propriedades físicas das formas simbólicas da Criação como sua significação, ao passo que seu sentido originário nos escapa, e, pelo contrário, os objetos da região espiritual são rebaixados ao nível de imagem e símbolo dos objetos para os quais nos impele nossa inclinação aos prazeres dos sentidos.
  • Pesquisas linguísticas recentes e aprofundadas evidenciaram esta antiga confusão presente em toda a linguagem articulada e na parentela existente entre as palavras, pois aparece frequentemente que as palavras designando noções inteiramente opostas provêm da mesma raiz, como se a alma tivesse qualificado inicialmente com palavras não fenômenos exteriores e opostos, mas o órgão de duplo sentido apto a apreender este gênero de fenômeno, de sorte que os termos para quente e frio não só são equivalentes em várias línguas atuais, mas provêm também numa mesma língua da mesma raiz, assim como o deus do Sul e do calor nasceu do Norte onde reina o frio, havendo-se confundido frequentemente, no mito e na língua, a divindade do bem com a do mal e vice-versa, sendo que, mesmo na Pérsia, onde o mito parece manter a separação entre os dois princípios antagonistas, o nome do mau Arimã e o do deus da luz Ormazd provêm da mesma raiz, tal como *eros* (amor) e *eris* (discórdia), havendo em diferentes línguas palavras significando união e inimigo, ou unir e desunir, com a mesma origem, sendo que a luz, símbolo da verdade, e a mentira derivam em diferentes línguas da mesma raiz, pois a luz, ao transformar-se em chama destruidora, torna-se o lobo voraz ou o mau deus Loge, apresentando-se também por vezes, num sentido impuro, sob a forma de um cão ou cadela, estando esta natureza dupla, ardente e iluminante, da luz presente por toda parte na língua e no mito, aparecendo o sangue igualmente carregado de diversas significações, como veneno, cólera, fúria frenética, assim como reconciliação, apaziguamento, vivificação, provindo frenesi e quietude, obscuridade e luz, o metal pesado e o pássaro leve, o ar e o ferro, os testemunhos de alegria e de tristeza, o alto e o baixo, o desejo sensual e a castração, assim como todas as palavras de significações aparentemente tão opostas, da mesma raiz, sendo que o caminho que seguem as palavras para passar duma significação a outra, a ela totalmente oposta, é facilmente reconhecível tanto na língua como no mito, havendo-se notado admiravelmente a parentela entre o Conhecimento e a Criação, pois, tanto na língua como no mito, a pomba, que, como santidade e espírito de vida, anima a água matricial da criação assim como o espírito humano tendente ao conhecimento, tem uma significação equivalente à da ave Fênix e à da palmeira, sendo esta, assim como a flor noturna da Fonte da Vida, ou noutros lugares o carvalho, a videira, a figueira, a Árvore do Conhecimento ao mesmo tempo que a Árvore da Discórdia, tornando-se finalmente a Árvore do Conhecimento o *lingam*, instrumento e símbolo do prazer sexual, assim como o olho que aspira ao Conhecimento torna-se, de um lado, a mão construtora e ativa, e tem, do outro, um sentido equivalente ao órgão da procriação, tornando-se o olho que dá vida tanto a mão que testemunha e jura como aquela que engana, mente e enfeitiça, convertendo-se assim uma casta jovem do mito, nunca tocada pelo mais leve desejo sensual, na deusa impudica da sensualidade mais desenfreada e selvagem, e o Verbo Criador, cheio do Conhecimento espiritual, representado pela imagem do horrível carneiro Mendes, cujo culto reunia todas as vilezas da sensualidade mais degenerada e bestial.
  • Do mesmo modo que, por causa desta grande catástrofe linguística, o bem transformou-se em mal e a luz em obscuridade, o mal mudou-se inversamente em bem, aparecendo, em muitos casos semelhantes aos evocados, o que é mau e pernicioso traiçoeiramente no mito e na língua sob uma forma agradável, boa e salutar, sendo a razão desta confusão babilônica das línguas explicada por uma velha lenda que narra como Haranguerbehah, inicialmente pura emanação da Luz divina originária, tendo reunido sob sua forma as formas de todas as coisas e engolido em si mesmo os princípios de todo devir, começou a adorar a si mesmo, a dizer a si mesmo *Aham* (sou eu), tornando-se assim o artífice da queda, da mentira e da morte, embora em seu nome, *Sati*, *Vs* e *Pi* atestassem sua origem divina, decidindo ele mesmo atrair à luz do dia o mundo informe e portanto desprovido de nome que estava nele, nascendo, quando quis engolir a luz eterna, a língua que atribuiu um nome a cada criatura e deu nascimento às dimensões temporal e espacial, assim como à ciência, aparecendo noutras lendas a língua articulada do ser humano como uma invenção tardia e nossa aspiração nos impelindo a engolir a luz eterna, a amontoar montanhas e a tornar-nos eternos pela construção da Torre, encontrando sua ilustração em diversas imagens míticas.
  • O próprio Livro da Natureza encerra um mito semelhante, pois o mundo sensível que nos cerca atualmente, a natureza, este Verbo revelado, é seguramente um livro cujos caracteres são estáveis, mantendo-se e renovando-se as espécies das criaturas vivas pelo mesmo procedimento, quase sem modificação, colocando-se contudo a questão aguda de saber se sempre foi assim, ou se este criador proteiforme não se terá antes bruscamente detido em suas últimas operações, não terão suas forças antagonistas, recordando o banquete nupcial dos Lápitas, subitamente se paralisado e fixado em seus movimentos cambiáveis, mostrando os vestígios de uma natureza orgânica anterior, encontrados nas mais antigas montanhas, na maior parte, outras formas que as da natureza atual, exibindo-nos os estratos geológicos das montanhas, em suas camadas curiosamente superpostas, cada uma contendo suas próprias espécies animais, uma transformação e mutação verdadeiramente periódicas das formas vivas, um mundo animal totalmente diferente, repartido em diversos andares cronológicos, semelhante àqueles seres proteiformes, sem cessar em mutação, que se classificam entre os infusórios, sendo seguramente as espécies desaparecidas no curso da última grande catástrofe suficientemente parecidas às espécies atuais, mas tendo sido esta catástrofe sobretudo a consequência daquele banquete nupcial petrificante, pois, se outrora o modelo superior da natureza orgânica e corpórea, enquanto palavra cambiante e movediça da língua originária emanada diretamente dos movimentos da região espiritual, dependia destes e transformava-se com eles, presentemente, os princípios da conservação e do renovamento perpétuo das espécies estão nas mãos dos próprios seres, ecoando o canto eterno da Criação sobre um muro fixado que só devolve um som único ressoando invariavelmente da mesma maneira e cujas vibrações são representadas pelos seres que morrem e reaparecem sob a mesma forma, de modo que o universo, semelhante a um objeto metálico representando uma serpente, tornou-se um anel eterno cuja curvatura só termina onde recomeça, sendo que aquele antigo mundo animal que só podemos imaginar ignorava a diferença entre os sexos e era por assim dizer andrógino, ao passo que o mundo animal atual porta em si esta diferença de maneira chocante e marcante, significando o mito de Urano violentamente emasculado — sendo emasculação e prática dos prazeres sensuais, na língua e no mito, uma só e mesma palavra — que os princípios da geração passaram por uma terrível catástrofe que privou a natureza de seu contacto originário com a região espiritual, sob o controle dos seres sensíveis, atestando as diferenças existentes entre as duas línguas de que aqui falamos a existência de tal catástrofe.
  • A língua originária do ser humano, tal como o Sonho, a Poesia e a Revelação no-la apresentam, é a língua do sentimento e do amor, sendo o amor o centro vivo dos sentimentos, tendo sido o objeto deste amor, na origem, o divino e aquela região superior que é o mundo espiritual, consistindo as palavras desta língua que existia entre Deus e os homens nos seres que constituem ainda hoje, mas enquanto sombras do original, a natureza que nos cerca, tratando esta língua do objeto de nosso amor eterno, mas não sendo este objeto ela mesma, pois, assim como toda necessidade, todo amor nos faz aceder a um saber particular, esta aspiração presente no homem levou a um conhecimento comparável, para ele que era o soberano e o centro da natureza, às cordas de uma lira com a ajuda da qual cantou sua aspiração eterna e graças à qual pôde perceber o Verbo e os acentos do Amor eterno, sendo então ainda a influência vital, o Espírito da região superior que animava e transformava este oceano de formas cambiáveis, mas a criança inexperiente teve a ideia, vinda não se sabe de onde, de olhar para dentro do relógio que seu pai lhe oferecera, de desmontá-lo com uma mão ávida de saber e de fazer dele outro mecanismo saído de sua própria imaginação, abandonando sua aspiração inteira e o conhecimento dado por esta aspiração a via originária, não mais dirigindo-as ao mestre, mas ao instrumento, parando o belo mecanismo, violentamente cortado de sua origem que lhe dava vida e movimento, não assegurando-lhe mais um raio misericordioso vindo do alto senão a força de um renovamento e de uma regeneração constantemente e uniformemente circulares.
  • O mundo sensível e sua miserável pessoa tornaram-se assim para o homem o objeto de seu amor e desejo, enquanto o objeto originário de seu amor, a região do espiritual e do divino, foi esquecido, aplicando ele, em proa a uma triste demência, às necessidades estreitas de seu amor contra-natura as palavras da língua originária que tratavam do Amor eterno e de seu objeto imortal, tomando a palavra de que Deus se serviu para conhecer e criar o homem e o mundo, conforme o exemplo escolhido, o sentido do vil prazer sensual, tornando-se a pobre criatura que, por orgulho, quis fazer-se criadora dos homens e da natureza, a instigadora da morte, transformando seu universo num túmulo sobre o qual vêm ainda ecoar, semelhantes a um dobre de finados, os acentos do Amor eterno, residindo aí a fonte de todos os mal-entendidos e de todas as confusões, pois o canto de conteúdo sublime e divino foi travestido da maneira mais aterradora, embora as palavras tenham permanecido as mesmas, utilizando-as o espírito humano aviltado da maneira mais horrível, assim como, num círculo limitado, o gozador degenerado faz o pior uso das palavras sagradas amor e amizade, sendo que a língua divina, esta natureza que nos cerca, tinha na origem um conteúdo infinito, imenso e eterno, mas suas palavras foram, por este travestimento, aplicadas ao domínio mais estreito, mais miserável e mais limitado que é dado à alma humana conhecer após sua queda, designando presentemente seus palavras um objeto de natureza mortal e efêmera, ficando naturalmente a maior parte das palavras por este facto sem qualquer profundidade e sem qualquer significação, empobrecendo-se consideravelmente nosso vocabulário, assim como, na região da aparência, o ser de inteligência limitada só utiliza algumas palavras para exprimir o campo estreito de suas miseráveis necessidades e negligencia as outras, que acaba por não mais conhecer, tornando-se-lhe esta língua, além disso, quase totalmente incompreensível e um domínio obscuro, pois, como as palavras não foram mais empregadas, por causa deste reviramento e desta modificação, em seu sentido originário que lhes dava luz e coerência, perdeu ela para o homem sua transparência originária.
  • Este travestimento deu nascimento igualmente à ambiguidade da alma humana, por causa da qual uma mesma inclinação do coração se porta tanto sobre o objeto mais elevado como sobre o mais vil, tendo sido a natureza eterna do homem de tal modo alterada que presentemente, mesmo quando fala a voz do amor mais puro, faz-se frequentemente dia a sensualidade mais vil, vibrando, quando uma das duas cordas deste instrumento vibra, ao mesmo tempo a outra, que emite o mesmo som, de modo que, quando o Sonho, a Poesia e a Revelação falam conosco, conforme a organização primitiva, a língua do sentimento e do amor, despertam infelizmente em nós, ao mesmo tempo que a aspiração eterna e divina, os pendores e os desejos sensuais, envenenando-se assim a própria fonte da vida, tornando-se a taça da exaltação que o amante ofereceu à sua bem-amada para que nela bebesse a bênção da aspiração divina e pura, para ela a copa que a incita a entregar-se aos prazeres vis, a chama impura e destruidora, o fogo da embriaguez sensual, sendo que o que devia ser a língua da vigília é presentemente para nós a obscura língua do sonho, tornando-se a região do sentimento, mesmo do mais profundo e puro na origem, a região da alma, enquanto reside neste instrumento tenso de cordas duplas e terrivelmente diferentes, uma região cheia de perigos.
  • A natureza inferior deve morrer e, embora este joio cresça no meio da boa erva, a natureza eterna não morre por isso ao mesmo tempo que a outra, pois o tecido mineral do asbesto sai de seu contacto com a chama, que destruiu os filamentos de qualidade inferior que nele se encontravam, ainda mais puro e belo, sendo esta chama precisamente aquela noite sem estrelas, aquele estado de profunda solidão, de miséria, isto é, o dos sentimentos mais puros e mais santos, pois, quando a alma, por este amor único, se despojou de tudo e, após muitas tempestades, encontra, no fluxo das formas movediças, o rochedo ao qual fixa para sempre a amarra de seu frágil esquife, começa a crer que este amor único será eterno e que sua fidelidade e mansidão não serão alteradas pelo tempo e a eternidade, mas vê-se presentemente abandonada por aquele, tendo-se fechado o olho único ao qual estava suspenso o seu, cheio de devoção, cercando-a a noite, tudo sendo silêncio, exceto a zombaria do mundo que abandonou por este Amor, hesitando contudo a alma, ao final de seus sofrimentos, diante daquele que receara procurar, de quem estivera mais próxima quando se julgava mais afastada, sucedendo ao entorpecimento que suscita a hora matinal mais fria a ascensão do sol mais ardente, tendo a alma o dever, em seu miserável estado atual, de tornar-se capaz de aceder a uma vida superior, conforme a sua origem, uma vida nova e futura, devendo o relatório de oposição, em suma, revirar-se na morte, e a língua espiritual do sonho voltar a ser a língua do estado habitual de vigília.
  • Para que isto se produza sem precipitar a alma nos piores perigos e sem fazê-la mergulhar neste abismo sobre o qual a mantém ainda a ambiguidade de seu universo atual e de sua própria natureza sensível, cuja aspiração inextinguível se veria mais tarde, se não mais cedo, atribuída sua via originária e seu desígnio primordial, é necessário encontrar na existência atual uma via na qual a alma possa libertar-se dos laços materiais, dos enganos e das más interpretações, inerentes a nossa natureza, a respeito do Verbo saído do mundo espiritual, devendo estabelecer-lhe aqui em baixo um domínio onde possa proteger-se do contágio, alhures inevitável, que poderia ocasionar seu contacto com a antiga fonte de vida, tornada perigosa e venenosa, sendo esta região toda encontrada: nossa língua articulada, a língua artificialmente aprendida, própria a nosso estado de vigília, pois, assim como imediatamente após a grande catástrofe o inverno invadiu a natureza, privou o homem, precisamente naquele lugar da terra onde residia originariamente sua raça, do mundo sensível durante parte do ano e o reduziu à sua própria pessoa, assim também o homem viu-se provido, a partir desta grande catástrofe, de um novo órgão, a língua feita de sons de que dispõe atualmente, sendo esta seguramente saída da língua originária constituída pelos seres viventes, língua da qual é, pelo efeito do acaso, um elemento subordinado, mas tendo suplantado os componentes mais importantes do original, sendo precisamente por este relatório malsão e incompleto que a língua da vigília tornou-se o meio que permite à alma abstrair-se completamente do domínio dos sentidos, e de todo sentimento em geral, evitando os escolhos suscitados por esta perigosa ambiguidade e aproximar-se de suas origines cortando-se radicalmente do mundo inferior.
  • Desde que a língua originária da natureza e do sentimento, cujo conteúdo era o amor do divino, tornou-se incompreensível e mesmo perigosa ao homem, pois aplicou abusivamente as expressões desta aos seus próprios pendores degenerados e exclusivamente os considerou em relação a esta utilização, viu-se seu espírito constrangido a seguir uma via que, pela língua e pela ciência, divergia cada vez mais daquela que conduzia à região do sentimento, considerada por ele como relevando unicamente do mundo sensível, tendo de um lado considerado sua separação desta região obscura e incerta como benéfica, de outro como horrivelmente mutilante e de natureza a destruir todo germe de vida, sendo seguramente mais benéfica que nociva, transformando contudo esta separação a língua inicial da poesia numa prosa abstrata, o canto da natureza em fria filosofia, privado evidentemente de seu alimento do alto, morrendo o germe dos sentimentos superiores simultaneamente com o dos sentimentos inferiores, e transformando-se a bela pomba que, da árvore da vida, se dirigia a nós, em pesada ave da morte, tendo-se, em verdade, nossa conhecimento como nosso modo de pensamento cedo extraviado na região gelada onde todo sentimento e todo amor acabam por perecer, falando contudo ainda o Amor eterno a língua originária conosco, roçando ainda o sopro vivo as cordas da lira e vibrando as cordas impuras ao mesmo tempo que as outras, sendo que, quando o espírito da espécie humana tiver alcançado as últimas extremidades do abandono e da miséria onde os últimos raios de vida não lhe chegarem mais, acessível lhe será o Amor eterno que terá procurado em vão e de quem se terá crido muito afastado, no crepúsculo duma nova manhã.
  • Esta evolução que seguem a língua e a ciência, de sua origem que é o Amor divino até seu entorpecimento atual, foi inteligentemente exposta pelo famoso Swedenborg, sendo o estado de que fala muito semelhante ao grau profundo do sonho mencionado no fim do capítulo primeiro e só diferindo deste por seu apego à consciência desperta, narrando ele que, conversando um dia com um espírito que parecia dizer coisas memoráveis num estado semelhante ao do sono, vieram a eles espíritos falando entre si, mas nem os espíritos à volta nem ele mesmo compreenderam o que diziam, sendo-lhe ensinado que se tratava de espíritos vindos do planeta Marte que podiam assim falar-se entre si mas de sorte que os espíritos presentes nada pudessem compreender, explicando-se que estes espíritos dissimulavam desta maneira aos outros as ideias que exprimiam de certo modo com o auxílio dos lábios e do rosto, de sorte que, fazendo isto, permaneciam artificialmente desprovidos de toda emoção e do sentimento interior motivando seus propósitos, pois, dado que o pensamento só vive pelo sentimento de onde é saído, não pode manifestar-se aos outros senão pelo sentimento e permanece fechado àqueles quando o discurso, reduzido ao simples movimento dos lábios e dos traços do rosto, perde sua alma e sua vida pela ausência de emoção, sendo assim com estes habitantes de Marte que situam a vida celeste exclusivamente no conhecimento e não na vida do amor, conservando eles sua língua morta mesmo enquanto espíritos, sendo contudo suas pensamentos, mesmo as mais secretas, perfuradas pelos espíritos de uma ordem superior, os espíritos angélicos, tendo-lhes sido dito por estes que era mau dissimular assim sua vida interior e dela se afastar para favorecer o exterior, essencialmente porque era mentira falar assim, pois os que são sinceros não querem nada dizer ou pensar que não corresponda ao que desejam saber todos os seres humanos que não querem isso, que não pensam senão bem de si mesmos e mal de outrem e mesmo do Senhor, sendo-lhe dito que os que vivem desta maneira exclusivamente nos conhecimentos, e não levam uma vida de amor, e se habituaram a falar sem fazer apelo aos sentimentos, acabam por assemelhar-se a uma pele, dura como osso, que cerca o centro da vida afetiva, isto é, o cérebro, sem jamais participar dos sentimentos de que este é a sede, estando espiritualmente mortos, pois só têm vida espiritual aqueles cujo conhecimento provém do Amor celeste, sendo este conhecimento saído do Amor eterno superior a todos os outros, sabendo os que viveram longo tempo na terra e levaram uma vida de amor que, após a morte, à sua chegada ao Céu, amarão coisas que ignoravam completamente antes, pensarão e falarão como os anjos e dirão coisas que nenhum ouvido percebeu, que nenhum coração experimentou e que são inefáveis.
  • O estado destes espíritos degenerados do planeta Marte, cujos habitantes vivem ainda em grande parte no Amor celeste, foi representado por outra imagem, vendo Swedenborg uma coisa ígnea muito bela, constituída de muitas cores cintilantes, púrpura, depois branco, depois vermelho, aparecendo uma mão, à qual este ser ígneo se fixava primeiro nas bordas exteriores, depois na palma, depois em volta da mão, afastando-se depois a mão assim como o ser ígneo a alguma distância, parando, semelhantes a uma claridade, e desaparecendo a mão, transformando-se depois o ser ígneo num pássaro que, no início, estava ainda adornado de cores vivas e cintilantes, desaparecendo pouco a pouco estas cores e, com elas, a força vital do pássaro, voando este primeiro em volta de sua cabeça, depois numa sala estreita que parecia uma capela, e, quanto mais voava, mais a vida se evadia de seu corpo, tornando-se finalmente uma pedra, primeiro cinza pérola, depois cada vez mais sombria, mas, embora não tivesse mais vida, continuou a voar, aparecendo, quando o pássaro voava ainda em volta de sua cabeça e tinha ainda sua força vital, um espírito que, vindo de baixo, atravessou a região dos rins e subiu até o peito e, dali, quis apoderar-se do pássaro, impedindo-o os espíritos que estavam à sua volta por causa da beleza deste, pois todos tinham dirigido seus olhares ao mesmo tempo que ele sobre o pássaro quando este aparecera, convencendo-os contudo ele que o Senhor estava com ele e que seu ato era ditado por ele e, embora a maioria não o cresse, não o impediram mais, mas, como o Céu neste momento se fez influente, nada pôde sobre o pássaro e este lhe escapou, falando entre si os espíritos, enquanto isto se produzia, da significação desta aparição, reconhecendo eles que este fenômeno só podia emanar dos Céus e que o ser ígneo representava o Amor celeste, sendo a mão o símbolo da vida e de sua força criadora, a alteração das cores representando a transformação da vida pela Sabedoria e pelo Conhecimento, significando o pássaro igualmente o amor e o conhecimento que dele decorre, mas, enquanto o fogo indica o Amor celeste, o Amor do Senhor, o pássaro representa o amor espiritual, isto é, o amor do próximo e o conhecimento inerente a este, simbolizando as modificações das cores e da vida no pássaro até que se tornou uma pedra as transformações progressivas da vida espiritual após o conhecimento, sabendo além disso eles que os espíritos que sobem da região lombar até o peito se figuram erradamente que estão no Senhor, e que tudo o que fazem, mesmo se é mau, é comandado por ele, sendo-lhes contudo obscura a significação do conjunto desta visão, instruídos finalmente de cima que se devia compreender por esta aparição o estado no qual viviam os habitantes de Marte, significando o ser ígneo o Amor celeste no qual se encontram ainda muitos entre eles, o pássaro, enquanto resplendecia de cores e tinha toda sua força vital, seu amor espiritual, mas, quando se tornou inerte e sombrio como uma pedra, designando os seres que se afastaram do amor e persistem no erro, aqueles que transformam a vida de seus pensamentos e sentimentos duma maneira insólita num simulacro de vida e num conhecimento estéril, sendo representados tais espíritos tornados estranhos ao amor, encerrados no erro e que persistem em crer-se no Senhor, pelo espírito que se elevou e quis apoderar-se do pássaro, fornecendo-nos este exemplo detalhado duma visão deste homem psicologicamente excepcional uma explicação do que foi dito mais acima, sendo ao mesmo tempo o exemplo duma forma de fenômeno psicológico que nos abrirá a via conducente à parte fisiológica do domínio onírico.
schubert/confusao-linguas-schubert.txt · Last modified: by mccastro

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki