User Tools

Site Tools


schopenhauer:1851:suicidio

Suicídio

SCHOPENHAUER, Arthur. Parerga und Paralipomena: Kleine philosophische Schriften. 2 volumes. Berlin: A. W. Hayn, 1851.

“On Suicide.” In: Arthur Schopenhauer, Parerga and Paralipomena. Volume II. Translated by E. F. J. Payne. Oxford: Oxford University Press, 1974, pp. 306–311.

Pelo que posso perceber, são apenas as religiões monoteístas — e, portanto, as judaicas — cujos seguidores consideram o suicídio um crime. Isso é ainda mais surpreendente, já que nem no Antigo Testamento nem no Novo se encontra qualquer proibição ou mesmo uma mera condenação definitiva do suicídio. Os professores de religião têm, portanto, que basear sua objeção ao suicídio em seus próprios fundamentos filosóficos; mas seus argumentos são tão fracos que tentam compensar essa falta de solidez com expressões vigorosas de repulsa e, assim, recorrendo a insultos. Ouvimos então, por necessidade, que o suicídio é a maior covardia, que só é possível na loucura e outros absurdos semelhantes; ou então a frase totalmente sem sentido de que o suicídio é “errado”, quando, obviamente, não há nada no mundo sobre o qual todo homem tenha um direito tão indiscutível quanto sobre sua própria pessoa e vida. Como já disse, o suicídio é até considerado um crime e, associado a isso, especialmente na Inglaterra vulgar e intolerante, estão um enterro ignominioso e o confisco de heranças; por essa razão, um júri quase invariavelmente profere um veredicto de insanidade. Em primeiro lugar, devemos permitir que o sentimento moral decida a questão e comparar a impressão que nos causa a notícia de que um conhecido nosso cometeu um crime, como assassinato, crueldade, fraude ou furto, com a causada pela notícia de sua morte voluntária. Enquanto a primeira notícia desperta viva indignação, o maior ressentimento e uma exigência de punição ou vingança, a segunda nos levará à tristeza e à compaixão, muitas vezes misturadas com uma certa admiração por sua coragem, em vez da condenação moral que acompanha uma má ação. Quem nunca teve conhecidos, amigos e parentes que partiram voluntariamente deste mundo? E deveríamos todos considerá-los com repulsa como criminosos? Eu digo que não, certamente não! Sou, ao contrário, da opinião de que o clero deveria ser desafiado de uma vez por todas a nos dizer com que direito estigmatiza como crime uma ação que foi cometida por muitos que eram honrados e amados por nós; pois eles fazem isso do púlpito e em seus escritos sem serem capazes de apontar qualquer autoridade bíblica e, de fato, sem terem quaisquer argumentos filosóficos válidos, e negam um enterro honroso àqueles que voluntariamente partem deste mundo. Mas aqui deve ficar claro que queremos razões e não aceitaremos, em seu lugar, meras frases vazias ou palavras de insulto. Se o direito penal condena o suicídio, isso não é uma razão válida do ponto de vista eclesiástico e é, além disso, definitivamente ridículo; pois que punição pode assustar o homem que busca a morte? Se punirmos a tentativa de suicídio, então estamos simplesmente punindo a falta de habilidade que fez com que ela fracassasse.

[ … ] Em Massília e na ilha de Ceos, o cálice de cicuta era até mesmo entregue publicamente ao homem que pudesse apresentar razões convincentes para abandonar a vida. E quantos heróis e sábios da Antiguidade não encerraram suas vidas por meio de uma morte voluntária! É verdade que Aristóteles afirma (na Ética a Nicômaco) que o suicídio é um delito contra o Estado, embora não contra a própria pessoa. [ … ]

Encontramos o suicídio exaltado como uma ação nobre e heróica até mesmo pelos estóicos, como pode ser comprovado por centenas de passagens, sendo as mais vigorosas delas de Sêneca. Além disso, entre os hindus, é bem sabido que o suicídio frequentemente ocorre como um ato religioso, particularmente na forma de autoimolação das viúvas, autodestruição sob as rodas do Carro de Juggernaut, auto sacrifício aos crocodilos do Ganges ou nos tanques sagrados dos templos, entre outras formas. Ocorre exatamente o mesmo no teatro, esse espelho da vida; por exemplo, na célebre peça chinesa L’Orphelin de la Chine, vemos quase todos os personagens nobres terminarem em suicídio, sem que haja qualquer sugestão ou que ocorra ao espectador que eles tenham cometido um crime. Na verdade, no fundo, em nosso próprio palco, não é diferente: por exemplo, Palmira em Mahomet, Mortimer em Maria Stuart, Otelo, a condessa Terzky. [ … ] O monólogo de Hamlet é a meditação sobre um crime? Ele simplesmente afirma que, se tivéssemos certeza de sermos absolutamente aniquilados pela morte, sem dúvida a escolheríamos, tendo em vista o estado do mundo. “Sim, aí está o problema.” Mas as razões contra o suicídio apresentadas pelo clero das religiões monoteístas — isto é, judaicas — e pelos filósofos que se adaptam a elas são sofismas frágeis que podem ser facilmente refutados. [ … ] A refutação mais completa dessas razões foi apresentada por Hume em seu ensaio “Sobre o Suicídio”, que foi publicado pela primeira vez após sua morte e foi imediatamente suprimido na Inglaterra pelo vergonhoso fanatismo e pelo escandaloso poder dos pastores. Assim, apenas alguns exemplares foram vendidos secretamente e a um preço elevado, e devemos à reimpressão de Basileia a preservação desse e de outro ensaio desse grande homem. [ … ] Mas o fato de um ensaio puramente filosófico — que refuta de maneira fria e racional os argumentos vigentes contra o suicídio e provém de um dos principais pensadores e autores da Inglaterra — ter precisado ser contrabandeado secretamente por aquele país como se fosse algo proibido, até encontrar refúgio no exterior, traz grande descrédito à nação inglesa. Ao mesmo tempo, isso mostra que tipo de consciência a Igreja possui a respeito desse ponto. Expus em minha obra principal a única razão moral válida contra o suicídio. Ela reside no fato de que o suicídio se opõe à consecução do mais alto objetivo moral, uma vez que substitui a verdadeira salvação deste mundo de sofrimento e miséria por uma que é meramente aparente. Mas ainda há um longo caminho entre essa aberração e um crime, como o clero cristão gostaria de rotulá-lo.

Em sua essência mais íntima, o cristianismo contém a verdade de que o sofrimento (a cruz) é o verdadeiro propósito da vida; e, portanto, como o suicídio se opõe a tal propósito, o cristianismo o rejeita, enquanto a Antiguidade, de um ponto de vista inferior, o aprovava e até mesmo o honrava. Essa razão contra o suicídio é, no entanto, ascética e, portanto, aplica-se apenas a um ponto de vista ético muito mais elevado do que aquele que os filósofos morais europeus jamais ocuparam. Mas, se descemos desse ponto tão elevado, não há mais nenhuma razão moral válida para condenar o suicídio. Parece, portanto, que o zelo extraordinariamente vigoroso do clero das religiões monoteístas contra o suicídio — um zelo que não é sustentado nem pela Bíblia nem por fundamentos válidos — deve ter um fundamento oculto. Não seria possível que a renúncia voluntária à vida fosse um elogio de mau gosto àquele que disse: “(E Deus viu) tudo (o que havia feito, e eis que) era muito bom”? Assim, mais uma vez, é o otimismo habitual e ortodoxo dessas religiões que condena o suicídio para não ser condenado por ele.

No geral, veremos que, assim que se chega a um ponto em que os terrores da vida superam os da morte, o homem põe fim à sua vida. A resistência destes últimos é, no entanto, considerável; eles se erguem, por assim dizer, como guardiões no portão de saída. Talvez não haja ninguém vivo que já não tivesse posto fim à própria vida se tal fim fosse algo puramente negativo, uma cessação repentina da existência. Mas trata-se de algo positivo, a saber, a destruição do corpo, e isso faz com que as pessoas recuem justamente porque o corpo é o fenômeno da vontade de viver.

No entanto, a luta contra esses guardiões não é, via de regra, tão difícil quanto possa parecer à distância e, de fato, em consequência do antagonismo entre os sofrimentos mentais e corporais. Assim, se sofremos fisicamente de forma muito intensa ou contínua, tornamo-nos indiferentes a todas as outras dificuldades; apenas nossa recuperação ocupa o primeiro lugar em nossos pensamentos. Da mesma forma, o sofrimento mental intenso nos torna indiferentes ao físico; tratamo-lo com desprezo. De fato, se o sofrimento físico vier a predominar, isso constitui uma distração benéfica, uma pausa no sofrimento mental. É precisamente isso que facilita o suicídio, uma vez que a dor física associada a ele perde toda a importância aos olhos de quem é atormentado por uma quantidade excessiva de sofrimento mental. Isso se torna particularmente perceptível naqueles que são levados ao suicídio por uma depressão profunda e puramente mórbida. Isso não exige nenhum esforço de autocontrole desses homens; eles não precisam se lançar resolutamente para isso, mas, assim que o guarda designado para cuidar deles os deixa sozinhos por dois minutos, rapidamente põem fim à própria vida.

Se, em sonhos pesados e horríveis, a ansiedade atinge seu grau mais alto, ela nos faz acordar, fazendo com que todos aqueles horrores monstruosos da noite desapareçam. O mesmo acontece no sonho da vida, quando o grau mais elevado de ansiedade nos obriga a interrompê-lo.

O suicídio também pode ser considerado uma experiência, uma pergunta que fazemos à natureza e tentamos fazê-la responder, a saber: que mudança a existência e o conhecimento do homem sofrem por meio da morte. Mas é uma experiência incômoda, pois anula a identidade da consciência que teria de ouvir a resposta.

schopenhauer/1851/suicidio.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki