Schiller
Schiller, Friedrich von (1759-1805)
É evidente que o culto, sem dúvida bastante pesado, a que Goethe era objeto na época de sua infância e juventude pode ter repelido Heidegger, e que ele levou tempo para superar seus preconceitos em relação a um poeta cujo ensino no liceu parecia ser o ponto final da literatura alemã (GA 16, 31). O mesmo não se aplica a Schiller. Entre as lembranças de infância que ele relata na carta a Elfride de 13 de dezembro de 1915, Heidegger relembra sua emoção e orgulho como estudante do ensino médio quando recebeu como prêmio uma edição das obras completas de Schiller – um presente inesperado para um filho de família pobre. A partir desse dia, as pessoas da vizinhança dirão até que, durante as férias que ele passou em Messkirch, não o viram um único dia sem um livro!
Anos mais tarde, quando ele está em Todtnauberg, onde sua esposa deve se juntar a ele, ele lhe escreve (11 de agosto de 1936) em Friburgo para pedir que ela traga vários livros de que ele precisa, especialmente o volume contendo as Cartas de Schiller Sobre a educação estética do homem (1795). Nesse texto, Schiller expressa sua reação e reflexão diante da virada, a seu ver catastrófica, tomada pela Revolução Francesa. A execução de Luís XVI o horrorizou, e ele chamou seus carrascos de “açougueiros abomináveis”. Leitor e admirador fervoroso de Rousseau, Schiller se aproxima assim das posições já expressas por seu amigo Wilhelm von Humboldt, em seu ensaio de 1791, sobre os limites da ação do Estado. Ao ideal do cidadão, tal como concebido no Contrato Social, tal como Fichte o sonha então seguindo Rousseau, é preciso, pensa Schiller, acrescentar uma dimensão essencial: a educação estética é indispensável ao cidadão, pois só ela pode torná-lo – objetivo a longo prazo – um ser verdadeiramente humano (e esse programa político e pedagógico será, naturalmente, também o de Humboldt). Este texto insere-se, portanto, nesse momento crítico em que, passada a época da esperança e dos primeiros entusiasmos, passada a época das primeiras desilusões, tudo o que importa na Alemanha se propõe a examinar e compreender o “fracasso” dessa Revolução. Mais uma razão para dizer com Joseph Rovan: “A Revolução Francesa é também um dos grandes eventos da história alemã” (Histoire de l’Allemagne, p. 433). Essas cartas de Schiller foram tema de um seminário de Heidegger no inverno de 1936-1937, e as notas tomadas nesse seminário foram publicadas em 2005 (Deutsche Schillergesellschaft, Marbach am Neckar, Marbacher Bibliothek 8).
Heidegger não cita Schiller com frequência, mas alguns sinais mostram o quanto esse poeta ainda lhe é próximo. Basta pensar em tudo o que ele representa na vida de Hölderlin para pressentir isso (leitor assíduo de Kant, Hölderlin segue os passos de Schiller). Na verdade, toda a meditação de Hölderlin só pode se desenvolver em Heidegger em uma referência, ainda que muitas vezes implícita, a Schiller:
Hölderlin ainda pensa de forma metafísica. Mas o mesmo não se aplica à sua poesia. Assim, um mundo o separa dos “poemas metafísicos” de Schiller [GA 52, 120].
Quando Hannah Arendt lhe escreve (9 de fevereiro de 1950) que se sente ser nada mais nada menos do que a jovem de origem estrangeira (Das Mädchen aus der Fremde, ver Franz Schubert, D 252), ela tem a certeza de que será compreendida. E quando, por ocasião de um seminário realizado em Bremen em 1960 sobre “Imagem e palavra”, a questão se volta para a metáfora, é, segundo Petzet, natural que Heidegger tome como exemplo o verso de Schiller “Eilende Wolken, Segler der Lüfte”, “Nuvens que se apressam, veleiros dos ares ” (Maria Stuart, início do ato III – essas lamentações de Maria Stuart foram musicadas por um compositor ligado, no espírito de Hölderlin, a Schiller, J. R. Zumsteeg).
A data em que se realiza o seminário sobre a educação estética do homem é interessante por vários motivos. Coincide praticamente com as conferências sobre A Origem da Obra de Arte e mostra que Schiller desempenha um papel certo na questão da arte tal como Heidegger a entende colocar. Coincide também exatamente com o início das aulas sobre Nietzsche, nas quais ele explicará precisamente que, se a doutrina kantiana do belo não foi compreendida nem por Kierkegaard, nem por Schopenhauer, nem por Nietzsche, “Schiller é o único que compreendeu o essencial da doutrina kantiana do belo e da arte » (GA 43, 125) – o que, na boca de Heidegger, não é um elogio pequeno. O que é dito ali em apenas uma frase encontra uma explicação aprofundada no seminário em questão sobre o humanismo (ver Carta sobre o humanismo, GA 9, 320). E então, em 1936-1937, Hitler está no poder há três anos e Heidegger está bem ciente de que a “revolução alemã” está se transformando em uma catástrofe. Se ele certamente pensou em Fichte e Humboldt em 1933, é nesse momento crítico que ele se volta para Schiller, para as questões colocadas a Schiller pelo “fracasso da Revolução Francesa” (Seminário, p. 14). Schiller é, de fato, um daqueles alemães (Fichte, Beethoven, Hegel, etc.) que são muitos a pensar que, tendo os franceses traído o ideal da Revolução, cabe agora aos alemães retomar a tocha e tentar tirar lições desse fracasso.
É surpreendente que, apesar do esforço muito sério de documentação que esta obra testemunha, Albert Camus não diga uma palavra sobre Os Bandidos em O Homem Revoltado, livro do qual Hölderlin não está ausente. Mas é ainda mais surpreendente ver que, quando Heidegger, em 1923, enumera aqueles que o acompanharam em sua pesquisa, os nomes que ele cita são os do jovem Lutero, Aristóteles, Kierkegaard e Husserl (GA 63, 5). É importante saber que ele ficou fortemente impressionado com o “jovem Lutero” (o da disputa de Heidelberg), mas por que ele não cita o jovem Schiller? Se o adjetivo “extraordinário” mantém um sentido, então é à juventude de Schiller que ele deve ser aplicado! Isso basta para explicar que os sentimentos que Schiller, como homem, filósofo e poeta, despertou em seus contemporâneos, particularmente nos românticos, sejam os de uma veneração sem limites. Há em Heidegger algo verdadeiramente revolucionário, e apenas Schiller pode oferecer algo equivalente.
