schelling:philosophie-de-la-mythologie-livre-ii:licao-8
LIÇÃO 8
SCHELLING, Friedrich Wilhelm Joseph von. Clara, or, On nature’s connection to the spirit world. Albany, NY: State University of New York Press, 2002.
- Consciência originária e seu caráter de pura substancialidade, identificada como poder-ser que conduz a si mesmo e portanto mestre de si mesmo, porém contendo em si, como impossível de excluir, a possibilidade de transitar ao ser. Essa possibilidade subjacente representa a potência que não tolera a mera contingência, entendida como aquilo que poderia ser e não ser, sendo portanto fortuito e não merecido. Tal potência é nomeada Nêmese, que revela à consciência, até então apenas posta fortuitamente como senhora de si, a possibilidade de emergir da pura substancialidade.
- Apresentação efetiva da possibilidade de ser-outro à consciência como momento terceiro, caracterizado como ilusório e enganador, a Primeira Tromba (Tromperie Première), correspondente a Áte (Átē) em Hesíodo, filha de Nix (Núx). Exibida essa possibilidade à vontade, inaugura-se o quarto momento, no qual a vontade até então imóvel quer o ser que lhe foi mostrado, abandonando assim o poder-ser límpido que era para erigir-se ao ser contingente e revestido.
- Evento primordial (Urereignis) ou fato irrecusável (factum) que marca o início da história e da mitologia, ocorrendo inteiramente na meta-história, além do alcance da lembrança consciente. Tal evento é o Arqui-Acidente (Archi-Hasard), representado na Fortuna Primigênia (Fortuna Primigenia) venerada em Preneste, celebrando o poder ser e não ser como primeiro princípio de todo ser. É uma fatalidade imemorial (unvordenkliches Verhängnis), pois antecede toda capacidade de imaginação ou reminiscência da consciência.
- Consequência não intencional do ato primordial, que surpreende a vontade com o não-desejado e inesperado, fixando-se na consciência emergente após o evento. A nova consciência efetiva, radicalmente alterada pelo ato que a gerou, não pode recordar-se do próprio evento, pois perdeu a identidade com sua condição anterior. A abolição dessa identidade, analogamente ao que ocorre com sonâmbulos, extingue a possibilidade de reminiscência.
- Vestígios obscuros do evento primordial, que somente serão descobertos na mitologia posterior, especialmente na mitologia grega, entendida como termo de um processo. Figuras como Nêmesis e Perséfone encarnam os momentos iniciais desse processo. Perséfone particularmente reúne em si todos os momentos distinguidos: a potência da consciência originária, a possibilidade de ser-outro ainda não efetivada, e a submissão ao destino mitológico após sua emergência.
- Essência originária do homem como mestre de si mesmo (A), contendo em si B como matéria e potência, portanto como possibilidade de ser-outro e de não ser A. A essa potência, entregue ao homem para ser conservada como possibilidade, atribui-se caracterização feminina espontânea, enquanto a vontade que pode atualizá-la é masculina. Tal dualidade não deriva da natureza, mas é princípio inteligível que fundamenta a própria distinção genérica natural.
- Arqui-possibilidade como entidade efetiva e inteligível, singular e determinada, não uma categoria abstrata. Na representação mitológica, essa potência da consciência originária é Perséfone em pessoa, não sendo meramente simbolizada por ela. Consciência originária apresenta-se como natureza andrógina, onde o ente (masculino/vontade) e o poder-ser (feminino/possibilidade) ainda estão unidos, em estado de indiferenciação genérica.
- Estado de inocência e virgindade de Perséfone, correspondente à consciência originária em sua condição primeira, onde a dualidade genérica não está separada e não há antítese. Nesse estado, a potência permanece em pura essencialidade, livre de toda necessidade e contenda, guardada em uma cidadela inacessível, lugar de alegria e beatitude primordial (kath’ exochēn), analogamente ao jardim do Éden na narrativa bíblica, entendido como espaço fechado e protegido.
- Duplicidade de Perséfone, distinguindo entre a que permanece interior (éndon hólē méneusā) e a que sai para fora (proíeisā). Sua emergência (próodos) é um movimento silencioso e inesperado, um pro-serpere (rastejar para frente), associado ao caráter furtivo da serpente. Ao aparecer, torna-se o inopinado, o impensado, identificada como Fatum, Móros e Fortuna Adversa, o primeiro infortúnio de onde derivam todos os demais.
- Processo de subjugação de Perséfone, que, ao sair de seu retiro virginal e voltar-se para fora, submete-se a um processo inevitável, tornando-se consciência votada à perdição (dem Untergang geweichte). Desde o início é destinada a ser raptada por Hades, deus do mundo inferior, representando na mitologia efetiva a consciência já assujeitada ao processo mitológico.
- Ilusão da consciência de que a possibilidade (B) lhe foi entregue para ser efetivada, quando na verdade deveria apenas conservá-la como potência. O homem, ao erigir essa possibilidade à efetividade, vê-a voltar-se contra si, submetendo-o a um princípio que ultrapassa os limites da consciência humana. Ao pretender, como Deus, colocar em obra o princípio que deveria guardar, o homem perde sua semelhança divina.
- Interpretação da passagem bíblica em que Deus diz “eis que o homem se tornou como um de nós”. O sentido correto é que o homem, outrora igual à totalidade da Divindade, tornou-se igual apenas a um dos Elohim (B), separando-se da unidade divina e assim perdendo a semelhança com Deus. O Deus que exclui os outros não é o verdadeiro Deus, que sempre é unidade que inclui as três potências (1+2+3).
- Surgimento do politeísmo sucessivo a partir da consciência que, ao fazer de B um Deus exclusivo e falso, nega as potências superiores (A²). Essas potências, não sendo nada absoluto mas também não sendo não-Deus, são postas como deuses que irromperão sucessivamente na consciência. Esboça-se assim um politeísmo no qual as potências divinas intervêm de maneira sucessiva, iniciando um processo de restauração necessária da vida divina frente ao enclausuramento da consciência em B.
- Preliminares da mitologia delineados não apenas filosoficamente, mas no interior da própria mitologia, que assim toma consciência de si mesma. O processo mitológico é posto como necessidade inelutável a partir da transição fatal operada pela emergência da potência oculta e sua subsequente dominação pela consciência humana.
schelling/philosophie-de-la-mythologie-livre-ii/licao-8.txt · Last modified: by 127.0.0.1
