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Lição 12

SCHELLING, Friedrich Wilhelm Joseph von. Philosophie de la mythologie. Tradução: Alain Pernet. Grenoble: J. Millon, 1994.

Do Cartesianismo ao Idealismo Crítico: A Busca pela Ciência Filosófica

  • Movimento pós-cartesiano, incapaz de alcançar a ciência verdadeira, detém-se em seus começos, culminando no quietismo científico absoluto de Spinoza, que, proclamando a imobilidade do princípio, impõe ao pensamento uma abdicação inaceitável, ainda que pareça benfazejo diante dos esforços cegos de uma razão que se exaure em lutas estéreis. Após esse impasse, apenas duas direções se apresentam: renunciar a toda metafísica, reconhecendo como única fonte de conhecimento a experiência e dela deduzindo os conceitos necessários – caminho seguido pela Inglaterra e depois pela França – ou retomar a via da velha metafísica fundada no entendimento, direção escolhida pela Alemanha, que, recebendo a metafísica em herança, assume a missão pouco invejável de encabeçar o movimento em prol da filosofia científica. A metafísica tradicional, porém, obrigada a assimilar os elementos introduzidos por Descartes e a considerar o argumento ontológico, transforma-se num ecletismo amplo e vago, enquanto o empirismo inglês e francês imprime uma orientação subjetiva à filosofia, questionando a origem dos conceitos necessários, como substância e causalidade, que deixam de ser pressupostos para se tornarem objetos de investigação.
  • Crítica de Kant à razão pura representa um momento decisivo, ao submeter a juízo todo o sistema do conhecimento natural e suas fontes, organizadas numa hierarquia ascendente: sensibilidade, entendimento e razão. Esta última, concebida não apenas como faculdade silogística, mas como faculdade produtiva de ideias, pressupõe, no entanto, a sensibilidade e o entendimento como condições necessárias, de modo que, ultrapassando suas esferas, só alcança ideias puras, que servem para unificar a experiência, mas não fornecem conhecimento por si mesmas. Kant analisa minuciosamente o conceito do ser perfeitíssimo ou ideal da razão, mostrando que ele surge naturalmente da razão como produto necessário para a determinação completa das coisas, embora sua existência objetiva não possa ser demonstrada, permanecendo uma hipóstase útil, mas não justificada objetivamente. Sua análise, porém, prepara o terreno para uma compreensão mais precisa do conteúdo desse conceito, superando a vagueza dos predecessores.
  • Potencialidades do Ser e sua relação dialética constituem o núcleo a partir do qual se pode desenvolver uma ciência filosófica verdadeira, superando tanto a indeterminação kantiana quanto o imobilismo spinozista. O Ser, considerado em sua plenitude, não é um momento único, mas envolve uma dinâmica de possibilidades internas que devem ser distinguidas: o sujeito puro (-A), que é poder ser sem existência plena; o objeto puro (+A), que é existência sem poder próprio; e um terceiro momento (±A), que exclui e ao mesmo tempo integra os dois anteriores, sendo tanto sujeito quanto objeto, porém não simultaneamente, mas de modo infinito e alternado. Nenhum desses momentos, isoladamente, é o Existentes; o Existentes mesmo resulta da união dos três, constituindo a matéria do Ser, a Ideia em seu sentido originário, que, porém, para se realizar, exige um ser individual e real, determinado pela Ideia, mas com realidade independente. Esta distinção entre a matéria do Ser (o geral) e o Ser real (o individual) é crucial para superar a contradição de um Ser que, sendo tudo, não seria nada em concreto.
  • Processo de autodeterminação do Absoluto inicia-se com a potencialidade negativa, o puro poder ser (-A), que, como ausência ou defeito, anseia pelo ser, atraído pela positividade pura (+A); deste dinamismo interno, que não é negação absoluta, mas contração orientada, emerge o terceiro momento, que media e unifica os opostos, constituindo a figura do Ser que se possui a si mesmo. Estes momentos não são existentes autônomos, mas consentes, nascem juntos e exigem-se mutuamente, formando uma totalidade orgânica cuja unidade é o próprio Absoluto. Assim, Deus, entendido como o Ser, não é um ente particular alheio ao mundo, mas contém em si, como possibilidades internas, as diferenças que fundamentam a realidade efetiva, estabelecendo, desde sempre, uma relação essencial com o mundo, sem a qual não poderia ser pensado em sua plenitude. A negação, longe de ser limitação, é uma potência infinita que atrai a afirmação, sendo o motor do começo e da progressiva realização do Ser.
schelling/philosophie-de-la-mythologie-livre-ii/lecon-12.txt · Last modified: by mccastro

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