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Imagens do Começo

SCHUBACK, Marcia Sá Cavalcante. O Começo de Deus. A filosofia do devir no pensamento tardio de F.W.J. Schelling. Petrópolis: Editora Vozes, 2021.

  • Condição humana caracteriza-se por devir irreversível, não mera incompletude passageira mas radical impossibilidade de completar-se. Finitude humana corresponde a experiência do fim como condição ontológica, gerando luta interna contra si mesmo, formalizada como alçar-se sobre si mesmo. Esse movimento supõe fim e limite como instâncias que constantemente se delimitam e redefinem, correspondendo à exigência ontológica de definição perante condição irreversivelmente finita. Irreversibilidade temporal manifesta-se como impossibilidade de retorno, tornando o homem um irreversível incarnado, cujo ser consiste em advir, recordar, mas nunca retornar, sob pena de transformar seu ser em coisa estática.
  • Exemplaridade humana em Schelling não deriva de princípio antropomórfico que projeta determinações humanas sobre universo, mas de ser humano como narração viva da experiência de ser como devir de si mesmo. Liberdade humana, entendida como capacidade de colocar para si próprio o fim dado como constituição, fundamenta analogia expansiva, querendo tornar tudo análogo à liberdade. Esta analogia corresponde a movimento essencial de devir, não a mero espelhamento antropocêntrico. Schelling assume posição teomórfica, na qual homem corresponde a sentido de ser como devir, integrando-se microcosmicamente à totalidade infinita sem perder especificidade, estabelecendo concórdia onde coração humano deixa vigorar lei do universo.
  • Passado constitui modo imediato de concretização do fundamento e dimensão cronológica onde devir se apresenta. Passado não é mero estado abandonado, mas passo para além de si que, ao perder irreversivelmente algo, preserva ter-passado e inaugura outro de si, fundando presente. Relação entre passado e presente enuncia-se como passagem de não-ser para ser, cujo passo aprofunda no ser seu próprio não. Este aprofundamento corresponde a ação singular de conquista, identificada com ποίησις (poiesis) platônica, reinterpretada como atividade poética que instaura começo. Passado apresenta-se, assim, como poética do começo, onde perda irreversível permite retenção criadora do ter-passado como origem.
  • Começo não constitui ponto de partida fixo, mas salto de ser no ser, fundo sem fundo que só se fundamenta ao aprofundar seu não. Começo implica simultaneidade originária entre começo e começado, removendo precedência metafísica da origem. Diferença inerente a esta simultaneidade é diferença ontológica no próprio ser, definindo formalmente tempo. Temporalidade não é continente onde coisas estão, mas tempo interior das coisas, que é tempo do começo justamente por diferir dele. Autopotenciação do devir revela começo como sempre recomeçante, dinâmica de constituição que impede atribuição de ponto fixo inicial, evidenciando que começo é devir de si mesmo, diferença em si mesmo que temporaliza.
  • Natureza, em Schelling, não é âmbito de mera necessidade, mas identidade de liberdade e necessidade, fundamento portador que se concretiza como obscuridade da retração de tudo que expande. Natureza ama esconder-se, significando vida do começo, atividade poética da simultaneidade. Fazer do começo, enquanto natureza, não é efetivação de princípios independentes, mas fazer-se do próprio princípio em tudo que faz. Esta obscuridade impede retorno ao começo, pois começo só se encontra em seu próprio fazer-se, sendo apreendido como noite, mãe fértil das coisas, onde princípio só se atualiza em sua própria atividade criadora.
  • Criação, tradicionalmente entendida como passagem de nada para algo mediada por criador, é reinterpretada por Schelling a partir de base ontológica do devir. Criação é identidade de ser em sua diferença, dinâmica de ser em não sendo, simultaneidade originária onde criador faz a si mesmo em tudo que faz. Deus, portanto, é ele mesmo devir, implicando diferença interna entre deus e sua divindade. Mundo é expansão e concreção da divindade, simultaneamente retração de deus. Antes do mundo não há deus como efetivador de projeto, mas deus em seu passado, em possibilidade de devir. Precedência de deus sobre mundo é abstração substancialista; em verdade, deus possui natureza dinâmica de revelação, mostrando-se na retração.
  • Revelação (Offenbarung) constitui abertura essencial que implica simultaneidade de fechamento e passagem ao aberto, horizonte de conquista. Em deus, revelação é copertinência com velamento, mostrar-se retraindo-se. Devir de deus é mundo na totalidade, redimensionando existência como insistência para fora, fato revelatório que precede qualquer conteúdo quidditativo. Existência de deus diz que ele existe, não o que ele é, libertando-se de prova ontológica. Encontro humano com indeterminação radical é encontro exemplar com fato da existência como revelação, conduzindo à totalidade. Resposta à questão “por que há algo e não nada?” só pode ser totalidade ou deus, não algo determinado.
  • Vontade é ser originário (Ursein), estrutura de conquista inerente ao devir. Contudo, vontade contém em si condição de não-vontade, seu próprio limite, evidenciado no fato existencial de que se pode querer tudo menos o próprio querer. Isto abre possibilidade de desconstrução do primado da vontade no interior da metafísica da subjetividade. Encontro real com totalidade, fundado nesta experiência, é denominado religiosidade, que não formaliza conceito do absoluto, mas anuncia pertencimento radical do ser (ser para além de si) e problematiza primado moderno do sujeito, vislumbrando que acesso imediato ao ser como devir só se concretiza historicamente como preparo para visão de deus.
  • Crítica de Schelling ao entendimento metafísico de começo questiona estrutura analógica da substância como única via de determinação. Para superar aporia do começo (que exigiria usar o que se quer definir para defini-lo), é necessário admitir outro saber além da analogia substancial, saber não configurado em conteúdos sedimentados. Questão “como o saber é pura e simplesmente possível” mobiliza filosofia de Schelling, buscando saber da totalidade em sua transcendência. Saber no devir é saber do devir, condição das ideias kantianas (deus, mundo, liberdade), que para Kant permanecem inconcebíveis teoricamente. Schelling transforma esta impossibilidade em experiência acessível via intuição intelectual, intuição do absoluto como saber do próprio devir, base primeira de sua edificação filosófica.
schelling/imagens-comeco-schuback.txt · Last modified: by mccastro

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