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schelling:clara:uribe

Uribe R. & Tapia W.

SCHELLING, Friedrich Wilhelm Joseph von. Clara oder über den Zusammenhang der Natur mit der Geisterwelt: Ein Gespräch. 1861

APRESENTAÇÃO GERAL DA OBRA

Clara, ou sobre a conexão da natureza com o mundo dos espíritos possui um selo particular e reconhecível, mas de difícil determinação, pois sua forma simples esconde variedade de temas, problemáticas e perspectivas, e o diálogo busca dilucidar a passagem da vida atual para o que espera após a morte, com a protagonista Clara refletindo, a partir da perda de um ser amado, sobre os vínculos com o espiritual e o modo de alcançar essa conexão.

  • Esse tipo de tema representa uma nova fase dentro do pensamento de Schelling, dedicado em seus inícios à teoria do conhecimento de Kant e Fichte, o que faz da obra peça-chave para compreender sua evolução.
  • O escrito é inacabado e integra uma série de projetos jamais concretados por seu autor, que passou quarenta e cinco anos sem publicar nada substancial, exceto um texto introdutório e a segunda parte de um estudo no ano de sua morte, contexto marcado pela insuficiência da filosofia da época, pelas expectativas geradas por sua precoce genialidade e pela necessidade de configurar novo modelo filosófico.
  • O estudo introdutório proposto pretende funcionar como guia de leitura, expor as discussões sobre o conteúdo do diálogo, tratar brevemente de questões bibliográficas e biográficas quanto à data e ao planejamento do texto, e acrescentar cronologia e glossário, deixando análises escolares mais rigorosas para outra ocasião.

2.1. ESTILO E PROPÓSITO DO TEXTO

Clara distingue-se das demais obras de Schelling por tratar seus temas com naturalidade, em leitura fácil, com os tópicos apresentados de modo afável a partir de observações, sensações ou emoções dos próprios personagens, que conduzem a análise filosófica com a simpleza da conversação cotidiana, de modo que as intuições originais se aprofundam pela interação entre eles.

  • Destaca-se a importância das paisagens e festividades, que preenchem a obra de simbolismo e atmosfera de influência romântica, com Schelling fazendo coincidir as mudanças da natureza com as posturas filosóficas e retratando os personagens como mais intuitivos e melancólicos nos dias de festa, o que confere à obra grande beleza poética e a identifica como o tratado mais literário de Schelling.
  • Esses elementos não refletem intenção puramente estética, pois há indícios de que o escrito foi pensado para aproximar a filosofia do público, como mostra a observação de Clara, no Interlúdio, de que os filósofos não escrevem como falam, o que gera obscuridade desnecessária nos tratados filosóficos.
  • Clara representa o homem comum, culto mas não intelectual, capaz de alcançar grandes níveis de reflexão apesar de lhe faltar o rigor técnico da literatura escolar, e o autor buscou dar às massas acesso a reflexões que muitas vezes lhes parecem alheias.
  • Para Schelling a filosofia excede a disciplina sistemática, e a riqueza da meditação reside mais na qualidade e profundidade do pensar que no rigor terminológico, o que implica defesa das capacidades reflexivas das pessoas enquanto tais, cabendo aos intelectuais o papel de guias que ordenam conceitualmente as inclinações da gente comum.
  • Essa dinâmica aparece nas discussões entre Clara e seus interlocutores, que por vezes precisam esclarecer conceitos, mas é ela quem propõe ou culmina as considerações mais decisivas, sendo seus companheiros mais instruídos antes pares que mestres, como ilustra a passagem em que o pastor descreve a profundidade da sensibilidade de sua filha e a falta de capacidade de torná-la comunicável, e a observação de que o conhecimento se dá de modo distinto em cada natureza, conforme disposição, inclinações e interesses particulares, ainda que o surgimento da reflexão seja universal em todos os homens.
  • O estilo do texto excede, assim, a intenção de ser lido por público não familiarizado com o rigor acadêmico e visa recolher as inquietudes incipientes do leitor para submetê-las ao mesmo processo dedutivo vivido pela protagonista, o que se confirma pelo contraste com Bruno (1802), também dialogal mas de grande complexidade conceitual e leitura difícil, o que mostra que a forma de diálogo não garante acessibilidade, funcionando Clara quase como propedêutica para compreender teorias já tratadas em obras principais de Schelling.
  • Outro problema decorre do conteúdo não escrito, especialmente decisivo pela notória conexão entre as partes do texto e as estações do ano: o manuscrito chega apenas até a Primavera, e não fica claro no esquema da edição de Schröter até que ponto os conteúdos correspondem a essa seção ou à seguinte, sendo o Verão, símbolo da plenitude da natureza, também símbolo da plenitude dos pensamentos, o que torna decisivo o inacabamento do diálogo.
  • É possível que Schelling tenha pretendido recolher nesta obra a evolução de seu próprio pensamento, igualando o conteúdo dos postulados à estrutura dialogal de modo a refletir a passagem da filosofia negativa à positiva, mudança ligada à insatisfação com o idealismo e ao desejo de refundar uma filosofia atenta ao indivíduo e a suas vivências, hipótese também sustentada por Fiona Steinkamp (2002), que situa a virada, na quinta seção (Caminhada de início de primavera), na passagem de um ponto de partida natural para um ponto de partida espiritual na análise da conexão entre os dois mundos, correspondendo à trajetória do próprio Schelling, que sempre pretendeu unir ambas as filosofias.

ANÁLISE METODOLÓGICA

A introdução incluída nesta edição, segundo esclarece Karl Schelling, não é parte original do diálogo, mas pertence a escrito de grande afinidade temática com ele, cuja proximidade sugere objetivos semelhantes, o que justifica sua revisão tanto por riqueza própria quanto por luzes que possa lançar sobre o ponto de vista do filósofo ao escrever o diálogo.

  • Schelling determina, nas primeiras páginas dessa introdução, que o objetivo é mostrar cientificamente a passagem entre o mundo natural e o espiritual, sem discutir a existência do mundo dos espíritos nem buscar conhecimento ou características sobre ele, exigindo do leitor consentimento pleno quanto a essa existência, o que parece afastar o texto de um proceder científico ou sério e sugerir via dogmática, delegando a quem discorde o ônus de provar a inexistência do mundo espiritual.
  • A esse pressuposto soma-se outro, o de que o mundo natural se subordina ao espiritual, aceito, segundo Schelling, até por quem duvida deste último, o que reforça a impressão de desleixo metodológico, dissipada, porém, ao considerar-se que a concepção atual de proceder científico difere muito da que Schelling tinha em mente, tratando-se de análise filosófica que busca clareza conceitual pela razão, partindo da observação e da experiência, e não de demonstração propriamente dita.
  • A distinção decisiva está entre os termos alemães Erklärung (mostrar, esclarecer) e beweisen (demonstrar): o que Schelling busca não é comprovar a existência do mundo espiritual, mas dilucidar intuitivamente a passagem entre os dois mundos, o que revela rigor conceitual maior do que parece à primeira leitura, talvez obscurecido pela distância temporal e cultural.
  • Essas características se replicam em Clara, onde o primeiro pressuposto nunca é discutido e o segundo aparece apenas fugazmente, como na intervenção do clérigo e na discussão entre Clara e o pastor sobre a relação corpo-alma-espírito na cena de Natal, em que o médico defende a superioridade do mundo atual, opinião combatida pelos demais interlocutores, discussões que parecem antes representar posturas anteriores da filosofia de Schelling e motor da conversa do que questionamento rigoroso dos pressupostos.
  • A introdução, ainda que pertencente a outro tratado, cumpre função preparatória indispensável para a análise de Clara, cujo método também é o de mostrar antes que demonstrar, conduzindo o leitor a meditação sobre a vida futura, nossa conexão com ela e nosso destino como portadores de individualidade ou personalidade (Persönlichkeit).
  • É possível que a motivação de não partir do questionamento da existência do mundo espiritual esteja ligada ao luto pela morte da esposa Caroline em 1809, ano de publicação do Tratado da liberdade, sendo a nostalgia por Albert e a dor de Clara o cenário em que se inicia a discussão sobre a vida futura, iniciada na primeira seção (Dia de Finados) quando o pastor pergunta se a vida atual estaria incompleta e só se realizaria plenamente após a morte.
  • Dessa pergunta derivam-se os temas centrais do diálogo: a relação entre mundo natural e espiritual e a transição entre ambos, sendo o clérigo, que só aparece nesta seção, responsável por negar toda possibilidade de conexão e influência entre os dois mundos, postura que lembra os postulados kantianos e a filosofia inicial de Schelling, a ponto de comentaristas como Steinkamp (2002) e Grau (1997) postularem que o clérigo representaria o próprio Kant.
  • Diante das objeções do clérigo, Clara expressa desejo de compreender algo além de conceitos frios e convoca maior emoção e vida na condução dos pensamentos, o pastor argumenta que a consciência é ponto de conexão com o mais alto, e Clara sustenta que o amor é o laço superior que persiste mesmo após a morte, o que evidencia que a refutação ao clérigo simboliza a superação de uma filosofia puramente conceitual e situa o texto numa orientação intuitiva, marcada por inquietude antes espiritual que intelectual, com discussões sobre as artes, as ciências, a imutabilidade, a natureza e a vida harmônica que refletem plenamente a tendência romântica de Schelling.
  • O texto divide-se metodologicamente em duas grandes partes conforme o ponto de partida: na primeira, Schelling parte do mundo natural, com o médico defendendo, ao final da primeira seção, o papel da observação no conhecimento e afirmando ter aprendido mais com quem convive com a natureza que com acadêmicos, posição próxima à Filosofia da Natureza (Naturphilosophie) que Schelling desenvolveu entre 1797 e 1800.
  • Na segunda e terceira seções o tratamento é ascendente, da vida atual à espiritual, examinando-se os princípios de ambos os mundos, as formas de relação entre eles e os primeiros postulados sobre sua conexão, por meio de considerações sobre a liberdade, a conjunção de corpo, alma e espírito e os graus de presença de cada elemento antes e depois da morte, desenvolvendo-se aí, sobretudo, a chamada filosofia da liberdade, com o ponto de vista “natural” predominando até a quinta seção.
  • A partir da Caminhada de início de primavera, Clara manifesta insatisfação com o tratamento insuficiente dado até então ao mundo espiritual e propõe tomá-lo como fundamento, examinando sua natureza, esboçando o processo de trânsito e aludindo à unidade originária e final dos dois mundos, ocorrendo aí giro metodológico e estético radical: a exposição adquire matizes mais poéticos, sobretudo na seção seguinte, Primavera, em que Clara assume a palavra de modo predominante e a apresentação dos temas se torna mais intuitiva.
  • A tarefa final, enunciada nas últimas páginas escritas, consiste em considerar as características pelas quais a matéria parece opor-se ao espiritual e as pelas quais verdadeiramente se lhe opõe, para compreender aquelas pelas quais um dia se tornará uma só essência com ele, análise que já não se limita a considerar simples participação ou trânsito, mas desemboca em descrição da unidade total dos extremos e exame dos elementos que a propiciarão, sendo a clarividência aparentemente o conceito principal dos postulados que Schelling desenvolveria na obra inacabada.

ANÁLISE DE CONTEÚDO

Entre os temas mais destacados de Clara estão a relação entre acadêmicos e leigos, o conhecimento como atividade elevada do homem, a clarividência, a natureza e o equilíbrio espiritual, dos quais se selecionam para análise, por extensão e profundidade, a exposição sobre a liberdade e a constituição do ser humano como unidade de corpo, alma e espírito, temas relevantes também para a discussão sobre a datação e a relação de Clara com o restante da produção filosófica de Schelling.

  • A discussão sobre a liberdade mostra correspondência quase exata com as Investigações sobre a essência da liberdade humana (1809), a ponto de por vezes parecer resumo desse tratado, o que reforça, contra a opinião geral que situa os primeiros esboços do texto em 1810, um argumento a favor dessa data.
  • A primeira referência à liberdade ocorre no Passeio de outono, quando o médico afirma que o homem teve papel no estancamento da progressão da natureza, pois esta dependia da liberdade humana, detida após a Criação pela ambição do homem de tomar para si o mundo exterior; a discussão central, porém, expõe a concepção da liberdade como resultado da necessidade, elemento crucial do tratado de 1809, reproduzido aqui nos mesmos termos, embora simplificados, e na mesma ordem temática.
  • Um trecho de Clara distingue a liberdade entendida como submissão a razões e princípios, que a protagonista considera a mais inferior das liberdades, da liberdade como “verdadeira e real aparição do espírito”, diante da qual poucos sabem lidar com o “delicado segredo” da necessidade como ser interior da liberdade, ideia paralela às do Tratado da liberdade, que rejeita a noção de liberdade como faculdade indeterminada de escolher entre contrários sem motivos determinantes, por conduzir ao absurdo, e afirma que a necessidade interna da própria essência é a própria liberdade, compenetradas numa só essência que, conforme o lado de que se a considere, aparece como uma ou outra.
  • A verdadeira liberdade está, segundo o Tratado, em consonância com “sagrada necessidade”, sentida no conhecimento essencial quando espírito e coração, atados à própria lei, afirmam o necessário, ideias praticamente idênticas às de Clara, diferindo sobretudo na forma de exposição, mais rígida no tratado e mais afável no diálogo, com a diferença conceitual de que em Clara a liberdade humana se relaciona desde o início não só com Deus, mas com toda a natureza, dependência que no escrito de 1809 só aparece explicitamente referida ao fim dos tempos, o que sugere evolução e não ruptura de pensamento.
  • Reforça essa continuidade a pergunta de Clara sobre a origem da doença como tédio, como força individual de não querer avançar com o todo nem extinguir-se com ele, mas permanecer arbitrariamente à parte, que resume a exposição de 1809 sobre a vontade própria (Eigenwille) e a vontade universal (Universalwille): o homem, ser indeciso em busca de si mesmo, pode submeter-se à vontade universal divina ou buscar por conta própria condição elevada desconhecendo seu fundamento, sendo esse afastamento a origem do mal.
  • Quanto à relação corpo-alma-espírito, correspondente à exposição ontológica do homem de 1809, o diálogo aprofunda-se mais, mas sobre os mesmos princípios: descreve-se o corpo como oposto ao espírito, mediado pela alma, descrita como o propriamente humano no ser humano, unidade viva que relaciona os elementos de modo distinto conforme se esteja na vida atual ou futura, com cada elemento contendo parte do outro em incessante encadeamento, todo contido em tudo, o nível mais baixo contendo augúrios do mais alto, sendo o papel da alma quase inexistente no Tratado de 1809, onde Schelling usa “espírito” (Geist) e “alma” (Seele) quase como sinônimos.
  • No mundo material predomina o corpo sobre o espírito, e nele a parte corporal sobre a espiritual; no mundo espiritual, o inverso, sendo a morte o trânsito entre ambos, ligado à ideia de liberação e necessário à elevação do espírito humano e à exteriorização do espiritual no corporal, processo que envolve toda a natureza, cuja liberação espiritual completa só ocorrerá quando o próprio planeta morrer, cabendo à alma papel mediador entre os dois mundos.
  • Outro ponto de conexão com o tratado de 1809 é a distinção entre ser (Seyn) e ser ativo (das Seyende), em que o exterior é descrito como mero ser, um pôr-se a si mesmo que não se conhece, e o interior como potência que põe o mero ser e o conhece, com prevalência sempre da essência interior sobre o exterior, dependente do cuidado e da formação recebidos, sendo a espiritualidade esse interior oprimido pelo exterior na vida presente.
  • No Tratado da liberdade expõe-se ainda a distinção entre ser como existência (Existenz) e como fundamento da existência (Grund von Existenz), decorrente de compreensão mais originária da cópula verbal: dizer que algo é X não implica identidade, mas relação criadora esquecida, como no panteísmo espinosano “Tudo é Deus”, que não identifica as coisas a Deus, mas as toma por manifestação sua; Deus, não tendo nada anterior ou exterior a si, deve ter em si mesmo o fundamento de sua existência, fundamento que não é Deus considerado absolutamente, mas sua natureza, inseparável dele porém distinta.
  • Aplicada ao homem, essa estrutura repete-se com nuances: por não ser causa sui, o homem sofre disputa originária entre fundamento e existência, o fundamento conferindo-lhe liberdade e capacidade criadora, e o ser existente buscando sempre exteriorizar-se, cisão que o leva a buscar constantemente validação como si mesmo e à escolha entre submeter-se à vontade universal ou seguir caminho próprio.
  • Há, assim, em ambos os textos, diferença entre a natureza interior e primária do homem e sua manifestação exterior, sendo fundamento e ser ativo o motor, em termos aristotélicos, do exterior, elementos interdependentes e inseparáveis por serem ambos momentos da constituição de Deus e do homem, ideia reforçada em Clara pela descrição de uma “vida mais bendita e mais perfeita” em que exterior e interior se compenetrassem por completo, deixando de existir diferença entre ambos.
  • Também é possível notar semelhanças significativas entre Clara e Bruno (1802), quanto à unidade originária e final do mundo, à natureza como manifestação gradual dos aspectos material e espiritual da divindade e à passagem de toda a criação a uma unidade final, embora Schelling não desenvolva esses temas de forma extensa em nenhum dos dois textos a ponto de permitir comparação mais aprofundada.

DISCUSSÃO BIBLIOGRÁFICA

Há duas grandes controvérsias bibliográficas sobre o diálogo: a primeira concerne à sua posição entre as demais obras de Schelling, discutindo-se se teria sido planejado como continuação de Bruno ou de As idades do mundo, inclinando-se a maioria dos estudiosos, com o próprio filho do autor à frente, por considerá-lo capítulo desta última, também projeto inacabado.

  • A segunda controvérsia diz respeito à data de composição, havendo consenso de que o texto foi reescrito por período extenso, mas discordância quanto ao início e término aproximados.

RELAÇÃO COM AS OUTRAS OBRAS

A posição mais forte situa o diálogo como parte de As idades do mundo, defendida pela maioria dos estudiosos; outra, menos difundida, concebe-o como continuação de Bruno (1802), pensado como o primeiro de três diálogos num projeto nunca concretizado.

  • Em 1802 Schelling publicou dois diálogos, os únicos divulgados em vida, Bruno e o texto sobre o sistema da identidade absoluta contra Reinhold; o primeiro deveria ser seguido por outros dois, um deles intitulado O sonho de Krisos, jamais escritos apesar do anúncio feito em 1806.
  • Temas de Bruno reaparecem em Clara, como o equilíbrio inicial do mundo, a evolução gradual das criaturas e a irrupção desse equilíbrio pela existência humana, além das forças opostas da natureza e da relação entre corpo e alma, tratada especialmente nas seções b e g da seção 6 (Dedução do individual) de Bruno, embora a linguagem e as perspectivas de Clara estejam mais próximas do Tratado da liberdade, o que torna a semelhança grande mas não decisiva para afirmar continuidade de conteúdo ou pertença efetiva à série planejada.
  • A posição de Karl Schelling, que situou originalmente Clara como componente-chave de As idades do mundo, numerando a Caminhada de início de primavera como antecedente ao segundo livro (O presente, edição 1811-1812), sustenta-se em critério material, supondo que o afã de Clara em analisar o mundo atual para adentrar o seguinte seria o ponto determinante, opinião também mantida por Schröter.
  • Horn (1997) atribui essa ordenação à coincidência temática dos dois mundos separados pela ação humana, sobretudo pelo pecado, embora Steinkamp (2002) observe maior afinidade, nesse ponto, com o Tratado da liberdade; Horn também destaca a coincidência entre as três etapas temporais (passado, presente, futuro) e os três personagens principais, argumento que, apesar de sugestivo, não parece decisivo, assim como a hipótese de que Clara representaria o presente, pois passado e futuro não figuram como temas relevantes na obra, sem que isso baste para afirmar unidade com As idades do mundo.
  • A posição aqui defendida considera Clara texto independente, com dois objetivos: expor o tema do mundo dos espíritos e do trânsito até ele, e apresentar panoramicamente o desenvolvimento do próprio pensamento filosófico do autor, não mais como teoria particular, mas como desdobramento da filosofia mesma, de modo que as semelhanças com outros textos corresponderiam a devir próprio da filosofia de Schelling, e não a projeto de série de obras.
  • Reconhece-se, porém, a presença de ideias ligadas a As idades do mundo, notadamente a noção de tempos simultâneos, ideia condutora dessa obra, presente em passagem da seção Noite de Natal sobre a clarividência, em que o médico descreve o ser (Wesen) de certas pessoas como ponto focal que une em si passado, presente e futuro, e em passagem da seção Primavera, em que Clara declara não descansar até penetrar com o pensamento no “objetivo de todos os tempos”, frase que poderia sugerir estudo sobre o futuro e reforçar a hipótese de Karl Schelling, embora pareça mais plausível referir-se aos temas da última parte do diálogo, ligados aos elementos que nesta vida conduziriam à unidade com o mundo dos espíritos.
  • Conclui-se que a obra recopila a filosofia anterior de Schelling, com ênfase nos postulados a partir de 1800, destacando o papel do tratado de 1809 quanto à liberdade e à constituição corpo-alma-espírito, com o objetivo de oferecer ao público tratado simples e de rápida difusão, dentro do afã de Schelling de suplantar a Fenomenologia do espírito de Hegel, preparando ao mesmo tempo as bases para a nova filosofia que se configuraria em As idades do mundo e, pouco depois, como filosofia positiva.
  • Não se pode negar de todo que Schelling tenha em algum momento cogitado incluir o diálogo em outra obra, mas defende-se aqui que, temática e conceitualmente, Clara não pertence a As idades do mundo e foi pensada como texto independente, sendo mais adequado conceber a evolução da filosofia de Schelling como sucessão de épocas, e não de etapas distintas, desenvolvimento vivo e contínuo em que se encontram, em diferentes momentos, pequenos brotos de sua filosofia.

DATA DO TEXTO

Karl Schelling situa o texto em 1817, como parte do segundo livro de As idades do mundo, mas os argumentos que sustentam essa data — o interesse de Schelling por fenômenos paranormais na época, a semelhança entre o devir dos mundos e o devir dos tempos, declarações sobre a duração de seu luto e sobre suas ideias definitivas alcançadas só após as Lições privadas de Stuttgart (1810) — são considerados insuficientes.

  • A opinião predominante situa Clara em 1810, vinculando-a à morte de Caroline, reconhecendo o próprio Karl Schelling que alguns trechos podem datar dessa época, posição reforçada pelas semelhanças com o Tratado da liberdade e pelas referências constantes à morte e ao luto, sustentada por vários comentaristas (Tilliette 1970, Vetö 1973, Beckers 1865, Horn 1997) e pela proximidade temática com as Lições privadas de Stuttgart, onde Schelling trata expressamente da vida após a morte.
  • Considera-se mais viável que 1810 tenha sido a data de início da escrita, sem excluir que o texto tenha sido continuado, adiado, reescrito e modificado ao longo dos anos, período de produção especialmente vertiginosa e tormentosa (López-Domínguez 1995, Tilliette 1970, Leyte 1998), o que não exclui a possibilidade de Clara ter sido planejada como parte de outro escrito, coincidindo com a data proposta por Karl Schelling, ou como texto independente.
  • Uma posição divergente, defendida por Arsenij Gulyga (1989), situa o texto em 1803, apoiando-se em rumores da época sobre uma novela de Schelling identificada por Gulyga com Die Nachtwachen, hipótese descartada em favor de Clara, e no fato de que nesse período Schelling foi publicamente acusado de responsabilidade pela morte de Auguste, filha de Caroline, o que poderia tê-lo motivado a escrever sobre a vida após a morte.
  • Outros autores apontam semelhanças temáticas com carta a Schubert de 1808 sobre clarividência, na qual Schelling anuncia estar trabalhando em obra literária momentaneamente adiada por ter-se afastado muito do tema principal, o que, somado à proximidade cronológica com 1810, sugere que o diálogo possa ter sido concebido originalmente como escrito centrado na clarividência, derivado depois, após a morte de Caroline, para o tema da vida após a morte, sem que isso constitua dado definitivo.
  • Sustenta-se, por fim, a data convencional de 1810 com certa flexibilidade, reconhecendo desenvolvimento irregular do projeto, com momentos de abandono e de produção abundante, evidenciado pela coincidência com o tratado de 1809 e as Lições de Stuttgart, e pelo impacto duradouro da morte de Caroline sobre o filósofo, sem que essa posição seja incompatível com as demais hipóteses.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Clara é texto valioso por si mesmo dentro do corpus de Schelling, propondo nova linha de investigação sobre suas teorias e representando peça-chave no conjunto do sistema, cujo interesse recente se deve em boa parte ao reconhecimento de Heidegger pela profundidade ontológica desta fase intermediária, historicamente ofuscada pela figura de Hegel.

  • O estudo apresentado tem caráter preliminar e conducente, complementando o trabalho conceitual com fatores biográficos que, embora exteriores à leitura propriamente dita, enriquecem-na, sendo reducionista, no caso de Schelling, dissociar inteiramente o valor filosófico da obra das circunstâncias pessoais do autor.
  • Clara situa-se em momento de convergência entre os dilemas espirituais e intelectuais de um Schelling abatido pelo luto e por um idealismo que se revela insuficiente, sendo o caráter errático e flutuante muitas vezes atribuído ao filósofo antes reflexo de sua longa vida, de seu precoce debute acadêmico, das grandes mudanças sociais que testemunhou e de suas próprias experiências que de instabilidade ou indecisão.
  • O devir desse sistema filosófico coincide com o desenvolvimento do próprio espírito de Schelling, mostrando desde sua personalidade particular e irrepetível os movimentos que vivemos como parte de uma mesma natureza, em vivacidade radicalmente contrária à filosofia hegeliana, cujo devir pretende ser o de um espírito absoluto que não se identifica com ninguém.
  • Compreendida essa particularidade, torna-se compreensível que tenha surgido nesse autor moderno a necessidade de falar sobre a existência num momento em que o indivíduo ainda era anônimo, sendo o que mais tarde se configuraria como filosofia positiva a expressão de um espírito que se torna espiritualidade e personalidade, o que impede que Clara continue sendo tratada como texto menor, pois omitir sua importância seria ignorar componente-chave da transição que buscava superar a insuficiência do idealismo justamente por meio de temas que este não se permitia abordar: a vida após a morte, o mundo espiritual e a espiritualidade presente em nós.
  • No Tratado da liberdade, Schelling sustenta que um sistema da razão não pode desconhecer as complexidades da natureza humana, e Clara constitui a tentativa entusiasta de construir filosofia que considerasse o sentir humano como digno de valor e análise, configurando-se ao mesmo tempo como o melhor instrumento para que o público pudesse participar de reflexões que por muito tempo lhe pareceram alheias.
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