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Mito de Tristão e Isolda

DRAO

  • O grande mito europeu do adultério: Tristão e Isolda
    • O romance de Tristão e Isolda se apresenta como um grande mito europeu do adultério.
    • Através do desorde extremo de nossos costumes e da confusão de moralidades, percebe-se em filigrana essa forma mítica.
    • Esta aparece como uma imagem simples, um tipo primitivo de nossos tormentos mais complexos.
  • Etiologia das paixões como método de análise
    • Analogia com a etimologia das palavras: para esclarecer confusões da língua, os poetas remetem às origens longínquas.
    • Propõe-se fazer o mesmo com as paixões: reportar confusões de nossos costumes a esse mito fundador.
    • A etimologia das paixões é menos decepcionante que a das palavras, pois encontra verificação imediata na existência, não numa ciência hipotética.
  • Redefinição do conceito de mito além da ilusão
    • Rejeição da equivalência entre mito e irrealidade ou ilusão, dado o poder incontestável de muitos mitos.
    • Definição geral: mito como história ou fábula simbólica, simples e marcante, que resume infinitas situações análogas.
    • Função do mito: permitir apreender de relance tipos de relações constantes, destacando-os do emaranhado das aparências cotidianas.
  • Características específicas do mito em sentido estrito
    • Tradução das regras de conduta de um grupo social ou religioso, procedendo do elemento sagrado que o constitui.
    • Ausência de autor conhecido; origem e sentido parcialmente obscuros.
    • Apresentação como expressão anônima de realidades coletivas ou comuns.
    • Diferença radical com a obra de arte (poema, conto, romance), cujo valor depende do talento singular do criador (beleza, verossimilhança, estilo).
  • Poder coercitivo do mito como traço mais profundo
    • Poder que o mito exerce sobre nós, geralmente à nossa revelia.
    • Uma obra de arte, por mais bela, não tem poder de coação; pode ser criticada ou apreciada por razões individuais.
    • O mito desarma a crítica, reduz ao silêncio a razão ou a torna ineficaz.
  • Abordagem de Tristão como tipo de relações sociais, não como obra literária
    • Proposta de analisar Tristão como tipo das relações homem-mulher numa elite histórica: a sociedade cortês e cavaleiresca dos séculos XII e XIII.
    • Esse grupo está dissolvido há muito, mas suas leis ainda nos regem de modo secreto e difuso.
    • Profanadas e renegadas pelos códigos oficiais, essas leis tornaram-se mais coercitivas por só atuarem sobre nossos sonhos.
  • Traços míticos da lenda de Tristão
    • Autor totalmente desconhecido; as versões originais remanescentes são reelaborações artísticas de um arquétipo intangível.
    • Presença de elemento sagrado: o progresso da ação e seus efeitos dependem de regras e cerimônias da cavalaria medieval.
    • As ordens de cavalaria eram frequentemente chamadas de religiões, tratadas como mistério sagrado.
  • Obscuridade do mito como indicativo de seu conteúdo vital e perigoso
    • Obscuridade do mito não reside na forma de expressão, mas na origem misteriosa e na importância vital dos fatos que simboliza.
    • O mito surge quando é perigoso ou impossível confessar claramente certos fatos sociais, religiosos ou afetivos que se quer conservar.
    • Exemplo: não precisamos de mitos para verdades científicas (profanas), mas precisamos de um mito para expressar o vínculo obscuro e inconfessável entre paixão e morte.
    • O mito permite acolher um conteúdo disfarçado e dele fruir pela imaginação, sem clara consciência da contradição com a moral oficial e a razão.
    • Assim, protege da crítica realidades humanas que sentimos fundamentais, exprimindo-as conforme exige o instinto, mas velando-as da luz ameaçadora da razão.
  • Caráter coercitivo do mito tristaniano e sua evolução histórica
    • As regras cavaleirescas, coercitivas no século XIII, funcionam no romance como obstáculo mítico e figuras retóricas rituais.
    • Essas cerimônias sociais são meios para fazer admitir um conteúdo antissocial: a paixão.
    • A paixão de Tristão e Isolda é literalmente contida pelas regras da cavalaria; só assim pôde exprimir-se no crepúsculo do mito.
    • A paixão que deseja a Noite e triunfa numa Morte transfiguradora representa uma ameaça violentamente intolerável para qualquer sociedade.
    • Os grupos constituídos precisam opor-lhe uma estrutura rígida para que ela se exteriorize sem causar os piores danos.
  • Transformação do mito com o enfraquecimento do vínculo social
    • Se o vínculo social enfraquece ou o grupo se dissocia, o mito perde seu caráter estrito.
    • O que perde em força coercitiva e em meios de comunicação velada, recupera em influência subterrânea e violência anarquizante.
    • À medida que a cavalaria (mesmo como savoir-vivre profano) perde virtude, a paixão contida no mito primitivo se espalha pela vida cotidiana, invade o subconsciente, exige e inventa novas coerções.
  • Gênese do mito no século XII e sua permanência como exigência
    • O mito se constitui no século XII, período de grande esforço das elites para ordenamento social e moral.
    • Objetivo: conter as investidas do instinto destrutivo, exacerbado pelos ataques da religião.
    • O sucesso do romance ordenou a paixão num quadro que permitia expressá-la em satisfações simbólicas.
    • Mesmo desaparecido o quadro social, a paixão subsiste, perigosa, exigindo sempre uma reordenação equivalente da sociedade.
    • Permanência histórica não do mito em sua forma primeira, mas da exigência mítica a que o romance respondia.
  • Definição ampliada do mito de Tristão e Isolda
    • Mito como permanência de um tipo de relações e das reações que provoca.
    • O mito de Tristão e Isolda deixa de ser apenas o romance, tornando-se o fenômeno que ilustra, com influência ininterrupta até hoje.
    • Paixão de natureza obscura, dinamismo excitado pelo espírito, possibilidade pré-formada em busca de uma coerção que a exalte, encanto, terror ou ideal.
    • A perda da forma primitiva torna o mito particularmente perigoso; mitos decaídos tornam-se venenosos como as verdades mortas de que falava Nietzsche.

Atualidade do mito; razões de nossa análise

  • Influência do mito de Tristão e Isolda na vida cotidiana
    • O poder nostálgico do mito age mesmo sobre quem nunca leu o romance ou ouviu a ópera de Wagner.
    • Revela-se no sucesso de massas de romances e filmes, nas cumplicidades que despertam em burgueses, poetas, mal-casados, moças que sonham com amores milagrosos.
    • Atua onde a paixão é sonhada como ideal, não temida como febre maligna; onde sua fatalidade é desejada como bela catástrofe, não como catástrofe.
    • Vive na vida dos que crêem que o amor é um destino (como o filtro no romance), que abate o homem impotente e extasiado para consumi-lo num fogo puro, mais forte que felicidade, sociedade e moral.
    • É o grande mistério da religião da qual os poetas românticos foram sacerdotes e inspirados.
  • Prova da natureza mítica pela repulsa à análise
    • Prova imediata da influência mítica: a repugnância do leitor ante o projeto analítico.
    • O romance de Tristão nos é sagrado, e a análise será sentida como sacrilégio, ainda que em sentido atenuado.
    • O gesto de fechar o livro equivaleria simbolicamente à morte do autor, gesto hoje ineficaz.
    • Interrogação: se o leitor poupa o autor, significa que a paixão não lhe é sagrada, ou que os homens atuais são débeis na paixão e na reprovação?
  • Questionamento da definição do mito como épico do adultério
    • Desconforto com a definição da lenda como uma epopeia do adultério.
    • A fórmula é exata quanto aos fatos secos, mas parece vexante e prosaicamente restritiva.
    • A falta moral é realmente o verdadeiro assunto da lenda? A ópera de Wagner seria apenas sobre adultério?
    • Adultério não se reduz a palavra feia ou ruptura de contrato; é também atmosfera trágica e apaixonada, além do bem e do mal.
  • Primeira razão para a análise: a vulgarização extenuante do culto da paixão
    • Chegamos a um ponto de desordem social onde o imoralismo revela-se mais extenuante que as antigas moralidades.
    • O culto do amor-paixão democratizou-se a ponto de perder virtudes estéticas e valor de tragédia espiritual.
    • Resta uma sofrimento confuso, difuso, impuro e triste.
    • É necessário profanar suas causas falsamente sagradas: a literatura da paixão, sua publicidade, sua voga comercial.
    • Atacar isso para salvar o mito de seus abusos e vulgarização extrema.
  • Segunda razão: busca de clareza sobre a vida individual e coletiva
    • Motivação de quem tem gosto por ver claro, tomar consciência de sua vida e da de seus contemporâneos.
    • O mito de Tristão permite discernir uma razão simples para nossa confusão presente.
    • Permite formular certas relações permanentes afogadas nas vulgaridades minuciosas de nossas psicologias.
    • Permite desnudar um dilema cuja severa realidade nossa vida apressada, cultura e moralismos rotineiros nos fazem esquecer.
  • Objetivo do trabalho: erguer o mito como ironia salutar e limiar de escolha
    • Primeiro objetivo: erguer o mito da paixão em sua violência primitiva e sagrada, pureza monumental, como ironia salutar sobre nossas cumplicidades tortuosas e impotência para escolher.
    • Contraste entre a Norma do Dia e a Paixão da Noite.
    • Figura da Morte dos Amantes exaltada pelo crescendo angustiante e vampírico do segundo ato de Wagner.
    • Sucesso almejado: conduzir o leitor ao limiar da escolha: eu quis isso! ou Que Deus me guarde disso!
  • Valor e risco da consciência clara
    • Incerteza sobre a utilidade geral da consciência clara e sobre a confessabilidade pública das verdades úteis.
    • Nosso destino como ocidentais é tornar-nos cada vez mais conscientes das ilusões que nos vivem.
    • Talvez a função do filósofo, do moralista, do criador de formas ideais seja apenas aumentar a consciência, portanto a má consciência dos homens.
    • Interrogação aberta sobre aonde isso pode nos levar.
  • Método da análise: frieza e objetividade
    • É tempo de passar à operação anunciada.
    • Condição do êxito: certa frieza na condução.
    • Ser surdos e cegos aos encantos da narrativa.
    • Tentar resumir objetivamente os fatos relatados e as razões propostas, ou curiosamente omitidas.
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