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Fatos diversos
ROSSET, Clément. Faits divers. Textes réunis et présentés par Nicolas Delon et Santiago Espinosa. Paris: Presses Universitaires de France, 2013. (Collection Perspectives critiques).
Introdução de Nicolas Delon e Santiago Espinosa
- A obra de Clément Rosset é esparsa: uma longa série de livros relativamente breves, distribuídos em ao menos dois períodos (antes e depois de O real e seu duplo), e uma miríade de artigos, notas, entrevistas, crônicas e prefácios dispersos, de modo que este recolhimento não podia visar à exaustividade.
- Nem tudo se equivale na produção de um autor, e há boas razões para que ele deixe de incluir suas peças menores num livro propriamente dito; o próprio Rosset sempre censurou os comentadores de Nietzsche por se concentrarem na obra inédita, em detrimento do que Nietzsche de fato escreveu e quis dar a ler.
- Existe, portanto, uma imensa massa de textos de Rosset fora de seus livros, secundários, de circunstância, mais leves, mais provocadores ou mais acadêmicos que de costume, em sua maioria já publicados, mas alguns desconhecidos, esquecidos ou hoje quase inacessíveis.
- A seleção guiou-se pelo interesse intrínseco dos textos, por seu interesse extrínseco para o leitor contemporâneo e pela luz inédita que lançam sobre aspectos já conhecidos da obra; das inúmeras resenhas, sobretudo as da NRF, restam poucas, aquelas que revelam, sob o elogio cordial, obsessões rossetianas: a estrutura oracular da ilusão edipiana em La faute originaire e o amor a uma pluralidade inesgotável de coisas singulares em Casanova.
- Essas peças breves e as poucas entrevistas reunidas oferecem aperitivos de suas opiniões, gostos, estilo e constância, e acrescentam um saboroso suplemento às reedições recentes das obras de juventude.
- A parcialidade da seleção e a ausência de certos textos serão lamentadas por alguns, mas incluir muitos outros seria sacrificar o picante à exaustividade, nivelar a qualidade do conjunto e desenterrar trechos que o próprio autor julga mais bem situados numa relativa obscuridade.
- Os partis pris da escolha conferem ao conjunto certa unidade e, ao mesmo tempo, diversidade temática e temporal, sem contradizer as intenções do autor.
- Apesar da aparente disparidade de datas, temas e alcance, três aspectos reúnem os textos e dão a impressão de um único livro, semelhante a um livro de Rosset, sempre feito de assuntos esparsos “costurados” (cousus) em torno de uma problemática geral, como a ilusão, a alegria ou a escrita, mas que a pena do autor ainda não teria costurado.
- Os textos permanecem esparsos, porém guardam entre si uma harmonia íntima que permite ao leitor ligá-los, costurando por conta própria.
- Antes dos três aspectos, cumpre assinalar o caráter eminentemente pessoal dos textos: Rosset pouco gosta de falar de si e escreve filosofia justamente para evitá-lo, sendo a filosofia, segundo Nietzsche e o próprio Rosset, uma “confissão de seu autor”.
- Tratam-se aqui de seus gostos (Ravel, Tintim, Roussel), influências (Schopenhauer, Nietzsche, Wittgenstein), amizades (Deleuze, Cioran, Polac) e aversões (Sartre, Rousseau), além de anedotas recorrentes que dão pistas de como ele se tornou o que é e de como veio a escrever certos livros.
- O leitor que espera a opinião de um autor sobre outro autor ou sobre um compositor surpreende-se agradavelmente, pelo estilo e por um olhar comum à maioria dos textos, ao encontrar antes um homem, como em Pascal: quando se vê o estilo natural, espera-se um autor e encontra-se um homem.
- O primeiro aspecto é o caráter sempre não convencional e inesperado das análises que Rosset faz de autores, acontecimentos e obras.
- É difícil imaginar exemplo mais insólito de dandismo que Robespierre, ou modelo mais inusitado de afirmação da vida em sentido nietzschiano que Casanova, quando o senso comum vê num a loucura que o poder às vezes traz e no outro o modelo da incapacidade de desejar algo particular; Rosset apresenta um Casanova “nominalista”, que ama a vida sob todas as formas e sobretudo a singularidade: Don Juan ama “a mulher” e não ama nenhuma, Casanova ama “as mulheres” e as ama todas.
- Surpreende também que Bataille, cujos escritos sobre o erotismo pareciam muito novos aos contemporâneos, apenas retome e aprofunde tese pouco conhecida de Schopenhauer, o mesmo valendo para o existencialismo descrito por Sartre em A náusea, o que ressalta de passagem a atualidade de Schopenhauer.
- O interesse filosófico e a atualidade de Schopenhauer não estão, para Rosset, no que se disse e leu desde sua reabilitação (o pessimismo, a moral da renúncia), mas no que se costuma calar: ter submetido a razão às prerrogativas do desejo (da vontade, no vocabulário schopenhaueriano) e suas análises da arte, sobretudo da música, tidas pela filosofia universitária por extravagância.
- Em Nietzsche, a Rosset interessa o caráter aprovador da vida (ou do real), tema principal a que se ligam todos os outros (vontade de potência, eterno retorno, crítica do ressentimento), ao contrário dos comentadores franceses dos anos 1960 que, após Heidegger, quiseram “lavá-lo” para aceitá-lo na universidade e fabricaram um Nietzsche “de esquerda”, oposto ao igualmente ridículo Nietzsche nazista.
- Fala-se, a propósito, de uma “acuidade do olhar”: Rosset vê o essencial de um assunto onde os outros só veem elementos supérfluos.
- Se a maioria do público concorda em ver numa obra este ou aquele aspecto como o mais importante, como saber se Nietzsche era de esquerda ou de direita, é que o público só tem olhos para o que é “grosso” (gros), o que todos deveriam poder ver, não por ser o mais importante, mas porque a época o estima assim; a visão da maioria é dirigida por certa atualidade fora da qual nada parece interessar.
- Nos anos 1960 importava dizer que Beckett era existencialista, ligando-o a uma ideologia, e pouco sublinhar o caráter ao mesmo tempo trágico e cômico de suas obras, tido por secundário.
- A acuidade de Rosset consiste em achar, no olhar do “grosso”, uma ausência de olhar, uma visão superficial que passa ao largo do essencial, paradoxalmente o acessório: em termos aristotélicos, o essencial é o acidental, tudo o que torna algo singular e passa despercebido por se tentar ver nele uma forma semelhante às outras, algo não singular, mas comum.
- O segundo aspecto é o caráter inatual dos escritos, que permite a Rosset ver algo onde os outros nada veem: o gênio de Beckett está na inatualidade que a descrição tragicômica da existência requer, e não na relação com esta ou aquela ideologia.
- Rosset não se interessa pela ordem do dia, pelas “problemáticas concretas” e “preocupações do momento”, e por isso é incapaz de ruminar os mesmos discursos que os outros e de propor a leitura esperada por um público que só vê o que lhe mandam ver.
- A “atualidade” são “os acasos, os detalhes do real”, justamente o que o grande público mais preza (problemas econômico-políticos, “progresso” da humanidade, toda crítica social, entusiasta ou indignada), tudo isso sem peso filosófico para Rosset: nada é mais irreal que a atualidade, e a filosofia é “um questionamento sobre objetos independentes do estado atual das coisas”.
- Que a filosofia se rebaixe a aconselhar políticos sobre a injustiça nos países vizinhos, especialidade do “filósofo francês”, é o que Rosset chama de “prostituição intelectual”, e não há no universo rossetiano “filósofo engajado” (philosophe engagé), monstro lógico próximo do oxímoro que só serve para definir negativamente a filosofia.
- A filosofia é o exato contrário: antídoto contra a ilusão (do progresso, da certeza, dos “falsos remédios”), terapêutica a título pessoal, como em Wittgenstein, capaz de prevenir de certo modo a loucura, e não farmacêutica, com pretensão de fornecer remédios aos males do mundo; seu benefício é evitar cair no engodo do pensamento jornalístico, que só se interessa pelo real por um instante, ou seja, de modo nenhum, e, como já afirmavam Schopenhauer e Nietzsche, para interessar-se pelo real a filosofia deve ser inatual.
- Haveria gosto do paradoxo nisso tudo, e seriam provocações achar o interesse onde ninguém o procura e a atualidade filosoficamente desinteressante? Rosset respondeu mais de uma vez com José Bergamín: paradoxo é o nome que os tolos dão à verdade.
- Pensar o real exige acuidade do olhar que se eleve acima das preocupações passageiras, das repetições banais que a história apresenta como novidades, dos múltiplos rostos da ilusão de mudança de algo que na realidade não muda: o real é o que existe, e nenhum acontecimento pode acrescentar, modificar ou fazer progredir essa existência, ou seja, não há tal coisa como um “acontecimento”.
- A filosofia do acontecimento é fantasiosa para Rosset, pois supõe que os acontecimentos transformam a realidade, quando a atualidade é uma espécie de divertimento, no sentido pascaliano, que suscita a ilusão de que o real é passível de transformação.
- O jornalista exige, como a heroína de Dias felizes, de Beckett, que algo aconteça no mundo, alguma mudança, e a realidade responde, como essa mesma personagem a si mesma: parece ter acontecido algo, mas não aconteceu nada; a atualidade é a astúcia que faz crer num destino melhor reservado à humanidade, e a filosofia mostra o caráter alucinatório dessa ideia.
- Desses dois aspectos decorre o caráter amoral das críticas de Rosset e de sua filosofia em geral, o que certos filósofos lhe censuram, dizendo sua inatualidade “sem remédio”, já que não propõe solução a problema algum, não se pronuncia sobre o futuro da humanidade e da ciência nem aponta injustiças sociais: censura-se-lhe não dar lições, isto é, ser filósofo e não moralista.
- Torna-se filósofo aprendendo a perder a esperança, semeando a dúvida, livrando-se da tentação de aderir às “grandes causas” e, além disso, rindo delas, o que possibilita a acuidade do olhar: a capacidade de rir do que todos os homens acham mais sério na realidade.
- Exemplo é o artigo que evidencia o absurdo dos sinais do fim do mundo iminente e da proposição de que “o tempo se acelera”, temas que assustavam conferencistas e ouvintes no fórum do Mans, organizado pelo Le Monde em 2011, e a zombaria valeria ainda para os fanáticos que se dirigiam ao monte Bugarach temendo (ou antes esperando) o fim de tudo anunciado pelos maias.
- Cabe perguntar se a finura do olhar e a inatualidade que a acompanha originam os propósitos amorais ou se, ao contrário, é pela amoralidade que as análises são finas e inatuais: o olhar agudo evita o engodo jornalístico, ou é por tirar as viseiras da moral que se pode ver algo?
- A resposta está na concepção rossetiana de filosofia, que tem por tarefa expulsar toda ilusão (“não contar mais histórias a si mesmo”, escreve Rosset em seu opúsculo (plaquette) sobre Althusser), sendo as mais difíceis de erradicar aquelas a que mais firmemente se adere sem o saber: a crença na história, no progresso, num futuro melhor.
- Uma última observação concerne ao estilo rossetiano: mais que em qualquer outro livro, os capítulos manifestam notável constância de escrita, e seria possível comparar sua extensão, estrutura e a construção média das frases para dele extrair um estilo próprio da peça breve, posto a serviço de uma eficácia desconcertante.
- Alguns dirão que é rápido demais, outros que é superficial, mas o que há é desenvoltura consciente e escolhida, já perceptível nos livros e mais manifesta em três páginas apenas.
- Rosset não é acadêmico no sentido universitário, não por ser mau professor (muitos ex-alunos confessam ter sido marcados por seu ensino) nem por lhe faltar a expertise de “pesquisador” (todos reconhecem a qualidade de suas pesquisas sobre Schopenhauer, e A antinatureza continua lida nas classes preparatórias e na universidade), mas por zombar das convenções universitárias e por escrever bem demais.
- Isso lhe permite expressar de modo original e direto teses que, embora não argumentadas conforme as regras, têm um excesso de força e novidade que o espartilho acadêmico sufocaria; o estilo acadêmico não carece de valor, mas a filosofia se faz de mil maneiras e a rossetiana é talvez muito melhor e certamente mais alegre que muitas prateleiras de bibliotecas do Quartier latin.
- Pelo tônico inatual, amoral e risonho que é o pensamento de Rosset, todos os arranjos com o estilo universitário, outrora zombado por Schopenhauer e Nietzsche, podem ser perdoados.
- Os textos podem ser lidos em qualquer ordem, por qualquer razão, a qualquer hora e em qualquer lugar, por qualquer pessoa, sem conhecimento prévio da obra nem pré-requisitos filosóficos, acessibilidade característica de toda a obra e essencial a textos concebidos quase sempre para o público geral.
- O conhecedor talvez encontre pepitas e tente extrair os mecanismos e relações insuspeitos de uma obra ao mesmo tempo monótona e multicolorida, obcecada pelo real e por suas fontes de alegria infinitas, mas não convém buscar nesses textos o que não contêm: chaves, segredos, sentido oculto, contradições, o verdadeiro Rosset.
- Assim como o pensamento de Nietzsche, ainda que iluminado pelos Fragmentos póstumos, se encontra em suas obras publicadas, estes textos só iluminam a obra na medida em que ela existe independentemente deles: o objeto iluminado é o objeto real em relação ao qual somente a luz pode ser dita “iluminadora”, e pretender que o verdadeiro pensamento esteja alhures seria trair o autor de O real e seu duplo.
- O aviso não deve desencorajar os profanos: o recolhimento pode encorajar a leitura da obra, sem a busca de sentido oculto as peças podem ser apreciadas em si mesmas como objetos singulares, indefiníveis e incomparáveis, e estão ligadas entre si pelos fios aqui destacados, de modo que a iluminação da obra e dos textos esparsos é mútua e confere um pouco mais de unidade a um pensamento que dela mal precisava.
- O que faz de Rosset um músico filósofo sem igual é que, sendo o homem de muitos livros sobre um único tema, a repetição e as variações jamais cansam.
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