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2 Vida e morte
ROSSET, Clément. Le régime des passions et autres textes. Paris: Les Éditions de Minuit, 2001.
- Um mito nascido da Idade Média cristã (embora exista talvez, sob outras formas, em outras culturas) continua a assombrar a consciência que se poderia qualificar de “pós-cristã”: o do pacto com o diabo, contrato pelo qual o diabo se compromete a conceder ao contratante poder e gozo à vontade, e o homem a renunciar à salvação, isto é, à felicidade eterna, para pertencer ao diabo no outro mundo.
- Esse mito foi mil vezes analisado e interpretado, mas parece apresentar, entre outros, um aspecto particular que, ao que se saiba, quase não reteve a atenção até agora; antes de chegar a ele, são necessários alguns esclarecimentos sobre a natureza do mito tomado ao pé da letra, tal como aparece na lenda do doutor Fausto e no romance de Balzac A pele de onagro (La Peau de chagrin), suas duas ilustrações provavelmente mais conhecidas.
- A lenda de Fausto, tal como a conhecemos por um escritor alemão do fim do século XVI, Widmann, autor das Histórias autênticas dos pecados cruéis do doutor Fausto (1599), e naturalmente pelas peças de Marlowe e de Goethe, conta a cura de um jovem e brilhante sábio corroído pelo tédio e pelo mal de viver, o que hoje se chamaria depressão (não muito distante do tédio de Emma Bovary e de Bouvard e Pécuchet em Flaubert), pela intercessão do diabo, que se compromete a devolver-lhe a alegria de viver sob a única condição de que se entregue a ele post mortem.
- O diabo é uma espécie de figura premonitória do psicanalista, com a diferença de que tem êxito onde o psicanalista costuma fracassar, e de que seus honorários, a pagar só no outro mundo, parecem porém mais exorbitantes; Fausto reencontra de fato os prazeres da vida e a alegria de viver (“a mim os prazeres, a mim as embriaguezes”, como se canta no Fausto de Gounod).
- O psicanalista costuma brindar o cliente apenas com breve remissão obtida pela distração de uma hora de conversa mais ou menos solitária, ou, no melhor dos casos, com a resignação do paciente ao tédio de viver; conclui-se que, perdido por perdido, vale mais entregar-se ao diabo que a um psicanalista ou psiquiatra, pois o primeiro ao menos dá o que comer, ainda que a conta, ao fim do banquete, seja um pouco salgada.
- A história do jovem Raphaël de Valentin, em A pele de onagro, é quase semelhante, salvo que ele é menos corroído pelo tédio de viver que pela miséria material que sucede a um período de fausto comprometido por dissipação excessiva e por uma série de catástrofes no jogo.
- Passado o pacto com o diabo, sob a forma da aquisição da pele de onagro, obtém do diabo, como Fausto, tudo o que deseja, inclusive o que só deseja formalmente e da boca para fora, como no encontro com o antigo professor Pourriquet, e o que não formula mas deseja em segredo, como o reencontro inesperado com Pauline; sofre também o castigo reservado aos signatários, um fim prematuro e horrível.
- A pele que possui é mágica e diabólica e encolhe os dias que lhe restam a viver à medida que o tempo passa e seus desejos se cumprem: um desejo realizado ou um dia passado (pois quase não há dia sem algum desejo que o poder da pele permita satisfazer), e a pele encolhe outro tanto.
- O antiquário que lhe cedeu a pele preveniu Raphaël dos perigos do talismã; ele tenta não desejar mais nada e retirar-se em casa como um monge em seu convento, tarefa difícil para quem se tornou bilionário pelo poder da pele maldita, mas a pele continua a encolher até sua morte, resistindo a todos os sábios a que ele recorre para esticá-la e ganhar algum tempo de vida.
- Balzac tirou proveito dos dois sentidos, ou antes das duas palavras, de “chagrin”: a primeira, derivada do turco sâgri, designa o couro resistente da pele de um equídeo vindo do Oriente, asno ou cavalo, e a segunda, mais comum e de origem incerta, designa certa forma de tristeza ou acabrunhamento; as duas se harmonizam à maravilha no romance.
- O caráter particular do mito, ilustrado por Fausto e A pele de onagro, é que esse pacto diabólico, assinado aparentemente por indivíduos isolados, é de fato um pacto assinado, muitas vezes à sua revelia, por todo homem do mundo, de modo que o que tem de “particular” e interessante é justamente seu caráter universal.
- O autor subscreve o juízo de Freud de que todo mito que nos toca em profundidade, como Édipo Rei ou Hamlet, age porque suscita e desperta em nós emoções de importância que ultrapassa de longe a literalidade do mito; com o mito de Fausto passa-se o mesmo, e ele nos toca sobretudo por nos fazer lembrar, consciente ou não, do contrato primordial que firmamos com um contratante desconhecido (que é o próprio eu deliberando em seu foro íntimo, como Hamlet em seu célebre monólogo) e que tem por aposta a decisão de viver ou não viver.
- Trata-se de viver aceitando a decrepitude próxima e a morte que se segue, ou recusar esse destino funesto pela prevenção que o suicídio permite; esse pacto vital e secreto se assina (ou não) quando se é jovem e ainda há tempo de escolher, e por isso a recusa de assinar, e o suicídio que a acompanha, é frequente entre adolescentes e jovens adultos.
- Ele é então coerente, pois há toda razão de não viver e nenhuma de viver, mas perde toda razão de ser depois, porque é tarde demais: o suicídio do homem adulto ou velho é incoerente (salvo circunstância excepcional), como é inaceitável sua queixa frequente de envelhecer e sofrer os males da velhice.
- É tarde demais para dizer “ah, se eu soubesse…”; sempre se soube, pois se assinou o pacto de vida, cuja cláusula principal, talvez lida com distração, é aceitar a velhice e a morte; nenhuma queixa será considerada, não há mais livro de reclamações, como nos hotéis e restaurantes espanhóis que anunciam, de modo pitoresco: Existe un libro de reclamaciones.
- Assim devem ter-se queixado Fausto e Raphaël, chegada a hora da morte, mas não era mais o momento de fazer-se de difícil, e Deus sabe, ou o diabo, o quanto foi preciso puxar-lhes a orelha.
- Essa semelhança entre o pacto com o diabo, assinado por Fausto e Raphaël, e o pacto vital, de que todos têm de conhecer, explica o caráter universal e sempre interessante dessa magia negra de outra época que continua a nos concernir, a nos pôr “em alerta”, como atesta o sucesso duradouro do Fausto de Goethe e das numerosas obras musicais que inspirou.
- Quem se interessaria pelas negociações de um médico duvidoso com o diabo se elas não despertassem em nós um assunto pessoal, o mais pessoal e importante dos assuntos, a rigor o único que realmente conta?
- Poder-se-ia objetar que, nas diversas versões do mito de Fausto, como em A pele de onagro, o que parece primar não é tanto a escolha de viver ou não viver quanto a concessão, oferecida pelo diabo, de poder, riqueza, juventude, poderes que só pertencem a Deus, isto é, uma assimilação efêmera das competências do homem às de Deus.
- Tudo isso é verdade, mas se trata apenas da literalidade do mito, que recobre o que Freud chamaria seu conteúdo latente; o mito deve entender-se em sentido simbólico e metafórico: sua aposta não é o poder contra a entrega ao diabo, mas, mais prosaicamente, um prêmio de vida contra um seguro de morte.
- O primeiro contratante se compromete a viver aceitando morrer; o segundo, a deixar viver, mas só pelo tempo que lhe aprouver: “Por conseguinte, o Diabo quis dar a Fausto certo número de anos que teria a viver, dos quais também seria devedor”, relata Widmann.
- Queres viver? Muito bem, basta assinar aqui, mas sabe que doravante todos os teus dias te serão contados, e nunca mais te livrarás desse pensamento, como Raphaël na agonia tenta fazê-lo ao lançar num poço de seu jardim a pele de onagro, que o jardineiro, como um cão fiel, lhe traz de volta com este comentário involuntariamente cruel: como o senhor marquês é certamente mais sábio que ele, pensou que devia trazê-la e que isso o interessaria.
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