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rosenzweig:estrela:1.1.4

1.1.4 Vitalidade do Deus

ROSENZWEIG, Franz. L’Étoile de la Rédemption. Tr. Alexandre Derczanski et Jean-Louis Schlegel. Paris: Seuil, 1982

Vitalidade (Lebendigkeit) do Deus

  • A liberdade tende ao infinito. Como liberdade é finita; na medida em que tende ao infinito, é força, força infinita, ou, dito brutalmente, arbítrio infinito. Como objeto infinito a que aspira, só encontra diante de si a essência, mas nesta, simbolizada por uma simples letra sem o sinal de igualdade, não há direção declarada alguma, nem ativa nem receptiva, que se oponha a essa força: a essência divina repousa no silêncio infinito do puro estar-aí, do estado de fato mudo. Ela é.
    • Assim o arbítrio, nem convocado nem atraído, parece poder lançar-se sobre a essência, mas ao aproximar-se cai sob o feitiço de seu ser indolente. Sem que esse ser lhe envie uma força contrária, sente sua própria força paralisar-se; a cada passo rumo à essência, a potência infinita sente uma resistência crescente, que ao atingir a meta se tornaria infinita, pois ali as manifestações da potência seriam engolidas pelo “é” ou pelo “é assim” da essência, largamente difundidos em sua indolência. No foco da infinitude do Sim indolente, a potência infinitamente enfraquecida do Não infinitamente ativo se extinguiria.
    • A potência já não é o Não originário infinito, mas esse Não em vias de exercer seu poder sobre o “assim” indolente do Sim, e assim deve ser apreendida antes do fim do movimento, antes que a indolência do ser-assim possa agir em sua infinitude. Esse ponto em que a potência infinita do ato divino entra no campo de forças da essência divina, ainda eficaz sobre sua indolência e já freada por ela, é designado, por contraste com o ponto da potência e do arbítrio divino, como o ponto da necessidade e do destino.
    • Do movimento infinito que sai da liberdade e aflui ao domínio da essência nasce o rosto divino, configurando-se a si mesmo ao infinito: com um franzir de sobrancelhas abala o distante Olimpo e, no entanto, sua fronte está cheia de rugas, pois conhece o juízo das Nornas (virgens que regulam o destino dos homens). A potência infinita no livre transbordar do páthos e a sujeição infinita à coerção do destino constituem juntas a natureza viva do deus.

Palavras-origem

  • Faz-se aqui uma pausa para apreender o passo decisivo dado além do simples Sim e do simples Não. O movimento do Não ao Sim foi acolhido como natural, sem perguntar que palavra-origem, correspondente ao Sim e ao Não dos dois primeiros passos, guiava esse terceiro passo.
    • O Sim-origem (Ur-Ja) era a palavra da posição originária e, como tal, em cada palavra, o participante silencioso dos negócios que a palavra faz no todo da frase. O Não-origem (Ur-Nein) era eficaz na frase não enquanto essa palavra é asserção, mas enquanto é objeto de asserções, e por isso seu lugar mais próprio é junto ao sujeito.
    • Enquanto o Sim con-firma a palavra individual, isto é, assegura seu valor “duradouro” e permanente, independente da posição que ocupa na frase em relação às outras, o Não se refere justamente a essa posição. Como “não-de-outro-modo” ele loca-liza (localise) o lugar da palavra singular, que lhe permite im-por (im-poser) seu caráter próprio frente às demais: não um caráter “duradouro”, mas um que depende do conjunto da frase, dos “outros” elementos.
    • Tomem-se dois casos extremos: para o Sim, o nada-senão-asserção (die Nichts-als-Aussage), o adjetivo predicativo; para o Não, o nada-senão-objeto-de-asserção (der Nichts-als-Aussagegegenstand), o sujeito substantivo. A palavra “livre” tem sentido determinado, não ligado ao seu emprego em “o homem é criado livre, ele é livre” ou em “o homem não é criado para ser livre”: esse sentido imóvel é obra do Sim secreto. A palavra “homem” é algo totalmente distinto, ao se dizer que é cidadão de dois mundos, ao menos quando se o chama animal político; essa diferença, criada a cada vez pelos demais membros da frase postos diante desse sujeito único, é obra do Não secreto.
    • Um exemplo nada extremo: a palavra “até” significa sempre a conclusão de uma grandeza pensada em sucessão, mas em “até amanhã” remete a um lapso de tempo futuro, ao passo que em “até as estrelas” remete a uma distância espacial.
    • A aparência, facilmente despertada, de que o “Sim secreto” deveria preceder na realidade o “Não secreto”, e não só na sequência conceitual, de modo que o Não seria menos originário, desaparece quando se considera que essas significações “duradouras” e fixas só são extraídas de seus encadeamentos na frase e não são adquiridas de antemão no caso particular: todo novo encadeamento da frase em que entra uma palavra muda seu caráter “duradouro”, e a língua se renova sem cessar no discurso vivo.
  • Falou-se até aqui de frase e contexto sem parti pris, mas, a rigor, o Sim e o Não apenas aprestam a palavra particular, ainda que o Não já a relacione à proposição. A proposição só adquire con-sistência (kommt zustande) e ek-siste (ent-steht) a partir do momento em que o Não que loca-liza (er-örtern) e im-põe (fest-legen) busca tomar poder sobre o Sim que con-firma (be-stätigen).
    • O menor membro da proposição, a palavra nas línguas isolantes, a ligação entre duas palavras nas aglutinantes, a ligação entre radical e desinência onde há flexão, pressupõe o Sim e o Não, o assim e o não-de-outro-modo. Obtém-se assim o terceiro palavra-origem, não equivalente aos outros dois em caráter originário, mas que, pressupondo-os, contribui para sua realidade viva: a palavra “E”.
    • O E não é o companheiro secreto da palavra particular, mas do encadeamento das palavras. É a pedra que fecha a abóbada da adega, sobre a qual se edifica a construção do logos, da razão na língua. Na resposta antes encontrada à questão de Deus, levantada ao constatar o nada de nosso saber sobre ele, conheceu-se uma primeira prova desse terceiro palavra-origem.

Signo

  • A conclusão dessa resposta, por ora mínima, é simbolizada pela equação em que as vias que levavam à resposta se tornaram invisíveis. Na equação A = A já não se vê se foi edificada por A, A =, = A ou A: nada deixa entrever além do puro caráter originário e da satisfação de Deus em si mesmo.
    • Deus não depende de nada fora de si e não parece precisar de nada fora de si: “Livremente no éter Deus reina, os desejos violentos de seu coração são dominados pela lei da natureza”, a lei de sua própria natureza. O jogo interno das forças que essa figura viva de Deus moldou está engolido, e por isso a equação simboliza a vitalidade imediata dessa figura, a vitalidade do Deus.
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