ESTÁGIOS AO LONGO DA VIDA (1993)
ROSEN, Stanley. The Question of Being: A Reversal of Heidegger. New Haven: Yale University Press, 1993.
- A crise teórica da bifurcação entre a natureza não humana e a intencionalidade humana
A narrativa socrática, ao distinguir entre os movimentos naturais explicados pela física e a ação humana guiada pelo que se considera o melhor, expõe uma aparente bifurcação na natureza, onde o ser humano figura como o único ente conhecido que age com base em um telos consciente, gerando um hiato entre a causalidade mecânica (que rege os corpos celestes e os processos biológicos) e a causalidade teleológica (que rege a conduta ética), um problema que a física pré-socrática e a ciência moderna tentam resolver anulando o segundo termo, ou seja, reduzindo a alma ao corpo e a vontade a generalizações estatísticas ou leis deterministas.
- A insistência socrática em preservar a validade da experiência cotidiana, onde a escolha proposital é um dado irrefutável, sugere que a física não deve ser descartada por ser falsa, mas por ser incompleta, visto que sua incapacidade de dar conta da distinção entre “melhor” e “pior” implica que, sem a hipótese de uma alma distinta do corpo, a própria noção de intelecto ou mente se dissolveria, tornando a racionalidade humana um epifenômeno ilusório e a responsabilidade moral uma impossibilidade, o que contradiz a vivência prática fundamental de qualquer agente humano.
- A hipótese das Ideias como critério “sobrenatural” e a unificação ontológica
Para transpor o abismo entre a natureza física indiferente e a natureza humana orientada por valores, Sócrates introduz as Ideias como um critério que pode ser denominado “sobrenatural”, no sentido de que elas fornecem a aitia (responsabilidade) pela identidade e pelo ser das coisas, tanto naturais quanto éticas; ao postular que as Ideias são responsáveis pela ousia (essência) dos corpos celestes, Sócrates oferece uma base estável que independe das alterações físicas, permitindo que a inteligibilidade do cosmos (ordem, esplendor) coexista com a inteligibilidade da moralidade (justiça, bondade).
- A “segunda navegação” não constitui, portanto, uma substituição da física pela metafísica, mas a suplementação da explicação dos processos de geração e corrupção com uma explicação da identidade e da unidade; as Ideias funcionam como a âncora ontológica que impede a dissolução do ser em puro fluxo heraclíteo ou em determinismo atomista, garantindo que o “ser” dos entes naturais possua um aspecto (eidos) fixo que a mente humana possa apreender e utilizar como medida para o julgamento e a ação.
- A insuficiência das Ideias e a necessidade da Alma e do Eros como mediadores
Embora as Ideias forneçam o critério de estabilidade necessário para unificar a teoria e a prática, a hipótese das Ideias por si só é insuficiente para explicar a dinâmica da escolha racional, pois as Ideias são causas formais estáticas e não agentes eficientes que impulsionam o comportamento; a Ideia do Bem não age pelo indivíduo, mas é o indivíduo (a alma) que deve agir em vista do Bem, revelando que a ponte sobre a bifurcação da natureza não é atravessada automaticamente pela estrutura do ser, mas deve ser percorrida ativamente pela alma humana.
- A alma, cuja natureza e imortalidade permanecem problematicamente não demonstradas na narrativa autobiográfica (sendo a imortalidade inferida retoricamente mas não provada logicamente pela teoria das Ideias), emerge como o locus indispensável onde a causalidade física e a causalidade ética se encontram; a orientação da alma para as Ideias não é causada pelas Ideias, mas compelida pela força do Eros (um daimon, não uma Ideia), indicando que o platonismo genuíno não se esgota numa teoria abstrata das formas, mas exige uma psicologia profunda onde o desejo erótico pela sabedoria é o motor que vincula o humano ao divino.
- A crítica à modernidade e o perigo do discurso emancipado da physis
A rejeição da “segunda navegação” socrática na modernidade conduz a duas consequências históricas extremas: o retorno à física pré-socrática do destino (como no materialismo ou na vontade de poder nietzschiana) ou a queda no caos do discurso desenraizado (antifundacionalismo), onde a linguagem, emancipada tanto da regulação da natureza (physis) quanto da medida divina (Ideias), torna-se uma estrutura autorreferente sem aitia responsável; ao destacar o homem da physis e transformá-lo em logos puro sem lastro ontológico, a filosofia moderna perde a capacidade de justificar a distinção entre o melhor e o pior, validando a intuição socrática de que a física sem metafísica (Ideias) leva ao esquecimento da condição humana.
