Invocação de sentido
(Ray Brassier, BSHST)
10. O sentido não pode ser invocado nem como constituinte originário da realidade (como ocorre no essencialismo aristotélico) nem como condição originária de acesso ao mundo (como na ontologia hermenêutica de Heidegger): ele deve ser reconhecido como um fenômeno condicionado, gerado por mecanismos sem significado porém tratáveis, operando tanto em nível subpessoal (neurocomputacional) quanto suprapessoal (sociocultural). Este é um imperativo naturalista. Mas é importante distinguir o naturalismo como doutrina metafísica que engaja uma hipóstase ontológica de entidades e processos postulados pela ciência atual, do naturalismo como restrição epistemológica que estipula que explicações sobre concepção, representação e significado devem abster-se de invocar entidades ou processos que são, em princípio, refratários a qualquer explicação possível pela ciência atual ou futura. É este último que deve ser abraçado. O naturalismo metodológico simplesmente estipula que o significado (isto é, a compreensão conceitual) pode ser invocado como explanans epistemológico apenas na medida em que o ganho concomitante em poder explicativo possa ser adequadamente descarregado em um nível metafísico mais fundamental, onde a função e origem da representação linguística possam ser explicadas sem recorrer a ganchos transcendentais (como atos de consciência originários de outorga de sentido, ser-no-mundo ou o Lebenswelt). O reconhecimento crítico de que a realidade não é inatamente significativa nem intrinsicamente inteligível implica que as capacidades de significação linguística e compreensão conceitual devem ser explicadas como processos dentro do mundo — processos pelos quais criaturas sapientes obtêm acesso à estrutura de uma realidade cuja ordem não depende dos recursos conceituais através dos quais elas vêm a conhecê-la.
