Infraestrutura conceitual subjacente ao nosso entendimento
(Ray Brassier, BSHST)
8. O desiderato metafísico não consiste em alcançar uma compreensão mais clara do que queremos dizer com ser ou o que o ser significa para nós (como os entes que somos devido à nossa história natural e cultural), mas em romper o círculo no qual o significado do ser permanece correlacionado com o nosso ser como questionadores do significado, rumo a uma compreensão propriamente teórica do que é real, independentemente de nossa suposta compreensão pré-ontológica dele — mas não, observe-se, independente de nossas formas de concebê-lo. Tal entendimento não-hermenêutico da investigação metafísica impõe uma restrição epistemológica a esta, exigindo uma explicação de como criaturas sapientes obtêm acesso cognitivo à realidade por meio da concepção.
9. Alguns podem ser tentados a pensar que este árduo desvio epistemológico, através da análise da infraestrutura conceitual subjacente ao nosso entendimento de termos como 'o que', 'é' e 'real', pode ser evitado por uma doutrina de univocidade ontológica que dissolve a representação e, com ela, a distinção tripartite entre representar, representado e realidade. Proponentes de uma concepção unívoca do ser como diferença, na qual a concepção é apenas mais uma diferença no ser, substituiriam efetivamente a questão metafísica 'Quais diferenças são reais?' por uma afirmação da realidade das diferenças: a diferenciação torna-se o único e suficiente índice da realidade. Se o ser é diferença, e apenas diferenças são reais, então a tarefa metafísica tradicional de 'dividir a natureza em suas articulações' por meio de uma concepção adequada do ser pode ser substituída pela reinjeção do pensamento diretamente no ser, obtendo-se assim a intuição não-representacional do ser como diferença real. Esta seria a opção deleuzeana. No entanto, a celebrada 'imanência' da univocidade deleuzeana é conquistada ao custo de uma fusão pré-crítica entre pensamento, significado e ser, e o resultado é um panpsiquismo que simplesmente ignora, em vez de resolver, as dificuldades epistemológicas apontadas acima. A afirmação de que 'tudo é real' é flagrantemente pouco informativa — e sua falta de informatividade dificilmente é atenuada pelo acréscimo de que tudo é real precisamente na medida em que pensa, já que, para o panpsiquismo, pensar é diferir. []
