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Uma Nova Economia do Objeto e do Sujeito
Debaise2017
- Inversão da Economia Cartesianas entre Sujeito e Sentir (Feeling)
- Descartes: o pensador (sujeito) cria o pensamento ocasional. O sujeito é fundamento do sentir.
- Whitehead (filosofia do organismo): inverte a ordem. O pensamento (sentir) é uma operação constitutiva na criação do pensador ocasional. O pensador é o fim final pelo qual há o pensamento.
- Esta inversão marca o contraste final entre uma filosofia da substância e uma filosofia do organismo.
- Generalização da crítica: em Kant, o processo vai da subjetividade para a objetividade aparente. A filosofia do organismo inverte: explica o processo da objetividade (mundo externo como dado) para a subjetividade (experiência individual).
- Objeção possível: como objetos podem causar um sujeito sem já conterem um princípio subjetivo?
- A Estrutura Sujeito-Superjeto: Para Além do “Subjectum”
- Dupla acepção do termo “sujeito”:
- Sujeito como “subjectum” (tradição latina): fundamento, identidade consigo, autonomia, independência aparente. É o sujeito substancial cartesiano.
- Esta definição é eficaz para certas qualidades de existência, mas torna-se problemática quando radicalizada como qualidade fundamental, pois bloqueia a compreensão da gênese.
- Necessidade de desfazer a identificação entre “sujeito” e “subjectum” e atribuir outra dimensão: o “superjeto” (superject).
- Etmologia: “superjacio” (lançar sobre, ultrapassar, atravessar).
- Sujeito como “superjeto”: não autossuficiente, mas estendido, excessivo em relação à sua identidade momentânea, projetado para além de sua existência factual.
- Resposta à objeção: há subjetividade na diversidade disjuntiva na medida em que as entidades emergem ou tendem para uma plenitude. Os “sentires” são animados por subjetividades virtuais que os direcionam para um “fim” ou “alvo” (aim) ainda não existente.
- Distinção é formal, não de natureza ou de momentos: a tendência (o princípio de inquietação) atua em cada estágio da emergência da entidade.
- Definição sintética: “Uma entidade atual é ao mesmo tempo o sujeito que experimenta e o superjeto de suas experiências. É sujeito-superjeto.” O termo “sujeito” deve sempre ser entendido como abreviação de “sujeito-superjeto”.
- O Alvo Subjetivo e o Auto-Gozo (Self-Enjoyment)
- A distinção sujeito-superjeto, ao limitar a importância da “subjetividade” (subjectum), paradoxalmente estende seu alcance.
- Subjetividade deixa de ser reservada a uma ordem particular da realidade (ex: consciência humana) e torna-se elemento essencial de todas as entidades atuais.
- Tornou-se possível falar do “sujeito” (no sentido ampliado) em relação a realidades como o átomo ou o corpo orgânico.
- Termo mais adequado para expressar a estrutura sujeito-superjeto: “alvo subjetivo” (subjective aim). Expressa a relação com a causa final imanente da individuação.
- Causa eficiente: a diversidade disjuntiva.
- Causa final: o alvo subjetivo, que orienta o processo de dentro, não como uma forma pré-dada, mas como uma orientação imanente às próprias preensões.
- Realização deste alvo imanente, à medida que a individuação se completa, é o “auto-gozo” (self-enjoyment).
- Tradução cautelosa para evitar antropomorfismo. Deleuze a associa a uma tradição neoplatônica e bíblica.
- É a maneira pela qual o sujeito se preenche a si mesmo e atinge uma vida privada cada vez mais rica, quando a preensão se satura com seus próprios dados.
- Relação de intensidade: quanto mais uma entidade captura (preende) outras entidades, mais ela experimenta o que lhe pertence (sua “privacidade”), até o ponto “último” onde tudo é preendido e ela se torna puro “auto-gozo”.
- Não há oposição entre o outro e o eu no nível das entidades atuais: cada captura torna a identidade exclusiva da entidade mais evidente.
- O sujeito é uma pura relação, uma multiplicidade de relações internas integradas. A entidade é uma singularidade e uma experiência cósmica.
- As Duas Atividades da Preensão: Inclusão (Sentir) e Exclusão
- Problema de coerência: se toda entidade preende tudo, como cada uma pode ser singular e distinta, sendo composta dos mesmos elementos?
- Solução técnica: a preensão de tudo ocorre em dois modos distintos:
- Preensões positivas: são os “sentires” (feelings), integração efetiva.
- Preensões negativas: “eliminam do sentir”, são exclusões.
- A exclusão não é indiferença ou ausência de relação. É uma ação que produz efeitos e deixa marcas.
- “Um sentir carrega as cicatrizes de seu nascimento; recorda, como uma emoção subjetiva, sua luta pela existência; retém a impressão do que poderia ter sido, mas não é.”
- O que uma entidade evitou como dado para o sentir pode ainda ser parte importante de seu “equipamento”. O atual não pode ser reduzido ao mero fato divorciado do potencial.
- As preensões negativas (eventualidades, “would-be's” de Peirce) dão plena importância às ações e escolhas efetivas, marcando sua necessidade por contraste.
- Porém, as preensões negativas permanecem subordinadas às positivas. Sua função é realçar as preensões positivas, colocá-las em perspectiva através dos contrastes e escolhas.
- Fundamento de um empirismo radical: incompatibilidades entre entidades estão ligadas a relações complexas emergentes do todo das relações que sustentam o universo. É uma questão de harmonias. Uma entidade excluída numa circunstância pode ser incluída em outra.
- “Uma preensão negativa expressa um vínculo.”
- Definição Técnica do Sujeito em Procès et Réalité
- Termo técnico para designar o que emerge como novidade num processo de individuação.
- Sua atualização se dá por meio de capturas ou apropriações (preensões). O sujeito é um “vetor” que faz o “lá” passar para um “aqui”, unificando-o numa nova forma de existência (via rejeição de outras possibilidades reais e inclusões).
- O “sujeito” é o que experimenta a si mesmo como seu, uma singularidade preenchida com todo o universo de suas preensões, um “auto-gozo” entendido como a experiência intensiva da soma total de suas relações – uma experiência ao mesmo tempo privada e cósmica.
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