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Pirsig

Robert M. Pirsig

OCTAVE MANNONI

Zen e Arte da Manutenção de Motocicletas evoca Moby Dick de Melville por uma semelhança de superfície, mas opõe-se a ele em profundidade.

  • Pirsig narra uma longa viagem pelo continente americano com atenção aos problemas técnicos das motocicletas.
  • Melville narra uma longa navegação pelos mares do Sul com um verdadeiro curso sobre a técnica da caça à baleia.
  • Em ambos os casos, esses assuntos não são o essencial — trata-se de outra coisa, porém de maneiras distintas.

A aventura náutica de Melville tem sentido alegórico e elitista, marcado pela paranoia do século XIX.

  • A viagem marítima alegoriza a paixão suicida de um herói megalomaníaco que empreende vencer o Mal.
  • O Mal é representado por um monstro cujo nome evoca a vulgaridade e o Diabo.
  • O caráter elitista da aventura não saltava aos olhos porque se respirava em toda parte no ar da época — era o século da paranoia.
  • Em Pirsig não há alegoria, nem paranoia, nem elitismo.

A paranoia que habitava Melville migrou para dentro da própria tecnologia, tornando-se impessoal e incurável.

  • Não são os progressos da técnica — da marinha a vela até as motocicletas — que tornam Melville pertencente ao passado.
  • A paranoia hoje encontrou refúgio na tecnologia ela mesma, objetivada e assim ainda mais incurável.
  • Ela condena o indivíduo contemporâneo a uma existência esquizofrênica.
  • O heroísmo sem limites e a loucura da salvação que projetavam aspirações além do real desapossaram o herói — assim como a megalomania de um MacArthur cede lugar à da Bomba.
  • É a Bomba agora que corre em direção a um absoluto assintótico com toda a tecnologia, deixando ao ser humano apenas a pretensão de se virar e salvar o que puder.

É nesse ponto que o zen intervém, presente em subtexto ao longo de toda a narrativa, ainda que quase ausente como palavra.

  • O termo zen aparece praticamente só no título, mas se subentende em todo o relato.
  • As complicações doutrinárias do zen são difíceis de compreender até para especialistas, e não estão em questão aqui.
  • Os aspectos puramente negativos da doutrina são mais acessíveis aos ocidentais — e provavelmente os mais importantes também para os orientais.
  • O zen não admite nenhuma forma de transcendência — sem paraíso perdido nem prometido, sem heróis nem santos no sentido ocidental do termo.
  • Propõe, por meios de uma formação existencial, atingir uma sabedoria cuja principal virtude é a pacificação do espírito.
  • Esse aspecto do zen pode parecer familiar pelo antigo conceito de ataraxia, mas não são exatamente a mesma coisa.
  • A promessa de salvação da alma, por séculos, mesmo pelo caminho do desapego, acabou enlouquecendo as pessoas.
  • A própria loucura tem lugar e é levada em conta no zen — a preparação para a pacificação do espírito inclui provas e, em particular, a passagem por uma crise mental profunda, comparada pelos especialistas a uma espécie de esquizofrenia artificial.
  • É possível que Ronald Laing tenha extraído daí suas primeiras concepções — a metanoia — mas não há relação entre essas concepções e o uso muito mais discreto que Pirsig fez delas.

O narrador busca apenas a paz da alma na vida cotidiana, sem paradoxo nem mistério, como o mais banal dos bens soberanos.

  • O narrador passou pela prova iniciática sem tê-la buscado — uma passagem pela esquizofrenia que lhe valeu internação em clínica psiquiátrica.
  • Esse infortúnio — ou essa sorte — deveu-se a conflitos com verdadeiros tecnocratas da filosofia universitária, quando ainda tinha a ilusão de encontrar solução nessa falsa sabedoria.
  • Essa aventura não tem nenhuma semelhança com o combate do capitão Achab — sem sentido simbólico, sem nada de alegórico.
  • Os eventos que conduziram o narrador à esquizofrenia e desta à paz da alma são dados pelo que são, podendo ser aprofundados por interpretação, o que é bem diferente do que ocorre numa alegoria.
  • Há dois relatos que se sustentam mutuamente, ambos igualmente apresentados como verdadeiros e reais: a viagem dos Grandes Lagos ao Pacífico, e a viagem mental de uma loucura ordinária e sem grandeza até uma paz da alma, também sem grandeza.
  • A motocicleta não é símbolo da tecnologia nem da racionalidade — é um exemplo, um fragmento, uma amostra dela.
  • Ela permite exercícios que se poderiam chamar de higiene mental, se essas palavras não tivessem já, infelizmente, outro sentido.
  • Esses exercícios são adaptados ao mundo de hoje, do qual não se pode fugir senão na ilusão.
  • No livro, é a atitude estetizante que representa discretamente a tentação recusada da fuga.

O relato encerra no momento em que a pacificação é alcançada tanto pelo narrador quanto por seu filho, que começava uma crise psicótica.

  • Não há nada de triunfo nem de vitória nesse desfecho.
  • As coisas são apresentadas com tanta justeza que se fica disposto a acreditar no autor quando ele sugere, numa nota externa ao relato, que há elementos autobiográficos na origem da história.

O livro é extraordinariamente moderno — não no sentido de estar na moda, mas no sentido de não disfarçar a realidade.

  • A moda serve sobretudo para enfeitar e disfarçar o real.
  • O livro desacomoda um pouco os hábitos de leitura no início.
  • Por moderno que seja, inscreve-se numa tradição — afinal, o objetivo de Ulisses era bastante modesto: queria voltar para casa.
  • Os Ciclopes e os Léstrigos não lhe interessavam — estavam reservados a Achab e a toda a corrente de civilização que deveria produzi-lo.
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