A1 Ciências
APÊNDICE I VICISSITUDES NAS CIÊNCIAS
1. Cada ciência possui uma trajetória própria, comparável à vida de uma pessoa que atravessa triunfos, subordinações e mudanças de caráter, mas compartilha com as demais ciências de sua época comportamentos fundamentais que revelam a homogeneidade histórica subjacente às diferenças individuais.
2. O imperialismo característico do século XIX manifestou-se nas ciências pela ambição de dominar os demais campos ou pela inveja de suas vantagens, fazendo com que cada disciplina se afastasse de seu próprio destino e procurasse tornar-se outra, como ocorreu com a filosofia e a biologia diante da física, com a matemática diante da lógica e com a teologia diante das ciências humanas.
3. Nos primeiros trinta anos do século XX, as ciências convergiram espontaneamente para uma atitude de aceitação de seus próprios limites, abandonando tanto a pretensão de governar as demais quanto o descontentamento por não possuir suas vantagens e assumindo como destino aquilo que antes consideravam um defeito constitutivo.
4. A física distingue-se da matemática porque não apreende imediatamente seus objetos por conceitos ou intuições, mas depende necessariamente da mensuração, razão pela qual sua exatidão consiste em aproximações delimitadas, enquanto o objeto matemático se encontra integralmente presente em sua definição axiomática ou intuitiva.
5. Toda medida é relativa a um padrão humanamente estabelecido e manifesta a insuficiência de uma inteligência que não possui em si a realidade material, precisando substituir a apreensão das coisas por esquemas mensuráveis, ao passo que Deus, por não sofrer essa carência, não necessita medir.
6. A fundação galileana da física encerra uma contradição entre defini-la como mensuração de tudo o que pode tornar-se mensurável e acreditar que a natureza obedece intrinsecamente à matemática, identificando o espaço e o tempo das coisas com o espaço e o tempo matemáticos, em vez de reconhecê-los como determinações métricas.
7. A crença equivocada na constituição matemática da natureza tornou possível a instauração da física, mostrando que a capacidade humana de errar pode desempenhar uma função fecunda na conquista do conhecimento.
8. O nascimento da física moderna não decorreu da simples substituição da especulação pela observação dos fatos, pois antigos e medievais também observavam e experimentavam, e os próprios escolásticos recorriam à experiência contra a lei galileana da inércia, que Galileu não conseguia demonstrar experimentalmente.
9. A novidade decisiva da ciência galileana consistiu na exigência de observação exata, realizada pela introdução formal da matemática na investigação e pela quantificação radical dos fenômenos mediante sua mensuração.
10. A aplicação galileana da matemática à natureza apoiou-se na convicção anterior a qualquer experiência de que os corpos obedeciam às leis geométricas, de modo que a física nasceu de um pressuposto não experimentado acerca da conformidade da matéria à geometria.
11. A identificação rigorosa da realidade física com os resultados da mensuração impede atribuir às construções matemáticas o poder de legislar previamente sobre a natureza, tornando insustentável tratar a retilinearidade pressuposta pela inércia como uma determinação física inerente à matéria.
12. A autonomia da física exige que ela aceite sua tarefa de medir o mundo sem submeter-se ao império da matemática nem negar a independência desta, cujas construções ideais servem como instrumentos para ordenar as medidas e sistematizar as observações.
13. Na atitude de Einstein, o emprego crescente de uma matemática mais complexa coincide com a redução de sua autoridade substantiva sobre a realidade física, pois ela passa de suposto princípio constitutivo da natureza a instrumento subordinado às necessidades da teoria.
14. A física pôde nascer porque o erro galileano e a insuficiência dos instrumentos de medida ocultaram dificuldades que a matemática disponível ainda não permitiria enfrentar, evidenciando que as limitações e carências humanas também constituem condições positivas da existência e devem ser aceitas como parte de seu destino.
