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8 As coisas e seu ser

VIII — AS COISAS E SEU SER. — A PRÉ-COISA. — O HOMEM, O ANIMAL E OS INSTRUMENTOS. — A EVOLUÇÃO DA TÉCNICA

1. Os exemplos desenvolvidos servem para tornar concreto o programa extranatural cuja realização constitui a vida e para mostrar certa correlação entre a quantidade e a direção da técnica e o modo de ser homem escolhido, sublinhando os pressupostos da técnica que costumam passar despercebidos, embora sejam o mais essencial de sua essência, pois perguntar o que é uma coisa consiste em desfazê-la em seus ingredientes, as condições de sua possibilidade em Kant ou os requisitos em Leibniz, que precisam desaparecer da vista para que a coisa funcione, como o hidrogênio e o oxigênio para que se veja a água, de modo que a definição é uma espécie de pré-coisa, o ser da coisa, que a mostra em statu nascendi, e só se conhece bem o que se vê nascer.

2. Os pressupostos sublinhados até aqui não são os únicos, mas são os mais radicais e, por isso mesmo, os mais ocultos e os que mais costumam passar despercebidos.

3. É óbvio que sem uma inteligência capaz de descobrir novas relações entre as coisas o homem não inventaria instrumentos nem métodos vantajosos, mas essa obviedade conduz ao erro de crer que possuir uma atividade basta para explicar seu exercício, quando é frequente que quem tem olhos não veja o que passa diante de si por estar absorto em seu interior, ou que quem tem talento para a matemática não o exerça por falta de interesse.

4. Poder fazer algo não basta para fazê-lo, nem possuir inteligência técnica basta para que exista a técnica, que é o exercício efetivo dessa capacidade, capaz de permanecer ociosa, de modo que a questão importante não é se o homem tem aptidão técnica, mas por que se dá o fato da técnica, o que só se torna inteligível quando se descobre que o homem, queira ou não, tem de ser técnico, sejam quais forem seus dotes para isso.

5. Não se pode hoje, com a tranquila convicção de um século atrás, definir o homem como Franklin, animal fabricante de instrumentos, pois os estudos de Köhler sobre os chimpanzés e outras pesquisas de psicologia animal indicam que a inteligência necessária para inventar instrumentos parece existir no animal, cuja insuficiência reside antes em outro lado de sua condição, como a memória deficiente do chimpanzé, incapaz de conservar o que acabou de lhe acontecer e de oferecer material à combinação criadora.

6. A diferença decisiva entre o animal e o homem não está tanto na comparação primária de seus mecanismos psíquicos, mas nas consequências que dão a cada existência uma estrutura completamente distinta, pois o animal de pouca imaginação não pode formar um projeto de vida diferente da mera reiteração do que já fez, e sem esse projeto a inteligência se torna função puramente mecânica, sem disciplina nem orientação, incapaz de extrair de si a própria direção e de escolher entre as infinitas coisas inventáveis, de modo que a capacidade técnica só se constitui onde a inteligência funciona a serviço de uma imaginação criadora de projetos vitais.

7. Contra a tendência, espontânea e excessiva no tempo presente, de crer que só existe uma técnica, a europeia-americana atual, sendo as demais mero balbucio rumo a ela, foi preciso relativizá-la entre as múltiplas técnicas humanas correspondentes a cada projeto de humanidade, mas cabe também destacar o que ela tem de peculiar, pois a técnica alcançou hoje uma posição sem precedentes entre os fatores da vida humana, tanto que, assim como os historiadores nomeiam as grandes épocas por sua técnica, eolítica, paleolítica, do bronze, o tempo atual poderia chamar-se simplesmente a idade da técnica, o que só pode explicar-se por uma elevação peculiaríssima da relação entre o homem e a técnica, fruto de uma modificação substancial da própria função técnica.

8. Para compreender a técnica atual convém destacar sua silhueta peculiar sobre o fundo de todo o passado técnico do homem, delineando, ainda que muito sumariamente, os grandes estágios de sua evolução, para que, por meio de alguns cortes e marcos, esse passado confuso adquira perspectiva e movimento e deixe ver de onde vem e para onde vai a técnica.

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