Nietzsche
NIETZSCHE, FRIEDRICH (1844-1900)
Jean Granier. Universalis.
Toda grande obra é sempre incompreendida em algum grau, mas a de Nietzsche provoca equívocos mais do que as outras — seja pela tentação de neutralizar as terríveis questões que levanta, seja pela de projetar sobre seus escritos preconceitos doutrinários e fantasmas pessoais.
- Nietzsche é condenado ou explorado — raramente se lhe deixa a palavra.
Negou-se longamente a Nietzsche a qualidade de filósofo, alegando-se suas contradições, seu estilo poético e aforístico, sua doença e seu colapso final — e a obra nietzschiana foi ainda desfigurada pela propaganda nazista e acusada de propagar um irracionalismo a serviço do capitalismo em sua fase imperialista.
- Pela influência que exerceu sobre os espíritos da época, a autoridade filosófica de Nietzsche acabou por se impor universalmente.
- Nietzsche é reconhecido hoje como um dos gênios que moldaram o rosto do século XX.
A obra nietzschiana é um canteiro de ideias mais do que um sistema, e a beleza e clareza do estilo dissimulam, na ausência de um vocabulário tecnicamente rigoroso, a profundidade temível do pensamento.
- Quem se aventura nessa profundidade encontra um labirinto de múltiplos desvios.
- A filosofia nietzschiana não autoriza uma explicação unívoca e definitiva — sua verdade última reside no impulso que dá para ir mais longe.
- Tomada em seu conjunto, a obra oferece uma coerência real, desde que se respeitem as sutis distinções que sobredeterminam as palavras-chave do vocabulário nietzschiano e se desenredem cuidadosamente, em cada texto, os diversos temas que se entrelaçam.
- A mesma palavra pode revestir significações divergentes, até antagônicas — e é indispensável prestar a mais minuciosa atenção aos planos de reflexão em que se desdobra a problemática.
Uma vez dissipadas as contradições artificiais, as dificuldades se concentram em torno de algumas questões centrais relativas à interpretação da obra.
- Com Karl Jaspers, pode-se perguntar se Nietzsche não é um pensador essencialmente crítico, cujo esforço de dissolver as determinações fixas do pensamento visaria a purificar uma intuição do Ser que, por princípio — tratando-se do “Englobante” —, deveria apoiar-se apenas no que Jaspers chama de “cifras”; nessa leitura, o equívoco de Nietzsche seria querer atingi-lo pela destruição incessante do saber objetivo.
- Essa maneira de ler Nietzsche tem a vantagem de conservar a tensão da meditação nietzschiana, mas arrisca extenuá-la ao exaurir o sentido positivo de suas categorias.
- Mais recentemente insistiu-se, com razão, na oposição entre Nietzsche e Hegel — mas é importante situá-la onde ela é radical: no recuo intransigente que Nietzsche formula contra a redução operada por Hegel entre o ser e a lógica, e não, como se acreditou precipitadamente, no nível da teoria do negativo.
- É ao contrário pelo papel que conferem à negatividade e ao devenir que as filosofias de Hegel e de Nietzsche revelam certa afinidade — atestada pelas próprias declarações de Nietzsche.
- A meditação de Martin Heidegger — prolongada pela de Eugen Fink — permitiu circunscrever a questão maior: que lugar ocupa Nietzsche em relação ao conjunto da filosofia desde os gregos? Tal questão obriga a precisar a compreensão da essência da metafísica e determina a radicalidade do comentário.
Enquanto Nietzsche se afirma o iniciador de um começo realmente novo em filosofia, Heidegger vê nele, ao contrário, o acabamento grandioso e inquietante da metafísica ocidental.
- Segundo Heidegger, a filosofia nietzschiana pertenceria à história do “esquecimento do ser” que define a essência dessa metafísica — pelo primado da noção de valor, pelo apagamento da ideia do Ser, pelo conceito de vontade de potência em que culmina a pretensão do sujeito de “enquadrar” o ente segundo as normas planejadas da técnica, pela apologia do super-homem e pelos preconceitos que veiculam o impensado da tradição metafísica.
- O exame dos escritos de Nietzsche dificilmente corrobora tal leitura — da qual, contudo, se pode admirar o alcance e a riqueza.
Um comentário axado sobre o tema da interpretação e da verdade seria talvez o mais apto a proteger o dinamismo construtor do pensamento nietzschiano — especialmente contra as tentativas repetidas de anexá-lo a formalismos dogmáticos que ele mesmo, por antecipação, já havia magistralmente refutado.
