1.6 Qualidades primárias
HARMAN, Graham (ORG.). Quentin Meillassoux: philosophy in the making. Edinburgh, [United Kingdom]: Edinburgh University Press, 2011.
1. A primeira frase do livro afirma que a teoria das qualidades primárias, aparentemente pertencente a um passado filosófico irremediavelmente obsoleto, deve ser reabilitada, e poucas páginas depois Meillassoux sustenta que todos os aspectos do objeto formuláveis matematicamente podem ser concebidos com sentido como propriedades do objeto em si, tese que parecerá ingênua ou dogmática ao correlacionista, para quem as propriedades matemáticas não escapam à subjetivação das secundárias, objeção já respondida pelo restante do livro, embora o argumento completo de que as qualidades primárias são as matematizáveis ainda não esteja publicado, diante do enigma da capacidade da matemática de discorrer sobre o grande fora e sobre um passado sem humanidade nem vida.
2. No capítulo final, Galileu surge como herói inesperado, pois, ao contrário dos astrônomos gregos, concebe matematicamente o movimento, até o mais mutável, a queda dos corpos terrestres, tornando o mundo exaustivamente matematizável e autônomo, descritível independentemente das qualidades sensíveis, e une-se a Descartes no uso de uma ciência natural matematizada para teorizar um mundo sem humanos e a Copérnico na remoção dos humanos do centro do mundo, de modo que a ciência moderna oferece um cosmos em que o pensamento é contingente e pode pensar um mundo que dispensa o pensamento e é indiferente a ser pensado.
3. Galileu destrói também o conhecimento a priori do mundo, que só pode ser reconstruído como fato, e prepara a filosofia de Hume, cujo evento ratifica filosoficamente o evento Galileu ao demonstrar a falácia de todas as formas metafísicas de racionalidade, embora a tese de que a rejeição da metafísica implica a rejeição da razão suficiente funcione melhor para Hume que para Galileu, que dificilmente defenderia a contingência dos eventos naturais, e embora seja discutível a opinião, endossada de Badiou, de que todo episódio fundamental da filosofia desde Platão passou por uma reinterpretação de sua aliança com a matemática, sendo indiscutível, porém, que a revolução copernicana de Kant é uma contrarrevolução ptolomaica, como também vê Latour, que no momento em que a ciência oferecia um conhecimento diacrônico de um mundo sem os humanos devolveu os humanos ao trono do conhecimento.
4. O matemático é o possível, pois todo enunciado matemático não é necessariamente verdadeiro, mas absolutamente possível, apontando não para um referente ideal na eternidade platônica, mas para a estrutura do dado, já que os aspectos matematicamente descritíveis do dado podem continuar a existir sem os humanos, de modo que as qualidades primárias não estão enterradas sob o acesso humano e a diferença entre primárias e secundárias se dá inteiramente no dado, sendo primárias as matematizáveis, concebíveis como existentes se o sujeito desaparecesse, o que lhes permite ser contingentes como tudo e ao mesmo tempo absolutas, por poderem existir fora do pensamento, como o decaimento radioativo anterior à vida terrestre, só concebível como absolutamente indiferente ao pensamento que o considera, e a matematização responde à questão mais urgente que a ciência coloca à filosofia, como o pensamento pode pensar o que existe quando não há pensamento, conhecimento não correlacional que torna a ciência especulativa e a filosofia especulativa um materialismo especulativo, por abrir-se às coisas em si que devem existir fora do pensamento.
5. Supõe-se muitas vezes que o fim da metafísica é o fim do absoluto, mas para Meillassoux significa apenas o fim da crença num ente necessário, e a ciência galileana, que abandona a certeza a priori em favor de um mundo fático a descrever, oferece um novo absoluto, sua capacidade de descrever coisas reais fora do pensamento humano, de modo que a tarefa da filosofia consiste em reabsolutizar o alcance da matemática e responder, em termos que lembram Kant, não como são possíveis os juízos sintéticos a priori, mas como é possível uma ciência matematizada da natureza, pergunta que, isolada, soaria insípida, mas que após o percurso de Depois da finitude se mostra rica e sugestiva.
