1.5 Contingência sem instabilidade
HARMAN, Graham (ORG.). Quentin Meillassoux: philosophy in the making. Edinburgh, [United Kingdom]: Edinburgh University Press, 2011.
1. A teoria da contingência absoluta convida a imaginar um cosmos selvagem de mudanças súbitas e mutações sem razão, nascimentos e desaparecimentos milagrosos de entidades estranhíssimas sem prenúncio no estado do mundo nem potenciais latentes, um tormento de convulsões constantes e não os fluxos fluviais de Heráclito ou Bergson, mas a experiência não parece tão extravagante, pois até as piores atrocidades ocorreram em lugares geograficamente estáveis, os terremotos são analisados segundo leis conhecidas e até alucinações e pesadelos guardam alguma consistência, ao passo que Meillassoux anuncia como verdade ontológica um caos irrestrito, o que leva a perguntar por que nada disso é experimentado e por que o mundo parece operar segundo leis estáveis.
2. O mundo de Meillassoux é ainda mais espantoso que o de Hume, a quem ele admira e cujas verdades profundas pretende radicalizar, pois, se Hume nega o conhecimento de leis e conexões necessárias e admite que a razão, limitada pela não contradição, informa que bolas de bilhar poderiam se comportar de mil modos sem causa, as três soluções clássicas ao problema da causalidade, a metafísica dogmática das razões ocultas, o ceticismo humeano e a demonstração transcendental kantiana de que, se há consciência, há uma causalidade que governa necessariamente os fenômenos, compartilham a não contestação da necessidade causal, já que até Hume duvida apenas da capacidade de fundá-la pelo raciocínio, o que explica a facilidade com que o ceticismo se converte em superstição, pois crer numa necessidade insondável do curso do mundo é preparar-se para crer na providência.
3. A única saída da superstição e de toda prisão ideológica é crer na razão e purgar a realidade do além-mundo da necessidade causal, o que reconduz ao problema central de como a contingência das leis não se manifesta em transformações súbitas e contínuas, unificação de contingência e estabilidade ilustrada pela analogia de Lobatchevski, que, tentando provar o postulado das paralelas de Euclides por redução ao absurdo supondo infinitas paralelas por um ponto, descobriu uma nova geometria tão consistente quanto a euclidiana, assim como o universo acausal se revelaria pouco a pouco tão consistente e capaz de explicar a experiência quanto o causal, aposta que Meillassoux encerra parafraseando o Manifesto comunista, nada se tem a perder passando a um universo acausal, exceto enigmas, de modo que a recepção futura de seu pensamento depende de o público aceitar o sabor lobatchevskiano desse universo.
4. O primeiro passo desse empreendimento é uma das raras referências extensas a um filósofo vivo, Jean-René Vernes, autor da ainda não traduzida Crítica da razão aleatória, cujo subtítulo, Descartes contra Kant, mostra sua afinidade com Meillassoux, campeão de bridge e inventor do jogo War, que expõe o raciocínio em que Hume e Kant se apoiam implicitamente ao supor evidente a necessidade das leis, relato do problema com o qual Meillassoux concorda, com a diferença de que Vernes permanece euclidiano e se convence desse argumento, que Meillassoux julga profundamente falho.
5. A estratégia de Vernes aplica as leis da probabilidade aos eventos no universo e depois ao universo como um todo, invertendo Kant ao fazer do a priori o domínio da contingência e da experiência o da necessidade, já que a experiência mostra a repetição e a razão inúmeras alternativas, cem segundo Hume ou infinitas segundo Vernes, e a crença na necessidade se explica como a do jogador que suspeita que um dado que cai sempre na mesma face está viciado, suspeita irresistível se o dado caísse na mesma face por toda a vida e toda a memória humana e tivesse milhões de faces, levando a inferir uma razão oculta que explique o resultado invariável.
6. O argumento probabilístico estende o raciocínio do jogador dos eventos no universo ao universo como um todo, imaginando-o como um entre muitos universos possíveis regidos por leis diferentes, em que bolas de bilhar voariam, se fundiriam ou se tornariam éguas imaculadas e rabugentas ou lírios afáveis, cada um numa face de um dado que sempre cai na face do universo atual, coincidência que não pode ser acaso e de que se infere depressa demais uma razão necessária, chamada matéria por Vernes e não melhor, para Meillassoux, que Providência.
7. O argumento frequencial supõe que a estabilidade seria sorte incrível sem um dado viciado por uma estrutura oculta da matéria, mas é preciso distinguir acaso e contingência, pois o acaso parasita a necessidade física, já que todo jogo de azar exige um quadro necessário, como as seis faces do dado, sem o qual, se o dado implodisse, se achatasse ou voasse, não haveria série aleatória nem cálculo de probabilidades, ao passo que a contingência afeta o próprio quadro em que ocorrem os eventos casuais, e Meillassoux pretende dar dela uma descrição positiva da estabilidade aparente do caos com os instrumentos da matemática transfinita, já que o argumento de Vernes exige uma totalidade numérica de eventos possíveis que o transfinito torna impossível, encontrando-se, como Badiou, na companhia de Cantor.
8. Quando as possibilidades são finitas, por grandes que sejam, calcula-se a probabilidade de cada uma, e nem o infinito impede o cálculo, como no exemplo da corda partida, mas as leis da probabilidade exigem uma totalidade de possibilidades concebíveis, o que vale para os casos no interior do universo, sempre totalidade dada finita ou infinita, mas não para o universo, ao qual se aplica o raciocínio probabilístico supondo sem respaldo na experiência que o concebível é uma totalidade, submetendo-o a uma hipótese matemática que o converte num conjunto.
9. Cantor, importado para a filosofia continental por Badiou, mostrou que não há fundamento para supor o concebível necessariamente totalizável, pois destotalizou o número ao mostrar que não há maior infinito nem Todo que englobe os demais, já que se constrói uma sucessão ilimitada de conjuntos infinitos, os alefs ou cardinais transfinitos, cada um superior ao anterior, série que não pode ser totalizada, de modo que a quantidade de todas as quantidades não existe, e embora isso valha para a axiomática de Zermelo-Fraenkel e não se possa excluir a priori outra em que os mundos possíveis formem uma totalidade, basta uma axiomática que destotalize o possível para invalidar a inferência de Vernes, que apenas supõe o possível totalizável.
10. Como não se sabe se o possível pode ser totalizado como as faces de um dado, Meillassoux opera outra cisão ontológica semelhante à entre tempo e espaço, admitindo o raciocínio probabilístico para eventos no universo, mas não para o universo ou as leis da natureza, cuja extensão além de uma totalidade dada na experiência é ilegítima, de modo que, assim como as lacunas espaciais não desafiam o correlacionismo, os eventos intramundanos não excedem o argumento probabilístico e as leis vigoram plenamente sobre os casos que regem, residindo sua contingência apenas em poderem mudar subitamente sem aviso.
11. Para as possibilidades intramundanas totalizáveis, ainda que infinitas, Meillassoux usa o termo possível, e para o domínio não totalizável dos casos possíveis, virtual, palavra rara em Depois da finitude, com apenas duas ocorrências, como na tese de que as possibilidades de que o caos, único em-si, é capaz não podem ser medidas por nenhum número, finito ou infinito, e de que essa superimensidade do virtual caótico permite a estabilidade impecável do mundo visível, mas comum em seus outros escritos e conceito central de A inexistência divina.
