1.4 Diacronicidade
HARMAN, Graham (ORG.). Quentin Meillassoux: philosophy in the making. Edinburgh, [United Kingdom]: Edinburgh University Press, 2011.
1. A ancestralidade, que confronta o correlacionista com realidades anteriores à correlação, é redefinida no fim do livro como diacronicidade, incluindo também os eventos posteriores à possível extinção do pensamento humano, já que o problema do arquifóssil concerne a todo discurso cujo sentido inclui uma discrepância temporal entre pensar e ser, não só enunciados sobre eventos anteriores aos humanos, mas também posteriores à extinção da espécie.
2. A ênfase de Meillassoux na discrepância temporal revela que o interessa a defasagem entre os humanos e uma realidade anterior ou posterior, e não entidades contemporâneas espacialmente remotas, como eventos na galáxia de Andrômeda, o núcleo de um buraco negro ou o interior de uma melancia antes de ser cortada, preferência pelo tempo sobre o espaço que influencia ao menos duas outras partes de sua filosofia.
3. A primeira é que, ao minar a razão suficiente, Meillassoux parece atacar as razões encontradas olhando para trás no tempo, as causas eficientes, sustentando que um pedaço de ouro pode virar prata, cera ou carne sem razão, mas há também as causas materiais e formais estudadas pela mereologia, segundo a qual o ouro é ouro por sua estrutura atômica e molecular, de modo que ele deveria estender a ausência de razão ao instante presente, admitindo que o ouro agora seja feito de prata, água, plástico, carne crua, campos de flores microscópicas, acrobatas minúsculos ou até arranha-céus e cordilheiras maiores que ele próprio, possibilidade sobre a qual se cala, sendo talvez a razão suficiente sincrônica mais ameaçadora para sua posição que a diacrônica, já que a composição dos entes no presente não parece preocupá-lo e um artigo sobre a mereologia de Meillassoux teria pouco a dizer.
4. A segunda é que a preferência pelas questões diacrônicas leva a uma anomalia inexplicada na questão das leis físicas, pois Meillassoux afirma que, embora as leis possam mudar sem razão, não se espera que mudem incessantemente, mas não explica por que precisa de leis num sistema com a teoria da contingência mais deslumbrante da história, sem conexão necessária entre as coisas e sem sequer o Deus dos ocasionalistas, já que tudo deveria existir num estado independente de contingência, invulnerável à influência de outras coisas, enquanto a lei supõe que uma coisa influencia outra de modo específico ao entrar em contato, como o planeta que atrai a maçã ou o fogo que derrete obras de arte, de modo que leis que podem mudar sem razão não produzem contingência completa, mas vínculos necessários tão fortes quanto antes, mudáveis subitamente, o que mostra de novo o foco exclusivo na contingência diacrônica e a indiferença à razão suficiente num único instante.
5. Na edição francesa de Après la finitude, três asteriscos no pé da página 36 marcam o ponto em que Meillassoux inseriu, para a edição inglesa, um material novo traduzido por Ray Brassier, correspondente às páginas 18 a 26 da versão inglesa, no qual, das páginas 18 a 22, considera por que a inacessibilidade espacial de entidades contemporâneas desafia menos o correlacionismo que a realidade ancestral, mostrando-se inteiramente indiferente a essa questão.
6. Diante da objeção de que eventos ancestrais não desafiam mais o correlacionismo que eventos espacialmente ocultos no presente, num planeta distante ou numa casa abandonada, já que em ambos algo ocorre sem registro em nenhuma correlação, Meillassoux imagina um idealista que trata espaço e tempo como casos equivalentes e igualmente inofensivos, concede que a distância espacial e a temporal são inofensivas e insiste em que a ancestralidade é problema muito mais profundo, enquanto o idealista alega que o argumento ancestral é banal por privilegiar o tempo sobre o espaço, sendo um evento numa galáxia distante o análogo espacial do evento anterior à vida, que o não testemunhado não é objeção, já que o caráter lacunar do dado nunca foi problema, como mostra a doação por perfis de Husserl, e que basta um contrafactual, se houvesse uma testemunha, válido para o vaso que cai numa casa de campo e para o evento cósmico, sem conflito com a ciência.
7. Meillassoux concorda que o argumento espacial é inofensivo e trivial, mas julga sofístico seu uso pelo idealista, pois o espacialmente distante é variante do temporalmente antigo, que não equivale ao ancestral, sem que ele mencione nenhum análogo espacial do ancestral, como um universo paralelo inacessível, já que só o tempo lhe parece paradoxal, de modo que o ancestral designa um evento anterior à vida terrestre e à própria doação, uma ocorrência não dada e não apenas não testemunhada, ao passo que o vaso que cai numa casa vazia não interessa porque ocorre quando já há doação, sincrônico com a consciência humana e recuperável pela manobra da testemunha hipotética, enquanto o ancestral designa não uma ausência no dado, mas uma ausência de doação enquanto tal, anterior à doação em sua totalidade, e coloca o problema de um tempo em que o dado passa do não ser ao ser.
8. Meillassoux sustenta que o contrafactual não funciona por pressupor o que está em questão, fazendo do tempo da emergência do dado um tempo de emergência no dado, mas cabe objetar que é ele quem pressupõe o que está em questão ao supor que um vaso caindo numa casa solitária não desafia a correlação, já que nunca demonstra por que a distância espacial de toda doação ameaça menos que a anterioridade temporal, nem por que a ausência espacial seria mera lacuna, sendo a diferença entre ausência no dado e ausência de doação afirmada com clareza, mas sem evidência de que seja mais que sutileza verbal sem referente, pois, embora seja mais fácil ir à casa ver o vaso quebrado que voltar ao Big Bang, não se demonstrou uma fissura ontológica entre os casos, e o correlacionista não explica melhor o vaso que a formação ancestral da Terra.
9. A disputa entre distâncias espaciais e temporais nem sequer é o cerne da questão, pois mesmo um vaso presente a uma consciência, observado diretamente antes, durante e depois da queda, contém água e flores que não são contidas pela percepção dele, mas só pelo próprio vaso, e nenhum conhecimento, nem meio século de estudo com supercomputadores ou epifanias angélicas, pode entrar no mundo e substituir o trabalho do vaso no cosmos, de modo que Meillassoux não deveria ter concedido o ponto da percepção lacunar, já que até na presença física direta uma entidade excede a correlação de modo não meramente lacunar, assim como todo o aço do mundo não constrói uma canção e todas as percepções não constroem as realidades que percebem, mas seu compromisso com um modelo em que nada se oculta sob o dado faz o dado parecer saturado de acesso humano, sem mistérios no presente, nem nas partes distantes que ninguém vê, e só lhe resta desafiar o reino do acesso humano imaginando um tempo sem doação, o ancestral, sem lacunas por não haver ainda percepção.
10. A manobra da testemunha hipotética falha não porque se pode conceber um tempo em que testemunhas são por hipótese impensáveis, como sustenta Meillassoux, mas porque nem uma testemunha pode reduzir a coisa a correlato da consciência, mesmo quando pressionada diretamente contra a pele, ponto que constitui a diferença crucial entre o materialismo especulativo e a filosofia orientada a objetos.
