1.2 Materialismo especulativo
HARMAN, Graham (ORG.). Quentin Meillassoux: philosophy in the making. Edinburgh, [United Kingdom]: Edinburgh University Press, 2011.
Materialismo especulativo
1. Em vez do esquema tríplice, Meillassoux oferece uma gama mais sutil de posições, que se pode chamar Espectro de Meillassoux, ordenada do mais ao menos realista, realismo dogmático ou ingênuo, correlacionismo fraco, correlacionismo forte, correlacionismo muito forte e idealismo absoluto, posições em geral já existentes sob outros nomes, das quais emerge o materialismo especulativo, que não deve ser confundido com o realismo ingênuo, já que Meillassoux aprecia plenamente a revolução kantiana e se situa inicialmente no correlacionismo muito forte, mostrando que ele pode manter-se sem cair no idealismo absoluto, para depois invertê-lo numa posição inédita.
2. À objeção de que o espectro omite posições intermediárias, pela qual se costuma exigir de três a sete novas opções, cabe responder que se poderiam acrescentar setenta ou trezentas variantes sem provar sua relevância para o argumento, já que Meillassoux não pretende enumerar todas as atitudes possíveis diante da questão do realismo e do idealismo, mas apenas as mais importantes para esclarecer por contraste seu materialismo especulativo, sem escrever uma enciclopédia de todas as filosofias.
3. A objeção ao caráter linear do espectro, bem fundada mas irrelevante aqui, ignora que, embora não se possam ordenar Deleuze, Fichte, Gadamer, Levinas e Merleau-Ponty num único eixo pela variedade de seus temas, qualquer coisa pode ser ordenada linearmente segundo um único critério, como altura, colesterol ou idade de morte, e o espectro ordena os filósofos segundo sua proximidade da versão classicamente realista da relação entre humano e mundo, para um propósito limitado mas valioso.
4. Meillassoux vê o correlacionismo em geral como algo ruim, mas sua alternativa não é um retorno ao realismo ingênuo pré-kantiano, pois, se a ancestralidade obriga a romper com o requisito ontológico moderno de que ser é ser correlato e a compreender como o pensamento acessa um mundo capaz de subsistir sem ser dado, perguntando pela condição que legitima os enunciados ancestrais da ciência em vez de pela possibilidade dos juízos sintéticos a priori, essa questão exige distância tanto do realismo ingênuo quanto da sutileza correlacionista, e entre ambos Meillassoux escolheria a força do círculo correlacional, deixando o realismo ingênuo pelas mesmas razões de Kant.
5. Como os idealistas alemães, Meillassoux vê problema em pensar as coisas em si, o que se mostra na distinção entre o correlacionismo fraco de Kant, que proíbe conhecer mas permite pensar o em-si e lhe atribui algumas determinações, como a impossibilidade da contradição, e o correlacionismo forte, dominante hoje embora não tematizado, que julga ilegítimo até pensá-lo, perguntando por que operação milagrosa o pensamento kantiano verificaria que o impensável para nós é impossível em si, de modo que a não contradição é norma do pensável e não do possível absoluto e o correlacionismo forte, mais formidável, sustenta que é impensável que o impensável seja impossível, não podendo descartar discursos irracionais sobre o absoluto, posição representada por Wittgenstein, para quem a estrutura do mundo só se mostra além da ciência e da lógica, e por Heidegger, para quem o fato de haver entes e doação de entes escapa a todo acesso racional.
6. O correlacionismo forte liga-se a tendências desagradáveis do mundo contemporâneo, fideísmo, ceticismo, fanatismo e retorno do religioso, pois, julgando impossível todo enunciado racional sobre o em-si, conduz diretamente ao fideísmo, outro nome do correlacionismo forte visível no misticismo de Wittgenstein e na teologia de Heidegger, a ponto de nenhum filósofo pretender hoje refutar a Trindade por contradição, já que a destruição da metafísica, impedindo que uma religião use argumentos pseudorracionais contra outras, justificou inadvertidamente a pretensão da crença de ser o único acesso ao absoluto e reduziu até o ateísmo a uma crença, religião de tipo niilista.
7. Fideísmo e ceticismo andam juntos, sendo o ceticismo um fideísmo autêntico dominante hoje, desligado de toda obediência a um sistema de crença determinado e iniciado pela Contrarreforma com Montaigne, figura imensa na história da filosofia segundo Meillassoux, de modo que, se a filosofia grega racionalizava a religião, a religião agora desracionaliza a filosofia, tornada serva liberal de qualquer teologia, inclusive de uma ateologia, e o fanatismo, condenado apenas por suas consequências ético-políticas e nunca pela falsidade de seus conteúdos, não é resto primitivo, mas produto da razão crítica ocidental, já que o correlacionismo, que venceu o dogmatismo, torna a filosofia incapaz de distinguir-se do fanatismo e a crítica vitoriosa das ideologias se converte em argumento renovado em favor da fé cega, obrigando o pensamento a equilibrar-se entre o contato dogmático com um em-si metafísico e o ceticismo fanático dos que se apresentam como depositários privilegiados por revelação.
8. No espectro, Meillassoux simpatiza cada vez mais com cada posição sucessiva, embora permaneça insatisfeito, e distingue duas formas de correlacionismo forte, aqui chamadas forte e muito forte, a primeira herdeira da crítica kantiana, que busca as condições universais da relação com o mundo, sejam da ciência empírica, da comunicação linguística ou da percepção, e a segunda, que supõe que a desabsolutização do pensamento implica sua desuniversalização, fazendo de cada pessoa um fideísta privado com visão de mundo impenetrável à razão.
9. Os correlacionistas muito fortes são os filósofos pós-modernos, que descartam todo universal como relíquia mistificadora da velha metafísica e pensam a facticidade da relação com o mundo como situação finita ancorada numa época da história do ser, numa forma de vida com seus jogos de linguagem ou numa comunidade cultural e interpretativa, passagem exemplificada pela transição de Husserl a Heidegger, e embora Meillassoux venha a rejeitar a facticidade em nome da faticidade, o correlacionismo muito forte é seu ponto de partida preferido para radicalizar a correlação por dentro, restando ainda no espectro o idealismo absoluto, que ele não endossa e que se aborda pela relação do correlacionismo com a ciência.
10. O correlacionismo evita denegrir abertamente as ciências, tornando-se modesto e prudente, assegurando que não interfere no trabalho do cientista e que sua compreensão é legítima, mas pretende sempre superá-lo ao tratar seus enunciados ancestrais literais como circunscritos por um sentido filosófico mais profundo, para nós, numa divisão segura de trabalho em que a ciência faz o trabalho do realismo ingênuo com resultados espantosos e a filosofia o observa de uma distância irônica, com elogio condescendente e sobrancelha erguida, sem nunca aceitar literalmente o realismo científico.
11. Isso conduz ao paradoxo inicial do livro, a pergunta sobre se a acreção da Terra ocorreu ou não há 4,56 bilhões de anos, diante da qual o correlacionista joga um jogo duplo, concedendo que o enunciado é verdadeiro e negando seu sentido literal, o que é sem sentido para Meillassoux, avesso a toda compreensão positivista ou verificacionista da ciência, cujos enunciados apontam literalmente para um mundo real fora de sua acessibilidade, já que a ciência realiza experiências repetíveis em vista de referentes externos, de modo que não há meio-termo entre um mundo anterior ao pensamento e um mundo que só existe como correlato do pensamento, e o correlacionista deveria ousar afirmar que pode demonstrar a priori ao cientista que suas afirmações são ilusórias.
12. Segue-se um interlúdio colorido e perigoso para o argumento, pois, se o correlacionismo não se concilia com enunciados ancestrais literais, diante do arquifóssil todo idealismo converge e todo correlacionismo se revela idealismo extremo, dissolvendo a distinção entre o idealismo transcendental, urbano e razoável, e o idealismo especulativo ou subjetivo, selvagem e extravagante, que separa Kant de Berkeley, o que seria desastroso, já que a posição de Meillassoux só faz sentido como radicalização do correlacionismo e não como variante do idealismo absoluto, perigo de que ele está consciente ao reconhecer que, se o correlacionismo forte repele facilmente o realista, é muito mais difícil vencer o metafísico subjetivista, por não poder legitimar a afirmação de algo além das representações depois de declarar esse além radicalmente inacessível.
13. Meillassoux distingue dois gestos e procura mostrar que o correlacionismo forte pode fazer o primeiro sem fazer o segundo, sendo o primeiro o de que não se pode pensar um mundo sem uma entidade capaz de pensá-lo, isto é, de que não se pensa o impensado sem convertê-lo em pensamento, e o segundo o de que, sendo a coisa em si incognoscível e impensável, o mais sábio é abolir a noção de em-si, gesto mais extremo por pretender saber positivamente que o em-si não existe, já que o idealismo absoluto, embora declare impensável o em-si, sustenta que o absoluto é pensável, encontrando-o nas próprias condições da relação entre sujeito e objeto.
14. Pareceria que essa é a estratégia do próprio Meillassoux, que busca o absoluto radicalizando a correlação por dentro, mas ele evita deslizar para o idealismo absoluto por meio da facticidade, termo heideggeriano que ele relaciona à diferença entre Kant, para quem as formas a priori só podem ser descritas, e Hegel, para quem podem ser deduzidas, pois para Kant a estrutura do mundo é fato inexplicável e ninguém voltou de uma viagem ao em-si com garantia de que o sentido é absoluto, de modo que, embora falar hipoteticamente de um em-si pareça sem sentido para o correlacionista, o sem sentido não é necessariamente o impossível, e a incapacidade de falar do em-si não implica que só exista a correlação a absolutizar, restando a facticidade, marca da finitude essencial, que Meillassoux converterá em contingência, a indiferença das leis físicas ao que ocorre, surge, subsiste ou perece.
15. Surge aqui o primeiro de vários argumentos perigosos de que depende todo o sistema, pois Meillassoux aceita o argumento correlacionista forte contra o realismo ingênuo e concede que a própria noção de em-si é impensável, aproximação que costuma levar ao idealismo absoluto, mas recusa-o ao sustentar que a impensabilidade e o caráter sem sentido das coisas em si não implicam sua inexistência, já que o que tem sentido para os humanos não esgota a totalidade do real, o que se resume no espectro como realismo ingênuo, para o qual as coisas em si existem e são cognoscíveis, correlacionismo fraco, para o qual existem, não são cognoscíveis, mas são pensáveis, correlacionismo forte e muito forte, para o qual são incognoscíveis e impensáveis, sem sentido, mas isso não significa que não existam, e idealismo absoluto, para o qual sua existência é por isso impossível, com kantianos na segunda posição, hegelianos na quinta e Meillassoux preferindo a quarta para transformá-la no materialismo especulativo, que evita o idealismo absoluto não hipostasiando a correlação e o correlacionismo pensando o absoluto, afirmando que o pensamento não é necessário e que pode pensar o que deve haver quando não há pensamento.
