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meillassoux:2008:1

1 Ancestralidade

MEILLASSOUX, Quentin. After finitude: an essay on the necessity of contingency. London ; New York: Continuum, 2008.

1. A teoria das qualidades primárias e secundárias, que parece pertencer a um passado filosófico irremediavelmente obsoleto e soar como sofisma escolástico sem alcance filosófico, merece ser reabilitada, pois nela está em jogo a natureza da relação do pensamento com o absoluto.

2. Os termos qualidade primária e secundária vêm de Locke, mas a distinção já se encontra em Descartes, pois quem se queima numa vela situa espontaneamente a sensação de queimadura no dedo e não na chama, já que o braseiro não se queima ao queimar, e o mesmo vale para as sensações, pois o sabor não é saboreado pelo alimento, a beleza melódica não é ouvida pela melodia nem a cor é vista pelo pigmento, de modo que nada de sensível, afetivo ou perceptivo, pode existir tal como é dado na coisa por si mesma, sem relação com um ser vivo, e retirado o observador o mundo fica desprovido de qualidades sonoras, visuais e olfativas, assim como a chama fica sem dor quando se retira o dedo.

3. O sensível não é injetado nas coisas como alucinação perpétua e arbitrária, pois há um vínculo constante entre as coisas reais e suas sensações, sem coisa capaz de produzir a sensação de vermelho não havendo percepção de algo vermelho nem sem fogo real sensação de queimadura, mas não faz sentido dizer que o vermelho ou o calor existem como qualidades tanto sem o sujeito quanto com ele, de modo que o sensível existe apenas como relação entre o mundo e o ser vivo, nem simplesmente no sujeito como um sonho nem simplesmente na coisa como propriedade intrínseca, e essas qualidades situadas na relação subjetiva com as coisas correspondem às tradicionalmente chamadas qualidades secundárias.

4. Não foram as qualidades secundárias que desacreditaram a teoria tradicional, pois tornou-se lugar-comum pouco contestado que não faz sentido atribuir à coisa em si, isto é, à coisa sem o sujeito, propriedades que só surgem da relação com sua apreensão subjetiva, e o que se contestou vigorosamente desde a fenomenologia foi o modo como Descartes e Locke conceberam essa relação, como modificação da substância pensante ligada ao funcionamento mecânico de um corpo e não como correlação noético-noemática, ponto secundário aqui, já que importa apenas que o sensível é relação e não propriedade inerente à coisa, tese que um filósofo contemporâneo aceita sem dificuldade.

5. O que desacreditou decisivamente a teoria foi a própria ideia de dois tipos de propriedades, isto é, a suposição de que a subjetivação das propriedades sensíveis poderia restringir-se às determinações sensíveis em vez de estender-se a todas as propriedades concebíveis, já que as qualidades primárias seriam inseparáveis do objeto e pertenceriam à coisa tal como é sem o sujeito, propriedades do em-si que para Descartes eram as da extensão sujeitas à prova geométrica, comprimento, largura, movimento, profundidade, figura e tamanho, e que, evitando a noção de extensão, indissociável da representação sensível e da cor, se reformulam assim, todos os aspectos do objeto formuláveis em termos matemáticos, capazes de dar lugar a uma fórmula ou digitalização e não a uma percepção, podem ser concebidos com sentido como propriedades do objeto em si, tal como é sem o sujeito.

6. A tese defendida é dupla, pois reconhece que o sensível só existe como relação de um sujeito com o mundo e sustenta que as propriedades matematizáveis do objeto estão isentas dessa relação e existem efetivamente no objeto tal como são concebidas, haja ou não relação com ele, mas antes de justificá-la é preciso compreender por que ela pode parecer absurda a um filósofo contemporâneo e erradicar a fonte precisa dessa aparente absurdidade.

7. A tese parece insustentável por ser resolutamente pré-crítica e parecer regressar à posição ingênua da metafísica dogmática, ao afirmar que o pensamento pode discriminar entre propriedades do mundo dependentes da relação com ele e propriedades do mundo em si, tese indefensável desde Kant e até desde Berkeley, porque o pensamento não pode sair de si para comparar o mundo em si com o mundo para nós, empreendimento autocontraditório, já que ao pensar uma propriedade como pertencente ao mundo em si é ele que se pensa e a propriedade se revela ligada ao pensamento, sem que se possa, como disse Hegel com humor, surpreender o objeto pelas costas, de modo que também as propriedades matemáticas devem ser concebidas como dependentes da relação do sujeito com o dado, forma de representação para o kantiano ortodoxo, ato da subjetividade para o fenomenólogo ou linguagem formal para o filósofo analítico, e todo filósofo pós-crítico julga ingênuo pensar algo abstraindo do fato de que somos sempre nós que o pensamos.

8. A revolução transcendental não só desqualificou o realismo ingênuo da metafísica dogmática, o que o idealismo subjetivo de Berkeley já fizera, mas sobretudo redefiniu a objetividade fora do contexto dogmático, pois, sendo inacessível o em-si, a conformidade de um enunciado ao objeto não pode mais definir-se como adequação ou semelhança, e a diferença entre uma representação objetiva, como o sol aquece a pedra, e uma meramente subjetiva, como a sala me parece quente, torna-se diferença entre representações universalizáveis, por direito experimentáveis por todos e científicas, e não universalizáveis, de modo que a intersubjetividade, o consenso de uma comunidade, substitui a adequação como verdadeiro critério de objetividade e a verdade científica passa a ser o que pode ser dado como compartilhado por uma comunidade científica.

9. A noção central da filosofia moderna desde Kant é a de correlação, ideia segundo a qual só se tem acesso à correlação entre pensar e ser e nunca a um dos termos isoladamente, e correlacionismo designa toda corrente que sustenta o caráter insuperável dessa correlação, de modo que toda filosofia que recusa o realismo ingênuo se tornou uma variante do correlacionismo.

10. Convém examinar mais de perto o sentido desse filosofema da correlação e do correlacionismo.

11. O correlacionismo desqualifica a pretensão de considerar subjetividade e objetividade independentemente uma da outra, insistindo em que nunca se apreende um objeto em si, isolado de sua relação com o sujeito, nem um sujeito que não esteja sempre já relacionado a um objeto, e ao círculo correlacional, argumento segundo o qual não se pode pensar o em-si sem cair num círculo vicioso e contradizer-se, soma-se o passo duplo correlacional, raciocínio frequente nas obras contemporâneas segundo o qual seria ingênuo pensar sujeito e objeto como entidades separadas às quais a relação se acrescentaria depois, já que a relação é de certo modo primária, o mundo só é mundo enquanto aparece como mundo e o eu só é eu diante do mundo que se lhe revela.

12. O passo duplo do filósofo moderno consiste na crença no primado da relação sobre os termos relacionados e no poder constitutivo da relação recíproca, sendo o prefixo co, de codoação, correlação, cooriginário e copresença, a partícula gramatical dominante da filosofia moderna, sua verdadeira fórmula química, de modo que, se até Kant um dos principais problemas da filosofia era pensar a substância e os filósofos rivais se dividiam sobre quem apreendia sua verdadeira natureza, a Ideia, o indivíduo, o átomo ou Deus, desde Kant trata-se de pensar a correlação e de saber quem apreendeu a correlação mais originária, sujeito e objeto, noese e noema ou linguagem e referente, substituindo-se a pergunta pelo substrato próprio pela pergunta pelo correlato próprio.

13. No século XX, os dois principais meios da correlação foram a consciência, que sustentou a fenomenologia, e a linguagem, que sustentou as correntes da filosofia analítica, descritas com precisão por Francis Wolff como objetos-mundo, objetos singulares que fazem o mundo porque para eles tudo está dentro, já que para pensar algo é preciso ter consciência dele ou dizê-lo, ficando-se encerrado na linguagem ou na consciência sem poder sair, e ao mesmo tempo tudo está fora, pois são janelas do mundo, já que ter consciência é ter consciência de algo e falar é falar de algo, de modo que se está nelas como numa gaiola transparente em que tudo está fora e é impossível sair.

14. Essa descrição revela a natureza paradoxal da exterioridade correlacional, pois o correlacionismo insiste na conexão originária da consciência e da linguagem com uma exterioridade radical, como a consciência fenomenológica que, segundo Sartre, explode em direção ao mundo, mas essa insistência dissimula um sentimento estranho de aprisionamento nessa mesma exterioridade, a gaiola transparente, já que se está sempre já nela e sem ponto de vista exterior sobre esses objetos-mundo, e esse fora parece claustral porque é inteiramente relativo ao sujeito, pois há mundo apenas enquanto uma consciência se transcende em direção a ele, de modo que esse espaço de exterioridade é apenas o do que está diante, um face a face cujas duas faces se exploram como uma moeda que só conhece seu anverso, e a insistência contemporânea em que o pensamento está voltado para o fora talvez revele um luto não elaborado pela perda do grande fora, o fora absoluto dos pensadores pré-críticos, não relativo ao sujeito, indiferente à sua doação e existente em si, que o pensamento podia explorar com o sentimento legítimo de estar em território estrangeiro.

15. A correlação entre pensamento e ser não se reduz à correlação entre sujeito e objeto, de modo que o domínio da correlação na filosofia contemporânea não implica o domínio das filosofias da representação, que podem ser criticadas em nome de uma correlação mais originária entre pensamento e ser, sem que as críticas da representação tenham significado uma ruptura com a correlação ou um retorno ao dogmatismo.

16. Em Heidegger, trata-se de apontar a ocultação do ser ou da presença inerente a toda concepção metafísica da representação e ao privilégio do ente simplesmente dado tomado como objeto, mas pensar essa ocultação no coração do desvelamento do ente exige considerar a copropriação de homem e ser, o Ereignis, noção central do Heidegger tardio que permanece fiel à exigência correlacionista herdada de Kant e da fenomenologia husserliana, pois nem o ser nem o homem podem ser postos como subsistentes em si e depois relacionados, sendo ambos originariamente constituídos por sua relação recíproca, já que se diz pouco do ser ao omitir sua presença essencial na direção da essência humana e pouco do ser humano ao pô-lo como independente para depois relacioná-lo ao ser.

17. Todo filósofo que não queira regredir ao dogmatismo, por maior que seja sua ruptura com a modernidade, deve manter um conjunto de decisões, o círculo e o passo duplo correlacionais, a substituição da adequação pela intersubjetividade na redefinição da objetividade científica, a manutenção da correlação até na crítica da representação e o fora claustral, postulados que caracterizam toda filosofia pós-crítica fiel o bastante ao kantismo para não querer retornar à metafísica pré-crítica.

18. Sustentar a existência de qualidades primárias é romper com todas essas decisões, o que suscita a pergunta sobre se se pretende deliberadamente regredir ao dogmatismo e sobre o que incita a romper com o círculo da correlação.

19. Uma simples linha, como as dos livros de divulgação científica, com matizes semelhantes a um espectro de cores separados por pequenos traços verticais e números que indicam quantidades imensas, marca as datas da origem do universo, há 13,5 bilhões de anos, da acreção da Terra, há 4,56 bilhões, da origem da vida terrestre, há 3,5 bilhões, e da origem da humanidade, com o Homo habilis, há 2 milhões de anos.

20. A ciência empírica produz hoje enunciados sobre eventos anteriores ao advento da vida e da consciência, datando objetos por vezes mais antigos que qualquer forma de vida terrestre, procedimentos chamados relativos enquanto se referiam à posição dos fósseis uns em relação aos outros, sobretudo pela profundidade dos estratos geológicos, e absolutos desde o aperfeiçoamento, nos anos trinta, de técnicas que determinam a duração efetiva dos objetos medidos, baseadas na taxa constante de desintegração dos núcleos radioativos e nas leis da termoluminescência, que permitem datar a luz emitida pelas estrelas.

21. A ciência contemporânea pode determinar com precisão, ainda que como hipóteses revisáveis, as datas de formação dos fósseis de criaturas anteriores aos primeiros hominídeos, da acreção da Terra, da formação das estrelas e até a idade do próprio universo.

22. A questão é saber do que falam exatamente astrofísicos, geólogos e paleontólogos quando discutem a idade do universo, a acreção da Terra ou o surgimento da humanidade, como apreender o sentido de enunciados científicos sobre uma manifestação do mundo posta como anterior ao surgimento do pensamento e da vida, isto é, a toda relação humana com o mundo, e como pensar um discurso que faz da relação com o mundo um evento entre outros, inscrito numa ordem de sucessão como etapa e não como origem, e em que sentido se lhe pode atribuir verdade.

23. Chama-se ancestral toda realidade anterior ao surgimento da espécie humana ou mesmo a toda forma conhecida de vida terrestre, e arquifóssil ou matéria-fóssil não só os materiais que indicam vestígios de vida passada, mas os que indicam a existência de uma realidade ou evento ancestral anterior à vida terrestre, suporte material das experiências que permitem estimar fenômenos ancestrais, como um isótopo de taxa de decaimento conhecida ou a emissão luminosa de uma estrela que informa sobre a data de sua formação.

24. A ciência atual formula enunciados ancestrais sobre a idade do universo, a formação das estrelas ou a acreção da Terra, e sem avaliar a confiabilidade das técnicas que os produzem interessa compreender sob que condições esses enunciados têm sentido e, mais precisamente, como o correlacionismo pode interpretá-los.

25. Há dois tipos básicos de pensamento correlacional, como de idealismo, pois a correlação pode ser posta como insuperável de uma perspectiva transcendental ou fenomenológica, sustentando que só se apreendem correlatos, ou de uma perspectiva especulativa, sustentando que a correlação é eterna, caso em que já não se trata de correlacionismo estrito, mas de uma metafísica que eterniza o Eu ou o Espírito como espelho perene da manifestação do ente e para a qual o enunciado ancestral não apresenta dificuldade, pois basta invocar uma testemunha ancestral, um Deus atento que faz de todo evento um fenômeno, ao passo que o correlacionismo não hipostasia a correlação, mas a invoca para impedir toda substancialização de um objeto de conhecimento, sem afirmar que ela existe por si mesma independentemente de sua encarnação em indivíduos, já que não se conhece correlação alheia aos humanos nem se pode sair da própria pele para verificar sua possível desencarnação, de modo que a hipótese da testemunha ancestral é ilegítima e a questão passa a ser como interpretar um enunciado ancestral situando-se na correlação sem hipostasiá-la.

26. O sentido dos enunciados ancestrais não apresenta problema para uma filosofia dogmática como o cartesianismo, pois uma física familiarizada com as Meditações observaria que, num evento anterior à vida terrestre como a acreção da Terra, não faz sentido dizer que fazia calor ou que a luz era ofuscante, já que não havia observador nem um vivente sobreviveria a tal calor, podendo-se formular apenas o que as medidas matemáticas determinam, que começou há cerca de 4,56 bilhões de anos, durou dezenas de milhões de anos e ocupou certo volume variável no espaço, sem atribuir-lhe qualidades secundárias como cor, calor ou cheiro, modos de relação entre o vivente e seu ambiente, e sustentando que os enunciados matematicamente formuláveis designam propriedades efetivas do evento, como data, duração e extensão, numa tese cartesiana e não pitagórica sobre a matéria, já que não se afirma que o ser da acreção é matemático, mas que os referentes dos enunciados, e não os próprios enunciados, ideais e contemporâneos, existiram há 4,56 bilhões de anos tal como descritos.

27. Um cientista não afirmaria categoricamente que um evento ancestral ocorreu tal como descrito, pois desde Popper toda teoria empírica é revisável e pode ser refutada e substituída por outra mais elegante ou exata, mas isso não o impede de considerar que faz sentido supor que seu enunciado é verdadeiro e que, enquanto não for substituído, é legítimo supor a existência do evento tal como reconstruído, já que uma teoria refutada só o é por outra também sobre eventos ancestrais e também suposta verdadeira, de modo que, numa perspectiva cartesiana, os enunciados ancestrais têm referentes que podem ser postos como reais, ainda que passados, uma vez validados pela ciência empírica num dado estágio.

28. O cartesianismo dá conta de modo bastante satisfatório da concepção que o cientista tem de sua disciplina, e é provável que os cientistas fiquem antes do lado de Descartes que do de Kant na teoria das qualidades, admitindo facilmente que as qualidades secundárias só existem como aspectos da relação do vivente com seu mundo, mas relutando em admitir que as qualidades primárias matematizáveis só existem enquanto existem os humanos, relutância compreensível quando se examina como o correlacionista explica a ancestralidade.

29. Do ponto de vista correlacionista, a interpretação literal dos enunciados ancestrais é inadmissível, e embora o filósofo se tenha tornado modesto diante da ciência, assegurando que suas teorias não interferem no trabalho do cientista e que a compreensão deste é legítima, acrescenta que o é até certo ponto, pois a atitude espontaneamente realista do cientista, partilhada com o homem comum, exige uma correção mínima que basta para introduzir outra dimensão da relação do pensamento com o ser.

30. Diante do enunciado ancestral de que um evento ocorreu tantos anos antes do surgimento dos humanos, o filósofo correlacionista não contesta o evento nem sua datação, mas acrescenta discretamente um codicilo sempre igual, para os humanos ou para o cientista humano, codicilo da modernidade pelo qual o filósofo julga não intervir no conteúdo da ciência enquanto preserva um regime de sentido exterior e mais originário que o dela, postulando dois níveis de sentido no enunciado ancestral, o imediato ou realista e o mais originário ou correlacionista, ativado pelo codicilo.

31. A interpretação literal do enunciado ancestral consiste em crer que seu sentido realista é seu sentido último, sem outro regime de sentido capaz de aprofundá-lo e tornando irrelevante o codicilo, o que o correlacionista não pode aceitar, já que isso o obrigaria a sustentar uma série de absurdos aos olhos do filósofo pós-crítico, que o ser não é coextensivo à manifestação, que o que é precedeu temporalmente a manifestação, que a manifestação surgiu no tempo e no espaço como ocorrência intramundana datável, que o pensamento pode pensar a emergência da manifestação no ser e um tempo anterior a ela e que o arquifóssil é a doação presente de um ser anterior à doação.

32. Para o correlacionista, essas teses evaporam ao se apontar a autocontradição flagrante da definição de arquifóssil como doação de um ser anterior à doação, já que o ser não é anterior à doação, mas se dá como anterior a ela, sendo a doação primária e o tempo significativo apenas como pressuposto na relação humana com o mundo, de modo que há dois níveis de abordagem, um superficial, em que se esquece o caráter originário da doação e se a naturaliza como propriedade do mundo físico, e outro profundo, em que se apreende a prioridade lógica da correlação sobre todo enunciado empírico, conciliando a anterioridade cronológica do que é sobre o que aparece, sentido superficial e derivado, com a prioridade lógica da doação sobre o dado, único sentido verdadeiramente correto, e reformulando o enunciado assim, a comunidade científica atual tem razões objetivas para considerar que a acreção da Terra precedeu o surgimento dos hominídeos em tantos anos.

33. Essa formulação merece ser analisada.

34. Como desde Kant a objetividade se define não pela adequação ao objeto em si, mas pela universalidade possível do enunciado, é a intersubjetividade do enunciado ancestral, sua verificabilidade por direito por qualquer membro da comunidade científica, que garante sua objetividade e sua verdade, já que seu referente tomado literalmente é impensável, pois, recusada a hipóstase da correlação, o universo físico não pode realmente ter precedido os humanos ou os viventes, um mundo só tendo sentido como dado a um ser vivo ou pensante, e falar da emergência da vida é evocar a emergência da manifestação num mundo preexistente, de modo que é preciso ater-se ao dado universalizável da matéria-fóssil presente, sua taxa de decaimento, a natureza da emissão estelar, e o enunciado ancestral é verdadeiro enquanto fundado numa experiência presente e universalizável, sem a crença ingênua de que sua verdade deriva da adequação a um mundo sem doação do mundo.

35. Para o correlacionista, compreender o sentido profundo do dado fóssil exige partir não do passado ancestral, mas do presente correlacional, retrojetando o passado a partir do presente, pois o que é dado não é algo anterior à doação, mas algo dado no presente que se dá como anterior à doação, de modo que a anterioridade lógica da doação sobre o ser do dado obriga a subordinar o sentido aparente do enunciado ancestral a um contrassentido mais profundo, segundo o qual não é a ancestralidade que precede a doação, mas o dado presente que retrojeta um passado aparentemente ancestral, procedendo-se logicamente do presente ao passado e não cronologicamente do passado ao presente.

36. Toda tentativa de refutar o dogmatismo impõe ao filósofo diante da ancestralidade duas decisões, o desdobramento do sentido e a retrojeção, residindo o sentido profundo da ancestralidade na retrojeção lógica imposta a seu sentido superficialmente cronológico, sem outro modo de dar sentido ao arquifóssil permanecendo fiel às injunções da correlação.

37. Essa interpretação é evidentemente insustentável, como se vê ao perguntar ao correlacionista o que aconteceu há 4,56 bilhões de anos e se a acreção da Terra ocorreu ou não.

38. O correlacionista responderá que sim, num sentido, porque os enunciados que indicam o evento são objetivos e intersubjetivamente verificáveis, e que não, em outro, porque seu referente não pode ter existido tal como ingenuamente descrito, sem correlação com uma consciência, o que produz a tese extraordinária de um enunciado verdadeiro cujo referente não pode ter existido, um enunciado objetivo sem objeto concebível, isto é, um contrassenso, além de que, se os enunciados ancestrais valessem apenas pela universalidade atual de sua verificação, seriam desprovidos de interesse para os cientistas, que não validam uma medida para mostrar que vale para todos, mas para determinar o que é medido, já que os isótopos radioativos importam por informar sobre um evento passado, e tornar essa idade impensável esvazia a objetividade da medida, pois a ciência realiza experiências repetíveis em vista de referentes externos que lhes dão sentido.

39. A retrojeção imposta pelo correlacionista ao enunciado ancestral é um verdadeiro contrassenso, pois esse enunciado só tem sentido se seu sentido literal for também seu sentido último, e dividi-lo inventando um sentido mais profundo conforme à correlação e contrário ao sentido realista não o aprofunda, mas o anula, o que define o realismo irremediável do enunciado ancestral, que tem sentido realista e apenas realista ou nenhum sentido, de modo que um correlacionista consequente deveria deixar de transigir com a ciência, reconhecer que não há compromisso possível entre a correlação e o arquifóssil e ousar afirmar que pode demonstrar a priori ao cientista que seus enunciados ancestrais são ilusórios, já que o que descrevem nunca pode ter ocorrido tal como descrito.

40. Diante da matéria-fóssil, a distinção entre o idealismo transcendental, urbano, civilizado e razoável, e o idealismo especulativo ou subjetivo, selvagem e extravagante, que separa Kant de Berkeley, parece dissolver-se, pois todo idealismo converge e se torna igualmente extraordinário, todo correlacionismo se revela um idealismo extremo incapaz de admitir que o que a ciência diz sobre ocorrências da matéria independentes da humanidade ocorreu como descrito, aproximando perigosamente o correlacionista dos criacionistas que, lendo literalmente a Bíblia, afirmam que a Terra tem seis mil anos e que Deus criou também os compostos radioativos que parecem indicar o contrário para pôr à prova a fé dos físicos, como se o arquifóssil existisse para pôr à prova a fé do filósofo na correlação.

41. Duas réplicas correlacionistas à objeção ancestral permitem precisá-la e sublinhar sua singularidade.

42. A primeira réplica trivializa o problema do arquifóssil identificando-o com um argumento anti-idealista conhecido e inócuo, observando que a tese privilegia arbitrariamente a antiguidade temporal, quando a distância espacial levantaria a mesma dificuldade, já que um evento numa galáxia imensamente distante e fora de toda observação possível seria o análogo espacial do evento anterior à vida terrestre, ambos desprovidos de testemunhas possíveis, de modo que a questão do antigo deveria somar-se à do distante.

43. Segundo essa réplica, as noções de distância e antiguidade são vagas, pois ninguém pode fixar onde termina o próximo ou o recente e começa o distante ou o ancestral, e estendido o argumento ao espaço a proximidade relativa do objeto se torna irrelevante, já que crateras observadas na Lua estariam mais próximas, do ponto de vista do argumento, que um vaso caindo numa casa de campo vazia, pois as crateras estão ligadas a um sujeito que as apreende e o vaso caiu sem testemunha, assim como um evento recente e não testemunhado seria mais problemático que um evento antigo registrado na memória de alguma consciência.

44. Ainda segundo a réplica, o argumento se reduziria a uma variante de uma objeção trivial ao idealismo, a de que o não testemunhado é impensável exceto pelo realismo, objeção não só pouco original como inadequada, já que o caráter lacunar do dado nunca foi problema para o correlacionismo, como mostra a doação por perfis de Husserl, pela qual um cubo nunca é percebido em todas as faces de uma vez, e como mostra toda teoria elementar da percepção, para a qual a apreensão sensível ocorre sempre sobre um fundo de não apreendido, como a percepção do mar pressupõe a não percepção de suas profundezas.

45. Bastaria então, segundo a réplica, reinserir o não testemunhado no quadro correlacionista por meio de um contrafactual, segundo o qual, se houvesse uma testemunha, a ocorrência teria sido percebida de tal modo, contrafactual que vale tanto para a queda do vaso na casa vazia quanto para um evento cósmico ou ancestral remoto, dizendo o correlacionismo o mesmo que a ciência, que uma testemunha teria visto o vaso cair segundo as leis da gravidade ou a emergência da vida conforme as hipóteses biológicas.

46. Concluiria a réplica que o fenômeno ancestral não constitui nova objeção ao correlacionismo, mas apenas disfarça um velho argumento tão gasto quanto inofensivo.

47. Toda essa réplica se baseia na confusão entre duas noções distintas, a de ancestral e a de distante no espaço ou antigo no tempo.

48. A objeção ao idealismo baseada na ocorrência distante é idêntica à baseada na ocorrência antiga, ambas versões da objeção do não testemunhado ou do não percebido, que é de fato trivial e não ameaça o correlacionismo, mas o argumento do arquifóssil não lhe equivale, porque o ancestral não designa um evento antigo, e sim anterior à vida terrestre e portanto à própria doação, noção temporal que invoca não distância, mas anterioridade no tempo, de modo que o arquifóssil se refere não a uma ocorrência não testemunhada, mas a uma ocorrência não dada, não contemporânea de nenhuma doação, lacunar ou não, e nisso reside sua singularidade e sua força crítica.

49. A objeção tradicional do não testemunhado, espacial ou temporal, não ameaça o correlacionismo porque incide sobre um evento ocorrido quando já há doação, e por isso pode ser espacial, já que um evento distante no espaço é necessariamente contemporâneo da consciência que o considera, invocando evento e consciência sincrônicos, e é recuperável como modo de doação lacunar entre outros, um dado inaparente que não põe em perigo a lógica da correlação.

50. O ancestral não designa uma ausência no dado e para a doação, mas uma ausência da doação enquanto tal, o que o exemplo do não percebido espacial não capta e só um tipo específico de realidade temporal capta, não o vagamente antigo nem uma lacuna no dado temporal, mas o anterior à doação em sua totalidade, o mundo tal como se desdobra quando nada é dado, plena ou lacunarmente, de modo que o desafio ao correlacionismo é de ordem totalmente diversa, o de conceber um tempo em que o dado enquanto tal passa do não ser ao ser, da lacuna de toda doação à efetividade de uma doação lacunar.

51. O problema não pode ser resolvido por um contrafactual, que pressuporia o que está em questão, fazendo do tempo da emergência do dado um tempo de emergência no dado, quando o tempo em questão é aquele em que a própria consciência e o tempo consciente emergiram no tempo, já que o problema do arquifóssil não é o problema empírico do nascimento dos organismos, mas o problema ontológico do advento da doação enquanto tal, isto é, compreender como a ciência pensa sem dificuldade o advento da consciência e de suas formas espaço-temporais de doação num espaço e num tempo que as precedem, um tempo da ciência e não da consciência, capaz de engendrar coisas físicas e correlações entre o dado e o doar, anterior e indiferente à doação, que poderia nunca ter surgido se a vida não tivesse surgido, de modo que pensar a ciência é pensar um devir que não pode ser correlacional porque o correlato está nele e não ele no correlato.

52. O caráter sofístico da primeira réplica consiste em tentar ocultar uma lacuna por outra, mascarar o não ser do dado por um dado de não ser, como se aquele se reduzisse a este, troca de ausências que não disfarça a diferença fundamental entre os dois vazios e entre o argumento trivial do não percebido e o argumento válido do ancestral.

53. A segunda réplica correlacionista, formulada de uma perspectiva transcendental, constitui a objeção mais incisiva à argumentação.

54. Segundo ela, a objeção do arquifóssil revela uma confusão elementar entre o nível empírico e o nível transcendental do problema.

55. A questão empírica, segundo essa réplica, consiste em saber como corpos orgânicos antes de se tornarem conscientes surgiram num ambiente físico, e a transcendental em determinar como é possível a ciência dessa emergência física da vida e da consciência, níveis inseparáveis como as duas faces de uma folha de papel, mas que nunca se cruzam, ao passo que a objeção os faz cruzar, transformando a folha numa fita de Möbius e confundindo o órgão consciente surgido na natureza, que existe como ente, com o sujeito transcendental da ciência, que não existe por não ser um ente, mas um conjunto de condições que tornam possível o conhecimento objetivo dos entes, e uma condição, por condicionar, não é objeto e portanto não existe.

56. Ainda segundo a réplica, a concepção de um tempo da ciência em que surgiram corpos e manifestação dos corpos seria anfibológica, confundindo o ser objetivo dos corpos, que nascem e perecem no tempo, com as condições de seu conhecimento objetivo, alheias a todo tempo, de modo que inscrevê-las no tempo é objetificá-las e antropologizá-las, gerando um paradoxo semelhante ao do mentiroso pela confusão entre discurso e objeto, que se dissolve abjurando o cruzamento dos níveis, já que as condições não nascem nem morrem, não por serem eternas como uma substância divina, mas por estarem fora do tempo e do espaço como formas do discurso científico, e o problema do arquifóssil seria apenas empírico, toda tentativa de subordinar as condições à ciência que elas permitem estando fadada a elidir o sentido do transcendental.

57. Trata-se da defesa clássica do idealismo kantiano pela acusação de confundir o empírico e o transcendental, mas aqui ela permanece inteiramente ineficaz.

58. O núcleo dessa réplica consiste em imunizar as condições do conhecimento contra todo discurso sobre os objetos da ciência, argumentando que uma condição transcendental não é objeto e portanto não existe, desontologizando o transcendental e pondo-o fora do alcance de toda reflexão sobre o ser, jogo com a noção de condição que não pode prevalecer por muito tempo.

59. Ainda que o sujeito transcendental não exista como os objetos existem, é preciso dizer que há um sujeito transcendental e não nenhum, e nada impede refletir sobre as condições sob as quais há sujeito transcendental, entre as quais está a de que ele tenha lugar.

60. Ter lugar significa que o transcendental, ao recusar o dogmatismo metafísico, é indissociável da noção de ponto de vista, pois um sujeito sem ponto de vista teria acesso ao mundo como totalidade, inspecionando instantaneamente toda a realidade objetiva, e violaria a finitude essencial do sujeito transcendental, para o qual o mundo deixaria de ser Ideia reguladora do conhecimento e se tornaria objeto transparente de um saber imediatamente realizado, sem receptividade sensível nem formas espaço-temporais limitadas e sem o conhecimento por perfis e o horizonte do sujeito husserliano.

61. Noções como finitude, receptividade, horizonte e Ideia reguladora surgem porque o sujeito transcendental é posto como ponto de vista sobre o mundo e portanto como tendo lugar no coração do mundo, do qual só descobre um aspecto finito, o que o torna indissociável de sua encarnação num corpo, objeto determinado do mundo, de modo que, se o transcendental é condição do conhecimento dos corpos, o corpo é condição do ter lugar do transcendental, condição retrotranscendental não empírica, já que ter este ou aquele corpo é empírico, mas ter um corpo não, e o sujeito é instanciado e não exemplificado por um corpo pensante, pois uma entidade é instanciada quando não existe fora de sua individuação, como a espécie homem para o empirista, e exemplificada quando existe também fora dela, como a Ideia de homem em Platão.

62. O que distingue o idealismo transcendental do especulativo é não pôr a existência do sujeito transcendental fora de sua individuação corporal, sob pena de hipostasiá-lo como sujeito ideal e absoluto, de modo que o sujeito é instanciado pelos corpos pensantes e a questão da emergência dos corpos pensantes no tempo é também a da temporalidade das condições de instanciação e do ter lugar do transcendental, já que os corpos objetivos, se não são condição suficiente, são condição necessária dele, e o tempo da ciência temporaliza e espacializa a emergência das condições do ter lugar do transcendental, isto é, de suas instanciações como ponto de vista sobre o mundo, problema que diz respeito ao mesmo tempo aos corpos objetivos e aos sujeitos transcendentais e que não pode ser pensado do ponto de vista transcendental, porque concerne ao espaço-tempo em que os sujeitos passaram do não ter lugar ao ter lugar, anterior às formas espaço-temporais da representação, de modo que pensar esse espaço-tempo ancestral é pensar as condições da ciência e revogar o transcendental como inadequado a essa tarefa.

63. A ancestralidade constitui um problema filosófico capaz de fazer rever decisões tidas por invioláveis desde Kant, cuja resolução não é aqui pretendida, mas apenas sua formulação rigorosa de modo que essa resolução já não pareça inconcebível.

64. O que está em jogo no problema da ancestralidade, sob a questão das condições de sentido do enunciado ancestral, é a capacidade das ciências empíricas de conhecer o domínio ancestral e, portanto, a natureza do discurso científico e de sua forma matemática, de modo que a questão se torna como o discurso matemático pode descrever um mundo sem humanidade, repleto de coisas e eventos que não são correlatos de nenhuma manifestação, enigma da capacidade da matemática de discorrer sobre o grande fora e sobre um passado sem humanidade nem vida, formulado no paradoxo do arquifóssil, como um ser pode manifestar a anterioridade do ser à manifestação, contradição aparente que é preciso sustentar para expor seu caráter ilusório e pensar o alcance ancestral da ciência.

65. A questão reformula-se como a da condição que legitima os enunciados ancestrais da ciência, questão de aparência transcendental, mas cuja condição primária é o abandono do transcendentalismo, exigindo distância tanto do realismo ingênuo quanto da sutileza correlacionista, dois modos de não ver a ancestralidade como problema, e consciência tanto da força aparentemente irrespondível do círculo correlacional, contra o realista ingênuo, quanto de sua incompatibilidade irremediável com a ancestralidade, contra o correlacionista, de modo que o filósofo se distingue do não filósofo por ser capaz de espantar-se, em sentido forte, com o sentido literal do enunciado ancestral, e a virtude do transcendentalismo não está em tornar o realismo ilusório, mas em torná-lo espantoso, aparentemente impensável e no entanto verdadeiro, e por isso eminentemente problemático.

66. O arquifóssil convida a seguir o pensamento na descoberta da passagem oculta pela qual ele realiza o que a filosofia moderna há dois séculos declara impossível, sair de si, apreender o em-si e conhecer o que é, existamos ou não.

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