1 Petrarca
KRISTELLER, Paul Oskar. Eight Philosophers of the Italian Renaissance. Stanford: Stanford University Press, 1964.
1. Em 1960 completou-se exatamente um século da publicação do célebre ensaio de Jacob Burckhardt, A civilização do Renascimento na Itália, marco que inaugura os estudos renascentistas e cujo desenvolvimento posterior revela tanto uma confusa variedade de opiniões e interpretações quanto um impressionante acúmulo de novos fatos e perspectivas ainda incompletos, sem que, apesar das consideráveis modificações sofridas pelo quadro burckhardtiano, tenha surgido síntese igualmente abrangente capaz de substituí-lo, razão pela qual o núcleo de suas teses permanece válido, ainda que muitas delas exijam correção e complemento.
2. Entre as questões legadas por Burckhardt destaca-se a da posição da Itália no período renascentista, estendido grosso modo do início do século XIV ao fim do XVI, pois, tendo ele restringido seu estudo à península, coube a outros historiadores determinar até que ponto as contribuições dos demais países europeus derivavam de desenvolvimentos nativos ou da influência italiana, e a dificilmente contestável pretensão de que a Itália ocupou nesse período um lugar de importância única, somada aos limites do conhecimento disponível, justifica a restrição destas conferências a alguns pensadores italianos, embora outros pensadores renascentistas de diferentes países mereçam igual atenção.
3. No vastíssimo campo dos estudos sobre o Renascimento, o pensamento filosófico permaneceu relativamente negligenciado, porque os estudiosos do período, incluindo o próprio Burckhardt, privilegiaram a história política e religiosa, a literatura, as artes, as ciências e a erudição clássica, enquanto os filósofos tradicionalmente concentraram-se nas filosofias antiga e moderna e só recentemente voltaram-se para o pensamento medieval, de modo que o enorme esforço de Fiorentino, Dilthey, Cassirer, Gentile, Garin, Nardi e muitos outros ainda não foi suficientemente incorporado aos manuais e cursos de história da filosofia, e nem mesmo esses estudiosos chegaram a esgotar a matéria.
4. Essa negligência explica-se pela ausência, na literatura filosófica renascentista, de nomes de eminência incontestável como Platão, Aristóteles, Tomás de Aquino ou Descartes, pela grande mutação histórica sofrida pelo sentido da filosofia e por suas relações com os demais saberes, o que torna irrelevantes vastas áreas do pensamento passado quando se interpreta a tarefa filosófica exclusivamente segundo alguma escola moderna, seja o pragmatismo, a filosofia analítica, o existencialismo ou o neotomismo, e ainda pela impaciência do historiador da cultura diante dos filósofos profissionais, cuja terminologia e cujos problemas técnicos parecem vinculá-los mais estreitamente a colegas de outras épocas do que ao clima de opinião de seu próprio tempo.
5. Apesar dessas dificuldades, o estudo da filosofia renascentista tende a manter e mesmo a ampliar seu interesse para o estudioso do Renascimento, para o filósofo e para o historiador da filosofia, porque fornece analogias e fontes decisivas para compreender as artes, a literatura, a religião e as ciências do período e permite apreender a diferença de perspectiva que separa Bacon e Descartes de Tomás de Aquino ou Ockham, ainda que o exame de alguns de seus pensadores mais significativos cubra apenas um pequeno setor de um território amplo, complexo e em boa parte ainda não demarcado.
6. O primeiro e mais decisivo movimento intelectual a afetar a história do pensamento filosófico no período é o humanismo renascentista, cujo sentido, objeto de muitos debates e mal-entendidos, só se compreende adequadamente quando se esquecem as vagas conotações de ênfase nos valores humanos que o termo adquiriu na linguagem atual e se retorna, a partir do termo humanismo, cunhado no início do século XIX, aos termos humanista e humanidades efetivamente usados no Renascimento, pelos quais as fontes mostram que o humanista era um mestre das humanidades ou studia humanitatis, ciclo de disciplinas composto de gramática, retórica, poesia, história e filosofia moral.
7. Dessa definição decorre que o humanismo renascentista consistiu num grande florescimento e desenvolvimento das humanidades assim entendidas, de modo que qualquer influência exercida sobre outras áreas da civilização, como as artes, a literatura, as ciências e a religião, só pode ter sido indireta.
8. O humanismo renascentista não pode ser definido como um conjunto de ideias filosóficas específicas comuns a todos os humanistas, nem como movimento exclusivamente filosófico, e muito menos como a soma total da filosofia renascentista, porque grande parte do trabalho humanista era erudito ou literário, muitos humanistas distintos nada contribuíram de significativo sequer à ética, considerada parte de seu domínio, poucos intervieram diretamente na lógica, na metafísica ou na filosofia natural, cujos principais cultores, embora formados na educação clássica e literária, não se reduzem ao rótulo de humanistas, e a grande variedade de opiniões sustentadas pelos humanistas indica que seu denominador comum reside num ideal educativo, erudito e estilístico e na extensão de seus problemas e interesses, e não na adesão a um corpo determinado de doutrinas filosóficas ou teológicas.
9. Fazer justiça aos humanistas do Renascimento exige reconhecê-los como eruditos e escritores tanto quanto pensadores, cuja contribuição filosófica foi complementada e matizada por preocupações não filosóficas, o que nada tem de impróprio, pois, assim como houve filósofos simultaneamente teólogos ou cientistas, houve também filósofos com ocupações e interesses adicionais de ordem erudita e literária, e esse é precisamente o caso dos humanistas renascentistas.
10. Daí se aprecia a poderosa influência indireta do humanismo renascentista sobre a história da filosofia, independentemente das ideias específicas com que contribuiu, pois os filósofos modernos, ao escreverem ensaios, conferências, dissertações e tratados em vez de questões e comentários, prolongam inadvertidamente uma tradição iniciada pelo humanismo, e devem igualmente aos humanistas o enriquecimento de sua biblioteca filosófica com os textos originais, ou traduzidos a partir deles, de Aristóteles, Platão e muitos outros filósofos gregos, em lugar das traduções medievais utilizadas por Tomás de Aquino.
11. O estudo dos pensadores renascentistas selecionados começa por Petrarca, frequentemente chamado iniciador do humanismo mas mais propriamente seu primeiro grande representante, por ter sido provavelmente o primeiro humanista a produzir impacto significativo no pensamento de seu tempo, nascido em Arezzo em 1304 numa família florentina exilada, levado a Avignon aos oito anos, formado em leis em Montpellier e Bolonha, residente em Avignon, então sede da cúria papal, de 1326 a 1353, com longas viagens à Itália, onde se fixou definitivamente a partir de 1353, sobretudo em Milão, Veneza e Pádua, até morrer em Arquà em 1374, tendo gozado de benefícios eclesiásticos e do patrocínio dos Colonna e dos Visconti, aos quais parece ter servido ocasionalmente como secretário.
12. A fama moderna de Petrarca assenta sobretudo em seus poemas italianos, que lhe asseguram lugar proeminente na história da literatura, mas para ele próprio, para seus contemporâneos e para as gerações seguintes até o século XVI seus numerosos escritos latinos tinham importância equivalente, constituindo, pela variedade de forma e conteúdo, uma amostra representativa da literatura humanista que compreende poemas latinos, discursos, invectivas, obras históricas e um vasto conjunto de cartas conservadas, reunidas e editadas com o mesmo cuidado dedicado às demais composições literárias.
13. Um último grupo de obras pertence ao campo da filosofia moral e interessa por isso mais diretamente ao exame filosófico, abrangendo o diálogo Dos remédios de uma e outra Fortuna, de 1366, e os tratados Do conflito secreto de minhas preocupações, mais conhecido como Secretum e concluído antes de 1358, Da vida solitária, de 1356, e Da ignorância de si mesmo e de muitos, de 1367.
14. É nesses escritos e nas cartas, de exposição livre e não metódica, que se devem buscar as opiniões filosóficas de Petrarca, cujo pensamento consiste mais em tendências e aspirações do que em ideias ou doutrinas desenvolvidas e se acha inextricavelmente ligado a seus estudos, leituras, gostos e sentimentos, mas que é sumamente significativo em si mesmo e pela tremenda influência exercida sobre várias gerações de humanistas, o que impõe reconstruí-lo a partir de numerosas observações dispersas, já que nunca foi exposto de modo sistemático.
15. Um aspecto importante do pensamento de Petrarca, desenvolvido depois por muitos humanistas até Vives, é a hostilidade ao escolasticismo, isto é, ao ensino universitário da Baixa Idade Média, expressa em ataques à astrologia, à lógica, à jurisprudência, aos médicos e aos filósofos aristotélicos, ataques devastadores e sugestivos mas que não penetram nos problemas ou métodos específicos das disciplinas visadas, pois refletem antes conflitos e rivalidades pessoais do que divergências argumentativas, de modo que a recusa da autoridade de Aristóteles ou de Averróis nasce de antipatia pessoal e a crítica a teorias como a eternidade do mundo, a felicidade perfeita nesta vida ou a dupla verdade apoia-se principalmente em sua contrariedade à religião cristã.
16. O valor positivo de Petrarca consiste em opor à ciência medieval não uma nova ciência nem a simples fé religiosa, mas o estudo da Antiguidade clássica, cultivado com entusiasmo desde a juventude mediante leitura ávida, cópia, coleção, anotação e correção dos autores latinos e apropriação de seu estilo e ideias, como atesta a redescoberta em Verona das cartas de Cícero a Ático, que inaugura uma série de achados semelhantes depois celebrizados por Poggio, e esse contato com os escritores e monumentos da Roma antiga despertou-lhe, como a tantos humanistas italianos, a nostalgia da grandeza política da República e do Império, motor de suas relações com o papa, o imperador, Cola di Rienzo e os governos italianos, de sua coroação poética no Capitólio em 1341, sentida como revivescência de uma honra romana, e da adoção de temas, gêneros, linguagem e estilo dos clássicos latinos.
17. Entre os poetas, Virgílio ocupa o primeiro lugar na admiração de Petrarca, que o imita no poema África e interpreta alegoricamente a Eneida no Secretum, prática de origem medieval continuada por humanistas como Cristoforo Landino, enquanto entre os prosadores predominam Cícero e Sêneca, este último fundamento do estilo e do conteúdo das cartas e do tratado Dos remédios da Fortuna, inspirador da polêmica contra a dialética escolástica e da ênfase nos problemas morais, por meio do ceticismo moderado das Epístolas morais em relação à sutileza dos estoicos antigos, e fonte do gosto pela declamação moral e pela meditação lacrimosa sobre a morte, bem como do fundo estoico visível no conflito entre Virtude e Fortuna, no contraste entre a razão e as quatro paixões básicas e no vínculo entre virtude e felicidade.
18. Ainda maior é o entusiasmo de Petrarca por Cícero, de quem cita parágrafos inteiros no tratado Da sua ignorância e a quem se declara ciceroniano em eco a uma célebre passagem de São Jerônimo, devendo-lhe a forma de seus diálogos e grande parte de seu conhecimento da filosofia grega, de modo que tanto ele quanto outros humanistas imitam de Cícero e de Sêneca não apenas a elegância do estilo, mas também a maneira evasiva e algo superficial de raciocinar.
19. Sendo gregas e não latinas as principais fontes da filosofia antiga, importa a atitude de Petrarca perante a civilização grega, cuja dívida romana ele ignorou como muitos humanistas posteriores, embora não pudesse deixar de notar as numerosas referências a fontes gregas em seus autores romanos prediletos, o que o levou a tentar aprender o grego sem alcançar domínio suficiente para ler os originais, mas a adquirir um manuscrito grego de Homero que serviu de base à primeira tradução latina do poeta, iniciativa pela qual, contra os tradutores medievais voltados para a teologia, as ciências e a filosofia aristotélica, abriu o caminho do interesse humanista pela poesia e pela literatura clássica gregas.
20. O modesto conhecimento do grego aliado a uma grande curiosidade pela literatura grega afetou a orientação filosófica de Petrarca, que possuía um manuscrito grego de Platão, parece ter lido alguns diálogos durante as lições de grego, afirma ter lido as traduções latinas então disponíveis do Timeu e do Fédon, e ampliou esse escasso conhecimento com informações colhidas em Cícero e em outros autores latinos, chegando assim à teoria platônica das três partes da alma, razão, coragem e desejo, e adotando o ideal platônico de que a finalidade moral do homem é purificar a alma libertando-a das paixões.
21. Mais importante que a adoção de teorias platônicas é a convicção de que Platão foi o maior dos filósofos, superior até a Aristóteles, principal autoridade dos pensadores medievais, conforme proclamado no tratado sobre a ignorância, onde Platão é chamado príncipe da filosofia e louvado pelos maiores homens enquanto Aristóteles o é apenas pelo maior número, e no Triunfo da Fama, onde Platão aparece como o que mais se aproximou da meta concedida pelo céu, seguido de Aristóteles, cheio de alto engenho, palavras que exprimem a atitude renascentista perante Platão assim como a frase de Dante sobre o mestre dos que sabem exprime o aristotelismo medieval, de sorte que esse platonismo, mais programa e aspiração do que doutrina realizada, foi princípio e promessa que apontou para as traduções humanistas de Platão e para o pensamento da Academia Florentina, até que, quando Rafael pintou a Escola de Atenas no início do século XVI, Platão já alcançara estatura e difusão iguais às de Aristóteles.
22. Embora atribuísse a Aristóteles apenas o segundo lugar, Petrarca estava longe de menosprezá-lo, afirmava conhecê-lo, sobretudo a Ética, e suspeitava que o Aristóteles original fosse superior às traduções e comentários medievais, cuja rudeza atribuía à inépcia ou à inveja dos tradutores e cuja deturpação censurava nos escolásticos que o conheciam apenas de ouvido, ignorando que o louvor ciceroniano ao estilo doce, elegante e florido de Aristóteles se referia aos escritos populares perdidos e não às obras filosóficas conservadas, mas apontou assim o caminho de uma nova atitude que tomaria forma nos séculos XV e XVI com Ermolao Barbaro, Melanchthon, Jacopo Zabarella e outros, mediante o estudo de Aristóteles no original grego, a substituição das traduções medievais por novas traduções humanistas e dos comentadores árabes e latinos pelos comentadores gregos antigos e pelos intérpretes renascentistas que o liam no original, razão pela qual Petrarca foi o profeta tanto do aristotelismo quanto do platonismo renascentistas.
23. Embora oponha os autores clássicos à tradição medieval, Petrarca de modo algum se desliga de seu passado imediato, o que se evidencia menos nos supostos vestígios de filosofia escolástica do que em sua atitude perante o cristianismo, pois a fé e a piedade religiosas ocupam o centro de seu pensamento com sinceridade indubitável, levando-o a defender a religião em todo conflito com a filosofia antiga, a declarar-se cristão e não ciceroniano ou platônico quando se trata da verdade suprema e da salvação eterna, a atribuir às opiniões dos filósofos valor apenas relativo e a identificar o verdadeiro filósofo com o verdadeiro cristão, de modo que o Secretum é obra inteiramente cristã, o tratado Dos remédios da Fortuna é essencialmente cristão e mesmo medieval pela meditação sobre a morte e pela vaidade dos bens terrenos, Do ócio dos religiosos pertence à tradição ascética, e a polêmica antiescolástica, em defesa de uma religião simples e genuína, prolonga o pensamento religioso medieval de Pedro Damião e São Bernardo, chegando a opor a própria piedade às opiniões supostamente irreligiosas dos adversários escolásticos.
24. Tomadas ao pé da letra, tais declarações levaram alguns historiadores a sustentar, de modo exagerado e paradoxal, que o humanismo renascentista foi apenas uma reação cristã e católica contra as tendências heréticas do aristotelismo medieval, interpretação que não se sustenta, mas Petrarca demonstra efetivamente a possibilidade de rejeitar o escolasticismo sendo cristão convicto e de conciliar formação clássica e fé religiosa, o que faz dele o precoce precursor italiano do humanismo cristão de Colet, Erasmo e More, e, contra a tese de um medievalista distinto segundo a qual a filosofia escolástica seria fundamentalmente cristã e o Renascimento a Idade Média menos Deus, verifica-se que nos escolásticos, inclusive Tomás de Aquino, a teologia era cristã e a filosofia aristotélica, cabendo apenas conciliá-las, ao passo que a noção de uma filosofia cristã só se encontra em autores cristãos primitivos e, de novo, nos humanistas cristãos como Petrarca e Erasmo.
25. A atitude de Petrarca prefigura também o modo como os humanistas posteriores combinariam fé e formação clássica, tomando os primeiros escritores cristãos, sobretudo os Padres da Igreja, como clássicos cristãos lidos ao lado dos pagãos e sem a companhia dos teólogos escolásticos, e aplicando-lhes os mesmos métodos eruditos de edição, tradução e comentário, sendo Santo Agostinho seu autor cristão predileto e de importância única, como mostram o Secretum, diálogo em que Agostinho assume o papel de guia espiritual ou de consciência do próprio autor, e a carta sobre a subida ao Mont Ventoux, em cujo cume as Confissões, abertas ao acaso, oferecem uma passagem perfeitamente apropriada aos sentimentos despertados pela vista.
26. Petrarca foi ao mesmo tempo medieval e moderno, olhando simultaneamente para trás e para a frente como quem se situa na fronteira entre dois países, e entre os elementos modernos de seu pensamento sobressai o caráter eminentemente pessoal, subjetivo e individualista de seus escritos, nos quais, falando de coisas e ideias variadas, fala sempre de si mesmo, do que leu e sentiu, consciência de si particularmente intensa no Secretum e nas cartas, gênero preferido pelos humanistas por permitir o tratamento em primeira pessoa, traço que atravessa grande parte do pensamento e da literatura humanistas e culmina em Michel de Montaigne, para quem o próprio eu constituía o principal objeto do filosofar.
27. Outras atitudes tipicamente renascentistas manifestam-se em Petrarca, como a paixão pela fama estudada por Burckhardt, que ele condena no Secretum e no tratado Dos remédios da Fortuna mas à qual sua vida e suas palavras revelam inclinação, e a curiosidade e o gosto pelas viagens, registrados em várias cartas e sobretudo na subida ao Mont Ventoux, empreendida apenas pelo desejo de ver a altura inusitada do lugar, o que esvazia a objeção de que Buridan teria escalado a mesma montanha anos antes, pois a originalidade reside também no modo e no espírito com que se age, e enquanto Buridan buscava observações meteorológicas e antecipa o explorador científico moderno, Petrarca subiu para ver e gozar a paisagem, tornando-se precursor do turismo moderno, de considerável alcance econômico.
28. Petrarca legou aos homens de letras modernos o amor à solidão, celebrado no tratado Da vida solitária, em numerosas cartas e nos elogios à vida retirada em Vaucluse e em Arquà, ideal encarnado na tradição monástica medieval e ilustrado por exemplos de monges e eremitas, mas transformado num ideal secular e literário do sábio e letrado que se retira ao campo, longe do ruído e da turbulência das cidades, para ler e meditar em liberdade, ideal que permanece caro a poetas, escritores e sábios que ainda preferem prados, bosques, lagos e rios às ruas, às estradas e até às torres de marfim.
29. Outro legado de Petrarca aos homens de letras modernos é a melancolia, ligada à célebre passagem do Secretum sobre a acídia, estado de ânimo a que se dizia sujeito e que Agostinho, sua consciência cristã, o exorta a superar, vício que os catálogos medievais atribuíam especialmente aos monges e traduziam por preguiça, mas que Petrarca converte em disposição própria do letrado secular e redefine como sofrimento mesclado de prazer, definição que leva a entendê-lo antes como melancolia e encerra a confissão preciosa de que o sábio e o poeta melancólicos sofrem e ao mesmo tempo gozam do próprio sofrimento, sentimento sutil que muitos seguidores retomariam admitindo menos facilmente o gozo do que a dor, de modo que Petrarca contribui para secularizar não só o conteúdo do saber, mas também a atitude pessoal do sábio e do escritor, embora, diferentemente de seus sucessores, hesite, contido por escrúpulos religiosos.
30. Além dessas atitudes gerais, Petrarca formula, num problema teórico, posição análoga à de muitos humanistas posteriores ao sustentar que o homem e seus problemas devem ser o principal objeto do pensamento e da filosofia, o que justifica sua ênfase na filosofia moral e sua crítica à ciência dos aristotélicos escolásticos, acusados de levantar questões inúteis e esquecer o problema mais importante, a alma humana, conforme se vê no cume do Mont Ventoux, onde a passagem das Confissões sobre os homens que admiram montanhas, mares, oceanos e órbitas dos astros mas descuidam de si mesmos o leva a censurar-se por admirar coisas terrenas quando já devia ter aprendido com os filósofos pagãos, isto é, com Sêneca, que nada é admirável senão a alma, palavras próprias que exprimem suas ideias peculiarmente entretecidas com citações de Agostinho e Sêneca.
31. Do mesmo modo, no tratado sobre a ignorância afirma-se que, ainda que fossem verdadeiras todas as noções sobre a natureza dos animais, aves, peixes e serpentes, nada importariam para a vida feliz se se ignorasse ou desdenhasse a natureza do homem, o fim para o qual nasce, sua origem e seu destino, o que subordina todo saber natural ao conhecimento do homem.
32. Surge aqui pela primeira vez a ênfase no homem que receberia expressão eloquente nos tratados de Facio e Manetti e fundamento metafísico e cosmológico em Ficino e Pico, motivo pelo qual os humanistas, a partir de Salutati, adotaram o nome de humanidades para indicar a relevância de seus estudos para o homem, embora na oposição petrarquiana entre doutrina moral e ciência natural ressoem Sêneca, Agostinho e a afirmação ciceroniana de que Sócrates trouxe a filosofia do céu à terra, e embora a preocupação com o homem e sua alma tenha ressonância claramente cristã, pois visa à vida bem-aventurada e à salvação eterna, faz do conhecimento de Deus a meta suprema da filosofia, encadeia de modo agostiniano conhecimento de si e conhecimento de Deus e retoma o grande problema escolástico da primazia entre vontade e intelecto, resolvido, na tradição agostiniana depois seguida por humanistas e platônicos, em favor da vontade, já que Deus não pode ser plenamente conhecido nesta vida mas pode ser amado com piedade e ardor, bastando conhecê-lo, e à virtude, até o ponto em que se sabe ser Ele a fonte de toda bondade e a virtude o maior bem depois Dele.
33. Julgado por seu papel na história do pensamento filosófico, Petrarca, grande poeta, escritor e sábio, é figura ambígua e de transição, cujo pensamento consiste em aspirações que pensadores posteriores desenvolveram e transformaram em ideias mais elaboradas, resumíveis no programa de sabedoria platônica, dogma cristão e eloquência ciceroniana, e no qual a cultura clássica, a fé cristã e o ataque ao escolasticismo, pessoais e de certo modo modernos, estão penetrados de fontes clássicas e de vestígios medievais, entretecendo inextricavelmente o antigo e o novo como componentes igualmente essenciais de sua perspectiva, sem que se possa tomar um por acidental e outro por essencial, o que faz dele representante típico de sua época e do movimento humanista, e não apenas antecipador dos desenvolvimentos renascentistas por talento ou perspicácia invulgares, mas agente ativo de sua realização graças ao enorme prestígio de que gozava, como os profetas que previram o futuro porque ajudaram a fazê-lo.
