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kolakowski:2004:platao

Platão

KOLAKOWSKI, Leszek. Why is there something rather than nothing?: 23 questions from great philosophers. Translated by Agnieszka Kołakowska. London: Penguin Books, 2007.

  • Toda a filosofia europeia é uma série de notas de rodapé a Platão, como disse Alfred Whitehead, e de fato qualquer problema importante em metafísica, teoria do conhecimento, ética, política, dialética ou retórica remonta, historicamente, a ele.
  • Nem tudo em Platão permanece vital: sua terrível utopia, a visão de um Estado ideal, é historicamente interessante mas não intelectualmente estimulante, pois reconhece-se de imediato tratar-se de invenção pesadelesca equivalente à escravidão totalitária; já a Teoria das Formas, ao contrário, levanta questões ainda hoje sem resposta consensual, desempenhando papel central tanto na teoria do conhecimento quanto na ética e na política.
  • Segundo Platão, o verdadeiro conhecimento, distinto da mera opinião, refere-se ao imutável, pois a percepção sensorial fornece apenas impressões fugazes de fatos efêmeros e coisas mutáveis, só sendo possível compreender verdadeiramente esses fatos remetendo-os a formas ideais, entidades autônomas existentes além do tempo e do espaço, acessíveis apenas pela razão; até objetos manufaturados como mesas e cadeiras seriam o que são por participarem de uma essência de “mesidade” e “cadeiridade”, valendo o mesmo, com maior evidência, para os objetos da matemática e da geometria, sendo o círculo verdadeiramente conhecido não a figura imperfeita desenhada no papel, mas a essência ideal do círculo, invisível, indestrutível e cognoscível pela razão independentemente de qualquer mente que a pense.
  • O sétimo livro da República contém o célebre mito da caverna, destinado a mostrar a diferença entre conhecimento e mera opinião: prisioneiros acorrentados só veem sombras projetadas numa parede e as tomam por única realidade, sendo o prisioneiro que se liberta e sai da caverna inicialmente confundido pela luz do sol, até finalmente conseguir contemplá-lo diretamente, e ao retornar seria ridicularizado por seus antigos companheiros.
  • A alegoria da caverna refere-se a nós mesmos, prisioneiros do mundo das aparências, sendo o sol, cuja luz apenas poucos alcançam, a ideia divina do bem, fonte eterna de verdade e iluminação para a mente, que nos ensina o que é a vida boa e como coexistir com os demais; cabe aos filósofos, amantes da verdade e da sabedoria, expor os melhores dentre os homens a essa fonte do bem, familiarizando-os com o mundo das formas, essa outra realidade eterna e infinitamente superior ao nosso mundo imperfeito e efêmero de sombras.
  • A reflexão sobre o mundo das formas seria de grande utilidade, segundo Platão, para a política e a melhor forma de governo, pois os amantes da verdade e conhecedores do bem não desejam nem buscam o poder, sendo justamente por isso os melhores governantes, ao passo que os movidos pela sede de poder e riqueza, se o alcançassem, dividiriam e destruiriam o Estado; conclui-se, de modo surpreendente, que o filósofo deveria ser rei do Estado, por ser ele quem conhece a verdadeira justiça e a verdadeira felicidade, não havendo salvação para o mundo até que seja governado por filósofos.
  • Essa conclusão surpreende não apenas pela escassez de exemplos históricos que a confirmem, sendo Marco Aurélio talvez o único rei-filósofo digno de nota, mas também porque governar um Estado exige, além do conhecimento metafísico da Verdade e da Beleza eternas, muitas outras habilidades práticas que a metafísica não pode fornecer; é provavelmente verdade que os movidos apenas pela sede de poder acabariam por arruinar a sociedade e a si mesmos, mas disso não se segue que os indiferentes ao poder fariam, por milagre, excelentes governantes, estando a aristocracia intelectual longe de ser naturalmente apta para os assuntos de Estado.
  • O próprio Platão estava ciente das objeções à sua Teoria das Formas, podendo-se rastrear mudanças em sua posição ao longo da obra, desde o Timeu até as observações críticas, algumas devastadoras, presentes no Parmênides, ainda que certas ideias cruciais dessa teoria tenham sido legadas às gerações futuras, alimentando a famosa controvérsia dos universais que moldou o clima intelectual medieval e que, embora hoje expressa de modo distinto, ainda não se dissipou.
  • Certamente não precisamos crer em algum modelo ideal de mesa para saber o que é uma mesa, sendo difícil ver como tal universal poderia ser útil ao pensamento, e mais difícil ainda conceber que forma teria essa entidade bizarra desprovida de qualquer propriedade distintiva; também é difícil aceitar que as formas eternas não apenas existem mas possuem o próprio atributo de que são a ideia, arriscando-se cair em regresso infinito ao dizer que algo é belo remetendo-o à própria ideia de beleza.
  • Ainda assim, dois problemas emergidos dessa controvérsia sobre as formas ideais permanecem vitais e perturbadores, envolvendo vastas áreas da cultura que parecem depender da crença em modelos ideais e atemporais, cabendo perguntar se podemos prescindir de tal crença.
  • O primeiro problema concerne às ideias de bem e mal: Trasímaco, interlocutor de Sócrates, sustenta que a justiça é aquilo que convém ao mais forte, tese contra a qual Sócrates argumenta, mas o que aqui importa é notar que, se a justiça fosse apenas o que cada tirano declara ser justo, não haveria ideia comum de “justiça”, apenas interesses conflitantes entre déspotas, podendo então eliminar-se a própria palavra “justiça” de nosso vocabulário por enganosa; poucos, porém, aceitariam tal conclusão, desejando muitos saber o que realmente é justo, o que exige crer numa ideia de justiça não estabelecida por decreto arbitrário, mas dada ao mundo, um sentido conferido pela existência, por Deus ou pelos deuses, ou por alguma constituição moral confiável, restando saber se a escolha se resume a essas duas alternativas, justiça como decreto arbitrário do mais poderoso ou justiça como sabedoria transcendente e platônica, ou se existe uma terceira possibilidade.
  • O segundo problema diz respeito aos objetos matemáticos: tomando a verdade elementar de que sete é número primo, cabe perguntar do que trata essa afirmação, podendo-se adotar posição radicalmente antiplatônica segundo a qual só existem objetos particulares, sendo os termos gerais meros nomes sem realidade universal correspondente; mas nesse caso que espécie de realidade teria o mundo dos números e demais objetos matemáticos? Muitos filósofos, como Bertrand Russell, sustentaram ser impossível evitar reconhecer a realidade de entidades gerais, negando que os universais fossem meras construções mentais, e vários matemáticos e físicos, como Jan Łukasiewicz e Roger Penrose, adotaram postura platônica quanto ao mundo matemático, cabendo ainda perguntar se sete continuaria sendo número primo mesmo sem seres racionais, ou mesmo sem existir o mundo, questão que se resume, em suma, a saber se podemos sobreviver intelectualmente crendo que o mundo contém apenas objetos individuais, sem reino algum, invisível mas acessível à razão, de entidades matemáticas.
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