kolakowski:1999:fama
Fama
KOLAKOWSKI, Leszek. Freedom, fame, lying and betrayal essays on everyday life. London: Routledge, Taylor & Francis Group, 2018.
- A fama figura entre as coisas mais desejadas pelos seres humanos, e essa evidência dispensa maiores explicações, bastando notar que ser famoso, por qualquer motivo, equivale a afirmar-se e confirmar a própria existência, o que atende a uma necessidade humana natural de autoafirmação.
- A sede de fama não é universal, apesar de sua busca obsessiva na civilização contemporânea; alguns filósofos antigos, sobretudo estoicos e epicuristas, ensinavam que a fama devia ser evitada e recomendavam viver oculto, e muitas pessoas genuinamente não a buscam, seja por falta de confiança e aversão aos holofotes, seja por baixa autoestima, distinguindo-se dos famosos que se queixam do fardo da fama sem credibilidade, já que ao mesmo tempo se esforçam para aparecer na televisão e nos jornais.
- A fama frequentemente traz riqueza, mas não sempre, beneficiando certas profissões como atores, diretores de cinema, cantores de rock e esportistas; a maioria, porém, busca a fama por si mesma, à semelhança de Heróstrato, que incendiou o templo de Diana apenas para alcançar notoriedade e nisso obteve êxito, assim como jovens que cometem crimes hediondos com o único objetivo de se tornarem famosos, enquanto outros, já possuidores de grande riqueza, preferem evitar a fama e permanecer desconhecidos, confirmando que ela é geralmente desejada em si mesma, e não como meio para outros bens.
- A fama, por sua própria natureza, é concedida a poucos, sendo sua raridade parte de sua definição; a afirmação de Andy Warhol de que todos teriam seus quinze minutos de fama constitui um disparate, tanto porque um cálculo simples mostraria ser necessário algo em torno de 200 mil anos para conceder a cada habitante do planeta seus quinze minutos, quanto porque, numa situação de tal igualdade absurda, ninguém seria de fato famoso.
- A fama precisa ser rara, o que torna inevitável que apenas pouquíssimos dos que a almejam vejam seu sonho realizado, enquanto a maioria se decepciona amargamente após desperdiçar tempo e esforço, já que fazer da fama o objetivo de vida consome considerável dedicação.
- Muitos outros bens igualmente raros são buscados apesar da baixa probabilidade de obtê-los, como no caso de milhões de pessoas que jogam na loteria mesmo sabendo das chances ínfimas de ganhar o prêmio maior, mas a loteria é barata e exige pouco tempo ou esforço, ao contrário da busca pela fama, que costuma ser dispendiosa e infrutífera.
- Existem tantos graus de fama que é impossível determinar com precisão quem é realmente famoso, sendo que, desconsiderados os que o são por ofício, como presidentes, reis e papas, a fama hoje costuma ser proporcional à frequência das aparições em filmes e na televisão, de modo que reconhecemos atores e diretores de cinema e conhecemos cientistas da primeira metade do século, como Einstein, Planck, Bohr ou Marie Curie-Sklodowska, mas dificilmente saberíamos nomear os laureados com o Nobel de física ou química das últimas quatro décadas, presumindo apenas que devem ser ilustres sem sequer conhecer seu campo de distinção.
- Reflexões desse tipo podem sugerir, tolamente, que a fama seria distribuída de modo “injusto”, suposição vazia de sentido porque não sabemos como seria uma distribuição “justa” da fama nem como organizá-la; não há razão para que a fama devesse recompensar apenas grandes realizações intelectuais e não feitos esportivos ou o comando de um programa de televisão, sendo frequentemente questão de pura sorte, como no caso de um ganhador de loteria que se torna famoso sem mérito próprio, ou mesmo resultado da ação do próprio público, que consagra atrizes ao assistir seus filmes, ou ainda de pessoas que alcançam fama por associação a figuras célebres, como Xantipa, Theo van Gogh ou Pôncio Pilatos, não havendo motivo para lamentar essa distribuição, já que a fama nunca foi nem pretende ser recompensa de virtude alguma.
- Essa imprevisibilidade é benéfica, pois vidas inteiramente regidas por recompensas justas seriam tediosas, apesar de o acaso raramente favorecer-nos; o universo não se organiza segundo méritos, e é impossível conceber uma ordem alternativa, podendo-se apenas supor que, no céu, a fama e a glória obedeçam a regras distintas, elevando talvez pessoas desconhecidas na terra, certamente não aquelas que perseguiram a fama terrena consumidas pela inveja, já que dificilmente Deus recompensaria com glória a vaidade e o ressentimento humanos.
- A sede de fama e o sentimento de injustiça por não possuí-la, ou não na medida merecida, decorrem da vaidade e nada têm a ver com a inteligência, pois os moralistas sabem há séculos que o intelecto é impotente diante da própria vaidade e presunção, como se observa em pessoas inteligentes evitadas por serem pomposas e arrogantes, que atribuem o afastamento alheio à própria superioridade moral, ou que se queixam de não serem reconhecidas apesar de sua sabedoria, ou ainda que se fazem de mártires exigindo compaixão por sofrimentos modestos, ou que se convencem de despertar desejo universal, revelando que a inteligência não vence a vaidade, palavra que não por acaso se aproxima do vazio.
- A busca pela fama não precisa ser desprezível se atendidas duas condições: primeiro, que seja incidental ao objetivo principal, este sim voltado à realização de algo valioso por si mesmo, ainda que a fama possa vir como consequência; segundo, que essa busca não se converta em obsessão, o que além de quase sempre inútil pode gerar ressentimento destrutivo contra o mundo capaz de arruinar uma vida, sendo preferível, de modo geral, não pensar na fama e contentar-se com o afeto e o respeito de um pequeno círculo de família e bons amigos.
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