jaspers:1950:quest-ce-que-la-philosophie
QU'EST-CE QUE LA PHILOSOPHIE?
JASPERS, Karl. Introduction à la philosophie. Paris: 10 X 18, 2001.
- Não existe acordo nem sobre o que é a filosofia nem sobre seu valor, esperando-se dela ora revelações extraordinárias, ora relegando-a com indiferença como reflexão sem objeto, venerando-se nela o esforço de homens excepcionais ou desprezando-a como introspecção obstinada de sonhadores, considerando-a acessível a todos ou tão difícil que estudá-la pareceria empreendimento desesperado, contradições que se explicam pela própria vastidão do domínio designado sob esse nome.
- Para quem crê na ciência, o pior é que a filosofia não fornece resultados apodíticos nem um saber que se possa possuir, pois enquanto as ciências conquistaram conhecimentos certos e impositivos a todos, a filosofia, apesar do esforço milenar, não alcançou tal unanimidade, sendo próprio de qualquer conhecimento que se imponha por razões apodíticas tornar-se imediatamente científico e deixar de ser filosofia.
- Ao contrário das ciências, o pensamento filosófico também não parece progredir, pois embora saibamos mais que Hipócrates, dificilmente se poderia afirmar ter superado Platão, já que apenas seu bagagem científico nos é inferior, permanecendo sua pesquisa propriamente filosófica algo que talvez apenas tenhamos alcançado.
- Que a filosofia, ao contrário das ciências, deva prescindir do consenso unânime reside em sua própria natureza, pois o que nela se busca conquistar não é uma certeza científica igual para todo entendimento, mas um exame crítico ao qual o homem participa com todo o seu ser, já que os conhecimentos científicos concernem a objetos particulares e não são necessários a cada um, enquanto na filosofia está em jogo a totalidade do ser, que importa ao homem como tal, e uma verdade que, onde brilha, atinge o homem mais profundamente que qualquer saber científico.
- A elaboração de uma filosofia permanece ligada às ciências, pressupondo todo o progresso científico contemporâneo, mas o sentido da filosofia tem outra origem, surgindo antes de toda ciência, ali onde os homens despertam.
- * Características da filosofia sem ciência **
- No domínio filosófico quase todos se julgam competentes, pois enquanto na ciência se reconhece que estudo, treinamento e método são condições necessárias à compreensão, em filosofia pretende-se poder participar do debate sem preparação alguma, bastando pertencer à condição humana e possuir um destino e uma experiência próprios; essa exigência de que a filosofia seja acessível a todos é legítima, pois os caminhos mais complicados seguidos pelos filósofos profissionais só fazem sentido se reconduzirem à condição humana, que se determina pela maneira como cada um se assegura do ser e de si mesmo nela.
- A reflexão filosófica deve sempre brotar da fonte originária do eu, e cada homem deve entregar-se a ela por si mesmo.
- Um sinal admirável de que o ser humano encontra em si mesmo a fonte de sua reflexão filosófica são as perguntas das crianças, cujo sentido mergulha diretamente nas profundezas filosóficas, como ilustram vários exemplos.
- Uma criança que se espanta por conseguir pensar-se como outro e permanecer sempre a mesma toca a origem de toda certeza, a consciência do ser no conhecimento de si, permanecendo diante do enigma insolúvel do eu.
- Outra, ao ouvir o relato da Gênese, pergunta imediatamente o que havia antes do começo, descobrindo assim que as perguntas se engendram ao infinito e que o entendimento não conhece limite para suas investigações nem resposta verdadeiramente conclusiva.
- Uma menina, ao saber que os elfos não existem mas ver contestada sua crença apenas no que vê, acaba por concluir que, se Deus não existisse, nós não estaríamos aqui, espantando-se diante da realidade do mundo que não existe por si mesmo e compreendendo a diferença entre um objeto do mundo e uma questão relativa ao ser e à nossa situação no todo.
- Outra criança, ao subir uma escada, toma consciência de que tudo muda incessantemente e passa como se nunca tivesse existido, buscando a todo custo algo sólido a que se apegar diante do escoamento universal e da evanescência de tudo.
- Poder-se-ia constituir toda uma filosofia infantil reunindo observações desse tipo, e a objeção de que as crianças apenas repetiriam o que ouvem dos adultos não se sustenta diante de pensamentos tão sérios, sendo relevante notar que possuem frequentemente uma genialidade que se perde na idade adulta, como se, com os anos, entrássemos na prisão das convenções, das opiniões correntes e dos preconceitos, perdendo a espontaneidade infantil sensível a tudo que a vida renova a cada instante.
- Uma pesquisa filosófica surgida da origem manifesta-se também nos doentes mentais, em quem por vezes, raramente, a mordaça da dissimulação geral se relaxa e deixa ouvir-se a verdade, produzindo-se às vezes revelações metafísicas impressionantes, embora sua forma e linguagem raramente alcancem significação objetiva, salvo em casos excepcionais como os do poeta Hölderlin ou do pintor Van Gogh, fenômeno análogo ao que muitas pessoas saudáveis experimentam ao despertar com a sensação de terem entrevisto em sonho um sentido profundo que logo se lhes escapa, confirmando o dito segundo o qual a verdade sai da boca das crianças e dos loucos, ainda que a originalidade criadora responsável pelos grandes pensamentos filosóficos seja obra de um pequeno número de espíritos excepcionais surgidos ao longo dos milênios.
- O homem não pode prescindir da filosofia, que está sempre presente, sob forma pública, nos provérbios tradicionais, nas fórmulas da sabedoria corrente, nas opiniões admitidas, nas concepções políticas e, desde o início da história, nos mitos, de modo que não se escapa à filosofia, restando apenas saber se ela é consciente ou não, boa ou má, confusa ou clara, pois até mesmo quem a rejeita afirma, sem o saber, uma filosofia.
- * O que é essa filosofia **
- A palavra grega filósofo forma-se em oposição a sábio, designando aquele que ama o saber, diferentemente daquele que, possuindo-o, se chama sábio, sentido que ainda persiste hoje, pois a essência da filosofia é a busca da verdade, não sua posse, ainda que ela mesma muitas vezes se traia ao degenerar em dogmatismo, num saber formulado, definitivo e transmissível pelo ensino, de modo que fazer filosofia é estar a caminho, sendo as perguntas mais essenciais que as respostas, e cada resposta tornando-se nova pergunta.
- Esse estar a caminho, a condição do homem no tempo, não exclui a possibilidade de um profundo apaziguamento e, em certos instantes supremos, de uma espécie de realização, jamais encerrada num saber formulável, em enunciados ou professions de fé, mas presente no modo como se cumpre, no seio da história, a condição de um ser humano ao qual o próprio ser se revela, sendo conquistar essa realidade na situação sempre particular em que nos encontramos o sentido do esforço filosófico.
- Estar a caminho e buscar, ou encontrar a paz e a realização de um instante privilegiado, não constituem definições da filosofia, que não se situa acima nem ao lado de outra coisa e não pode ser derivada, definindo-se sempre a si mesma por sua realização, algo que só se pode conhecer pela experiência, na qual se percebe que ela é ao mesmo tempo realização do pensamento vivo e reflexão sobre esse pensamento, ação e comentário da ação.
- Diversas fórmulas antigas tentaram exprimir o sentido da filosofia sem esgotá-lo, definindo-a por seu objeto como conhecimento das coisas divinas e humanas ou do ser enquanto ser, por sua finalidade como aprender a morrer ou conquistar pelo pensamento a felicidade ou a semelhança divina, e por sua abrangência como o saber de todo saber, a arte de todas as artes, a ciência em geral não limitada a nenhum domínio particular.
- Hoje, ao tentar falar do sentido da filosofia, poder-se-ia recorrer às seguintes fórmulas: apreender a realidade originária; captar a realidade pelo modo como me comporto comigo mesmo ao pensar, por meu comportamento interior; abrir nosso ser às profundezas do englobante; assumir o risco da comunicação de homem a homem por meio de uma verdade qualquer, num combate fraterno; manter a razão pacientemente e incansavelmente desperta mesmo diante do ser mais estranho, que se fecha e se recusa.
- A filosofia é aquilo que reconduz ao centro onde o homem se torna ele mesmo ao inserir-se na realidade.
- A filosofia pode atingir qualquer homem, até mesmo uma criança, sob a forma de pensamentos simples e eficazes, mas sua elaboração constitui tarefa sem fim, sempre retomada, que se realiza sempre sob a forma de um todo atualizado, tal como aparece nas obras dos grandes filósofos e, como eco, nas dos filósofos menores, permanecendo essa consciência de tarefa enquanto houver homens.
- A filosofia não é atacada apenas em nosso tempo, tendo sido rejeitada por inteiro como supérflua e nociva, incapaz de resistir diante da angústia.
- O pensamento autoritário da Igreja rejeitou a filosofia por afastar de Deus, seduzir a alma e prendê-la ao século, corrompendo-a com futilidades, enquanto o pensamento político totalitário reprovou aos filósofos terem-se limitado a interpretar diversamente o mundo quando se tratava de transformá-lo, ambos considerando a filosofia perigosa por minar a ordem e estimular o espírito de independência, indignação e revolta, desviando o homem de sua tarefa real.
- A isso se soma, imposta pela vida cotidiana e pelo bom senso, a simples norma da utilidade, diante da qual a filosofia se mostra impotente, como ilustra a anedota de Tales, o mais antigo dos filósofos gregos, ridicularizado por sua criada ao cair num poço enquanto observava o céu estrelado.
- A filosofia deveria, portanto, justificar-se, o que é precisamente impossível, pois não pode invocar em sua defesa nenhuma utilidade que lhe garanta direito à existência, podendo apenas reclamar-se das forças que impelem todo homem a filosofar, sabendo defender uma causa desinteressada, alheia a todo cálculo de lucros e perdas no mundo, que só concerne ao homem como tal e que perdurará enquanto houver homens, sendo significativo que até seus próprios inimigos, ao combatê-la, produzam sistemas intelectuais ligados a um fim, sucedâneos de filosofia como o marxismo e o fascismo, que testemunham igualmente o caráter inelutável da filosofia, sempre presente.
- A filosofia não pode combater nem se demonstrar, apenas comunicar-se, não resistindo quando rejeitada nem triunfando quando ouvida, vivendo na região unânime que, nas profundezas da humanidade, pode ligar cada um a todos.
- Uma filosofia de grande estilo e coerência sistemática existe há dois milênios e meio no Ocidente, na China e nas Índias, constituindo uma grande tradição que se dirige a nós, e a diversidade dos esforços filosóficos, suas contradições e pretensões reciprocamente exclusivas à verdade não impedem que haja, no fundo, algo único, que ninguém possui e em torno do qual gira em todos os tempos toda pesquisa séria: a filosofia una e eterna, a philosophia perennis, fundamento histórico de nosso pensamento ao qual somos reconduzidos quando queremos que nossa reflexão seja tão clara quanto possível e alcance o essencial.
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