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ORIGENS DA FILOSOFIA
JASPERS, Karl. Introduction à la philosophie. Paris: 10 X 18, 2001.
- A história da filosofia começou como esforço de pensamento metódico há dois mil e quinhentos anos, e como pensamento mítico muito antes disso, mas um começo é distinto de uma origem, pois o começo é histórico e fornece aos sucessores uma quantidade crescente de elementos do trabalho intelectual já realizado, enquanto a origem é a fonte de onde brota constantemente o impulso de filosofar, sendo somente por ela que uma filosofia contemporânea se torna algo essencial e que se compreende a filosofia do passado.
- Esse elemento originário é múltiplo, pois o espanto engendra a interrogação e o conhecimento, a dúvida sobre o que se acredita conhecer engendra o exame e a certeza clara, e o abalo do homem e seu sentimento de estar perdido o levam a se interrogar sobre si mesmo, cabendo precisar esses três fatores.
- Platão afirmou que a origem da filosofia é o espanto, pois o olhar humano nos fez participar do espetáculo das estrelas, do sol e da abóbada celeste, espetáculo que incitou o estudo do universo inteiro, dando origem à filosofia como o mais precioso bem que os deuses concederam à raça mortal, e Aristóteles reforçou essa ideia ao afirmar que foi o assombro diante das coisas estranhas que impeliu os homens a filosofar, levando-os depois a se interrogar sobre as fases da lua, o movimento do sol e dos astros e, por fim, sobre o nascimento do próprio universo.
- Espantar-se é tender ao conhecimento, pois ao me espantar tomo consciência de minha ignorância e busco saber apenas para saber, e não para satisfazer alguma exigência ordinária, de modo que filosofar é despertar ao escapar dos laços da necessidade vital, lançando um olhar desinteressado sobre as coisas, o céu e o mundo, perguntando o que é tudo isso e de onde provém, sem esperar que as respostas tenham utilidade prática, mas apenas que sejam em si mesmas satisfatórias.
- Uma vez apaziguados o espanto e o assombro pelo conhecimento do real, surge a dúvida, pois embora os conhecimentos se acumulem, um exame crítico rigoroso mostra que nada permanece certo, já que as percepções sensíveis são condicionadas por nossos órgãos e nos enganam, não coincidindo com o que existe em si independentemente da percepção que delas temos, e as próprias formas do pensamento pertencem ao entendimento humano, enredando-se em antinomias insolúveis, de modo que filosofar exige apreender o próprio dúvida e levá-la até o fim, seja para entregar-se à volúpia da negação, seja para buscar uma certeza que lhe escape e resista a todo exame crítico leal.
- A célebre fórmula cartesiana penso logo existo revelou-se indubitável precisamente no momento em que Descartes duvidava de todo o resto, pois mesmo que ele se enganasse totalmente sobre tudo que acredita conhecer, não seria possível enganar-se também quanto ao fato de existir, ainda que induzido ao erro, de modo que a dúvida tornada metódica implica o exame crítico de todo conhecimento, sendo certo que sem dúvida radical não há filosofia verdadeira, e o decisivo é ver como e onde a própria dúvida permite conquistar o fundamento de uma certeza.
- Quando absorvido pelo conhecimento dos objetos do mundo e pelo desdobramento da dúvida que deve conduzir à certeza, ocupo-me das coisas e não penso em mim mesmo, em meus fins, em minha felicidade ou salvação, contentando-me antes em esquecer-me ao adquirir esses novos conhecimentos, mas essa disposição muda quando tomo consciência de mim mesmo em minha situação.
- Epicteto, o estoico, afirmou que a origem da filosofia é a experiência de nossa própria fraqueza e impotência, respondendo a essa impotência com a exigência de considerar indiferente tudo o que não está em meu poder por sua própria necessidade, cabendo-me apenas trazer pelo pensamento à clareza e à liberdade tudo o que depende de mim, sobretudo o modo e o conteúdo de minhas representações.
- Considerando a condição humana, encontramo-nos sempre em situações determinadas que mudam e oferecem ocasiões que, uma vez perdidas, não retornam, sendo possível trabalhar para transformar uma situação, mas há situações que subsistem em sua essência mesmo quando sua aparência momentânea se modifica e seu poder se dissimula: é preciso morrer, é preciso sofrer, é preciso lutar, estamos submetidos ao acaso e presos inevitavelmente nos laços da culpa, situações fundamentais que designamos como situações-limite, que não podemos ultrapassar nem transformar, sendo sua tomada de consciência, após o espanto e a dúvida, a origem mais profunda da filosofia.
- Na vida cotidiana costumamos esquivar-nos dessas situações, fechando os olhos e vivendo como se não existissem, esquecendo que devemos morrer, que somos culpados e que estamos à mercê do acaso, ocupando-nos apenas de situações concretas que manobramos a nosso favor mediante planos de ação prática movidos por interesses vitais, enquanto reagimos às situações-limite dissimulando-as ou, quando as vemos claramente, através do desespero seguido de um restabelecimento em que nos tornamos nós mesmos por meio de uma metamorfose de nossa consciência do ser.
- Também podemos esclarecer nossa condição humana por outra via, considerando a impossibilidade de contar com qualquer coisa no mundo: quando não nos interrogamos, o mundo nos aparece como o próprio ser, e na felicidade desfrutamos de nossa força com uma confiança irrefletida, não conhecendo nada além do presente, enquanto na dor, na fraqueza e na impotência desesperamos, e quando esse desespero é superado e continuamos vivos, voltamos a nos esquecer e deslizamos para o hedonismo.
- É por meio dessas experiências que o homem se instrui e, sob ameaça, busca segurança na dominação da natureza e na organização comunitária dos homens, garantias supostas da vida.
- O homem se apropria da natureza para reduzi-la a seu serviço, esperando que o conhecimento e a técnica permitam contar com ela, mas mesmo na dominação da natureza persiste a imprevisibilidade, com ela uma ameaça constante e, por fim, o fracasso em toda a linha, já que a dura lei do trabalho, a velhice, a doença e a morte não podem ser suprimidas, de modo que a segurança oferecida pela natureza dominada permanece um fato isolado dentro de uma insegurança total.
- O homem também se organiza em comunidade para limitar e pôr fim ao combate sem fim de todos contra todos, buscando segurança na ajuda mútua, mas também aqui persiste um limite, pois a justiça e a liberdade só reinariam nos Estados se cada cidadão se comportasse com solidariedade absoluta para com o outro, condição jamais realizada, de modo que nenhum Estado, Igreja ou sociedade oferece proteção absoluta, ilusão que apenas se sustentava em épocas pacíficas nas quais o limite permanecia velado.
- Esse mundo decepcionante possui, no entanto, sua contrapartida, pois nele existe também o que é digno de fé e capaz de atrair confiança, o solo que nos sustenta, a pátria e a paisagem, os pais e ancestrais, os irmãos e amigos, a esposa, e o fundamento criado pela tradição ao longo da história — a língua materna, a fé, a obra dos pensadores, poetas e artistas —, ainda que o conjunto dessa tradição não nos ofereça asilo seguro nem permita contar absolutamente com ela, pois sendo inteiramente obra humana, Deus não se encontra em nenhuma parte do mundo, permanecendo toda tradição, ao mesmo tempo, uma interrogação, o que exige que o homem busque incessantemente na fonte de si mesmo a certeza, o ser e a força sobre os quais possa contar, como se um dedo autoritário nos advertisse de que nada no mundo merece confiança total.
- As situações-limite — morte, acaso, culpa, impossibilidade de contar com o mundo — revelam meu fracasso, ao qual não posso lealmente negar evidência, cabendo perguntar o que fazer diante desse fracasso absoluto.
- O estoicismo aconselhava o homem a retirar-se em sua própria liberdade, a do pensamento independente, resposta insuficiente, pois o estoicismo se enganava ao não ver a impotência humana em toda a sua radicalidade, ignorando que o próprio pensamento é dependente, sendo em si vazio e obrigado a recorrer ao que lhe é dado, e ignorando também que a loucura permanece possível, abandonando-nos assim à desolação de um pensamento independente apenas por falta de todo conteúdo, sem esperança, pois exclui toda vitória interior espontânea, toda plenitude alcançada pela doação de si por meio do amor, toda espera e toda esperança diante do possível.
- Ainda assim, o que o estoicismo busca é a filosofia em toda a sua autenticidade, pois o homem que fez a experiência originária das situações-limite é impelido do fundo de si mesmo a buscar, através do fracasso, o caminho do ser, sendo decisivo o modo como faz essa experiência: o fracasso pode permanecer oculto e acabar por esmagá-lo de fato, ou pode ser contemplado de frente e mantido presente ao espírito como limite constante da vida, podendo o homem recorrer contra ele a soluções e apaziguamentos imaginários, ou aceitá-lo lealmente guardando silêncio diante do inexplicável, sendo essa maneira de experimentar o fracasso o que determina o que ele virá a se tornar.
- Nas situações-limite encontra-se o nada, ou então se pressente, apesar da realidade evanescente do mundo e acima dela, aquilo que verdadeiramente é, sendo o próprio desespero, por poder ocorrer no mundo, um indício daquilo que se encontra além dele; assim, o homem quer ser salvo, salvação que as grandes religiões universais oferecem por meio de uma garantia objetiva da verdade e da realidade da salvação, cuja via é a do ato individual de conversão, o que a filosofia não pode oferecer, ainda que filosofar seja sempre vencer o mundo, algo análogo à salvação.
- Em resumo, a origem da pesquisa filosófica está no espanto, na dúvida e na consciência de estar perdido, começando sempre por um abalo que atinge o homem e faz nascer nele a necessidade de um objetivo: foi o espanto que impeliu Platão e Aristóteles a buscar a essência do ser, foi através da indeterminação sem fim das coisas incertas que Descartes buscou a certeza indubitável, e foi nos sofrimentos da vida que os estoicos buscaram a paz da alma, tendo cada uma dessas tentativas sua própria verdade sob a roupagem histórica sempre diversa das representações e da linguagem, de modo que ao assimilá-las através da história penetramos até as origens ainda presentes em nós, todas em busca de um fundamento seguro, da profundidade do ser, da eternidade.
- Talvez, porém, nenhuma dessas origens seja para nós a mais originária e incondicionada, pois quando o ser se revela suscitando nosso espanto, recuperamos o fôlego mas somos tentados a nos esquivar dos homens e a entregar-nos a uma pura magia metafísica; a certeza incontestável só reina quando buscamos nos orientar no mundo com o auxílio do saber científico; e a atitude inabalável da alma no estoicismo tem valor apenas passageiro, útil para atravessar a desgraça e salvar-nos de uma ruína total, permanecendo em si mesma desprovida de substância e de vida.
- Esses três motivos que atuam em nós — espanto e conhecimento, dúvida e certeza, situação do homem perdido no mundo que se torna a si mesmo — não esgotam as razões que hoje nos levam a filosofar, pois em nossa época, marcada por uma ruptura radical na continuidade histórica, num tempo de desmoronamento sem precedentes e de chances obscuras e mal pressentidas, esses três motivos permanecem válidos mas já não bastam, dependendo doravante seu valor da comunicação entre os homens.
- Até agora, na história, existiam entre os homens laços incontestados, comunidades dignas de confiança, instituições e um espírito comum, de modo que mesmo o solitário permanecia amparado em sua solidão; hoje, se alguma decadência se manifesta, é sobretudo no fato de que cada vez mais homens deixam de se compreender, encontrando-se e separando-se com indiferença, sem que nenhuma fidelidade ou comunidade permaneça segura e confiável.
- Hoje a situação humana em geral, tal como sempre existiu, assume para nós importância decisiva, pois posso concordar com o outro na verdade e ao mesmo tempo não posso, minha fé se choca com uma fé diferente justamente quando estou seguro de mim mesmo, e parecemos, no limite, condenados ao combate sem esperança de união, restando apenas a submissão ou o aniquilamento, enquanto a moleza e a passividade dos que não têm convicção alguma os fazem aderir cegamente a algo ou contentar-se com desafios obstinados.
- Nada disso é secundário ou destituído de importância, o que só seria o caso se houvesse para mim, no isolamento, uma verdade que me bastasse; o sofrimento provocado por uma comunicação imperfeita com o outro e a satisfação extraordinária proporcionada por uma comunicação verdadeira não me afetariam filosoficamente dessa maneira se eu estivesse, por conta própria e em absoluta solidão, seguro da verdade, mas não existo senão com o outro, pois sozinho não sou nada.
- A comunicação que se estabelece não apenas de entendimento a entendimento ou de espírito a espírito, mas de existência a existência, utiliza todas as significações e valores impessoais apenas como intermediários, de modo que justificativas e ataques se tornam meios não de conquistar poder, mas de aproximação mútua, travando-se a luta com um amor fraterno pelo adversário, ao qual cada um entrega todas as suas armas.
- A certeza do ser verdadeiro só existe nessa comunicação, na qual liberdade e liberdade se enfrentam e se opõem sem reservas justamente por estarem unidas, de modo que toda relação com o próximo se torna apenas via de aproximação, e no momento decisivo, por exigência recíproca, cada um coloca ao outro as questões essenciais, sendo na comunicação que se atualiza toda outra verdade, e somente nela sou eu mesmo, realizando plenamente minha vida em vez de simplesmente vivê-la.
- A atitude fundamental aqui exposta em termos intelectuais nasce do sofrimento provocado pela falta de comunicação, da necessidade de uma comunicação autêntica e da possibilidade de um combate fraterno que une, até o mais profundo, um ser livre a outro ser livre, e esse impulso filosófico provém também dos três motivos já examinados, cujo valor dependerá doravante do que significarem para essa comunicação de homem a homem, cabendo verificar se a favorecem ou a impedem.
- Assim, a origem da filosofia reside na faculdade de espantar-se, de duvidar, de fazer a experiência das situações-limite, mas, em última instância, incluindo tudo isso, na vontade de uma comunicação verdadeira, o que se evidencia desde o início no fato de que toda filosofia tende a se transmitir, se exprime e procura se fazer ouvir, sendo de sua própria essência ser transmissível, caráter indissociável de sua verdade.
- É somente na comunicação que se alcança o objetivo da filosofia, no qual reside, em última análise, o sentido de todos os demais objetivos: tomar conhecimento do ser, esclarecer o amor, encontrar a perfeição do repouso.
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