Monstruosidade em O Vaso de Ouro de Hoffmann
<em><a href=“https://lettres.sorbonne-universite.fr/sites/default/files/media/2020-11/Hafner_Monstruosite%CC%81%20dans%20Le%20vase%20d%27or.pdf”>Monstruosité ? dans Le Vase d’or de E.T.A. Hoffmann</a>. Florence Hafner, doctorante</em>
“Monstruosidade” e “monstro” derivam ambos da palavra latina <em>monstrum</em>. Consultando o <em>Dicionário Etimológico da Língua Latina</em> de Ernout e Meillet, descobrimos que, originalmente, <em>monstrum</em> significa “sinal enviado pelos deuses”, “prodígio” e, posteriormente, “objeto ou ser de caráter sobrenatural”. Nesse sentido, não é necessário que o prodígio seja assustador para ser considerado monstruoso. Embora seja compreensível a mudança posterior de significado: o que não compreendemos é, muitas vezes, inquietante aos nossos olhos.
Serpentina e seu pai, o arquivista, por seu caráter divino (imortalidade, comunhão com a natureza) e também por seus poderes, são, portanto, “monstros” no sentido de prodígios.
Isso não impede que a Salamandra provoque terror em Anselmo. Pois é de fato “um sentimento de horror” que ele sente ao observar o “rosto enrugado e esquelético” do velho necromante:
<blockquote><em>Mas ele também não é desprovido de sedução, pois quando Anselmo acredita ver as pontas de seu manto se desdobrarem e baterem no ar como duas asas gigantescas, é “todo estupefato” que o segue com o olhar, achando que “assistia ao voo irresistível de uma ave imensa”.</em></blockquote>
Porém, sem dúvida, é Serpentina quem representa o verdadeiro prodígio, a verdadeira sedução do desconhecido. Aquela que o fará renunciar ao real para viver plenamente na poesia (<em>“A bem-aventurança de Anselmo, o que é senão a vida na poesia, à qual se revela o mais profundo mistério da Natureza, a sagrada e universal Harmonia?”</em>).
É ela que, sob a forma de uma pequena serpente verde-dourada, aparece primeiro a Anselmo:
<blockquote><em>Ele percebia estranhos sussurros, como chiados. Subiam da grama perto dele e se infiltravam nos galhos e folhas do sabugueiro […]. Depois, eram como cochichos e murmúrios.</em></blockquote>
E mais adiante:
<blockquote><em> ouviu novamente o tilintar de sinos e avistou uma serpente que lhe baixava a pequena boca. Um choque elétrico não o teria feito estremecer mais, e sentiu um tremor no mais profundo de si; mas, erguendo os olhos desnorteados, recebeu o impacto de dois olhos esplêndidos, de um azul profundo, carregados de uma nostalgia tão indizível que foi tomado por uma emoção desconhecida.</em></blockquote>
O erotismo entre o homem e o animal já é palpável nesse encontro totalmente irreal. Tudo se passa como se Anselmo, desde o início, tivesse compreendido que não se tratava de uma simples serpente. Encontramos uma informação interessante sobre isso no artigo “Cobra” do <em>Dicionário do Simbolismo Animal</em> de Jean-Paul Clébert, já que o termo “cobra” foi usado em várias traduções:
<blockquote><em>“Como todos os répteis, ela é associada nos bestiários à mulher, aos tesouros e ao conhecimento das coisas ocultas.”</em></blockquote>
E é exatamente isso que Serpentina representa para Anselmo. Ela é a mulher que encarna o caminho para o conhecimento das coisas ocultas, das coisas perdidas da Idade de Ouro às quais o poeta busca acessar e das quais Anselmo será iniciado. Esses “tesouros” que ela guarda são simbolizados por seu dote, o vaso de ouro.
E é sob forma humana que ela finalmente lhe aparece quando ele aceita trabalhar para o Arquivo:
<blockquote><em>Ele não podia acreditar no que via: uma jovem de beleza maravilhosa se aproximava dele, e seu olhar, carregado de uma nostalgia inefável, tinha o mesmo azul profundo dos olhos que habitavam o fundo de sua alma. […] Ela agora estava sentada com ele na poltrona, abraçando-o e apertando-o contra si; e ele, aspirando o sopro de seus lábios, sentia o calor magnético de seu corpo penetrá-lo.</em></blockquote>
O monstro, portanto, não parece tão diferente do homem. Essa “nostalgia inefável”, ambos a compartilham. É a nostalgia da Atlântida, a nostalgia da Idade de Ouro perdida, tanto pela humanidade quanto pela pobre Serpentina, que, no entanto, continua sendo sua chave.
Em <em>“Por um mito romântico do relato poético”</em>, Montandon também observa:
<blockquote><em>“A serpente cantora e encantadora remete a Melusina, à sedutora, à ninfa das águas, à doce sereia. Emblema do mistério, da vida e da alma, essa serpente verde tem olhos azuis, cor romântica, […] cor também da flor da Índia, o lótus, caro aos teósofos e adeptos da metempsicose. Anselmo cede aos encantos dessa figura.”</em></blockquote>
